Dois caminhos para o Brasil, na nova transição global. Por Marcio Pochmann

IA, bioeconomia e mudança energética provocarão enormes mudanças nos cenários geopolítico e econômico. Após quatro décadas de reprimarização, país tem chance de virada. Mas o colonialismo também se configura. Muito dependerá de novo projeto de país

Por Marcio Pochmann, em Outras Palavras

A ideia de que o Brasil pode viver um novo superciclo de riqueza é sedutora. O mundo ingressa em uma era de transformações estruturais marcada pela transição energética, pela inteligência artificial, pela emergência climática, pela reconfiguração geopolítica e pela reorganização das cadeias globais de produção.

Em quase todas essas frentes, o Brasil aparece como potência possível. Reúne, simultaneamente, abundância de água, biodiversidade, energia renovável, capacidade agroalimentar, minerais estratégicos, território continental e uma base científica capaz de transformar recursos naturais em conhecimento, tecnologia e desenvolvimento. Poucos países dispõem de tantas condições objetivas para ocupar lugar central na nova economia mundial.

Mas a história brasileira recomenda prudência diante do entusiasmo fácil. O país já foi apresentado, muitas vezes, como território do futuro. E, quase sempre, esse futuro foi sequestrado por elites internas associadas a interesses externos. A promessa de riqueza nacional converteu-se, repetidamente, em prosperidade privada para poucos e dependência estrutural para muitos.

A América Latina talvez seja a maior evidência histórica de que riqueza e desenvolvimento não são sinônimos. Como demonstrou Eduardo Galeano em As Veias Abertas da América Latina, o continente foi construído pelo sistema colonial europeu sobre um paradoxo brutal: produzir riquezas extraordinárias para o mundo e conservar pobreza, exclusão e dependência para grande parte de seu próprio povo.

O ouro brasileiro ajudou a financiar a expansão europeia. O açúcar, o café, a borracha e os minérios alimentaram sucessivos ciclos de acumulação de capital nos países do Norte Global. Mais recentemente, as commodities agrícolas e minerais voltaram a sustentar parte importante do crescimento mundial, agora cada vez mais demandado também pelo Oriente.

Em troca, a América Latina recebeu uma herança marcada pela concentração extrema da propriedade, pela exclusão social, pela dependência tecnológica, pela baixa capacidade de inovação, pela desigualdade territorial e pela fragilidade das instituições de planejamento. A lógica colonial não desapareceu com a independência política. Ela se reorganizou sob novas formas, enquanto enclaves exportadores, elites rentistas, subordinação financeira e Estados nacionais impedidos de comandar plenamente seus próprios destinos.

No Brasil, essa estrutura foi apenas parcialmente enfrentada durante o projeto nacional-desenvolvimentista das décadas de 1930 a 1970. Naquele período, a industrialização, o planejamento estatal, a infraestrutura, a formação de empresas públicas estratégicas e a ampliação do mercado interno permitiram ao país ensaiar uma ruptura com a condição primário-exportadora. Mesmo de forma desigual, autoritária em alguns momentos e socialmente incompleta, havia uma aposta de nação.

Ainda assim, as ilhas de prosperidade permaneceram cercadas por vastos oceanos de desigualdade. O Brasil industrializou-se, mas não democratizou plenamente a propriedade, a renda, o conhecimento e o poder. Construiu fábricas, universidades, empresas estatais e infraestrutura, mas não completou a revolução social capaz de transformar crescimento econômico em cidadania substantiva para todos.

Neste primeiro terço do século XXI, a demanda crescente por minerais estratégicos, energia limpa, alimentos, biodiversidade e dados recoloca, em novas bases, o velho risco histórico do Brasil retornar ao papel de grande fazendão, grande mina, grande reserva ambiental e grande plataforma de extração para o capitalismo global.

No passado, exportavam-se ouro, prata, açúcar, café, borracha e minério. Hoje, pode crescer a exportação de lítio, nióbio, terras raras, hidrogênio verde, energia renovável, créditos de carbono, biodiversidade, conhecimento genético e dados. Mudam os produtos. Muda a tecnologia. Mudam os compradores. Mas pode permanecer a mesma lógica do Brasil fornecer a base material da riqueza mundial, enquanto importa tecnologia, plataformas, patentes, máquinas, algoritmos, financiamento e decisões estratégicas.

As antigas metrópoles não desapareceram. Foram substituídas, em parte, por fundos globais, plataformas digitais, gigantes tecnológicos, bancos transnacionais, cadeias produtivas comandadas de fora e novos impérios corporativos. As novas veias abertas da América Latina podem não ser apenas minas, florestas, plantações ou poços de petróleo. Podem ser também os dados, a biodiversidade, o conhecimento genético, a capacidade de produzir energia limpa, os recursos minerais estratégicos e até o comportamento cotidiano da população convertido em ativo econômico.

A nova dependência é mais sofisticada. Não chega apenas com navios, tropas ou administradores coloniais. Chega por contratos, algoritmos, patentes, plataformas, acordos financeiros, regimes de propriedade intelectual, mecanismos de arbitragem internacional e narrativas aparentemente neutras sobre eficiência, competitividade e modernização. O velho saque tornou-se mais limpo, mais jurídico, mais digital e mais elegante. Mas continua sendo saque quando impede a maioria de se apropriar da riqueza que ajuda a produzir.

A encruzilhada histórica está novamente diante dos brasileiros e latino-americanos. O Brasil possui condições excepcionais para protagonizar um novo ciclo de prosperidade. Mas a riqueza, por si só, não garante desenvolvimento. Sem projeto nacional, ela pode apenas renovar a dependência. Sem Estado forte, pode virar enclave. Sem indústria, pode virar exportação bruta. Sem ciência, pode virar patente estrangeira. Sem democracia social, pode virar concentração de renda. Sem soberania, pode virar mais uma rodada de subordinação.

O grande desafio deste início do século XXI não é apenas produzir riqueza sob novas bases. É decidir quem vai comandar essa riqueza, quem vai se apropriar dela e a serviço de qual projeto histórico ela será colocada.

A transição energética, por exemplo, não pode significar apenas transformar o Brasil em fornecedor barato de minerais e energia limpa para a descarbonização dos países ricos. Não basta exportar lítio, nióbio, terras raras ou hidrogênio verde. É preciso dominar as cadeias tecnológicas, produzir baterias, equipamentos, softwares, máquinas, semicondutores, sistemas de armazenamento, inteligência embarcada e conhecimento aplicado. Sem isso, a economia verde será apenas uma nova cor para a velha dependência.

O mesmo vale para a biodiversidade. A Amazônia, o Cerrado, a Caatinga, o Pantanal, a Mata Atlântica e os demais biomas brasileiros não podem ser tratados como almoxarifado biológico do capitalismo global. A biodiversidade deve ser base de uma bioeconomia soberana, com ciência nacional, indústria nacional, proteção dos povos originários, valorização dos saberes tradicionais e repartição justa dos benefícios. Transformar a natureza em ativo financeiro controlado de fora seria apenas uma forma renovada de colonialismo verde.

Também os dados se tornaram território de disputa. Na economia digital, quem controla dados controla mercados, comportamentos, inteligência artificial, consumo, comunicação e poder político. Um país que entrega seus dados, suas infraestruturas digitais e sua inteligência informacional a plataformas estrangeiras abdica de parte decisiva de sua soberania. No século XXI, soberania nacional não se mede apenas por fronteiras físicas, mas também por nuvens computacionais, cabos submarinos, centros de dados, algoritmos, semicondutores e capacidade própria de produzir inteligência.

Por isso, o Brasil precisa superar a ilusão neoliberal de que o mercado, sozinho, conduzirá o país ao desenvolvimento. O neoliberalismo foi vendido como modernização, mas produziu regressão produtiva, desindustrialização precoce, privatização de capacidades estratégicas, fragilização do Estado, precarização do trabalho e dependência tecnológica. Prometeu eficiência e entregou vulnerabilidade. Prometeu integração ao mundo e entregou subordinação. Prometeu liberdade econômica e entregou captura do futuro por interesses privados e financeiros.

Romper com essa herança não significa voltar ao passado. Significa recuperar a capacidade de planejar o futuro. O Estado brasileiro precisa ser reformulado para a era digital, ecológica e do conhecimento. Não um Estado mínimo, ajoelhado diante do rentismo. Tampouco um Estado burocrático incapaz de inovar. Mas um Estado planejador, indutor, tecnológico, democrático e comprometido com a soberania nacional e o bem-estar coletivo.

A riqueza decorrente da nova economia somente se converterá em desenvolvimento se estiver integrada a um projeto nacional capaz de articular industrialização verde, soberania tecnológica, ciência e inovação, infraestrutura digital pública, educação de qualidade, trabalho decente, redução das desigualdades e fortalecimento das capacidades estatais. O país precisa decidir se quer ser apenas exportador de recursos ou produtor de conhecimento. Se quer ser mercado consumidor de plataformas estrangeiras ou criador de tecnologias próprias. Se quer ser reserva de valor para fundos globais ou nação soberana.

Pela primeira vez em muitas décadas, o Brasil reúne condições materiais, ambientais, energéticas e científicas para realizar uma transição histórica. Pode deixar de ser apenas fornecedor de recursos naturais e tornar-se potência do conhecimento, da bioeconomia, da inteligência artificial, da energia limpa e da sustentabilidade. Mas essa passagem não ocorrerá espontaneamente. Ela exigirá conflito político, decisão estratégica e enfrentamento dos interesses que lucram com o país subordinado.

Porque o subdesenvolvimento não é uma fatalidade. É uma construção histórica. E, como toda construção histórica, pode ser desmontado. O que não se pode é continuar aceitando como destino nacional aquilo que interessa apenas a uma minoria rentista, associada e colonial em sua mentalidade. O Brasil não é pobre. Foi empobrecido por formas sucessivas de apropriação privada de sua riqueza coletiva.

Em síntese, o novo superciclo poderá representar o fechamento definitivo das veias abertas da América Latina. Mas também poderá abrir novas feridas, agora mais sofisticadas, anestesiadas por discursos tecnológicos, ambientais e digitais. A dependência do futuro talvez não tenha a aparência brutal do passado. Poderá vir embalada em contratos verdes, plataformas inteligentes, finanças sustentáveis e promessas de inovação sem soberania.

Essa é a grande disputa histórica do nosso tempo. O Brasil pode escolher entre ser objeto ou sujeito da nova ordem mundial. Pode aceitar a condição de fornecedor periférico da transição energética e digital ou construir um projeto nacional capaz de comandar sua própria riqueza. Pode repetir o ciclo colonial, agora com linguagem moderna, ou inaugurar uma etapa soberana de desenvolvimento.

A oportunidade histórica está posta. Mas oportunidade não é destino. Para que ela se realize, será necessário romper com anos de domínio neoliberal, reconstruir a capacidade de planejamento, reindustrializar o país em novas bases, democratizar o acesso ao conhecimento e colocar a riqueza nacional a serviço da maioria.

O desafio não é apenas crescer. É decidir para quem, por quem e com que projeto o Brasil crescerá. É transformar uma nação extraordinariamente rica em uma sociedade efetivamente próspera, democrática, soberana e menos desigual. É fechar as veias abertas não pela resignação, mas pela construção combativa de uma Nação Soberana.

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