Chamamos quem plantou antes de nós,
chamamos nós para plantar e chamamos quem vai plantar depois de nós.
Hoje não estamos entregando sementes,
estamos devolvendo ao mundo a memória que a TERRA confiou a nós.
Que cada grão encontre chão, e que cada chão encontre gente que cuida.
Semente é promessa. E promessa quando é do povo, não se quebra.
Que germine o cuidado. Que frutifique a Teia.
Com a força dos troncos velhos, brota a nossa resistência.
Nádia Carvalho
Comunidade Alegria, Território Campestre
Coletivo de Mulheres Trabalhadores do Maranhão – CMTR e MIQCB
Nós, quilombolas, indígenas, quebradeiras de coco babaçu, pescadores e pescadoras, ribeirinhas e ribeirinhos, sertanejas e sertanejos, agricultoras e agricultores, e organizações aliadas que nos reunimos no território quilombola Tanque da Rodagem e São João, Matões, entre 2 e 6 de julho de 2026, celebramos os 15 anos da Teia de Povos e Comunidades Tradicionais do Maranhão em seu 17º Encontrão.
Há 15 anos, a luta quilombola contra um crime do latifúndio – o assassinato de Flaviano Pinto Neto, liderança quilombola do Território Charco, município de São Vicente Ferrer, em 30 de outubro de 2010 – foi abraçada pelos indígenas em um ato de solidariedade; e assim nasceu uma nova aliança entre os povos do Maranhão. Nasceu uma Teia que articula aqueles que se reconhecem na luta pelo direito de ser, estar e permanecer onde os troncos velhos fincaram raízes, brotaram e espalharam sementes.
A aliança na luta, que marcou o nascimento Teia, passou a constituir a sua essência: acudir e colocar os corpos e corações a serviço dos seus. Assim, os povos da Teia estiveram com o povo Krenjê na retomada que garantiu seu território em 2018. Esteve com os Akroá Gamella quando foram brutalmente atacados por fazendeiros, pistoleiros e políticos em 2017, e quando a polícia sequestrou suas lideranças em 2021 no contexto da luta contra a invasão do território pela Equatorial Energia. E esteve em massa em Tanque da Rodagem, também em 2021, para se juntar à resistência contra a invasão, o desmatamento e a destruição do território por grileiros e seus tratores.
A violência no campo no Maranhão seria muitas vezes mais brutal se não existisse a Teia.
E hoje, os povos podem comemorar vitórias. Quantos Grupos Técnicos de demarcação de terras quilombolas foram criados! Quanto avançou o reconhecimento do território Akroá Gamella! A ocupação do Incra em julho de 2011, destravou dezenas de processos de titulação. E em breve, o quilombo do Charco, onde ocorreu o martírio de Flaviano Pinto Neto que motivou a ação de 2011, será titulado.
Completar 15 anos é também um rito de passagem. É olhar para traz com orgulho, mas também estar consciente de que muito mais coragem, determinação e compromisso são e serão cobrados, porque os inimigos dos povos e dos territórios tradicionais estão cada vez mais gananciosos, vorazes e violentos.
Tanque da Rodagem parou tratores e expulsou grileiros com seus corpos, mas o veneno e a soja avançam contra seu território. O agro facínora segue em ritmo veloz, contaminando as águas, destruindo as matas, adoecendo e expulsando o povo em centenas de comunidades no Maranhão, com drones e aeronaves das quais despejam toneladas de venenos sobre nossos Corpos-Territórios, numa cruel e prolongada guerra química, sob os olhares complacentes de autoridades públicas.
Assim, neste 17º Encontrão da Teia, os Povos e Comunidades Tradicionais do Maranhão, afirmam:
1. Estarem conscientes e dispostos a enfrentarem os/as inimigos/as na luta pela demarcação e garantia dos territórios, pelo enfrentamento ao agro e aos agrotóxicos, contra a lei 14.701 que regulamenta o Marco Temporal para demarcação de terras indígenas e outros ataques contra a destruição dos babaçuais, contra as eólicas nos territórios pesqueiros, e contra governos e empresas que vão tentam nos cooptar, comprar, dividir. Reafirmamos o nosso direito de autodefesa, na forma e nos tempos que aquilo que nos ameaça exige.
2. Garantir a reprodução da vida nos territórios e os direitos da natureza, da qual somos parte, é a meta para a construção do nosso horizonte de bem viver. A Teia pautará e avançará nos debates sobre as legislações que afetam ou promovem os direitos territoriais dos Povos e Comunidades Tradicionais, indígenas e quilombolas, como o decreto de regularização fundiária de territórios tradicionais. Pautará e avançará no encaminhamento das demandas de saúde e educação. Pautará e avançará no debate sobre sistemas produtivos e economia. Reafirmamos que protegeremos nossa alegria, nossas encantarias, nossas espiritualidades e nossa fé na vida e na força do nosso povo.
3. Nos reconhecemos e reafirmamos como seres políticos, e assumimos o compromisso de enfrentar a extrema direita em todos os espaços onde ela atua. Estamos cientes de que a direita, seus prefeitos, deputados, senadores e candidatos, bem como seu dinheiro, seus empresários e seus aliados busca nossa aniquilação. Estamos cientes de que o atual Congresso é inimigo do povo, e nos comprometemos trabalhar para evitar que esta situação seja radicalmente alterada.
O 17º Encontrão homenageia e reverencia a memória teimosa de Cu’tetet Krenjê, que ancestralizou ao cumprir 15 anos de construção da Teia. Ele passou a Borduna para a juventude.
As várias gerações que articulam a Teia de Povos e Comunidades Tradicionais do Maranhão têm a missão de cumprir estes compromissos e de assumir esta missão. É um compromisso dos brotos novos com seus troncos velhos, aos quais não virarão as costas.
Território Quilombola Taque da Rodagem/Macaúba/São João
Município de Matões – Maranhão
7 de julho de 2026




