TIs Kayapó, Munduruku e Yanomami somam 89% do garimpo ilegal e enfrentaram 188 desastres climáticos em 24 anos
No Pará Terra Boa*
Os territórios indígenas mais afetados pelo garimpo ilegal na Amazônia são, ao mesmo tempo, os mais expostos a secas, ondas de calor, incêndios e enchentes.
A conclusão é de uma nota técnica do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), intitulada “Entre conquistas e riscos compostos: por que o futuro ancestral da Amazônia está ameaçado”, que cruzou dados de desastres climáticos com a distribuição do garimpo na Amazônia Legal.
O documento completo será divulgado nos próximos dias; a nota técnica foi antecipada em torno do Dia Internacional dos Povos Indígenas, celebrado em 9 de agosto.
O levantamento mostra que garimpo e clima extremo incidem sobre as mesmas áreas, criando o que os pesquisadores chamam de riscos compostos — ameaças que se sobrepõem e se reforçam mutuamente, comprometendo a segurança alimentar, a saúde, a mobilidade e a própria permanência dos povos indígenas em seus territórios.
Como o garimpo avançou
A mineração ilegal hoje ocupa cerca de 411 mil hectares, distribuídos em mais de 78 mil pontos de garimpo espalhados pela região. O crescimento da atividade nas últimas décadas foi expressivo: entre 1985 e 2024, a área garimpada multiplicou-se por 20 na Amazônia como um todo — e por 24 especificamente dentro de terras indígenas, saltando de cerca de 1,5 mil para mais de 36 mil hectares nesses territórios.
O impacto não se limita às áreas diretamente exploradas. A nota técnica identificou garimpo dentro de 19 terras indígenas, mas outras 174 terras estão localizadas em bacias hidrográficas atingidas pela atividade — o que significa que rios e recursos naturais contaminados ou alterados pela mineração podem afetar comunidades bem além dos pontos de extração.
Desastres climáticos multiplicados
Paralelamente, os eventos climáticos extremos se tornaram muito mais frequentes na região. Entre 2018 e 2022, cerca de 1,8 milhão de pessoas foram afetadas por desastres climáticos na Amazônia todos os anos — o equivalente a 6,4% da população da região.
Comparado ao início dos anos 2000, o número de inundações mais que quintuplicou, os incêndios ficaram dez vezes mais frequentes, e secas e ondas de calor triplicaram.
Esses eventos atingem diretamente as condições de vida nos territórios indígenas: secas e calor extremo reduzem a disponibilidade de água e alimento e facilitam a propagação de incêndios, enquanto enchentes dificultam o deslocamento e o acesso a serviços essenciais do ecossistema.
Em anos de El Niño, como 2026, a combinação de temperaturas mais altas com mudanças no regime de chuvas tende a agravar ainda mais esse quadro.
Onde as duas pressões se sobrepõem
O estudo aponta que três terras indígenas — Kayapó, Munduruku e Yanomami — concentram, juntas, 89% de toda a área garimpada dentro de territórios indígenas. Essas mesmas terras estão localizadas em municípios que somaram 188 desastres climáticos entre 2000 e 2024: 71 nos municípios da TI Kayapó, 43 nos da TI Munduruku e 74 nos da TI Yanomami.
Segundo os pesquisadores, quando rios, florestas e demais recursos naturais já estão sob pressão da mineração ilegal, os efeitos de eventos climáticos extremos tendem a ser ainda mais severos — e a capacidade das comunidades de reagir e se recuperar desses impactos diminui.
Para Patrícia Pinho, diretora adjunta de Ciência do Ipam e uma das autoras da nota técnica, esse cenário exige uma mudança de abordagem.
“Hoje sabemos que reconhecer direitos é fundamental, mas não suficiente. Os povos indígenas continuam na linha de frente dos impactos das mudanças climáticas e da degradação ambiental. O que vemos agora é uma sobreposição de ameaças que aumenta a vulnerabilidade dessas populações e compromete sua capacidade de permanecer nos territórios.”
Os pesquisadores defendem que políticas de adaptação às mudanças climáticas, proteção territorial e combate a atividades ilegais precisam ser tratadas de forma integrada, e não como agendas separadas.
*Com informações do IPAM,




