Realizada no dia 26 de julho, a Romaria leva peregrinos a se inspirarem no testemunho de pe. Ezequiel, assassinado em uma emboscada em 1985
Por Rafaela Moraes | CPT Rondônia
Um caminho sinuoso de chão batido conduz centenas de pessoas a peregrinar todos os anos num trajeto em memória da vida, da fé e da resistência do padre Ezequiel Ramin. O missionário italiano da congregação de São Daniel Comboni (MCCJ) foi assassinado por defender os direitos dos povos indígenas e dos trabalhadores rurais na Amazônia.
A peregrinação leva os fiéis até a divisa entre Rondônia e Mato Grosso, no município de Rondolândia (MT), onde recordam a manhã do dia 24 de julho de 1985, quando padre Ezequiel Ramin foi morto em uma emboscada. Ele retornava da Fazenda Catuva ao lado de um dirigente sindical, após uma tentativa de diálogo com posseiros que viviam sob ameaça em uma área reivindicada por um grande fazendeiro.
A região ainda é marcada por extensas fazendas de pecuária, terras indígenas e propriedades da agricultura familiar. A convivência entre esses diferentes territórios continua sendo atravessada por disputas fundiárias, que evidenciam os desafios históricos relacionados ao acesso e à permanência na terra.
Testemunho vivo de vocação e missão
Realizada desde 2016, a Romaria Padre Ezequiel Ramin reúne fiéis da Arquidiocese de Porto Velho (RO), da Diocese de Ji-Paraná (RO), além de pessoas comprometidas com as causas sociais. O momento configura-se como um evento importante no calendário anual, onde se vive momentos de espiritualidade, memória e reflexão sobre os direitos humanos e a justiça no campo.
Com o tema “Padre Ezequiel Ramin: Testemunho vivo de vocação e missão” e o lema “Perseverantes e bem unidos, partiam o pão pelas casas” (At 2,46), a 11ª edição da romaria ocorreu no dia 26 de julho de 2026 e reuniu mais de 2.300 participantes, que caminharam até o local onde o missionário foi assassinado há 41 anos.
Entoando a canção “Fruto da Missão”, do companheiro José Aparecido de Oliveira, as romeiras e romeiros seguiram em marcha para bem dizer ao senhor por sua vida e missão: “Teu sangue amigo se tornou semente, que vai produzir pra nós libertação”.
Mais do que uma homenagem, a Romaria reafirma o compromisso de manter viva a memória de padre Ezequiel e inspira novas gerações a refletirem sobre a promoção da justiça, da paz e da dignidade humana, valores que marcaram sua trajetória missionária.
A luta pelo direito de viver no campo continua
Os conflitos pela terra permanecem como um dos principais desafios da Amazônia Legal. Dados do relatório Conflitos no Campo Brasil 2025, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), apontam que Mato Grosso e Rondônia continuam entre os estados com elevado número de ocorrências envolvendo disputas por terra, violência no campo e ameaças a trabalhadores rurais, comunidades tradicionais e povos indígenas.
Quatro décadas após o assassinato de padre Ezequiel Ramin, muitas das causas pelas quais ele dedicou sua missão permanecem presentes na realidade amazônica, revelando que o acesso à terra e a defesa dos direitos das populações do campo ainda representam grandes desafios para a região.
Memória que aponta para o futuro
Ao final da caminhada, os romeiros partilham a vida de pe. Ezequiel através de testemunhos, orações e distribuição de sementes, gestos de fé que demonstram que a memória do missionário ultrapassa a lembrança de um episódio trágico. Sua história continua inspirando pessoas, comunidades e pastorais que acreditam na construção de uma sociedade mais justa.
“Pe. Ezequiel é semente de esperança e resistência nos espaços de luta pela busca da justiça social, causa de seu martírio. Hoje celebramos a vida que ele gostaria que todos nós tivéssemos, principalmente os mais pobres, os povos indígenas, os povos das florestas, os pequenos agricultores. É por ele, por sua causa que seguimos aqui.” – Maria Augusta Cogo (Rede Semear e CPT – RO)
A Romaria Padre Ezequiel Ramin reafirma que a defesa da vida, da dignidade humana e da justiça social permanece atual. Enquanto houver pessoas dispostas a percorrer esse caminho de fé e compromisso, sua missão continuará viva na Amazônia.




