Para entender a ultradireita no século XXI*. Por Alvaro Bianchi

O que é a corrente política que ameaça a América do Sul. Quais suas relações com o fascismo do século passado. Por que tornou-se anti-Estado e passou a denunciar “crise moral e política”. Como passa do discurso liberal ao ataque à democracia

Em Outras Palavras

Nos capítulos precedentes discuti as afinidades seletivas existentes entre o liberalismo e o fascismo italiano. Circunscrevi o tema a um período muito limitado – 1922-1925 –, no qual essas aproximações pareciam mais fortes. O assunto me parece fascinante, embora eu tenha consciência de que pesquisadores e pesquisadoras costumam achar interessantes coisas que as demais pessoas consideram simplesmente entediantes, ou mesmo irrelevantes. A respeito do tédio não posso fazer nada. Mas, sobre a relevância do que escrevi nas páginas precedentes, posso acrescentar uma justificativa: aquelas afinidades que procurei revelar persistem nos movimentos neofascistas e pós-fascistas contemporâneos. Permito-me, assim, dar um enorme salto no tempo para tratar desses novos fenômenos.

Já na introdução a este livro apresentei meu álibi metodológico para este salto. Como disse, meu interesse político no presente me conduziu à investigação do passado. Agora está na hora de reconduzir o argumento para meu próprio tempo, este no qual a ascensão das extremas direitas angustia tanta gente. Para evitar mais confusão do que já existe a respeito, começarei definindo os conceitos-chave para a compreensão desse fenômeno.

A ascensão em todo o mundo de grupos e partidos políticos autoritários e antissistema que defendem a restrição dos direitos dos imigrantes ou de populações marginalizadas trouxe consigo um intenso debate conceitual. Na última década, pesquisadores e pesquisadoras recorreram a múltiplas ideias para definir esses fenômenos. Termos como “extrema direita”1, “direita radical”2e “direita populista radical”3passaram a ser utilizados não apenas nos debates acadêmicos, mas também na imprensa cotidiana. Nem sempre a pluralidade de definições é uma consequência da diversidade do objeto. Muitas vezes o trabalho de conceitualização é precário e, em outras tantas, termos diferentes são utilizados como se fossem intercambiáveis.

Os conceitos lineares e relacionais baseados no que há de diferente entre direita e esquerda são importantes para definir “famílias” de ideologias políticas, mas tendem a reunir manifestações heterogêneas. De modo complementar, os conceitos de fascismo, neofascismo e pós-fascismo são úteis para a compreensão de certos fenômenos políticos cujas características particulares os distinguem de outras manifestações antissistêmicas.

Definindo os conceitos

Extrema direita é um conceito que define uma “família” de ideologias que se situam em um ponto afastado do centro político. A distinção entre direita e esquerda pode ter utilidade analítica e política, mas com frequência gera definições relacionais e lineares. Baseando-se nela, o espaço ideológico e político é muitas vezes entendido de forma unidimensional, como uma linha em que os movimentos são organizados em uma escala de mais ou de menos. Desse modo, os movimentos estudados passam a ser definidos a partir do ponto em que o objeto se situa em um continuum político-ideológico, em que as posições ocupadas são definidas a partir de sua relação com posições antagônicas.

Com frequência, definições espaciais e relacionais produzem conceitos nos quais os movimentos são definidos por aquilo que negam. A conhecidíssima definição de Norberto Bobbio me permite ilustrar esse procedimento conceitual. O filósofo italiano definiu direita e esquerda como posições políticas em uma linha estabelecida a partir da dicotomia desigualdade/igualdade4. À direita estão aqueles que defendem a existência de hierarquias entre os indivíduos e à esquerda estão aqueles que consideram a igualdade um valor supremo. Essa definição é facilmente operacionalizada como um espaço linear no qual as posições se definem como de mais ou de menos igualdade. A primeira quer menos igualdade, já a segunda quer mais. Daí que os conceitos produzidos tendam a ser negativos. A esquerda é anti-hierárquica e a direita anti-igualitarista.

Mas o que caracterizaria a extrema direita? A bibliografia tendeu a enumerar um conjunto de atributos que comporiam seu núcleo ideológico. Essas enumerações variaram muito ente si. Cas Mudde identificou 26 diferentes definições, as quais elencavam 58 diferentes características, cinco das quais apareciam em pelo menos metade dos autores: “nacionalismo, racismo, xenofobia, antidemocracia e Estado forte”5. Em vez de listar um conjunto de características, Piero Ignazi insistiu que o ponto de partida deve ser o caráter espacial do conceito: “Os partidos de extrema direita estão localizados na extremidade direita do contínuo espacial”6. Conceitos lineares e relacionais são úteis para a identificação das “famílias” ideológico-políticas à medida que permitem estabelecer gradações e desse modo distinguir correntes diferentes que se situam em um mesmo polo do espectro. O conceito de extrema direita aqui utilizado tem a vantagem sobre os concorrentes de definir um espaço extremo da política, no qual uma ideologia se apresenta como a negação absoluta – muitas vezes defendendo o uso da violência física – do extremo oposto.

Apesar de suas vantagens, os limites desses conceitos lineares e relacionais estão, justamente, em tornar mais difícil identificar certas particularidades político-ideológicas presentes em uma mesma “família”7. Eles tendem a aproximar coisas que não são iguais entre si e, ao mesmo tempo, a ocultar as diferenças que permitiriam distinguir uma coisa de outra que está perto. Os movimentos político-ideológicos fascistas, neofascistas e pós-fascistas são formas particulares da extrema direita.

Os movimentos fascistas costumam combinar, em diferentes proporções, uma ideologia ultranacionalista, estatólatra, antidemocrática e anticomunista. Eles identificam a existência de um declínio da nação ou da civilização na qual se reconhecem e almejam nova ordem política para promover seu renascimento. Para tal, atribuem à violência uma capacidade redentora e purificadora. Essa ideologia encontrou na Itália e na Alemanha do entreguerras sua forma mais acabada. Manifestações dessa ideologia também ocorreram em outros países da Europa, e mesmo na América Latina e na Ásia8.

A relação dos movimentos fascistas com os neofascistas é, muitas vezes, de descendência direta e de continuidade, como no caso do Movimento Social Italiano (MSI) herdeiro da República Social Italiana (RSI) e de seu grupo dirigente. Em outros casos, a relação com o passado é mediada, e não há uma reivindicação explícita de um passado fascista, como no caso da Frente Nacional, na França. Mas, aqui, o que define esses movimentos não é uma linha genealógica, e sim uma ideologia. A ideologia neofascista que tem lugar no pós-guerra atualiza a precedente no que diz respeito a novas condições políticas em pelo menos dois aspectos: o ultranacionalismo e a estatolatria.

A ideia de nação nos movimentos neofascistas deixou de estar associada a um território delimitado por fronteiras geográficas precisas, como a Itália e a Alemanha. Nesses novos movimentos, a “nação” foi desterritorializada e passou a representar uma comunidade cultural ou uma forma civilizacional autorreferenciada, tal como a Europa ou a civilização cristã9. Já no fim dos anos 1920 era possível identificar a existência no fascismo italiano de uma tendência pan-europeia que tomou forma na revista Antieuropa, de Asvero Gravelli, e na criação dos Comitês de Ação para a Universalidade de Roma10. Mas a tensão entre nacionalismo e universalismo permaneceu no interior da ideologia fascista, e o insucesso dessas iniciativas é um indicador das dificuldades. Com a Guerra Fria, entretanto, esse universalismo encontrou um terreno político-institucional e ideológico mais favorável. Ocorreu, então, uma ressignificação da ideia de nação, a qual implicou uma expansão da “comunidade imaginada” que se estendeu além de fronteiras estatais11. Nesse contexto, ganhou forma um “supernacionalismo”, que se definiu como oposição tanto ao capitalismo de Wall Street como ao comunismo de Moscou, apresentando-se como uma terceiravia12.

Também a concepção estatólatra do fascismo original sofreu uma mutação no pós-guerra. Se a defesa da autoridade e da ordem permaneceu central no discurso neofascista, esta passou a se articular contraditoriamente com um discurso antiestatista. Mais uma vez, pode-se afirmar que esse movimento se encontrava prefigurado na política econômica anti-intervencionista do ministro Alberto de’ Stefani nos primeiros anos do governo Mussolini13. Entretanto, depois que a austeridade econômica permitiu derrotar o movimento operário e restabelecer o controle sobre as classes trabalhadoras, essa política cedeu lugar a forte dirigismo estatal, o qual evidentemente se tornou ainda maior à medida que a Itália entrava em guerra. Atualmente, entretanto, é possível identificar um componente antiestatal no discurso político e econômico neofascista no qual, com frequência, a crítica às elites políticas caminha ao lado de uma crítica ao “grande governo” e ao intervencionismo econômico. A relação desse neofascismo com o liberalismo econômico continua tensa e marcada por idas e vindas, mas a denúncia à presença do Estado na regulamentação da vida e dos costumes tornou-se preponderante.

A ideologia pós-fascista se define por uma permanência dos principais traços da ideologia dos movimentos neofascistas, renunciando, entretanto, ao caráter redentor da violência promovida por uma elite política. Ultranacionalismo, autoritarismo e anticomunismo continuam centrais, bem como uma visão de mundo no qual uma comunidade imaginada sitiada necessita renascer purificada. Mas a oposição à democracia liberal e a exaltação da violência presente no discurso neofascista cedeu lugar a uma adesão verbal às regras do jogo. A ideologia pós-fascista perdeu seu caráter revolucionário e, em um movimento análogo àquele do socialismo do início do século XX, tornou-se reformista.

Essa adesão às regras do jogo da democracia liberal carrega consigo enormes contradições. A aceitação do pluripartidarismo, da separação dos poderes e das eleições livres como modo de seleção dos governantes tem como contrapartida uma definição restrita do povo, ou seja, do sujeito da democracia, que passa a ser concebido como o conjunto dos membros pertencentes a uma comunidade étnica, cultural ou religiosa. O princípio de que todos são iguais perante a lei, que ao menos formalmente é a base das instituições da democracia liberal, é substituído por outro que estabelece uma hierarquia de direitos que beneficia e protege os membros da comunidade considerados legítimos.

Não é difícil demonstrar que as práticas políticas da extrema direita pós-

-fascista conspiram contra a democracia e as instituições que dizem defender. Exemplos não faltam, e as páginas dos jornais diários estão cheias deles. Mas neste livro não estou estudando as práticas, e sim as ideologias, as ideias às quais partidos e movimentos fascistas, neofascistas e pós-fascistas recorrem para justificar suas ações e construir um consenso. Essas ideias são o objeto deste capítulo.

Do Movimento Social Italiano a Irmãos da Itália

Na Itália, Giorgia Meloni, primeira-ministra empossada em outubro de 2022, fala com desenvoltura de sua história nas fileiras da juventude do MSI, fundado no imediato pós-guerra por remanescentes da República Social Italiana, o regime fascista radical de colaboração com a ocupação nazista14. Esse partido dificilmente teria sido instituído e obtido sua legalidade sem a anistia que extinguiu as penas às quais os fascistas haviam sido condenados – proposta do ministro da Justiça, o comunista Palmiro Togliatti, sancionada em junho de 194615. Foram, entretanto, a Guerra Fria e a aproximação do governo italiano dos Estados Unidos, com a consequente exclusão dos comunistas do governo, em maio de 1947, que criaram as condições para que o MSI ocupasse um importante espaço na vida política italiana.

Traduzindo o neofascismo na linguagem do anticomunismo, esse partido encontrou seu lugar na democracia liberal italiana e conquistou resultados eleitorais importantes, ampliando sua votação em 1972, justamente no auge dos confrontos contra o movimento estudantil e o movimento sindical. Nesse ano, sob a liderança de Giorgio Almirante, o rebatizado Movimento Social Italiano-

-Direita Nacional (MSI-DN) obteve seu maior sucesso eleitoral até então 8,6% para a Câmara de Deputados, com 56 mandatos16. As relações desse partido com a democracia liberal na qual prosperava não era, entretanto, livre de contradições. Embora Almirante afirmasse verbalmente seu compromisso com a Constituição, o partido se apresentava como herdeiro do fascismo, mantendo seus velhos princípios17.

O crescimento do MSI no início dos anos 1970 coincidiu com uma onda de atentados neofascistas protagonizada por organizações provenientes de suas fileiras ou com as quais mantinha relações, como Frente Nacional, Ordem Nova e Vanguarda Nacional18. Em mais de uma ocasião, Almirante procurou dissociar o MSI de atentados e ataques promovidos por militantes do partido, com vistas a preservar a estratégia de inserção na democracia liberal e as relações com a Democracia Cristã (DC)19. Ao mesmo tempo, o partido deu guarida a figuras-chave do terrorismo, como Pino Rauti, o qual se elegeu deputado pelo MSI em 1972 e permaneceu nessa posição por vinte anos, tornando-se secretário-geral do movimento por um curto período entre 1990 e 199120.

Apesar de alguns sucessos, o MSI-DN não conseguiu se afirmar nem como o ponto de confluência das direitas, nem como um parceiro confiável da DC. Os resultados eleitorais oscilaram e chegaram a seu ponto mais baixo nas eleições regionais da Sicília, em 1991, provocando a queda do secretário Rauti. Mas a conjuntura política mudou muito rapidamente, favorecendo o partido. No início dos nos 1990 o sistema partidário italiano entrou em colapso. No plano nacional, as investigações sobre corrupção, ou operação Mãos Limpas, comprometeram fortemente a liderança do Partido Socialista Italiano (PSI) e da DC, baluartes dos governos centristas dos anos precedentes. No plano internacional, a queda do Muro de Berlim, o Tratado de Maastricht e o colapso da União Soviética não apenas afetaram o Partido Comunista Italiano (PCI), como reordenaram a vida política nacional. Sob a liderança de Gianfranco Fini, o MSI-DN procurou um novo lugar no cenário político, afastando-se, ao menos verbalmente, de seu passado fascista e procurando apresentar-se como uma força política democrática, mas de direita, com condições de governar21.

Renomeada Aliança Nacional (AN), o partido dirigido por Fini transitou do neofascismo para o pós-fascismo, mantendo, entretanto, os aspectos centrais de sua ideologia. Nas “Premissas” às teses políticas apresentadas no Congresso Nacional do MSI-DN, em 1995, Fini afirmou que, com a criação da AN, “decidimos encerrar uma era da nossa história política. Foi então que proclamamos solenemente que a AN repudiava todas as formas de ditadura e totalitarismo e acreditava na democracia e na liberdade como valores irreprimíveis”22. A frase mais discutida naquela tese foi: “O antifascismo foi o momento historicamente essencial para o retorno dos valores democráticos que o fascismo havia pisoteado”23. Mas, como demonstrou uma pesquisa realizada no congresso missino por Gianfranco Baldini e Rinaldo Vignati, 61,5% dos delegados consideravam que, “apesar de algumas decisões questionáveis, [o fascismo] foi um bom regime”24.

A persistência de manifestações ideológicas típicas do fascismo no discurso da AN revela os limites do giro político anunciado por Fini. Notável, por exemplo, era a insistência nos mitos de declínio e necessário renascimento nacional, que se manifestavam fortemente naquelas teses, as quais anunciavam como missão da AN a promoção de “uma grande, libertária e pacífica ‘revolução conservadora’”25. Depois de expor seu programa, as teses declaravam:

A direita política e social deve comprometer-se a promover a realização de todos estes objetivos ambiciosos e emocionantes como uma nova força governativa saudável, que quer demonstrar a essencialidade da “primazia da política”, não para gerir um poder, como um fim em si mesmo, mas para concretizar as verdadeiras aspirações de renascimento da Itália.26

Não era apenas essa ideologia palingenética que conectava a AN à tradição fascista. Nas teses, afirmava-se o pertencimento a uma cultura política da qual também fariam parte os fascistas Vilfredo Pareto, Giovanni Gentile, Ugo Spirito, Filippo Tommaso Marinetti, Ardengo Soffici e até mesmo Julius Evola, inspirador de tantos grupos terroristas de extrema direita27. O fundamento dessa cultura política seria uma “conjugação do princípio da liberdade com o da autoridade. Um sem o outro não pode existir, e vice-versa”, uma fórmula que, como visto, pode ser encontrada nos escritos de Giovanni Gentile28. O resultado da acomodação de uma nova profissão de fé democrática e liberal com a tradição fascista foi o que Griffin denominou de um “fascismo reformista ou democrático”29.

Os efeitos eleitorais apareceram rapidamente, e o partido liderado por Fini obteve mais de 14% dos votos no pleito de março de 1994. As cadeiras conquistadas garantiram-lhe um lugar na coalizão governamental liderada pela Força Itália, de Silvio Berlusconi30, mas, ao contrário do esperado pelas lideranças da AN, o partido não apenas cessou de crescer, como perdeu algumas posições nas eleições subsequentes, deixando cada vez mais distante o sonho de tornar-se a força hegemônica de uma coalizão das direitas. Ainda sob a liderança de Fini, a AN terminou por integrar, juntamente com Força Itália, um novo partido, chamado Povo da Liberdade, uma frente de conservadores, neoliberais e pós-fascistas hegemonizada pelo berlusconismo.

Giorgia Meloni, que desde 1992 fazia parte do movimento, acompanhou Fini nesse caminho, elegendo-se deputada pela primeira vez em 2006, ainda pela AN, e assumindo, em 2008, o Ministério da Juventude do governo Berlusconi. Rompeu com o Povo da Liberdade em 2012 e fundou um novo partido, Irmãos da Itália, o qual pretendia recuperar a tradição do MSI e dos primeiros anos da AN31. A tese programática, aprovada em 2017 no Congresso de Trieste, reverberava uma visão de mundo ultranacionalista, na qual a missão primeira era “redescobrir o valor da ‘Pátria’ na política contemporânea” e, desse modo, “reconstruir a Itália – e, através dela, a Europa”32. Não faltava sequer a menção a Giovanni Gentile, “filósofo do fascismo” e referência intelectual dos antigos missinianos33.

O ultranacionalismo que exalava da Tese de Trieste se apresentava de modo ainda mais radical que o da antecessora AN. O discurso contra os imigrantes era mais agressivo e propunha até mesmo um “bloqueio naval” no Mediterrâneo para impedir a “imigração ilegal”. Essa radicalização era acompanhada por vivas colorações palingenéticas, as quais se expressavam no uso dos verbos “reconstruir”, “redescobrir” e “regenerar”. Em síntese, Irmãos da Itália afirmava: “Através da redescoberta da identidade, da recuperação da tradição, do renovado sentido de pertencimento à comunidade nacional, trata-se, mais que de regressar à origem, de proceder a uma verdadeira regeneração do valor da pátria”34.

O partido permaneceu como uma força política menor no espectro da direita radical, até que nas eleições de 2022 obteve 26% dos votos, passando de 32 deputados a 119 e tornando-se a maioria de um novo governo de extrema direita. Durante a campanha, adotou um discurso identitário e nacionalista. Ao mesmo tempo, seguiu uma política externa alinhada à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) na guerra da Ucrânia. Sua postura fortemente antirrussa surpreendeu muitos apoiadores, acostumados com seu euroceticismo dos anos anteriores35. O programa divulgado por Irmãos da Itália para essas eleições retomou o discurso radical contra a “imigração ilegal”, apresentando-a como uma ameaça à “segurança e à qualidade de vida dos cidadãos”, e recuperou a proposta de “controle de fronteiras e bloqueio para impedir os desembarques”36. Levou a ideologia a um novo patamar dispondo o documento eleitoral como um “programa para reerguer a Itália”. Não faltava sequer a ideia de criar “uma nova imaginação italiana que também promova, em especial nas escolas, a história dos grandes nomes da Itália e as reconstituições históricas” e de “projetar no futuro o novo Renascimento italiano”37. O partido de Meloni oscilava, assim, entre o radicalismo e a normalização38.

Os laços com o passado neofascista não foram rompidos com a chegada de Irmãos da Itália ao governo. Embora se apresente como expressão de uma força política democrática, as relações de Meloni com a história do neofascismo italiano e com sua ideologia são muito fortes. Dois meses depois de assumir a chefia do governo, declarou na conferência de imprensa de encerramento do ano de 2022 que “o Movimento Social Italiano é um partido que desempenhou um papel muito importante na história republicana de transportar milhões de italianos que saíram derrotados da guerra para a democracia”39.

Da Frente Nacional ao Reagrupamento Nacional

Na França, Marine Le Pen disputou o segundo turno das eleições presidenciais de 2022 pelo Reagrupamento Nacional, partido que sucedeu a Frente Nacional (FN). Na origem da FN está o grupo neofascista Ordem Nova (ON), fortemente inspirado e apoiado pelo MSI de Giorgio Almirante. No fim dos anos 1960, a ON reuniu militantes de diversas correntes da extrema direita, dentre as quais se destacava o coletivo neofascista Ocidente, de onde vieram François Duprat, Alain Robert e Alain Renault40. Desses agrupamentos, a ON herdou a ideologia nacionalista-revolucionária e a prática de ataques violentos a militantes de esquerda41. Combinou, entretanto, sua ideologia e o ativismo radical com uma política eleitoral que obteve resultados modestos nas eleições de 1970: 2,6% em Paris; 2,8% em Lille; 7,8% em Amiens; e 22% em Calais, em uma coalizão de direitas42.

O projeto de reunião do arquipélago da extrema direita em uma única organização levou a ON a propor a criação de uma Frente Nacional, já em 1971. Em dezembro desse ano, a direção da ON promoveu uma reunião com o conhecido militante nacionalista Jean-Marie Le Pen para discutir a frente. Distante do ativismo juvenil dos neofascistas, Le Pen havia sido próximo da Ação Francesa durante seus anos como universitário e colaborou com a Organização do Exército Secreto, o grupo terrorista contrário à independência da Argélia. Foi eleito deputado em 1956, na lista da União de Defesa dos Comerciantes e Artesãos, liderada por Pierre Poujade, e, depois de perder seu mandato, apoiou o conservador Jean-Louis Tixier-Vignancour nas eleições presidenciais de 1965. Mas os apelos à unidade dos nacionalistas lançados pela ON nos primeiros meses de 1972 não atraíram muita gente.

Apesar disso, a proposta da Frente Nacional pela Unidade Francesa foi lançada oficialmente em junho de 1972, em um ato no qual, ao lado da bandeira da França, não faltou a cruz celta, símbolo dos neofascistas43. O movimento assumiu o nome de Frente Nacional em 5 de outubro desse ano e Le Pen passou a ocupar um posto de copresidente. Além de reunir os militantes da ON, foram atraídos para o novo partido um número considerável de colaboracionistas do nazismo, como Pierre Bousquet, Roland Gaucher, François Brigneau, Victor Barthélemy e Léon Gaultier, os dois últimos muito próximos do ex-deputado44.

A Declaração de Intenção da Frente Nacional, divulgada em 1972, anunciava a existência de uma crise “moral e política” e uma “decadência intelectual, moral e física” que oprimia a França45. Dentre as causas dessa crise estava a imigração, que ameaçava a identidade nacional: “Nada resultará de proteger as fronteiras, se uma invasão pacífica e legal mudar a natureza e a particularidade da população francesa”46. A declaração, vazada em tons ultranacionalistas e autoritários, também transpirava uma “profunda hostilidade contra a subversão comunista e seu desvio esquerdista”, bem como a “oposição ao regime atual”47. A ideia de uma crise moral e política foi constitutiva do discurso eleitoral de Jean-Marie Le Pen nas eleições legislativas de 1973. Seu programa, intitulado Défendre les Français [Defender os franceses], protestava contra “a injustiça administrativa e a opressão fiscal”, “a tirania dos tecnocratas e da má gestão”, “o poder total do dinheiro”, “a pornografia, as drogas e a criminalidade”. Também radicalizava o discurso xenófobo exigindo a “expulsão imediata dos imigrantes condenados por delitos comuns, dos ‘desempregados permanentes’ e estrangeiros envolvidos na agitação política”48. Os resultados eleitorais de março foram decepcionantes (apenas 1,3%), apesar do apoio econômico dos neofascistas ita-lianos49. Enquanto os militantes da ON reagiram propondo uma intensificação do ativismo e terminaram por retirar-se da FN, Le Pen e seus partidários apostaram no fortalecimento do partido e na via eleitoral.

O programa eleitoral de 1974 consolidou esse novo perfil. Le Pen se apresentou como “candidato da direita social, popular e nacional”, fortemente anti-comunista e antigaullista. A crise “moral e cívica” mencionada na eleição anterior era mais uma vez denunciada. Le Pen afirmava ser uma força política capaz de enfrentar “esta decadência da qual a opinião pública, há muito anestesiada, começa a tomar consciência” e contra a qual só haveria “um recurso: a criação de um misticismo de salvação pública, com novos homens e novos métodos”50. Sem a presença da ON na campanha, alguns pendores liberais apareceram no programa, o qual propunha uma redução do lugar do Estado na economia, “desnacionalizar o que pode ser desnacionalizado, reduzir a força de trabalho inchada no setor público e semipúblico”51. No entanto, Le Pen obteve apenas 0,7% dos votos.

Foi François Duprat, um escritor com fortes simpatias pelo nazismo e auto-denominado nacionalista-revolucionário, o responsável pelo realinhamento político da FN, combinando um discurso fortemente antidemocrático com uma tática de colaboração eleitoral com os partidos da direita tradicional. Os resultados eleitorais, entretanto, continuaram pífios. Com a morte de Duprat, vítima de um atentado que explodiu seu carro, em 1978, a FN passou a assumir cada vez mais um perfil nacionalista reacionário, enfatizando o anticomunismo, o antiestatismo, a defesa da pena de morte e a oposição ao aborto na França. Rapidamente as alas mais ativistas e militantes do neofascismo e do neonazismo começaram a ser excluídas do partido ou se afastaram dele52. Essa mudança de perfil coincidiu, também, com o ingresso de Jean-Pierre Stirbois e sua corrente “solidarista” em 197753.

Esses foram anos de marginalidade política para a FN. Foi nesse momento que o partido aprofundou sua ideologia anti-imigrantes, a qual passou a ocupar um lugar cada vez mais importante em seu programa. Após a “travessia do deserto”, como Le Pen chamou aqueles anos, o programa político começou a dar seus frutos, em um contexto marcado pela crise econômica e pela política migratória do socialista François Mitterrand54. Nas eleições municipais de 1983, Le Pen obteve 11,3% dos votos no XX arrondissement de Paris e Jean-Pierre Stirbois, com 16,7% dos votos, foi eleito vereador na comuna de Dreux. No ano seguinte, a FN conquistou 11,2% nas eleições europeias; em 1986, 9,7% nas legislativas; nas eleições presidenciais de 1988, 14,4% dos votos; e nas legislativas do mesmo ano, 9,7%55. Na década de 1990, o partido cresceu de modo lento, mas consistente, chegando a 15,2% nas eleições legislativas de 1997.

Os anos seguintes seriam de crises e conflitos internos, os quais culminaram com a expulsão de Bruno Mégret, o estrategista do partido e líder da ala moderada, no fim de 1998. A divisão contribuiu para o fraco desempenho eleitoral em 1999, mas, nas eleições presidenciais de 2002, Le Pen conquistou 16,2% dos sufrágios e disputou o segundo turno. Foi nesse contexto que sua filha, Marine Le Pen, começou a ganhar projeção no partido e a defender uma estratégia de dédiabolization da FN, o que permitiu uma modernização de seu discurso político. Gradativamente o programa do partido passou a combinar antigas reivindicações contra os imigrantes e a insegurança pública com um programa mais popular de combate ao desemprego e aumento dos salários.

Em 2011, Marine Le Pen foi eleita presidente da FN, sucedendo seu pai. Para chegar a essa posição precisou confrontar o poderoso Bruno Gollnisch, que se apresentava como defensor das tradições da FN e era apoiado por militantes da Obra Francesa, a organização neofascista e antissemita liderada por Pierre Sidos, a qual desde 2007 encontrava-se aninhada na FN56. Estabelecida no comando do partido, Marine Le Pen procurou aprofundar as mudanças na agremiação e colheu rapidamente os resultados.

Nas eleições presidenciais de 2012 a FN obteve 18% dos votos e nas legislativas do mesmo ano, 13,8%. Esses foram os primeiros pleitos nos quais a FN conseguiu avançar sobre o eleitorado feminino, os votantes das regiões rurais e dos subúrbios das grandes cidades, grupos tradicionalmente refratários ao partido57. Essa trajetória ganhou ainda mais força em 2014, nas eleições europeias, quando a FN obteve 25% dos votos, conquistando a primeira colocação entre os parti-dos franceses e tornando-se a maior agremiação europeia da extrema direita58.

Os ganhos eleitorais expressavam a mudança do discurso político, com tons mais personalistas, destacando a figura de Marine Le Pen, em vez do partido, ao mesmo tempo que adotava um perfil antielitista e antimundialista. No livro que lançou naquele ano para divulgar sua candidatura, Marine Le Pen denunciava “uma minoria cada vez menor e cada vez mais rica” que tinha “salários extraordinários, bônus escandalosos, ganhos de capital isentos de impostos” e “cada vez mais poder e riqueza”59. E dizia que os “esquecidos por quem luto são os pequenos assalariados, os empregados, os funcionários públicos, os operários, as classes médias, os aposentados, os jovens e os idosos desempregados”60. Ao mesmo tempo, a FN procurava conciliar essas mudanças com o nacionalismo, a xenofobia, o autoritarismo e o perfil de partido “antissistema” que caracterizaram sua trajetória. Não faltavam sequer as teorias conspiratórias, que viam a imigração como “uma arma econômica a serviço do grande patronato”61. O programa de 2012 também recorria aos mitos de renascimento nacional. De acordo com Le Pen: “Conduzir o povo francês no caminho do renascimento é a razão da minha candidatura às eleições presidenciais e de toda a minha luta política”62.

O custo da mudança, entretanto, foi elevado. Em 2015, o birô político da FN expulsou Jean-Marie Le Pen do partido, alegando as reiteradas declarações antissemitas do fundador da FN. As disputas internas não impediram que a FN continuasse a crescer eleitoralmente. Nos anos seguintes, Marine Le Pen disputou duas vezes seguidas o segundo turno das eleições presidenciais: a primeira vez em 2017, depois de obter 21,3% no primeiro turno; a segunda em 2022, com a legenda agora rebatizada de Reagrupamento Nacional, quando conquistou 23,2 % do eleitorado no primeiro escrutínio.

O programa de 2022 tentava apresentar “um caminho razoável para garantir aos franceses a proteção legítima da Nação”63. Tratava-se de uma via que implicaria a própria refundação do Estado: “Nosso país é único porque foi o Estado que fez a Nação. É, portanto, através da refundação do Estado, nas suas missões e no seu exercício, que está o caminho para a renovação”, afirmava a candidata64. Segundo o programa, eram as próprias raízes da civilização à qual a França pertencia que se encontrariam ameaçadas: “O que está em jogo hoje, no estado em que o nosso país se encontra, já não é uma escolha social, mas sim uma questão civilizacional”65. Daí a importância de uma “refundação necessária para reconectar-se com a vocação da França, exemplo para o resto do mundo e pátria de um povo que mais uma vez se tornou dono de seu destino”66.

As propostas contra os imigrantes parecem ter assumido contornos ainda mais extremos, com a defesa de uma reforma constitucional e um referendum para impedir “qualquer forma política populacional que vise alterar a identidade da França” e permitir “a expulsão de estrangeiros delinquentes ou criminosos, bem como a interdição judicial do território francês”67. Em particular tornou-se forte a islamofobia, tema ausente no programa de 2012. Em 2022, propunha a adoção de uma legislação exclusiva para as “ideologias islâmicas, que constituem a verdadeira ameaça totalitária dos tempos modernos”68. E definia como objetivo “erradicar o islamismo”69.

Rupturas e continuidades

Piero Ignazi e Colette Ysmal argumentaram que o MSI e a FN representavam dois tipos de partidos de extrema direita diferentes e que apenas o primeiro poderia ser definido como neofascista70. As razões para tal eram as diferentes histórias dos partidos, a relação desses com os sistemas políticos nacionais e as diferentes ideologias e vínculos com referências culturais. A história desses partidos e de seus herdeiros, Irmãos da Itália e Reagrupamento Nacional, permite identificar seus vínculos com organizações fascistas e neofascistas precedentes e a existência de uma ideologia comum.

A exposição dessas trajetórias históricas e a pesquisa documental que sustentaram o argumento até aqui permitem inferir que ambas as organizações partilham uma identidade ideológica comum, definida como pós-fascista. Em particular os documentos programáticos desses partidos expressam uma ideologia ultranacionalista e xenófoba, na qual os mitos de crise e decadência, reconstrução e renascimento civilizacional ocupam um lugar de destaque. As formas de concreção nacional dessa ideologia são diferentes. As causas da crise, os inimigos anunciados e as referências históricas que informam o tipo de renascimento nacional desejado são distintas em ambos os países. E permanece uma tensão entre o discurso ultranacionalista e a referência à Europa como unidade cultural. Ainda assim, manifesta-se uma forte analogia entre as formas de compreender os problemas nacionais e de ver o mundo.

Intencionalmente não explorei as conexões políticas e orgânicas entre o MSI e a FN, primeiro, e Irmãos da Itália e Reagrupamento Nacional, agora. Os nexos entre os movimentos neofascistas italiano e francês, bem como a circulação de ideias, militantes e recursos entre esses países foram estudados por Andrea Mammone, que argumentou de modo convincente a respeito da existência de um “neofascismo transnacional”. Optou-se, aqui, por outra via de investigação. Em vez de estudar os fluxos que aproximariam um movimento de outro, eles foram analisados como dois casos de uma mesma manifestação ideológica.

Esses dois casos permitiram, por sua vez, testar a capacidade heurística dos conceitos de neofascismo e pós-fascismo aqui apresentados. Compreendidos como manifestações particulares no interior de uma “família” político-

-ideológica de extrema direita, esses conceitos permitiram destacar aquilo que pode distinguir Irmãos da Itália e Reagrupamento Nacional de outras manifestações políticas e, ao mesmo tempo, evidenciar o núcleo ideológico comum dessas organizações. Partindo de posições neofascistas, nas quais as próprias instituições da democracia liberal eram questionadas e a ação redentora da violência não era excluída, os partidos que antecederam essas agremiações – MSI-DN e FN – transitaram em direção a uma ideologia pós-fascista. As mudanças de nome que essas organizações promoveram marca um novo momento no qual o ultranacionalismo, o autoritarismo, o anticomunismo e os mitos de declínio e renascimento foram conciliados de modo contraditório com os princípios da soberania popular, da regra da maioria, da alternância dos partidos e da separação dos poderes. Mas o recrudescimento da xenofobia e do discurso contra os imigrantes por parte desses partidos de extrema direita mostra os limites dessa conciliação e a persistência de valores que conspiram contra a própria ideia de democracia.

A análise das trajetórias do MSI e da FN, bem como de seus sucessores, Irmãos da Itália e Reagrupamento Nacional, revela a complexidade das transformações da extrema direita europeia nas últimas décadas. A transição do neofascismo para o pós-fascismo não significou a ruptura com os valores fundamentais dessas tradições políticas, mas sim a adaptação de seu discurso e estratégias às condições impostas pela democracia liberal. A persistência de um núcleo ideológico ultranacionalista, xenófobo e autoritário, combinado com uma retórica de crise e renascimento, indica que essas forças políticas continuam a representar um desafio às instituições democráticas. Se, por um lado, elas procuram legitimar-se dentro do jogo democrático, por outro, sua própria identidade ideológica carrega contradições que questionam os fundamentos do pluralismo e da convivência democrática. Assim, mais do que casos isolados, Irmãos da Itália e Reagrupamento Nacional devem ser compreendidos como expressões contemporâneas de uma tradição política de extrema direita que, longe de desaparecer, encontra novas formas de se renovar e influenciar o debate público.


  1. Ver, por exemplo, Sarah Harrison e Michael Bruter, Mapping Extreme Right Ideology: An Empirical Geography of the European Extreme Right (Nova York, Palgrave Macmillan, 2011).
  2. Ver, por exemplo, Manuela Caiani e Ondřej Císař, Radical Right: Movement Parties in Europe (Abingdon/Nova York, Oxon/Routledge, 2019).
  3. Ver, por exemplo, Cas Mudde, Populist Radical Right Parties in Europe (Cambridge, Cambridge University Press, 2007).
  4. Norberto Bobbio, Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política (trad. Marco Aurélio Nogueira, São Paulo, Editora Unesp, 1995), p. 95.
  5. Cas Mudde, The Ideology of the Extreme Right (Manchester, Manchester University Press, 2002), p. 11.
  6. Piero Ignazi, Extreme Right Parties in Western Europe (Oxford/Nova York, Oxford University Press, 2003), p. 31.
  7. Ver ibidem, p. 63.
  8. Para os casos europeus do entreguerras, ver o levantamento de Stanley G. Payne, A History of Fascism, 1914-1945 (Londres, Routledge/University of Wisconsin Press, 1996). Discuti os fascismos no Sul global em Alvaro Bianchi e Demian Melo, “Fascisms: a View from the South”, em Rosana Pinheiro-Machado e Tatiana Vargas-Maia (orgs.), The Rise of the Radical Right in the Global South (Nova York, Routledge, 2023), p. 15-35.
  9. Ver, a respeito, Nigel Copsey, “Neo-Fascism: A Footnote to the Fascist Epoch?”, em Constantin Iordachi e Aristotle Kallis (orgs.), Beyond the Fascist Century: Essays in Honour of Roger Grin (Cham, Springer International, 2020), p. 101-21.
  10. Ver Marco Cuzzi, L’internazionale delle camicie nere: i CAUR, Comitati d’azione per l’universalità di Roma, 1933-1939 (Milão, Mursia, 2005).
  11. Sobre a nação como uma “comunidade imaginada” ver Benedict Anderson, Imagined Communities: Reflections on the Origin and Spread of Nationalism (Londres, Verso, 2016) [ed. bras.: Comunidades imaginadas, trad. Denise Bottmann, São Paulo, Companhia das Letras, 2008].
  12. Nigel Copsey, “Neo-Fascism”, cit., p. 108.
  13. Ver o recente estudo de Clara E. Mattei, A ordem do capital: como economistas inventaram a austeridade e abriram caminho para o fascismo (trad. Heci Regina Candiani, São Paulo, Boitempo, 2023).
  14. A RSI recuperou o programa do fascismo antes de 1922, com algumas colorações anticapitalistas ou socializantes, ao mesmo tempo que incorporou forte antissemitismo. Ver Mimmo Franzinelli, Storia della Repubblica sociale italiana, 1943-1945 (Bari, Laterza, 2020).
  15. Sobre a história do MSI, ver Davide Conti, L’anima nera della Repubblica: storia del MSI (Roma, Laterza, 2013); Gregorio Sorgonà, La scoperta della destra: il Movimento Sociale Italiano e gli Stati Uniti (Roma, Viella, 2019); Piero Ignazi, Il polo escluso: la fiamma che non si spegne: da Almirante a Meloni (3. ed., Bolonha, Il Mulino, 2023).
  16. O partido adquiriu o novo nome depois de uma fusão com o Partido Democrático Italiano de Unidade Monárquica.
  17. Piero Ignazi, “From Neo-Fascists to Post-Fascists? The Transformation of the MSI into the AN”, West European Politics, v. 19, n. 4, 1996, p. 697.
  18. Sobre o terrorismo neofascista no pós-guerra, ver Jeffrey M. Bale, The Darkest Sides of Politics: Postwar Fascism, Covert Operations, and Terrorism (Abingdon/Nova York, Routledge, 2018), cap. 4-7.
  19. Ver Piero Ignazi, Il polo escluso, cit., p. 167 e seg.
  20. Sobre o papel de Rauti nos atentados de 1969, ver Davide Conti, L’anima nera della Repubblica, cit., p. 85 e seg.
  21. Sobre a transformação do MSI-DN em Aliança Nacional ver Piero Ignazi, Extreme Right Parties in Western Europe, cit., p. 44-5; Davide Conti, L’anima nera della Repubblica, cit., cap. 5.3.
  22. MSI-DN, Pensiamo l’Italia, il domani c’è già: valori, idee e progetti per l’Alleanza Nazionale ([S. l.], Alleanza Nazionale, 1995), p. 4.
  23. Idem.
  24. Piero Ignazi, “From Neo-Fascists to Post-Fascists?”, cit., p. 705 e 711.
  25. MSI-DN, Pensiamo l’Italia, il domani c’è già, cit., p. 10.
  26. Ibidem, p. 46. Grifos do autor.
  27. Ibidem, p. 9.
  28. Ibidem, cap. 2-3.
  29. Roger Griffin, “The ‘Post-Fascism’ of the Alleanza Nazionale: A Case Study in Ideological Morphology”, Journal of Political Ideologies, v. 1, n. 2, 1996, p. 142.
  30. Essa foi a primeira vez que os herdeiros do fascismo italiano entraram em um governo nacional.
  31. Entre 2014 e 2017 o próprio logotipo de Irmãos da Itália trazia inscritos os nomes da AN com seu símbolo, a chama tricolor, e do MSI. Ainda hoje a chama é parte da identidade visual do partido.
  32. Fratelli d’Italia, “Le tesi di Trieste per il movimento dei patrioti”, Giorgia Meloni (blog), 3 jan. 2018. Disponível on-line.
  33. Ver os comentários à Tese de Leonardo Puleo e Gianluca Piccolino, “Back to the Post-Fascist Past or Landing in the Populist Radical Right? The Brothers of Italy Between Continuity and Change”, South European Society and Politics, v. 27, n. 3, 2022, p. 359-83.
  34. Fratelli d’Italia, “Le tesi di Trieste per il movimento dei patrioti”, cit.
  35. Ver Piero Ignazi, Il polo escluso, cit., p. 445.
  36. Fratelli d’Italia. Il programma per risollevare l’Italia ([S. l.: s. n.], 2022), p. 31-2.
  37. Ibidem, p. 22.
  38. Ver Leonardo Puleo e Gianluca Piccolino, “Back to the Post-Fascist Past or Landing in the Populist Radical Right? The Brothers of Italy Between Continuity and Change”, cit.
  39. Giorgia Meloni, “Conferenza stampa di fine anno del Presidente Meloni”, Presidenza del Consiglio dei Ministri, 29 dez. 2022. Disponível on-line.
  40. Sobre Ordem Nova e Frente Nacional, ver Nicolas Lebourg, Jonathan Preda e Joseph Beauregard, Aux racines du FN: L’histoire du mouvement Ordre nouveau (Paris, Fondation Jean Jaurès, 2014); sobre a FN e o fascismo, ver Pierre Milza, Fascisme français: passé et présent (Paris, Flammarion, 1987), cap. 8.
  41. “Entre 2 de janeiro de 1971 e 12 de maio de 1973, ON esteve implicada em 82 atos de violência pública recenseados pelas forças de segurança.” Ver Nicolas Lebourg, Jonathan Preda e Joseph Beauregard, Aux racines du FN, cit., p. 97.
  42. Ibidem, p. 56.
  43. Ibidem, p. 78.
  44. Ver ibidem, p. 76; Grégoire Kauffmann, “Les origines du Front national”, Pouvoirs, v. 157, n. 2, 2016, p. 8, 10, 12.
  45. Ordre Nouveau, Déclaration d’intention du Front National ([S. l.: s. n.], 1972), p. 1. Disponível on-line.
  46. Ibidem, p. 5.
  47. Ibidem, p. 6.
  48. Jean-Marie Le Pen, Élections législatives de 1973, Paris – 75, circonscription n°15: profession de foi de Jean-Marie Le Pen au tour 1 ([S. l.: s. n.], 1973). Disponível on-line.
  49. De acordo com Kauffman, os cartazes da campanha de Le Pen foram impressos pelo MSI (ver Grégoire Kauffmann, Les origines du Front national, cit., p. 11).
  50. Jean-Marie Le Pen, Élection présidentielle de 1974: profession de foi de Jean-Marie Le Pen au tour 1 ([S. l.: s. n.], 1974). Disponível on-line.
  51. Idem.
  52. Pierre Milza, Fascisme français, cit., p. 346.
  53. A partir de 1967 se desenvolveu uma corrente “solidarista” na extrema direita francesa que se opunha tanto ao individualismo liberal como ao coletivismo socialista, e tinha como programa uma “terceira via” oposta ao “marxismo totalitário” da União Soviética e ao “capitalismo internacional” dos Estados Unidos. Os solidaristas agruparam-se ao longo dos anos 1960 e 1970 em várias organizações, como o Movimento Jovem Revolução, o Movimento Solidarista Francês, Ação Popular e Grupos Ação Jovem. Criada em 1975, a União Solidarista, dirigida por Stirbois e Michel Collinot, caracterizava-se por um forte antiatlantismo, desconfiança em relação ao neoliberalismo, acentuado racismo e a recusa em formar coalizões com outras forças da direita. Ver Jean-Yves Camus, “Origine et formation du Front national (1972-1981)”, em Nonna Mayer e Pascal Perrineau (orgs.), Le Front National à découvert (Paris, Fondation Nationale des Sciences Politiques, 1996), p. 33-4.
  54. Sobre a “traversée du désert” ver Erwan Lecoeur, Un néo-populisme à la française: trente ans de Front national (Paris, La Découverte, 2003), p. 29-47.
  55. Daniel Stockemer, The Front National in France: Continuity and Change under Jean-Marie Le Pen and Marine Le Pen (Cham, Springer, 2017), p. 16 e seg.
  56. Jean-Yves Camus e Nicolas Lebourg, Far-Right Politics in Europe (Cambridge, Harvard University Press, 2017), p. 158-9.
  57. Ver Nonna Mayer, “From Jean-Marie to Marine Le Pen: Electoral Change on the Far Right”, Parliamentary Affairs, v. 66, n. 1, 2013, p. 160-78; Daniel Stockemer e Mauro Barisione, “The ‘New’ Discourse of the Front National under Marine Le Pen: A Slight Change with a Big Impact”, European Journal of Communication, v. 32, n. 2, 2017, p. 100-15.
  58. Daniel Stockemer, The Front National in France, cit., p. 25.
  59. Marine Le Pen, Pour que vive la France (Paris, Grancher, 2012), p. 10.
  60. Ibidem, p. 18.
  61. Ibidem, p. 81; ver comentários de Jean-Yves Camus, “Le Front national français: entre projet de normalisation démocratique et positionnement anti-système”, Anuario del Conflicto Social, n. 2, 2013, p. 501-8; Gilles Ivaldi e Pascal Delwit, “Permanences et évolutions de l’idéologie frontiste”, em Le Front national: Mutations de l’extrême droite française (Bruxelas, Université de Bruxelles, 2012), p. 95-112.
  62. Marine Le Pen, Pour que vive la France, cit., p. 8.
  63. Idem, M la France: mon projet présidentiel ([S. l.: s. n.], 2022), p. 3. Disponível on-line.
  64. Ibidem, p. 4.
  65. Ibidem, p. 34.
  66. Ibidem, p. 31.
  67. Ibidem, p. 8; ver a proposta de legislação em Marine Le Pen, M contrôler l’immigration ([S. l.: s. n.], 2022), p. 41-4. Disponível on-line.
  68. Marine Le Pen, M la France, cit., p. 9.
  69. Idem, M contrôler l’immigration, cit., p. 18.
  70. Piero Ignazi e Colette Ysmal, “New and Old Extreme Right Parties”, European Journal of Political Research, v. 22, n. 1, 1992, p. 101-21.

*Este texto é um trecho do livro Fascismo e liberalismo, de Alvaro Bianchi, publicado pela Editora Boitempo, parceira do Outras Palavras. Quem apoia nosso jornalismo ganha desconto em todo o site da editora

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