Tecnologias e protocolos não podem, sozinhos, substituir o cuidado – especialmente se seguirem modelos hegemônicos da psiquiatria ou do produtivismo. Mas podem ser úteis para fortalecê-lo, desde que não substituam a presença, a escuta e o vínculo territorial
Por Bárbara Vukomanovic Molck, Outra Saúde
O Ministério da Saúde vem fortalecendo a agenda de saúde digital no SUS, com iniciativas como o e-SUS APS, a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) e o Meu SUS Digital, voltadas à integração das informações, à segurança dos dados e à continuidade do cuidado. Nesse mesmo contexto, também surgem estratégias específicas para qualificar a atenção a esse campo na Atenção Primária, como o e-Saúde Mental, o que permite reconhecer que há movimentos em curso no interior do próprio sistema público.
Esses avanços apontam possibilidades reais de fortalecimento do cuidado e, justamente por isso, tornam ainda mais necessária uma pergunta: entendendo o inegável avanço das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) no campo da saúde, qual seria o lugar desses avanços para a saúde mental? Apesar de parecer intuitivo, esse questionamento torna-se bastante complexo quando pensamos especificamente nesse território. Primeiro, pela própria dificuldade em definir o que queremos dizer quando falamos em “saúde mental”; segundo, pela necessidade de pensar que tipo de cuidado o sofrimento psíquico exige; e terceiro, pelos limites que a transformação digital deve ter.
As TICs ampliam a capacidade dos serviços ao registrar informações clínicas mais detalhadas, reduzir procedimentos desnecessários, qualificar a tomada de decisão e favorecer a coordenação do cuidado. No entanto, tais avanços só podem ocorrer se acompanhados de limites éticos claros – especialmente no que diz respeito à proteção de dados pessoais e à garantia de que a transformação digital não viole direitos fundamentais. Isso também exige atenção à implementação efetiva da LGPD, sobretudo diante do uso de informações sensíveis em saúde mental. No limite, a forma como organizamos dados e protocolos expressa também a forma como imaginamos as pessoas que deles dependem. É por isso que, antes de avançar, é preciso retornar a uma pergunta fundamental: de que saúde mental estamos falando e que concepção de sujeito orienta nossas escolhas?
A própria Organização Mundial da Saúde definiu saúde como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social”. Completo. O que já nos coloca uma questão crítica: é possível um completo bem-estar? Essa definição, apesar de bem-intencionada, aproxima-se perigosamente de um imperativo de felicidade inalcançável, que transforma o sofrimento em fracasso individual e o cuidado em performance comportamental. O campo da saúde mental não pode excluir o sujeito nem a complexidade de sua experiência. Diferentemente do adoecimento anatomopatológico (em que a diabetes não varia se chamada por outro nome), o sofrimento psíquico não existe como entidade fixa: ele varia conforme a forma como escutamos, nomeamos e nos relacionamos com quem sofre.
Isso também levanta uma questão importante: até que ponto modelos hegemônicos de psiquiatria, especialmente os alinhados ao DSM (sigla para Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders ou Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), podem reforçar leituras a-históricas e individualizantes do sofrimento? Ao reduzir experiências complexas a listas de sintomas descontextualizados, o manual transformou a dor em desequilíbrio químico individual – e a indústria farmacêutica completou a operação, produzindo uma semântica em que o sofrimento é definido pelo remédio que o combate, e não pela experiência concreta de quem sofre.
Uma definição crítica de saúde mental precisa romper com essa herança: saúde mental não é ausência de transtorno, nem estado estático de harmonia. Ela se realiza no reconhecimento, no pertencimento e na inscrição simbólica no mundo. Gosto muito da definição de que saúde mental não é totalmente bem-estar ou totalmente mal-estar – mas poder estar.
Seriam as TICs e os protocolos as soluções para o campo da saúde mental?
Como pode ser o cuidado em saúde mental? A Reforma Psiquiátrica Brasileira e a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) já haviam dado respostas importantes: cuidado em liberdade e no território, escuta, vínculo, autonomia. Observa-se uma tendência crescente de aproximação entre psiquiatria e neurociências que reduz o sofrimento a componentes químicos cerebrais e as terapêuticas ao binômio psicologização individualizante e medicalização em larga escala. O cuidado se constrói a partir da narrativa do sujeito, atravessada pelo olhar e pela escuta do outro – nesse entre-lugar onde o saber técnico encontra o saber do sujeito e das coletividades. Para isso, é necessário tempo, presença, encontros e não a negação das contradições, mas a possibilidade de elaborá-las.
É justamente aqui que surgem as limitações das TICs. Se o cuidado em saúde mental requer vínculo, territorialidade, presença e linguagem, boa parte das soluções digitais não dão conta disso – e podem, inclusive, reforçar o aparato reducionista dos diagnósticos e da medicalização, oferecendo respostas rápidas e protocolares que encobrem o problema real: o excesso de produtividade, a performatividade generalizada e a precarização dos laços sociais que estruturam o sofrimento psíquico na contemporaneidade.
As TICs podem informatizar processos, integrar sistemas e reduzir burocracias, mas não substituem a relação. A inovação tecnológica na saúde só cumpre seu papel quando libera profissionais da carga burocrática que os afasta do cuidado e abre espaço para o que verdadeiramente importa: tempo para o vínculo, para a escuta e para a singularidade das histórias. A promessa ética da inovação não é substituir o encontro – é torná-lo possível. Isso também torna urgente defender o SUS como espaço público e democrático de formulação do cuidado. Diante da transformação digital, está em disputa que projeto de saúde, que concepção de sujeito e que lugar para o sofrimento, a escuta e o vínculo serão inscritos nessas transformações.
Talvez o principal desafio não seja apenas incorporar novas tecnologias e protocolos, mas garantir que elas fortaleçam, e não substituam, as condições que sustentam o cuidado em saúde mental. O cuidado real em saúde mental só se sustenta quando o fazer em saúde não se deixa reduzir a mentalidade produtivista ou a soluções tecnológicas que simplificam a complexidade do trabalho vivo. É nesse trabalho, feito de presença, escuta, vínculo e responsabilidade compartilhada, que o sofrimento psíquico pode ser acolhido sem ser reduzido a dado, protocolo ou desempenho.




