Os rumos da política, muito além das urnas

Em 2026, está em jogo qual interpretação do Brasil será capaz de enfeixar experiências dispersas e dar-lhes sentido comum. É possível disputar valores como liberdade, individualismo e memória para reconquistar o direito de imaginar e construir um futuro diferente?

Por Wesley Sousa, em Outras Palavras

As eleições de 2026 se aproximam em uma atmosfera política que combina incerteza, fadiga e a sensação de que os ventos rumaram para a permanente letargia. A extrema direita continua sendo uma força social e política capaz de organizar ressentimentos, medos e frustrações. A esquerda, por sua vez, enfrenta uma dificuldade que vai além da disputa eleitoral imediata: precisa defender a democracia sem reduzir a política à simples defesa das instituições existentes.

Esse é, talvez, o problema decisivo. Não basta perguntar quem vencerá as eleições. Sustentaria que é preciso perguntar qual interpretação da sociedade brasileira será capaz de organizar uma maioria política. As pesquisas registram oscilações, aproximações e distanciamentos entre candidatos. Mas a questão mais profunda está em outro lugar: na capacidade – ou incapacidade – de transformar experiências sociais dispersas em uma interpretação política do presente.

O contraste entre Luis Lacalle Pou e Yamandú Orsi, analisado por Andrés del Río, oferece uma chave interessante para pensar o problema. A disputa entre diferentes maneiras de falar sobre liberdade, democracia e memória revela que a política não se limita à administração do presente. Ela envolve também uma disputa pela linguagem através da qual uma sociedade interpreta a si mesma.

A política começa antes da urna. Começa quando determinados problemas passam a ser considerados inevitáveis e outros intoleráveis. Quando certas formas de desigualdade são apresentadas como naturais. Quando a memória de determinados acontecimentos é preservada e outros são apagados. Quando palavras como liberdade, democracia, segurança e justiça passam a organizar posições sociais diferentes.

É nesse terreno que a esquerda enfrenta uma dificuldade que não pode ser subestimada. Uma das características mais importantes da política contemporânea é que a direita conseguiu transformar a liberdade em uma de suas principais bandeiras. A eficácia desse discurso não deve ser desprezada. Embora trata-se da ideologia, ele se dirige diretamente à experiência do indivíduo em uma sociedade marcada por insegurança, desconfiança e perda de controle sobre o próprio futuro. O problema é que essa concepção de liberdade tende a apagar as condições materiais que tornam possível – ou impossível – exercer efetivamente a liberdade.

Diria que uma interpretação interessante é a de Ellen Meiksins Wood, quando retomada como uma referência direta ao problema. Em Democracy Against Capitalism (Democracia contra o capitalismo), a autora chama atenção para uma contradição fundamental das sociedades capitalistas: a ampliação da igualdade política não eliminou as profundas desigualdades econômicas. A democracia pode reconhecer indivíduos formalmente iguais enquanto preserva relações sociais profundamente assimétricas de poder (Wood, 1995).

Um grande proprietário e um trabalhador precarizado são juridicamente livres. Mas não dispõem dos mesmos recursos para determinar as condições de sua própria existência. O trabalhador de uma plataforma digital pode ser chamado de autônomo. Mas sua atividade é organizada por sistemas que controlam preços, acesso ao trabalho, avaliações e ritmo de produção. O pequeno empreendedor pode ser formalmente proprietário de seu negócio, mas permanecer submetido ao endividamento, à dependência do crédito e à concorrência desigual com grandes empresas.

Essa é uma questão que a esquerda deveria recolocar no centro do debate. Não para negar a liberdade individual, mas para perguntar quais condições sociais permitem que ela deixe de ser apenas um direito formal e passa a ser mediada pela mercadoria, pelo trabalho assalariado e pela reprodução de capital.

A democracia termina onde começa a economia. Uma das contribuições mais importantes de Ellen Wood foi mostrar que a democracia capitalista convive com relações econômicas profundamente desiguais. O capitalismo não precisa abolir as instituições democráticas para preservar o poder da propriedade. Basta manter uma parte decisiva da vida social fora do alcance da decisão democrática.

É possível votar em governos, mas não votar nas decisões de uma empresa que afetam milhares de trabalhadores; é possível escolher representantes, mas não decidir coletivamente sobre o destino dos investimentos; é possível possuir direitos políticos, mas depender da venda permanente da força de trabalho para sobreviver.

A separação entre economia e política, analisada por Wood, é precisamente uma das características históricas do capitalismo. Decisões que produzem efeitos sociais profundos aparecem como decisões privadas, econômicas ou técnicas (Wood, 1995). Esse problema para a esquerda é central: quando chega ao governo, ela se depara com aquilo que costuma ser chamado de “realidade”. Mas existe uma diferença entre reconhecer uma correlação de forças e transformá-la em destino. Quando toda política se reduz à administração do possível, aquilo que deveria ser objeto de disputa passa a ser apresentado como inevitável.

A política perde seu conflito. Portanto, quando a política perde o conflito, alguém tratará de devolvê-lo à sociedade. A tradição marxista sempre teve de enfrentar – e também construiu grandes debates – a relação entre Estado e transformação social. Nicos Poulantzas, por exemplo, tratou criticamente da ideia de que o Estado seria um instrumento externo, que uma classe poderia tomar e utilizar sem mediações. O Estado é atravessado pelas relações de força existentes na sociedade e participa da organização dessas próprias relações (Poulantzas, 1978). Não se governa o Estado de fora da sociedade. Não existe um governo capaz de ignorar as forças econômicas, as instituições, as classes sociais e os interesses organizados que constituem a própria estrutura do poder.

O problema surge quando a governabilidade se transforma em horizonte. Nesse momento, a política deixa de perguntar o que pode ser modificado e passa a perguntar apenas o que pode ser administrado sem produzir conflitos excessivos. Porque a extrema direita não possui o mesmo compromisso com a administração racional das contradições. Ela pode transformar qualquer frustração em antagonismo. Pode transformar dificuldades estruturais em culpados concretos. Pode transformar a política em uma guerra permanente contra inimigos reais ou imaginários. É insuficiente, entretanto, explicar o crescimento da extrema direita apenas pela desinformação, pelas redes sociais ou pelos algoritmos. Tudo isso existe e importa, mas o ressentimento não é produzido do nada, porque há uma experiência material por trás dele.

Há trabalhadores submetidos à precarização, assim como há jovens sem perspectivas de estabilidade. Milhões de pessoas que trabalham mais horas e não conseguem imaginar uma melhora significativa em suas condições de vida. A transformação do capitalismo nas últimas décadas modificou profundamente a experiência do trabalho (Harvey, 2011). De fato, vale reafirmar que a classe trabalhadora não desapareceu. O trabalhador contemporâneo pode ser entregador, motorista de aplicativo, empregado terceirizado, servidor público, trabalhador informal, professor, operador logístico, funcionário do comércio ou pequeno proprietário permanentemente ameaçado pelo endividamento. O problema, sem dúvidas, não é a ausência de classe. Trata-se da dificuldade de produzir uma representação política capaz de unificar experiências que aparecem de maneira fragmentada. A dominação não depende apenas da coerção; ela depende também da capacidade de uma determinada visão de mundo tornar-se senso comum.

Existem, aqui, alguns elementos determinantes para a práxis vinculante: quando a desigualdade aparece como resultado exclusivo do mérito, uma relação social transforma-se em qualidade individual; quando a precariedade aparece como inevitável, uma forma histórica de organização do trabalho transforma-se em destino; quando a liberdade é identificada exclusivamente com propriedade e mercado, desaparece a questão sobre quem efetivamente possui condições materiais para exercer essa liberdade.

A disputa sobre o passado continua sendo uma disputa sobre o significado da democracia. Mas a memória não pode se tornar um ritual destinado apenas àqueles que já compartilham determinadas convicções. Surge a incômoda e a sincera pergunta: por que a democracia importa para quem não consegue emprego? Por que os direitos humanos importam para quem vive em uma região submetida cotidianamente à violência? Por que as instituições democráticas importam para quem percebe o Estado apenas como ausência, burocracia ou repressão?

Essas perguntas não podem ser deixadas para a direita. A esquerda, por sua vez, não pode disputar a eleição apenas pelo medo. O medo da extrema direita é real. O risco autoritário é factível, é verdade; porém, a direita oferece uma narrativa de futuro, ainda que frequentemente construída sob a forma da nostalgia ou mesmo associada ao terrorismo moral. Promete recuperar uma ordem perdida, restaurar uma autoridade imaginada e devolver ao indivíduo um controle que o próprio capitalismo contemporâneo tornou cada vez mais difícil.

Lembraria ainda aqui, como demonstra Roberto Schwarz, a experiência histórica brasileira exige atenção às formas concretas através das quais ideias, instituições e relações sociais se realizam em uma sociedade marcada por modernização desigual, dependência e profundas hierarquias sociais (Schwarz, 1992). Se não existe uma democracia abstrata que possa ser aplicada ao Brasil, porque o que existe é a “democracia brasileira”, com sua história de escravidão, autoritarismo, desigualdade e exclusão.

As eleições não decidem apenas quem ocupará a Presidência da República. Elas colocam em disputa diferentes maneiras de interpretar o Brasil. De um lado, uma política que tende a traduzir problemas sociais em fracassos individuais, conflitos morais ou inimigos políticos. Por outro, a possibilidade de reconstruir uma interpretação capaz de mostrar que grande parte daquilo que aparece como problema individual possui causas sociais. A eleição de 2026 será, inevitavelmente, uma batalha defensiva em muitos aspectos. Será preciso defender direitos, instituições e garantias democráticas diante de forças que continuam a representar uma ameaça real. Ainda que, nesse caso, o próximo presidente nomeará 3 novos Ministros para o STF (em “crise”).

A extrema direita demonstrou que é possível organizar politicamente a insatisfação, mesmo que precise falsear a imaginação política. A tarefa da esquerda restou impedir que ela continue sendo a única força capaz de fazê-lo. A dificuldade é que, no caso do lulismo, ele se tornou sinônimo de paralisia mobilizadora de massa. Apesar disso, será necessário transformar experiências individuais em problemas coletivos, problemas coletivos em conflitos políticos e conflitos políticos em projeto.

A resposta de Ellen Meiksins Wood, a meu ver, continua sendo um ponto de partida fundamental: a democracia só realiza plenamente sua promessa quando deixa de se limitar à esfera formal da política e começa a ampliar o poder efetivo das pessoas sobre as condições de sua existência. Mas quem conseguirá convencer a sociedade de que o futuro ainda pode ser objeto de decisão coletiva – situação que atravessa a gestão política dos algoritmos. A esquerda precisa, em suma, voltar a disputar aquilo que talvez seja hoje o terreno político mais importante de todos: o direito de imaginar um futuro diferente – e o poder de construí-lo.


Referências

DEL RÍO, Andrés. Lacalle Pou x Yamandú Orsi. A Terra é Redonda, [S. l.], [s. d.]. Disponível em: A Terra é Redonda – Lacalle Pou x Yamandú Orsi. Acesso em: 14 set. 2026.

HARVEY, David. O enigma do capital e as crises do capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2011.

POULANTZAS, Nicos. O Estado, o poder, o socialismo. Rio de Janeiro: Graal, 1980.

SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. 5. ed. São Paulo: Duas Cidades, 2000.

WOOD, Ellen Meiksins. Democracy against capitalism: renewing historical materialism. Cambridge: Cambridge University Press, 1995.

WOOD, Ellen Meiksins. The retreat from class: a new “true” socialism. London: Verso, 1996.

1 Doutorando em Filosofia pela UFMG.

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