Nagasaki, 81 anos: a crueldade da bomba atômica lançada sobre um Japão já derrotado

Os Estados Unidos destruíram uma segunda cidade japonesa em 9 de agosto de 1945, quando Tóquio já buscava uma saída para a guerra; oito décadas depois, Washington nunca apresentou um pedido formal de desculpas pelo ataque nuclear

Redação Brasil 247

247 — Em 9 de agosto de 1945, uma explosão de poder até então quase inimaginável transformou Nagasaki em um cenário de destruição, fogo, corpos carbonizados e sofrimento humano que atravessaria gerações. Às 11h02, os Estados Unidos lançaram sobre a cidade japonesa a bomba atômica de plutônio conhecida como “Fat Man”, apenas três dias depois de terem destruído Hiroshima com outra arma nuclear.

O ataque ocorreu quando o Japão já estava militarmente derrotado, cercado, devastado por bombardeios e buscando uma fórmula para encerrar a guerra. Documentos históricos do próprio Departamento de Estado dos Estados Unidos registram que, ainda em julho, o governo japonês tentava obter a mediação da União Soviética para pôr fim às hostilidades e que setores importantes do governo consideravam a Declaração de Potsdam uma base possível para a rendição. Na manhã de 9 de agosto, o imperador Hirohito concordou que a guerra deveria ser encerrada com base nos termos de Potsdam.

Mesmo assim, Nagasaki foi bombardeada.

Oitenta e um anos depois, a destruição da cidade permanece como um dos episódios mais cruéis e controversos da história contemporânea — e como símbolo máximo da capacidade humana de produzir uma arma capaz de eliminar uma cidade inteira em segundos.

Uma cidade destruída em segundos

A bomba lançada sobre Nagasaki era diferente daquela utilizada contra Hiroshima. Enquanto a primeira empregava urânio, “Fat Man” utilizava plutônio e tinha potência explosiva de aproximadamente 21 quilotons de TNT.

O alvo inicialmente previsto para a missão daquele 9 de agosto era Kokura. As condições meteorológicas levaram a tripulação do bombardeiro norte-americano B-29 Bockscar a seguir para o alvo alternativo: Nagasaki.

A explosão ocorreu sobre uma cidade habitada por civis.

Em um instante, milhares de pessoas morreram. Edifícios desapareceram ou foram destruídos. Pessoas próximas ao ponto da explosão foram carbonizadas. Outras sofreram queimaduras devastadoras, foram atingidas por destroços ou ficaram presas sob construções em chamas.

O número de mortos continuou aumentando durante semanas e meses.

Estimativas históricas frequentemente apontam para cerca de 70 mil mortos em Nagasaki até o fim de 1945, embora os números variem conforme a metodologia adotada. Aos que morreram imediatamente somaram-se vítimas de queimaduras, ferimentos, doenças provocadas pela radiação e diferentes formas de câncer que apareceriam posteriormente.

A bomba não distinguia soldados de crianças.

Não distinguia instalações militares de casas.

Não distinguia combatentes de idosos, médicos, trabalhadores ou famílias.

Seu princípio era precisamente o contrário: liberar em poucos segundos uma quantidade de energia capaz de destruir indiscriminadamente tudo ao seu redor.

O Japão já estava derrotado

A justificativa tradicional apresentada pelos Estados Unidos para o uso das bombas atômicas sustenta que Hiroshima e Nagasaki teriam acelerado a rendição japonesa e evitado uma invasão terrestre do arquipélago, que poderia provocar enorme número de baixas entre soldados norte-americanos e japoneses.

Essa interpretação, porém, é discutida há décadas por historiadores.

Não há controvérsia sobre o fato de que o Japão se encontrava em uma situação militar desesperadora no verão de 1945.

Sua capacidade naval havia sido esmagada. A aviação estava profundamente enfraquecida. Cidades japonesas tinham sido devastadas por sucessivas campanhas de bombardeios convencionais norte-americanos. O bloqueio marítimo estrangulava a economia e o abastecimento do país.

Mais importante: documentos diplomáticos norte-americanos demonstram que o governo japonês procurava uma saída para a guerra antes mesmo do lançamento da primeira bomba.

Em julho de 1945, Tóquio tentou utilizar Moscou como intermediária para negociar o encerramento das hostilidades.

Segundo documentação posteriormente reunida pelo próprio Departamento de Estado norte-americano, o objetivo fundamental das iniciativas japonesas junto à União Soviética era buscar os bons ofícios de Moscou para terminar a guerra.

O impasse estava principalmente nas condições da rendição, em especial no futuro do imperador.

Isso não significa que houvesse consenso no comando japonês. Setores militaristas continuavam resistindo à capitulação, e a rendição formal ainda não havia ocorrido. Mas significa que apresentar o Japão de agosto de 1945 simplesmente como uma potência determinada a continuar indefinidamente uma guerra que acreditava poder vencer distorce a complexidade daquele momento.

A União Soviética entra na guerra

Outro acontecimento decisivo ocorreu praticamente simultaneamente à destruição de Nagasaki.

Na madrugada de 9 de agosto, a União Soviética entrou na guerra contra o Japão e iniciou uma gigantesca ofensiva contra as forças japonesas na Manchúria.

Para Tóquio, a entrada soviética tinha consequências estratégicas devastadoras.

O governo japonês havia depositado esperanças justamente na possibilidade de Moscou atuar como mediadora de uma negociação com os Aliados. Quando os soviéticos declararam guerra, essa alternativa desapareceu.

Documentos diplomáticos norte-americanos produzidos depois da rendição registram que a entrada soviética e Hiroshima foram utilizadas pelo primeiro-ministro Kantaro Suzuki como acontecimentos que permitiriam romper a resistência dos setores militaristas e justificar politicamente o fim da guerra.

Na manhã de 9 de agosto, Suzuki defendeu a rendição imediata. Hirohito concordou que o conflito deveria terminar com base na Declaração de Potsdam.

A segunda bomba atômica foi lançada naquele mesmo dia.

A sequência temporal tornou Nagasaki ainda mais controversa.

Era necessário lançar uma segunda bomba?

A pergunta atravessou as oito décadas seguintes.

Mesmo entre aqueles que aceitam a argumentação norte-americana de que Hiroshima teria acelerado a rendição japonesa, a decisão de utilizar uma segunda arma nuclear apenas três dias depois desperta questionamentos particularmente profundos.

O governo japonês sequer tivera tempo para compreender plenamente o que havia ocorrido em Hiroshima.

Especialistas japoneses enviados à cidade destruída ainda procuravam determinar a natureza da arma utilizada quando Nagasaki foi atacada.

O próprio Departamento de Estado dos Estados Unidos reconhece hoje, em seu material histórico sobre o início da era nuclear, que existe um debate acadêmico sobre as razões que levaram Washington a utilizar as bombas.

Uma das interpretações sustenta que as armas eram consideradas necessárias para obter rapidamente a rendição incondicional e evitar uma invasão.

Outra corrente historiográfica argumenta que havia também uma dimensão geopolítica: demonstrar à União Soviética o poder extraordinário da nova arma norte-americana e fortalecer a posição de Washington na configuração da ordem internacional do pós-guerra.

A bomba, nessa interpretação, não seria apenas uma arma contra o Japão.

Seria também uma mensagem sobre quem detinha o poder no mundo que estava surgindo.

Civis transformados em alvo nuclear

Qualquer discussão estratégica, entretanto, corre o risco de obscurecer a dimensão humana da decisão.

Nagasaki era uma cidade.

Nela viviam crianças, mulheres, idosos, trabalhadores, médicos, religiosos e famílias inteiras.

A explosão provocou uma onda de choque gigantesca, calor extremo e incêndios. Pessoas sofreram queimaduras profundas. Hospitais foram destruídos justamente quando milhares de feridos precisavam de atendimento.

Depois veio um inimigo invisível.

A radiação.

Muitos sobreviventes aparentemente ilesos começaram posteriormente a apresentar sintomas graves. Sangramentos, febre, queda de cabelo e doenças associadas à exposição radioativa passaram a fazer parte da experiência das vítimas.

Os sobreviventes das bombas de Hiroshima e Nagasaki ficaram conhecidos no Japão como hibakusha.

Durante décadas, muitos enfrentaram não apenas as consequências físicas e psicológicas das explosões, mas também discriminação social provocada pelo medo e pela desinformação sobre os efeitos da radiação.

Seus testemunhos se transformaram em uma das mais importantes advertências da humanidade contra as armas nucleares.

O pedido de desculpas que nunca veio

Os Estados Unidos nunca apresentaram um pedido formal de desculpas ao Japão pelos bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki.

Presidentes norte-americanos visitaram o Japão ao longo das décadas, e autoridades dos dois países construíram uma estreita aliança política e militar depois da guerra. Gestos de memória e homenagens às vítimas também ocorreram.

Mas Washington jamais se desculpou formalmente pela decisão de lançar as duas bombas.

A questão ficou particularmente evidente em 2016, quando Barack Obama tornou-se o primeiro presidente dos Estados Unidos em exercício a visitar Hiroshima.

Antes da viagem, a Casa Branca deixou claro que Obama não apresentaria desculpas.

Sua presença teve grande significado simbólico e foi acompanhada por um discurso sobre os horrores da guerra e a necessidade de um mundo sem armas nucleares, mas não representou uma retratação do Estado norte-americano pela destruição da cidade.

Nagasaki tampouco recebeu um pedido formal de desculpas.

O início da era nuclear

A rendição japonesa foi anunciada dias depois dos ataques, e o instrumento formal de capitulação seria assinado em 2 de setembro de 1945.

A Segunda Guerra Mundial terminava.

Começava, porém, outra era.

Hiroshima e Nagasaki demonstraram pela primeira vez o que significaria uma guerra nuclear.

Nos anos seguintes, Estados Unidos e União Soviética iniciariam uma corrida armamentista que produziria arsenais incomparavelmente mais poderosos do que as bombas de 1945. Reino Unido, França, China e outros países posteriormente desenvolveriam suas próprias armas nucleares.

A humanidade passaria a conviver com a possibilidade de sua própria destruição.

É justamente por isso que a memória de Nagasaki ultrapassa a história do Japão.

O debate sobre a necessidade militar da bomba continuará sendo objeto de disputa historiográfica. Há documentação que sustenta diferentes interpretações sobre os cálculos de Washington, a resistência dos militares japoneses, o impacto da entrada soviética e o peso específico das bombas na decisão final de Hirohito.

Mas um fato permanece materialmente incontestável.

Às 11h02 de 9 de agosto de 1945, uma cidade cheia de seres humanos foi submetida ao poder de uma arma nuclear.

Oitenta e um anos depois, os Estados Unidos continuam sendo o único país da história a ter utilizado armas atômicas contra populações em uma guerra.

E nunca pediram formalmente desculpas por Hiroshima e Nagasaki.

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