Justiça do Rio remete caso da Ocupação Luiza Mahin para comissão de soluções fundiárias

Futuro do imóvel para habitação de interesse social compete com destinação para Arquivo Nacional

por Olivia Mesquita, em Brasil de Fato

A 27ª Vara Federal do Rio de Janeiro encaminhou o caso da Ocupação Luiza Mahin para a Comissão de Soluções Fundiárias do Tribunal Regional Federal (TRF2) na última semana. A decisão é o primeiro passo para definir o futuro do prédio abandonado na Rua Santa Alexandrina, nº 416, no bairro Rio Comprido, zona central da cidade.

Professora da Faculdade de Direito da UFRJ e integrante da Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares (Renap), Mariana Trotta explica que a reintegração de posse em favor da União não prevê a retirada forçada das famílias, mas sim a garantia de que elas tenham seus direitos preservados ao longo da mediação.

“O magistrado entendeu que não deve ser utilizado qualquer tipo de violência das forças de segurança sem o encaminhamento do caso para a Comissão de Soluções Fundiárias”, pontua ao Brasil de Fato. Outra possibilidade para o imóvel envolve destinação ao Arquivo Nacional, segundo a Secretaria de Patrimônio da União (SPU).

O prédio federal que hoje abriga mais de 100 famílias organizadas no Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) pertenceu ao extinto Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER) e, depois, ao Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) em 1992. Mesmo sem uso há anos, o imóvel ainda não foi integrado ao programa de democratização dos imóveis da União.

Diante desse cenário, famílias organizadas no MLB ocuparam o prédio no dia 7 de agosto. Os novos moradores passaram a realizar ações de limpeza e manutenção para resgatar a função social do espaço. Uma creche e uma cozinha coletiva têm funcionado para garantir alimentação e cuidados diários.

Próximos passos

A decisão da Vara Federal menciona uma série de etapas que devem ser cumpridas pelo poder público, como visitas técnicas e o cadastramento das famílias em serviços emergenciais de assistência social e moradia da Prefeitura do Rio. A comissão do TRF2 vai promover visita do magistrado ao local para que ele possa conhecer as famílias e, posteriormente, realizar audiências de conciliação com a SPU e demais órgãos responsáveis.

“A expectativa é que, após essa visita técnica, se abra um espaço para debater a destinação do prédio para habitação de interesse social. O governo Lula tem uma política denominada Imóvel da Gente, fóruns de democratização de imóveis da União. Esperamos, na reeleição do presidente Lula, a possibilidade de inserção desse prédio que descumpre a função social há tantos anos na política de habitação de interesse social. E para a garantia do direito à moradia adequada dessas 120 famílias que já passaram por vários despejos nessa luta”, completa Mariana Trotta, coordenadora do Núcleo de Assessoria Jurídica Popular Luiza Mahin da FND/UFRJ.

A Procuradoria do Direito do Cidadão do Ministério Público Federal (MPF) e a Defensoria Pública da União (DPU) já haviam se manifestado no processo pela necessidade de resolução do conflito, considerando a situação de vulnerabilidade das famílias.

O procurador dos Direitos do Cidadão do MPF, Julio Araújo, defendeu a função da Comissão de Soluções Fundiárias nesse contexto. “É uma ótima oportunidade para discutir as omissões da União, suas intenções e as possibilidades de conciliação com os ocupantes. É um imóvel público que não cumpre a sua função social, e que, em situações como essa, é necessário haver intervenção para permitir que se destrave o diálogo”, disse.

As comissões de conflitos fundiários nos tribunais regionais surgiram a partir da luta dos movimentos populares com a campanha nacional Despejo Zero, em que inicialmente houve a suspensão das remoções forçadas no contexto da pandemia. Depois, no âmbito da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 828, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou a criação das comissões e de novas regras para orientar a resolução dos conflitos.

Impasse

A assessoria da SPU informou ao Brasil de Fato que acompanha a ocupação com o objetivo de uma solução negociada e pacífica, em cumprimento às ressalvas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). 

A nota afirma que a Superintendência do Rio de Janeiro teria se reunido com “interlocutores do MLB para negociar a desocupação do imóvel, que está em processo de destinação ao Arquivo Nacional”. No entanto, representantes do MLB negaram tratativas nesse sentido.

Segundo Poliana de Souza, da coordenação nacional do MLB, o diálogo estabelecido ocorreu na primeira semana de ocupação. “Não tem nenhum diálogo sendo feito para desocupação. O processo foi encaminhado para a comissão de conflitos fundiários para pensar as tratativas em torno da necessidade das famílias. O MBL está reivindicando que este imóvel seja destinado à habitação”, reafirmou.

A União tem prazo de dez dias para apresentar os documentos relativos à destinação do imóvel ao Arquivo Nacional. No mesmo prazo, a Prefeitura do Rio foi intimada a realizar o cadastro das famílias e informar quais serviços, programas ou medidas emergenciais podem ser disponibilizados em caso de desocupação. A Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros também devem inspecionar o imóvel e apresentar relatório sobre condições de segurança.

“A inspeção possui finalidade exclusiva de proteção da vida e da integridade física das pessoas e não se confunde com o cumprimento da ordem de reintegração de posse”, afirma o juiz federal Jhonny Kenji Kato, da 27ª Vara. A Prefeitura do Rio não retornou o pedido de posicionamento sobre o andamento do cadastro das famílias.

Editado por: Vivian Virissimo

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