Romarias celebram a memória dos mártires nas fronteiras da Amazônia

Caminhando em romaria, movimentos e comunidades da Amazônia fazem marchas em defesa da vida e em memória dos mártires que tombaram na luta

Por Carlos Henrique Silva (Comunicação CPT Nacional), com informações da CPT Pará, Instituto Zé Claudio e Maria, REPAM e Irmandade dos Mártires da Caminhada

Nos meses de junho e julho, movimentos e comunidades de regiões diversas da Amazônia fazem marchas em defesa da vida da floresta em pé, ao mesmo tempo que fazem memória àqueles e àquelas que tombaram na luta, vítimas da ganância do capital. Em 2026, as principais manifestações são a 11ª Romaria dos Mártires da Floresta, a 19ª Romaria da Floresta e a 8ª Romaria dos Mártires da Caminhada.

Marchando de Nova Ipixuna a Marabá/PA, Romaria dos Mártires da Floresta marca os 15 anos do martírio de Zé Cláudio e Maria

Entre os dias 05 a 07 de junho, aconteceu a 11ª Romaria dos Mártires da Floresta, momento de memória em homenagem a José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva, assassinados no ano de 2011 por defenderem a Amazônia, a reforma agrária e os povos da floresta. A romaria reuniu movimentos sociais, comunidades pastorais, militantes e outras organizações populares para manter vivo o legado de quem tombou na luta em defesa da vida e da natureza.

José Batista Afonso, militante e advogado da CPT em Marabá, destacou a importância da Romaria, não só para resgatar a história e a memória de Zé Claudio e Maria e de todos aqueles e aquelas que tombaram nas lutas pelo território, acesso à terra e defesa de direitos nesta região do Pará, mas também do chamado para se somar às causas defendidas por todas as pessoas que tombaram na luta. Defesa da floresta, dos territórios e respeito aos direitos das camponesas e camponeses.

“Estamos numa região marcada por muitas violações de direitos: temos o problema do Pedral do Lourenção, o desmatamento crescente nos municípios onde ainda temos floresta primária, a expansão da soja, a exploração minerária. Há um ambiente necessário para que os movimentos se unam, juntem suas forças, sua capacidade de pressão, para que possam fazer um enfrentamento a esse modelo de morte, que ameaça a vida de tanta gente nos seus territórios e suas comunidades”, destacou Batista.

Ali, a memória se fez presença viva por meio de uma mística de abertura marcada pela força da natureza, da espiritualidade e da resistência. A família de Zé Claudio e Maria acolheu os romeiros e romeiras, partilhando um lanche recheado por afeto e resistência. Além do povo que caminha, a romaria também é feita pelas comunidades que ajudam, fornecem abrigo e descanso ao longo do caminho.

O banho de ervas, preparado e compartilhado coletivamente, simbolizou a bênção e o fortalecimento daqueles que seguem caminhando em defesa da vida, dos territórios e da floresta. Entre cantos, orações e gestos de cuidado, os participantes se prepararam para a caminhada da romaria e para a caminhada cotidiana da luta.

Com seus estandartes erguidos, trazendo os rostos e as histórias dos mártires da floresta, os romeiros e romeiras formaram a fila e se colocaram a caminho, carregando consigo a memória, a esperança e o compromisso com a justiça.

A Romaria teve cinco momentos de paradas:

  1. Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE) Praialta Piranheira, local onde Zé Claudio e Maria foram assassinados;
  2. Trevo da Massaranduba, local que guarda a memória de Daniel Barros Martins, jovem de 18 anos assassinado em 05 de Abril de 2026;
  3. O Curral, local onde Zé Claudio e Maria foram vistos com vida pela última vez;
  4. Escola Municipal de Ensino Fundamental Maria Pereira dos Santos, local onde Maria do Espírito Santo atuou como professora;
  5. A Majestade, castanheira centenária localizada na Reserva Extrativista Zé Claudio e Maria. Considerada a árvore mais antiga da reserva, a Majestade ocupa um lugar especial na memória e na história de Zé Claudio e Maria, que nutriam por ela profundo carinho e admiração. Sob sua copa, romeiros e romeiras encontraram um espaço de silêncio, escuta e conexão com a natureza.

No sábado (06), em Nova Ipixuna, ocorreu a roda de conversa “Nos encontramos nas lutas em defesa dos povos”, um diálogo que reafirmou a importância da união entre os povos, organizações e movimentos que seguem defendendo a vida, os territórios e os direitos das populações do campo, das florestas e das águas.

Na manhã do domingo, romeiros e romeiras se reuniram para a celebração eucarística presidida por Dom Vital Corbellini, bispo da Diocese de Marabá. Realizada no meio da floresta, a celebração reuniu comunidades, lideranças e peregrinos para recordar histórias de luta, reafirmar compromissos e manter viva a memória daqueles e daquelas que transformaram a defesa da vida em testemunho.

Um dos momentos mais simbólicos foi o plantio de 11 mudas por familiares de Zé Claudio e Maria, junto de Dom Vital Corbellini. Cada muda representou uma edição da Romaria, transformando a memória em um gesto concreto de cuidado com o futuro, em que as sementes plantadas continuam florescendo em justiça, resistência e esperança.

Maria do Espírito Santo e Zé Claudio foram lembrados na capa do relatório Conflitos no Campo Brasil 2011, que pode ser acessado e adquirido neste link.

Confira a série de vídeos “15 anos de Memória e Luta”, com depoimentos de familiares e pessoas companheiras de luta, na página do Instituto Zé Claudio e Maria no Instagram. A organização foi fundada em homenagem ao casal de extrativistas e ambientalistas.

Em Anapu (PA), 19ª Romaria da Floresta destaca a força da união das comunidades em defesa da Amazônia

Entre os dias 16 e 19 de julho, acontece a 19ª edição da Romaria da Floresta, no município de Anapu (PA), reunindo comunidades, lideranças e organizações em um caminho de fé, memória e compromisso com a vida e a defesa da Amazônia.

A caminhada tem início no Centro São Rafael, às margens do Rio Anapu — local onde está plantada a memória viva de Irmã Dorothy Stang — e segue até o Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Esperança, território onde ela foi assassinada em 2005, por sua incansável luta em defesa da floresta e dos povos da terra.

Realizada desde 2006, a Romaria nasceu do desejo coletivo do povo de manter viva a luta e afirmar, com coragem, que não há medo diante das injustiças. É um testemunho público de que a defesa da vida, da terra e da floresta continua, mesmo diante das violências. Apenas durante os anos da pandemia de Covid-19 a caminhada foi interrompida, sendo retomada com ainda mais força nos anos seguintes.

A cada edição, um tema orienta a reflexão e fortalece o compromisso das comunidades antes, durante e após a Romaria. Em 2026, o tema escolhido é: “Nossas Lutas, Conquistas e Memórias”, com o lema: “União da Sociedade Organizada em Defesa da Vida e da Casa Comum”.

Segundo a irmã Kátia Webster, que também integra a CPT em Anapu, a Romaria também se constrói como um espaço de diálogo e conscientização sobre temas urgentes que atravessam os territórios: “Nosso objetivo com a Romaria é gerar conversa sobre os temas. Este ano está se desenhando que será sobre os agrotóxicos. Estamos vendo uma variedade de maneiras de fazer isso.”

Ela também destaca o crescimento e o protagonismo da juventude na caminhada: “O impressionante é que a participação da juventude vem crescendo. É um momento onde eles mesmos dizem: vivemos algo na romaria que queremos levar para a vida — partilha, companheirismo, cuidado um do outro, respeito e atenção ao meio ambiente.”

A proposta deste ano convida à memória das conquistas já alcançadas, ao reconhecimento das lutas históricas e ao fortalecimento da organização coletiva como caminho para enfrentar os desafios atuais. Em todo esse processo, um sentimento atravessa e sustenta a caminhada: o “esperançar” — uma esperança ativa, que se traduz em ação, resistência e compromisso com o futuro.

Inspirada pela força da Páscoa, a Romaria da Floresta também é sinal de ressurreição: da vida que vence a morte, da esperança que supera o medo e da luz que resiste em meio às sombras. Assim como a Amazônia segue viva e pulsante, os povos que nela habitam continuam se levantando, organizando-se e reafirmando seu papel como guardiões da Casa Comum.

Cada passo da Romaria é expressão de fé que caminha, memória que resiste e luta que floresce nos territórios. É essa energia que brota como semente dessa luta que não morreu, se multiplica e segue gerando frutos. Entre cruzes e caminhos, entre dores e esperanças, um povo segue firme pela vida, pela Casa Comum e pela justiça climática.

“Vidas pela Vida”: 8ª Romaria dos Mártires da Caminhada faz memória aos 50 anos do martírio do Padre João Bosco Burnier

Durante os dias 18 e 19 de julho, outra mobilização de romeiras e romeiros também toma o chão sagrado das fronteiras da Amazônia. É a 8ª Romaria dos Mártires da Caminhada Latinoamericana, em Ribeirão Cascalheira, na Prelazia de São Félix do Araguaia (MT), este ano fazendo memória dos 50 anos do martírio do Padre João Bosco Penido Burnier, da libertação de Margarida e Santana, bem como dos 50 anos do martírio do Padre Rodolfo Lunkenbein e de Simão Bororo.

O Padre João Bosco Burnier foi assassinado em 1976, quando intercedia com o bispo Pedro Casaldáliga pela libertação de duas mulheres camponesas, Margarida e Santana, que estavam sendo torturadas na delegacia local. Aí foi construído o Santuário dos Mártires da Caminhada Latino-americana, onde se celebra a memória de seu martírio e o de tanta gente comprometida com as causas e as lutas de libertação de nosso povo.

A arte do cartaz, realizada por Anderson Augusto, é repleta de cores quentes e girassóis, tendo ao centro o padre João. O seu sangue derramado tornou-se semente: no lugar da violência, o povo ergueu o Santuário dos Mártires.

Ao seu lado, uma nuvem de testemunhas, mulheres e homens que, pela doação da vida, seguem os passos de Jesus de Nazaré: Irmã Dorothy Stang, Santo Oscar Romero, Chico Mendes, Santo Dias, Margarida Alves, Marielle Franco, Sepé Tiarajú, Simão Bororo, Pe. Rodolfo Lunkenbein, Mons. Enrique Angelelli, Vladimir Herzog, Vilmar de Castro, Irmã Adelaide, Irmã Cleusa, Pe. Ezequiel Ramin, Manoel do MST, Berta Cáceres, Nativo da Natividade, Ir Bernadete, Pe. Josimo, além de tantas outras e outros que permaneceram fiéis até o fim, erguendo sua voz em defesa da vida, como o próprio Pedro Casaldáliga. Há também uma criança com a kufyia (lenço palestino) e um ramo de oliveira que nos une à luta do Povo Palestino contra o genocídio, e por liberdade e autodeterminação.

Na base do cartaz, mãos acolhem essa história, se misturam com a terra na defesa da Casa Comum, cuidam e trazem esperança. Do sangue dos mártires brota uma semente que dá frutos de Bem Viver, simbolizando que a vida vence a morte.

Ao fundo, as ruínas da antiga cadeia e a cruz do Pe. João Bosco recordam o porquê de toda esta luta: a construção do Reino de Deus, o Reino de Justiça e de Paz. Todo esse grande mutirão é guiado pela Divina Ruah (o Espírito Santo, em forma de pomba e de vento), que acompanha e embala romeiras e romeiros, na esperança do Novo Céu e Nova Terra.

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