Aquecimento reduz o crescimento das árvores

Pesquisadores descobriram que árvores sob aquecimento fotossintetizam, mas não crescem na mesma proporção, um detalhe que pode estar fazendo os modelos climáticos superestimarem em até 30% a capacidade das florestas de armazenar carbono.

por Henrique Cortez*, em EcoDebate

Tem uma frase que ouço desde criança e que, confesso, sempre me deu um certo alívio: “não se preocupe tanto, as florestas absorvem o carbono que a gente emite.” Era quase um suporte emocional. A natureza dando um jeito na nossa bagunça, enquanto a gente tentava se organizar.

Pois bem. Essa semana eu li um estudo que bagunçou esse conforto todo, e por isso resolvi sentar para escrever sobre ele aqui. Não como quem reporta uma notícia, mas como quem precisou parar, reler duas vezes e processar o que isso realmente significa.

O que os cientistas descobriram

Um grupo de pesquisadores da Cornell University, liderado pelo pesquisador de pós-doutorado Brendan Clark, publicou em 18 de junho de 2026, um estudo na revista Geophysical Research Letters que parte de uma constatação simples, mas incômoda: as árvores estão crescendo mais devagar com o aquecimento global, mesmo havendo mais carbono disponível na atmosfera para elas absorverem.

Isso é contraintuitivo, eu sei. A lógica que aprendemos na escola é direta: mais CO2 no ar, mais “alimento” para a fotossíntese, mais crescimento. Só que a equipe de Clark mostrou que essa conta não está fechando como deveria.

O motivo tem o nome técnico de turgor, ou pressão de turgescência, mas a explicação é quase poética de que em climas mais secos e quentes, as células das árvores perdem água. E sem água suficiente dentro das células, elas não conseguem se dividir e crescer, mesmo que a fotossíntese continue acontecendo normalmente.

Em outras palavras: a árvore está “comendo”, mas não está “crescendo”. E é exatamente aí que mora o problema.

Fotossíntese não é a mesma coisa que crescimento

Essa foi a frase do estudo que mais me marcou, dita pelo próprio Brendan Clark: os modelos climáticos atuais partem da premissa de que fotossíntese e crescimento são processos equivalentes. Só que, segundo as novas evidências, frequentemente não são.

Isto é como avaliar a saúde financeira de alguém só pelo quanto essa pessoa ganha, sem considerar que boa parte do dinheiro pode estar travada, sem conseguir ser usada para nada. A árvore “ganha” carbono através da fotossíntese, mas se as condições climáticas não permitem que esse carbono se transforme em madeira, tronco, raiz, ou seja, em crescimento real, ele simplesmente não se converte em armazenamento de longo prazo.

E os modelos que usamos hoje para prever o futuro do clima não estavam considerando esse detalhe.

Os números que deveriam nos preocupar

Para testar a hipótese, Clark usou dados de pesquisas realizadas com florestas na Suíça, que acompanharam o crescimento de árvores de folha larga e de coníferas durante oito anos. O padrão observado lá já havia sido identificado também na América do Norte e na Amazônia, de que o clima mais seco e mais quente reduz o crescimento das árvores, independentemente da quantidade de carbono disponível para fotossíntese.

Com esses dados, ele construiu um modelo estatístico que projeta o crescimento das árvores e o armazenamento de carbono até 2069, comparando essa projeção com simulações de um dos modelos de superfície terrestre mais usados no mundo, daqueles que orientam políticas públicas, acordos climáticos e decisões bilionárias.

O resultado foi expressivo. Os modelos atuais podem estar superestimando o crescimento das árvores de folha larga em até duas vezes, e o das coníferas em até três vezes. Isso significa árvores menores do que o previsto, especialmente nas regiões que devem se tornar mais quentes e secas nas próximas décadas e, por consequência, bem menos carbono armazenado do que os planos climáticos atuais assumem.

Pra colocar em perspectiva: hoje, a vegetação terrestre absorve cerca de 27% de todo o carbono que emitimos ao queimar combustíveis fósseis, enquanto os oceanos absorvem outros 25%. O restante fica na atmosfera, alimentando o aquecimento. Se essa fatia de 27% encolher, porque as florestas não estão crescendo como o esperado, o aquecimento pode acelerar de um jeito que ainda não estamos contabilizando direito.

O professor Daniele Visioni, da Cornell e autor sênior do estudo, resumiu bem o espírito da descoberta: quanto mais a comunidade científica observa, mais evidente fica que, com o avanço do aquecimento, vai ficar mais difícil para a natureza “dar conta do recado” sozinha.

E aqui está o ponto que, para mim, é o mais sensível de todo o estudo. Não é que as florestas tenham deixado de ser aliadas importantes no combate à crise climática. É que talvez a gente estivesse contando demais com elas e superdimensionando o quanto elas conseguiriam compensar nossas próprias emissões.

Isso não é motivo para desistir de florestas, replantio ou conservação. É motivo para sermos mais realistas sobre o que essas estratégias conseguem entregar, e mais urgentes na hora de reduzir emissões na fonte, em vez de terceirizar a responsabilidade para os ecossistemas.

O elo que faltava entre ecólogos e quem constrói os modelos

Clark só chegou a essa descoberta porque um colega ecólogo, Shan Kothari, comentou com ele sobre essas novas evidências de campo. A partir daí, Clark começou a frequentar congressos de ecologia florestal só para entender melhor o fenômeno, apesar de sua formação ser voltada para modelagem climática, não para ecologia de campo.

Ele próprio reconheceu que existe um certo distanciamento entre quem estuda as árvores de perto, no campo, e quem constrói os grandes modelos matemáticos que tentam prever o clima do planeta. E que esse tipo de ponte, entre quem observa a natureza e quem a traduz em equações, é exatamente o que precisa acontecer com mais frequência.

Acho que isso diz algo importante sobre ciência e sobre a vida, na verdade. Às vezes a resposta para um problema complexo não está em mais dados, mas em conversar com quem está olhando para o problema de um ângulo diferente do seu.

E agora?

Clark já está trabalhando no próximo passo: desenvolver um código que outros pesquisadores possam incorporar diretamente aos seus modelos climáticos, para que esse efeito do crescimento mais lento das árvores passe a ser considerado nas previsões.

A ideia é simples de explicar e gigantesca de executar, ajustar a peça que faltava no quebra-cabeça, para que as próximas gerações de modelos climáticos sejam mais precisas do que as atuais.

Confesso que, no fim das contas, esse tipo de descoberta não me deixou mais pessimista, mas me deixou mais atento. Existe uma diferença entre “a natureza vai resolver isso por nós” e “a natureza é uma aliada poderosa, mas com limites que precisamos respeitar e entender.”

As árvores continuam fazendo seu trabalho silencioso, lá fora, mesmo sob calor e seca. Só que talvez estejam fazendo um pouco menos do que a gente gostaria de acreditar.

E saber disso, em vez de nos desanimar, deveria nos dar ainda mais clareza sobre onde colocar nossa energia. Não podemos e não devemos esperar que a floresta cresça mais rápido, mas em garantir que ela tenha as condições e o tempo para continuar crescendo, no ritmo que for possível.

*Este texto foi inspirado no artigo “Getting warmer: Slower forest growth means less carbon storage“, de Caitlin Hayes, publicado no Cornell Chronicle em 25 de junho de 2026, com base na pesquisa de Brendan Clark, Daniele Visioni e equipe, publicada na revista Geophysical Research Letters.

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