Projeto da elite paulista, a fundação da universidade esteve intrinsecamente ligada a ideais eugenistas e ao mito da supremacia racial bandeirante
1.
Nos primeiros anos da sua existência, além do aporte financeiro do governo do Estado, a Universidade de São Paulo (USP) contou com o gerenciamento voluntário de alguns empresários, especialmente, de Júlio de Mesquita Filho, proprietário do jornal O Estado de São Paulo (Cardoso, 1982; Salone, 2019). Essa curiosa associação entre os poderes público e privado começou a vigorar em 1934, quando a USP foi fundada por Armando de Salles Oliveira, interventor de São Paulo e cunhado de Júlio de Mesquita Filho.
Em entrevista a Irene Cardoso e Florestan Fernandes, Roger Bastide, um dos primeiros professores estrangeiros que vieram lecionar na USP, fala do papel de Júlio de Mesquita Filho nas contratações e na coordenação da Faculdade de Filosofia: “Mesquita me disse o que eu deveria fazer (…): ‘O senhor deve ficar aqui… muito tempo, porque o dever do senhor é não só formar estudantes, mas também formar um outro professor brasileiro, paulista, para tomar o seu lugar’” (Cardoso, 1973, p. 185).
Em 15 de novembro de 1925, quase dez anos antes da fundação da USP, Júlio de Mesquita Filho publicou em seu jornal um longo artigo sobre “A crise nacional”. Segundo o empresário, uma crise política assola o país:
“Desde que, promulgado o decreto de 13 de Maio, entrou a circular no sistema arterial do nosso organismo político a massa impura e formidável de 2 milhões de negros, subitamente investidos das prerrogativas constitucionais. (…) Já agora, decorridos alguns lustros depois que a lei da libertação do elemento servil fora assignada e os seus beneficiários haviam transposto definitivamente os portões das senzalas, desceu o nível moral da nacionalidade na proporção da mescla operada” (1925, p. 2).
2.
Essa crise teria aumentado com a imigração estrangeira que veio para o Brasil substituir a mão de obra escrava: “movido por interesses puramente materiais, o estrangeiro penetrava em nosso meio com o propósito de fazer fortuna, sem preocupação alguma de ordem cívica” (Mesquita Filho, 1925, p. 2).[i]
A nova configuração demográfica que advém com a Proclamação da República ajudaria a explicar a indiferença da população com a vida pública e a tomada do poder por uma nefasta oligarquia: “A autoridade da opinião pública, em crise letárgica resultante do traumatismo sofrido, via-se assim, substituída pela autoridade das famílias de mais prestígio nas diferentes regiões da República” (Mesquita Filho, 1925, p. 2).
No mesmo texto, Júlio de Mesquita Filho sugere duas medidas que deveriam ser encabeçadas por São Paulo, lugar onde se “plasmou a raça”, e que sempre foi decisivo para os destinos do país: “como no ciclo épico das bandeiras” (1925, p. 2). De imediato, caberia a São Paulo contribuir para a instauração dos instrumentos do “referendum” e do voto secreto; em médio prazo, promover o ensino básico (primário e secundário) e investir na criação de novas universidades:
“As elites intelectuais, refugiadas desde o advento da oligarquia nas carreiras liberais, nas letras, na indústria e na agricultura, voltariam à tona, atraídas pela purificação da atmosfera política. (…) Nada existe entre nós que se pareça com essas admiráveis legiões de estudiosos desinteressados, que do ambiente sereno das bibliotecas e dos laboratórios indicam, em todas as nações cultas do universo, as diretrizes seguras por onde trilham confiantes os homens de ação” (Mesquita Filho, 1925, p. 2).
Como destaca Irene Cardoso (1982), o projeto elaborado por Júlio de Mesquita Filho em “A crise nacional” foi incorporado por Fernando de Azevedo, um dos idealizadores da USP:
“Se é preciso, pois, reformar o processo eleitoral, pela obrigatoriedade do voto secreto e por todas as medidas que tenham por fim assegurar-lhe a verdade, não é menos necessário resolver, em bases sólidas e largas, o problema da educação nacional, não só para habilitar os cidadãos para o exercício dos seus deveres cívicos, como para a formação das classes dirigentes” (Azevedo, 1926, p. 4).
3.
No IV Centenário de São Paulo, em 25 de janeiro de 1954, O Estado de S. Paulo publicou um caderno especial contando a história da cidade. Fernando de Azevedo escreveu sobre a origem da Universidade de São Paulo:
“Seria preciso ou ao menos conveniente, para erguê-la em sólidos alicerces, proceder uma larga sondagem, em debate público, e preparar a opinião, ainda totalmente desinteressada do problema universitário como, de modo geral, das questões referentes à educação. Daí o inquérito que, para O Estado de S. Paulo, me solicitou, em 1926, Júlio de Mesquita Filho. (…) O ‘Manifesto dos pioneiros da educação nova’, dirigido ao povo e ao governo e publicado no O Estado de S. Paulo de 20 de março de 1932, provocara o maior movimento que se registrou no país, de renovação e expansão do pensamento educacional brasileiro. (…) A revolução paulista que estalou a 9 de julho, veio a pôr termo a seus trabalhos que apenas se iniciaram” (1954, p. 95).
O grupo político-empresarial ligado a Júlio de Mesquita Filho envolveu-se diretamente na chamada Revolução de 1932. Para estimular a população civil a se alistar nas tropas que enfrentariam o exército comandado por Getúlio Vargas, O Estado de S. Paulo e outros jornais forjaram a ideologia da raça privilegiada dos paulistas.
Um dos elementos principais dessa ideologia foi a construção da figura épica e heroica dos bandeirantes. Contribuíram para esse mito dos bandeirantes as posições defendidas pelo jurista e sociólogo Oliveira Vianna:
“os primitivos colonizadores lusos, de quem descendem, representam a porção mais eugênica da massa peninsular: porque, por uma lei de antropologia social, só emigram os caracteres fortes, ricos de coragem, imaginação e vontade. Na sua espantosa energia e fortaleza moral, os caudilhos bandeirantes bem revelam quão poderosas foram essas reservas de eugenismo acumuladas nos primeiros séculos” (1938/1920, p. 92).
Na capa de uma das edições do Jornal das Trincheiras, criado durante as batalhas entre as tropas paulistas e o exército, há um artigo intitulado “Eterno Bandeirante”:
“A tradição bandeirante varou os séculos, espelho da grande alma antiga: altiva, aguerrida e indomável. (…) Como se tanto e muito mais não bastasse, vendo periclitar nas sombras do ilusionismo ditatorial a luminosa integridade da pátria, ela que se arroja, a mesma gente do Piratininga, a mesma raça altiva e generosa, para depositar ante o Brasil a dádiva suprema de seu ouro, de seu sangue e de seu admirável idealismo” (Jornal das Trincheiras, 1932, p. 1).
Em carta aberta ao presidente da Academia Brasileira de Letras, o escritor e imortal Guilherme de Almeida evoca o recorte racial ao cobrar o apoio da instituição à campanha constitucionalista: “Considerando que uma neutralidade, neste momento vital e decisivo para nossa raça e nossa civilização, não corresponderia às nobilíssimas tradições de dignidade e coragem da Academia Brasileira Letras” (Diário Nacional: a democracia em marcha, 1932c, p. 4).
4.
Num discurso proferido na Rádio Sociedade Record, em São Paulo, e reproduzido pelo Diário Nacional, jornal do Partido Democrático (PD), Dom Carlos Duarte da Costa, bispo de Botucatu, também associa a bravura dos paulistas ao recorte racial: “Terra de homens notáveis pela sua santidade, pelo saber e pela bravura, na hora cívica que atravessa, S. Paulo lega à posteridade o vigor de sua raça, o fervor de sua fé” (Diário Nacional: a democracia em marcha, 1932b, p. 4).
Na mesma emissora, o empresário e líder ruralista Bento de Abreu Sampaio Vidal menciona os bandeirantes em seu discurso de apoio às tropas paulistas:
“A estupenda organização paulista, sem igual no mundo e que conta entre outros feitos, a formação da cidade de Marília, em plena mata virgem, no sertão, com 1600 prédios, em cinco anos, sem exemplo no mundo, é baseada na raça forte dos bandeirantes, que fizeram grande o Brasil, e essa raça desenvolveu-se nas lides rurais, e ali ainda reside hoje a grande força propulsora da riqueza do nosso Estado” (Diário Nacional: a democracia em marcha, 1932a, p. 3).
Em Rótulas e mentiras: evocações do passado paulista, publicado no início de 1932, Edmundo Amaral elogia a raça paulista.[ii] Em sua resenha do livro, Mozart Firmeza (1932) indica a relação das ideias do autor com a campanha constitucionalista. Num dos ensaios, Amaral aproxima a nobreza paulista do arianismo nazista:
“Nesse momento da história do mundo em que outra vez se desenha a luta das raças; agora que o crescente símbolo do homo asiaticus tomou a forma da foice bolchevista, (…) em que o semita Trotsky e o mongoloide Lenine desencadearam esse novo ataque dos bárbaros contra a civilização cristã ariana e que tomou o nome marxista de Comunismo; (…) agora que Hitler, na Alemanha, agita todas as forças da raça, num movimento de recomposição ariana; agora que a Contrarrevolução começou e que as forças do bem reagem vitoriosas contra as forças do mal, é também grato a nós arianos dessas terras da América recordar a nobreza paulista, essa esplêndida expressão de arianismo coordenador no tempo colonial de índios e de aventureiros” (Amaral, 1939/1932, p. 437-438).[iii]
5.
Os paulistas perderam a guerra civil. Em 29 de setembro de 1932, Pedro de Toledo, governador de São Paulo, anunciou o pedido de armistício:
“Tendo o comandante do exército constitucionalista, general Bertoldo Klinger, ‘com o fito de não causar à nação mais sacrifícios de vidas, nem mais danos materiais’, proposto à ditadura a imediata suspensão das hostilidades, a fim de serem assentadas as medidas para a cessação da luta armada – dirigimos a toda a população paulista um apelo, no sentido de confiar na atuação das autoridades civis e militares. Conservar-se-á o governo do Estado no seu posto até que, assinado o armistício, sejam feitas as negociações para o restabelecimento da paz” (Folha da Manhã, 1932, p. 1).
Após o armistício, os irmãos Francisco e Júlio de Mesquita Filho, assim como os principais líderes da campanha constitucionalista, foram levados para Casa de Correção, no Distrito Federal (Salone, 2019). Em outubro de 1932, Afrânio de Melo Franco, ministro da justiça, determinou a expatriação dos presos políticos.
No ano seguinte, inicia-se a conciliação entre Getúlio Vargas e os empresários e políticos paulistas. Com o retorno do exílio, Júlio de Mesquita Filho retoma o projeto de criação da USP. Pelo relato de Fernando de Azevedo:
“É nomeado Interventor Armando Salles, conforme as reivindicações dos partidos que reclamavam, para o Estado, o governo de um ‘paulista civil’, e os exilados, para alegria de todos, voltam à terra natal. Em meados de dezembro de 1933, pouco depois de seu regresso, (…) Júlio de Mesquita Filho, em seu nome e no de Armando Salles, me convocava ainda uma vez para a mesma luta, consultando-me se ainda estava disposto a trabalhar pela criação da Universidade” (1954, p. 95).
Para Júlio de Mesquita Filho, ainda que em outro campo de batalha, a criação da USP demonstrava a supremacia dos paulistas:
“Vencidos pelas armas, sabíamos perfeitamente que só pela ciência e pela perseverança, no esforço voltaríamos a exercer a hegemonia que durante longas décadas desfrutáramos no seio da federação. Paulistas até a medula, herdamos da nossa ascendência bandeirante o gosto pelos planos arrojados e a paciência necessária à execução dos grandes empreendimentos” (2010/1958, p. 138-139).
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*Paulo Fernandes Silveira é professor da Faculdade de Educação da USP e pesquisador do Grupo de Direitos Humanos do IEA-USP.
Referências
AMARAL, Edmundo (1939/1932). Nobreza paulista, Anuário Genealógico Brasileiro, n. 1, p. 427-438. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=063665&pagfis=438
A TRIBUNA (1931). A crise financeira alemã, A Tribuna, 8 de setembro de 1931, p. 1. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=153931_01&pagfis=8354
AZEVEDO, Fernando (1926). Bibliografia, O Estado de São Paulo, 27 de fevereiro de 1926, p. 4. Disponível em: https://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19260227-17168-nac-0004-999-4-not
AZEVEDO, Fernando (1954). A Universidade de São Paulo, O Estado de São Paulo, 25 de janeiro de 1954, p. 95-96. Disponível em: https://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19540125-24144-nac-0095-esp-95-not
CARDOSO, Irene (1982). A universidade da comunhão paulista. São Paulo: Cortez.
CARDOSO, Irene (1973). Entrevista com Roger Bastide, Discurso, n. 16, p. 181-197. Disponível em: https://revistas.usp.br/discurso/pt_BR/article/view/37925
DIÁRIO NACIONAL: A DEMOCRACIA EM MARCHA (1932a). A lavoura na guerra, Diário Nacional: a democracia em marcha, 16 de agosto de 1932, p. 3. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=213829&pasta=ano%20193&pagfis=15749
DIÁRIO NACIONAL: A DEMOCRACIA EM MARCHA (1932b). S. Paulo levanta um altar de heroísmo nunca visto na História da Pátria, Diário Nacional: a democracia em marcha, 4 de setembro 1932, p. 4. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=213829&pasta=ano%20193&pagfis=15886
DIÁRIO NACIONAL: A DEMOCRACIA EM MARCHA (1932c). O movimento constitucionalista e a Academia Brasileira de Letras, Diário Nacional: a democracia em marcha, 9 de setembro de 1932, p. 1. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=213829&pasta=ano%20193&pagfis=15902
DUARTE, Paulo (2010). Paulo Duarte II (depoimento, 1977). Rio de Janeiro: CPDOC. Disponível em: https://www18.fgv.br/cpdoc/storage/historal/arq/Entrevista529.pdf
FIRMEZA, Mozart (1932). A altivez de Borba Gato, Diário Nacional: a democracia em marcha, 31 de julho de 1932, p. 4. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=213829&pasta=ano%20193&pagfis=15646
FOLHA DA MANHÃ (1932). Ao povo, Folha da Manhã, 30 de setembro de 1932, p. 1. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=186554_02&pasta=ano%20193&pagfis=12788
GIRON, Luís (2015). Laboratório modernista, Folha de S. Paulo, Ilustríssima, 20 de dezembro de 2015. Disponível em: https://arte.folha.uol.com.br/ilustrissima/2015/12/20/oswald-de-andrade/
JORNAL DAS TRINCHEIRAS (1932). Eterno bandeirante, Jornal das Trincheiras, n. 12, 22 de setembro de 1932, p. 1. Disponível em: https://bd.camara.leg.br/bd/items/d4268f6a-38f3-48b0-9505-a637ba99a949
MESQUITA FILHO, Júlio (1925). A crise nacional, O Estado de São Paulo, 15 de novembro de 1925, p. 2. Disponível em: https://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19251115-17066-nac-0002-999-2-not
MESQUITA FILHO, Júlio (2010/1958). Pensamento diretor dos fundadores da Universidade de São Paulo. In. PONTES, José (2010). Júlio de Mesquita Filho. Recife: Ministério da Educação (MEC); Fundação Joaquim Nabuco; Editora Massanguana, p. 118-147. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/me4710.pdf
SALONE, Roberto (2019). Irredutivelmente liberal: política e cultura na trajetória de Júlio de Mesquita Filho. São Paulo: Terceiro Nome; Albratroz.
SILVEIRA, Paulo (2025). Florestan Fernandes e os exames de madureza, A Terra é Redonda, 26 de agosto de 2025. Disponível em: https://aterraeredonda.com.br/florestan-fernandes-e-os-exames-de-madureza/
VIANNA, Oliveira (1938/1920). Populações meridionais no Brasil. São Paulo; Rio de Janeiro; Recife; Porto Alegre: Companhia Editora Nacional. Disponível em: https://brasilianadigital.com.br/colecao-brasiliana/obra/153/populacoes-meridionais-do-brasil/pagina/122/txt
Notas
[i] Florestan Fernandes, o estudante da Faculdade de Filosofia da USP que foi escolhido por Roger Bastide para assumir o seu lugar, quando este retornou para França, era filho de Maria Fernandes, uma camponesa portuguesa que migrou para o Brasil no início do século XX (Silveira, 2025).
[ii] O escritor e jornalista Edmundo Amaral compartilhou a garçonnière de Oswald de Andrade, na rua Líbero Badaró, centro da cidade de São Paulo (Giron, 2015). Compartilharam dessa mesma garçonnière intelectuais que participaram da campanha constitucionalista: Guilherme de Almeida, Monteiro Lobato, Menotti del Picchia e Vicente Rao.
[iii] Alguns meses antes da publicação desse livro, o jornal santista no qual Edmundo Amaral colaborava publicou uma reportagem sobre as ações da Tropa de Assalto (Sturmabteilung), comandada por Hitler: “Na última reunião do chefe dos ‘Capacetes de Aço’, o comandante da província de Brandenburgo noticiou que está concluído o acordo com as Tropas de Assalto racistas, para uma ação comum eventual contra os comunistas” (A Tribuna, 1931, p. 1).




