Professora emérita da UFPA, ativista foi uma das principais vozes do movimento negro no país, com atuação na criação das cotas e em articulações internacionais. O velório foi no Teatro Waldemar Henrique.
Por g1 Pará
Morreu nesta terça-feira (8), aos 76 anos, a professora, pesquisadora e ativista Zélia Amador de Deus em Belém. Zélia é uma das principais referências da luta antirracista no Brasil. Nascida no Marajó e filha de uma empregada doméstica, ela construiu uma trajetória que a levou à condição de professora emérita da Universidade Federal do Pará (UFPA), e a espaços nacionais e internacionais de defesa dos direitos da população negra.
Ela foi uma das fundadoras do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa) e do Grupo de Estudos Afro-Amazônicos (GEAM-UFPA), presidiu a Associação Brasileira de Pesquisadores Negros e participou da articulação pela implantação do sistema de cotas para pessoas negras nas universidades.
Em 2001, integrou a comissão brasileira na Conferência Mundial contra o Racismo da Organização das Nações Unidas (ONU), em Durban, na África do Sul.
O Governo do Pará decretou luto de três dias no estado.
Segundo familiares, Zélia fazia tratamento contra um câncer de mama. Na tarde desta terça-feira, ela passou mal e foi levada a um hospital, onde morreu. A família não informou detalhes sobre o quadro de saúde nem a causa da morte.
O velório da professora foi iniciado no Teatro Waldemar Henrique, a partir das 22h.
Do Marajó à universidade
Zélia nasceu em uma fazenda na Ilha do Marajó e, ainda no primeiro ano de vida, foi morar em Belém, onde foi criada pelos avós. A mãe engravidou aos 15 anos e trabalhava como empregada doméstica.
Em entrevista ao g1, em 2018, Zélia contou que a educação foi determinante para mudar os rumos de sua vida.
“Minha mãe engravidou aos 15 e era mãe solteira, foi empregada doméstica a vida toda […]. Mas eu tive sorte porque meus avós me incentivaram a estudar. Na verdade eu me safei pela educação. Lembro muito bem da minha avó me dizendo ‘tu és preta, mas não baixa tua cabeça’”, contou.
Aluna de escolas públicas de Belém, Zélia chegou a dar aulas para colegas em troca de dinheiro para pagar as passagens de ônibus. Mais tarde, ingressou na universidade, concluiu o doutorado e passou a atuar como professora da UFPA.
A militância também começou cedo. Ela participou de manifestações políticas ainda na juventude e, no fim da década de 1970, acompanhou a reorganização do movimento negro no Brasil.
Em 1980, ajudou a fundar o Cedenpa. Segundo Zélia, aquele período marcou uma mudança na luta contra o racismo, que passou a cobrar também políticas públicas para enfrentar as desigualdades.
“A partir desse contexto do início dos anos 80 que o movimento começa a não somente denunciar o racismo, mas pensar políticas públicas de ação afirmativa, a fim de tentar diminuir as desigualdades”, afirmou ao g1.
Cotas e atuação internacional
A defesa das ações afirmativas se tornou um dos principais eixos da atuação de Zélia. Ela participou das articulações que levaram à adoção de cotas para pessoas negras nas universidades públicas.
Em 2001, esteve entre os representantes brasileiros na Conferência Mundial contra o Racismo, em Durban. Ao lembrar daquele período, destacou a mobilização feita após o retorno ao Brasil.
“Éramos um grupo forte, articulado, que retorna ao Brasil para cobrar diversas políticas, entre elas o sistema de cotas nas universidades públicas”, disse.
Zélia também se tornou referência nos debates sobre as desigualdades enfrentadas pela população negra e, especialmente, pelas mulheres negras.
“A população negra acumula desde então desigualdades em todas as esferas: saúde, educação, perspectiva de vida, absolutamente todas”.
Homenagens em vida
A trajetória de Zélia recebeu uma série de homenagens. Em 2019, ela recebeu o título de professora emérita da UFPA.
Em 2021, foi homenageada pelo Prêmio de Direitos Humanos da BrazilFoundation, organização internacional que apoia iniciativas de combate à desigualdade social no Brasil. A cerimônia foi realizada em Nova York, nos Estados Unidos, e Zélia participou de forma virtual.
No mesmo ano, a história da professora virou o documentário “Amador, Zélia”. Ela também foi tema de samba-enredo da escola de samba Os Colibris, de Belém.
Uma das homenagens mais recentes ocorreu em 18 de agosto deste ano, menos de um mês antes da morte. Zélia participou do plantio de um baobá em sua homenagem no Campus Guamá da UFPA, em Belém.
“Esse baobá representa muito para mim, porque fala de ancestralidade, de memória e daqueles que vieram antes de nós. Estou muito emocionada e só tenho a agradecer por esta homenagem”, afirmou na ocasião.
Ao longo da vida, Zélia apontava a educação como uma das principais ferramentas para enfrentar as desigualdades.
“Falta empatia. Se colocar no lugar do outro. Conhecer verdadeiramente a história do país. Entender nossa identidade. E isso vem através da educação, com o que trabalho pela vida inteira”, disse ao g1.
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Enviada para Combate Racismo Ambiental por Manoela Ferreira.




