Joanne Mota, na Fatoflix
“Democracia em Preto e Branco”, dirigido por Pedro Asbeg, é muito mais do que um documentário sobre futebol, rock ou política. É uma viagem a um Brasil em que diferentes vozes encontraram um mesmo compasso para desafiar o medo e afirmar que democracia não é um presente concedido pelos poderosos, mas uma construção cotidiana feita por gente comum. O filme lembra que, quando o povo ocupa os espaços da vida pública, até um estádio pode se transformar em tribuna.
A Democracia Corinthiana aparece como um dos exemplos mais bonitos de resistência coletiva da história recente brasileira. Ali, jogadores, comissão técnica e trabalhadores do clube decidiram que a participação seria mais importante que a obediência cega. Em plena ditadura militar, quando o autoritarismo tentava controlar corpos e consciências, o Corinthians mostrou que decidir juntos também era uma forma de enfrentar a violência do regime.
Pedro Asbeg costura essa experiência com outro fenômeno igualmente transformador: a explosão do rock brasileiro e a campanha pelas Diretas Já. O encontro entre música, futebol e mobilização popular revela um tempo em que cultura e política caminhavam lado a lado, alimentando uma geração que recusava o silêncio. A narração de Rita Lee reforça esse espírito de irreverência, coragem e liberdade que atravessa toda a narrativa.
O grande mérito do documentário está em não transformar seus personagens em heróis inalcançáveis. Sócrates, Casagrande, Vladimir e tantos outros aparecem como pessoas atravessadas pelas contradições do seu tempo, mas comprometidas com algo maior do que suas carreiras. O que os une não é apenas o talento dentro de campo, mas a compreensão de que ninguém joga sozinho quando a democracia está em disputa.
Assistir ao filme hoje provoca inevitáveis paralelos com o Brasil contemporâneo. Vivemos tempos em que a desinformação, a intolerância e o individualismo muitas vezes tentam substituir o diálogo e a participação popular. Nesse contexto, “Democracia em Preto e Branco” recorda que nenhuma conquista democrática nasceu da passividade. Direitos existem porque houve quem ocupasse ruas, praças, sindicatos, universidades, palcos e gramados para defendê-los.
Há também uma dimensão profundamente brasileira na obra. O documentário entende que futebol nunca foi apenas entretenimento. Assim como a música popular, ele é parte da maneira como o país conta sua própria história, celebra suas alegrias e enfrenta suas dores. Quando esses elementos se encontram com a luta política, nasce uma memória coletiva capaz de atravessar gerações.
Outro aspecto que emociona é perceber como diferentes setores da sociedade conseguiram dialogar em torno de um objetivo comum. Intelectuais, artistas, jornalistas, jogadores e trabalhadores aparecem como peças de um mesmo mosaico democrático. O filme lembra que nenhuma transformação social acontece isoladamente. Ela depende da capacidade de reconhecer no outro um companheiro de caminhada, mesmo quando existem diferenças.
Mais do que preservar um capítulo importante da memória nacional, Pedro Asbeg faz um convite para pensar o presente. Em um tempo marcado por tentativas constantes de reduzir a política ao ódio ou ao espetáculo, o documentário recupera o sentido mais simples — e talvez mais revolucionário — da democracia: ouvir, participar, votar, construir consensos e assumir coletivamente a responsabilidade pelo futuro.
Ao final, “Democracia em Preto e Branco” deixa uma sensação rara. Não oferece nostalgia como refúgio, mas memória como ferramenta de transformação. É um filme que fala sobre coragem, solidariedade e participação popular sem perder a leveza de quem acredita que cultura também pode mudar a realidade. Quando as luzes se acendem, permanece uma certeza: enquanto houver gente disposta a transformar paixão em compromisso coletivo, a democracia continuará encontrando maneiras de entrar em campo.




