Comunicação político-eleitoral nas redes: projeções de um Brasil melhor ou retaliação política? Entrevista especial com Joscimar Silva

O nível da radicalização pode ser levado ao extremo no país. É claro que não estamos falando isso de toda a sociedade, mas o que temos visto é uma tendência dessa cisão, afirma o pesquisador

Por: Luana de Oliveira, em IHU

Em um país hiperconectado, alguns discursos eleitorais podem se sobressair mais que outros. Neste contexto em que o político vira influenciador digital, grande parte das propostas são esvaziadas (ou nem sequer são apresentadas), sendo levado em consideração somente afetos e simpatias políticas por aquele que performa.

Segundo dados da Câmara dos Deputados, 72% dos 7.679 candidatos a deputado federal declararam usar o Instagram em suas campanhas digitais, onde muitos possuem mais de um perfil vinculado à candidatura. No campo digital das big techs, aqueles que performam e influenciam mais, inclusive com discursos de ódio, são os que ganham mais curtidas e seguidores que, a partir deste contato, se tornam apoiadores políticos.

Em entrevista especial, concedida por videochamada ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, o pesquisador Joscimar Silva explica que entre os discursos políticos na internet cria-se “uma narrativa de um grande inimigo a ser combatido, a ser eliminado, sendo um opositor e um adversário legítimo. Talvez com tons de manipulação, já que foge da realidade. Ao mesmo tempo, isso acabou se tornando um modelo de estratégia de campanha, tanto na forma de produzir quanto de difundir conteúdo”.

O pesquisador afirma também que, entre partidos de esquerda e direita no âmbito online, há uma luta quase desigual, pois “já temos muitos indícios de que as big techs podem estimular ou dar condições para a viralização e para um alcance muito maior de alguns candidatos do que de outros”.

Joscimar Silva é professor no Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB). Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), exerce o cargo de Conselheiro Consultivo na Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (ABRAPEL), coordena a Rede de Pesquisa Comunicación Política y Comportamiento Electoral en America Latina (Grupo LATICOM), da Associação Latinoamericana de Ciência Política (ALACIP) e é bolsista-doutor no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Lidera o grupo Informação Pública e Eleições (Ipê) na UnB e coordena o Politeia, maior projeto de simulação do legislativo brasileiro, fruto de parceria entre a UnB e a Câmara dos Deputados. O professor tem como foco a pesquisa nas áreas de Opinião Pública, Comunicação Digital e Eleições.

Confira a entrevista.

IHU – Como a crise do Supremo Tribunal Federal (STF) tem mobilizado os discursos de direita e esquerda nas redes sociais? Que impacto esses discursos e a crise institucional do STF podem ter nas eleições dos próximos dias?

Joscimar Silva – Nos dois lados, tanto na esquerda quanto na direita, os candidatos têm se mobilizado em torno da crise do STF e se posicionado a respeito dela. É interessante observar que ambos os campos se manifestaram em algum momento, com diferentes níveis de ênfase, mas compartilhando a ideia de que é preciso abrir tudo, quebrar o sigilo e esclarecer os fatos.

Por outro lado, os dois lados também têm interpretado esses acontecimentos de maneiras distintas. Existem duas narrativas concorrendo sobre a interpretação dos fatos, e isso tem mobilizado. Tenho trabalhado, em minha pesquisa, com candidatos a deputado federal sorteados aleatoriamente, de modo que temos, de alguma maneira, uma representação do conjunto desses candidatos.

Há uma porcentagem interessante, entre 12% e 15%, de candidatos que estão se posicionando em relação à crise. No entanto, esses posicionamentos também incorporam as narrativas de seus respectivos campos políticos, seja mais à esquerda, seja mais à direita.

Existe um número muito menor de candidatos que têm tentado preservar ou defender pessoas ligadas ao PT que estejam envolvidas no caso ou, mesmo no campo da direita, querendo defender Flávio Bolsonaro. São poucos os candidatos a deputado que têm articulado uma defesa explícita dessas pessoas.

Muitos apresentam determinadas narrativas, mas não necessariamente articulam uma defesa direta. Por exemplo, há muito mais candidatos na direita reproduzindo a narrativa de que Jair Bolsonaro é inocente do que candidatos defendendo, especificamente, a ideia de que Flávio Bolsonaro não teria vínculo com o escândalo envolvendo o Banco Master.

Isso sugere que os candidatos a deputado não estão querendo se envolver diretamente com essa pauta ou mexer tanto com isso, até para não gerar um vínculo da própria campanha individual deles com esse escândalo em geral.

IHU – Como você tem analisado as estratégias de comunicação da extrema-direita? Suas propagandas em massa na mídia (inclusive com comerciais que alegam que Jair Bolsonaro é inocente) e os discursos com manipulação estratégica nas redes sociais podem influenciar parte da população que se encontra indecisa?

Joscimar Silva – A extrema-direita tem algumas estratégias de comunicação muito mais articuladas, muito mais bem elaboradas e mais profissionalizadas do que a esquerda. Um dos exemplos que temos é que, se hoje buscarmos no Instagram um perfil de Flávio Bolsonaro, vamos encontrar uns oito perfis. Há um oficial, declarado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas também há vários que são apresentados como perfis de apoiadores e que replicam conteúdo de campanha para várias pessoas, sem passar pelo crivo de verificação do TSE ou por uma denúncia de irregularidade.

Além disso, quando olhamos para os candidatos a deputados, encontramos muitos candidatos que não estão fazendo campanha para si, estão fazendo uma campanha contra o Lula. Não têm uma proposta apresentada, não têm um problema da região ou do Estado sendo colocado, apenas uma campanha nacionalizada e contra o PT. Então, eu nem diria que seja uma manipulação, mas uma estratégia de fazer campanha em uma sociedade em que há um problema de desordem informacional. Isso aumenta as chances de ideias simplistas e propostas pouco desenvolvidas, que não precisam passar pelo crivo ou ser contestadas.

Cria-se, na verdade, uma narrativa de um grande inimigo a ser combatido, a ser eliminado, sendo um opositor e um adversário legítimo. Talvez com tons de manipulação, já que foge da realidade. Ao mesmo tempo, acho que isso acabou se tornando um modelo de estratégia de campanha, tanto na forma de produzir quanto de difundir conteúdo.

Há redes muito estruturadas, com grandes divulgadores de conteúdo, divulgadores menores até chegar aos pequenos divulgadores, para chegar a uma rede nerd. Ou seja, existe uma cadeia de produção e difusão de conteúdo muito bem estruturada, da qual outros grupos políticos poderiam aprender a como produzir essa cadeia de conteúdo muito bem estruturada, para que sua mensagem também chegue ao público que, às vezes, não está interessado em política e que precisa de uma comunicação menos codificada e menos complexa. Então, por outro lado, o que vejo é uma estratégia muito bem estruturada de comunicação política no ambiente digital.

E aí existe um problema que não é positivo e que é prejudicial, inclusive, à democracia: o problema da desinformação. Mas não vejo isso como uma estratégia puramente de manipulação, e sim como uma estratégia de difusão de mensagens muito bem estruturada.

IHU – Quais as principais estratégias utilizadas pelo governo Lula para se comunicar diretamente com a população nas redes sociais? As estratégias de campanha deste ano estão sendo eficazes para uma reeleição? A pauta contra a escala 6X1 pode ser positiva nesse momento?

Joscimar Silva – Sim, a pauta contra a escala 6×1 é positiva nesse momento. A esquerda precisa prometer algo novo, precisa trabalhar com uma estratégia de campanha que entregue promessas. Acho que a grande falha da comunicação política do governo Lula é a da não criação dessas redes digitais. Ou de esperar que agentes da sociedade civil criem essas redes sem que a campanha esteja conectando-as na produção e disseminação do conteúdo.

É necessário que essas redes sejam mobilizadas pela campanha. Aproveitar as redes sociais que já existem de base na sociedade civil, mas que tenham uma estratégia de comunicação pensada para conectar essas redes de base. Porque o grande alvo não é alcançar os eleitores já mobilizados. A estratégia deve alcançar aquele eleitorado que não está ainda muito interessado em política ou que, de alguma forma, não quer se identificar ou se declarar a um ou outro candidato. É esse grupo que vai decidir o resultado das eleições, especialmente dada a alta rejeição dos dois principais candidatos. Lula e Flávio têm uma alta rejeição.

Ou seja, é preciso coordenar essas redes de forma que elas alcancem esse eleitor indeciso, esse eleitor que ainda está volúvel e é maleável a mudar o seu voto. Percebo que essa coordenação não vem sendo feita.

Por exemplo, algo que foi dito do Flávio Bolsonaro ou do Renan Santos, em questão de segundos está chegando à base de eleitores indecisos. Já a campanha de Lula não, ela demora um tempo muito maior e depende de uma ação muito espontânea desses influenciadores menores de replicarem esse conteúdo.

Não há uma coordenação disso na esquerda. Acho que essa coordenação é que faria muito efeito no resultado da campanha, pensando em capacidade de profissionalizá-la efetivamente a partir das grandes bases do Partido dos Trabalhadores.

O PT tem bases sindicais, tem base em movimentos sociais, tem bases em universidades e em vários outros espaços. Mas é essa falta de articulação que faz com que o conteúdo não tenha um bom alcance nas redes sociais.

IHU – Com relação aos candidatos de esquerda que disputam vagas para deputado federal, deputado estadual e senador, o que você observa de diferente em suas estratégias de comunicação, especialmente nas redes sociais? Houve um avanço na capacidade deles de gerar identificação, ampliar o alcance de suas mensagens e disputar a atenção do eleitor?

Joscimar Silva – Tenho focado meu projeto de pesquisa nessa profissionalização de campanhas a deputados federais, na profissionalização digital das campanhas. Com os deputados federais, temos alguns casos que já têm mandato. Eles têm feito uma campanha muito mais profissionalizada, tanto na direita quanto na esquerda. No caso da esquerda, eles têm feito uma campanha muito mais profissionalizada, mesmo algumas pessoas que não eram candidatas têm feito campanhas bem profissionalizadas, sobretudo vinculadas a movimentos sociais com uma pauta de identidade forte, com símbolos como turbante e cores vivas, fortes. Isso tem uma certa identidade de campanha muito fixa, gerando engajamento e um maior alcance em campanhas mais profissionalizadas no ambiente digital.

Por outro lado, temos casos de candidaturas que não decolam, não avançam, tanto na esquerda quanto na direita. Na direita, por exemplo, vemos muitos casos de candidaturas femininas que não têm produzido conteúdo de campanha, que aparentemente seriam candidaturas laranjas, candidatos que não têm produzido conteúdo naqueles perfis declarados no TSE.

Então, na esquerda, especificamente, há essa profissionalização de candidatos e candidatas que já têm mandato. Com isso, há mais estrutura, quantidade de recursos e experiência. A equipe que está trabalhando na campanha provavelmente já tem algum vínculo com a própria assessoria, já sabem isso e possuem capacidade de contratar também agências de marketing mais profissionalizadas. Temos visto nesses candidatos com uma identidade muito forte, vinculado a um determinado grupo, a um determinado movimento, a produção de boas campanhas.

IHU – Os discursos de ódio têm se expandido nas redes sociais em meio as eleições? Como eles podem interferir nas decisões de voto? Quais os efeitos da comunicação política via redes sociais na democracia?

Joscimar Silva – Aí, temos um grande problema, porque estamos com um número de redes sociais disponíveis e alguns canais privados, como, por exemplo, o Discord, que gera grupos muito privados e segmentados. Isso não faz só um processo de transmissão de informação política, mas cria também uma certa cristalização de convenções que impedem o olhar sobre outra realidade.

Há um processo de radicalização que as outras redes sociais, mesmo as abertas como Instagram, Facebook, X, de alguma maneira já fazem. O que temos são algumas redes muito fechadas, que de certa forma impulsionam esse tipo de conteúdo. Como eu disse anteriormente, além dos perfis que estão declarados, existem um conjunto de outros perfis de influenciadores, de seguidores e de militantes que não estão declarados.

Isso gera um ambiente propício para a radicalização política em níveis extremos. A circulação de ideias muito radicalizadas é prejudicial para o próprio convívio democrático. Recentemente, com base na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), em todo o debate sobre os conteúdos que crianças e adolescentes estão sendo expostos nos ambientes digitais, tivemos algumas ações da Polícia Federal de intervenção. Apesar disso, essa é uma discussão ainda em aberto. O Brasil tem que avançar em relação a como regulamentar a internet, não só pensando nos processos eleitorais, mas também pensando na democracia como um todo e na qualidade do convívio democrático.

Um dos dados que vemos hoje, não só no Brasil, mas em vários outros países, é que há uma radicalização entre homens jovens e mulheres jovens. Os homens jovens estão muito mais radicalizados, com ideias muito extremas, convivendo em núcleos digitais, em ambientes digitais, em meio a circulação de ideias muito radicalizadas. Isso leva à impossibilidade de convívio entre pessoas de gêneros diferentes.

O nível da radicalização pode ser levado ao extremo no país. É claro que não estamos falando de toda a sociedade, mas o que temos visto é uma tendência dessa cisão. Essa cisão é provocada, em grande medida, por esses espaços de socialização digital. Isto é um problema e um desafio para muito além das eleições.

IHU – Em que medida os algoritmos das big techs, como Meta e X, interferem na circulação e visibilidade de conteúdos políticos, especialmente em períodos eleitorais, e como o uso de redes ilegais automatizadas, como fazendas de bots, pode potencializar a manipulação do alcance, da exposição e do debate político nas plataformas digitais?

Joscimar Silva – Temos uma situação de que as big techs se tornaram um ator político irrelevante no debate. Por quê? Embora todos os candidatos possam fazer a segmentação de conteúdo, a segmentação desse conteúdo comercial que se faz é uma segmentação voltada para públicos.

Um exemplo disso é segmentar buscando por “quero alcançar mulheres de 50 anos ou mais num determinado estado do Brasil” ou “quero alcançar os homens de 35 a 45 anos em determinada região do Brasil”. É uma segmentação por gênero, por idade, por localização, por escolaridade e outros.

Porém, as big techs têm acesso a um conjunto de microdados muito mais sensíveis do que os dados sociodemográficos. Elas têm acesso a interesses como curtidas, páginas que as pessoas seguem, qual tipo de vídeo elas passam mais tempo vendo etc.

As big techs têm informações muito sensíveis sobre os nossos interesses, sobre as nossas predisposições e não sabemos como isso é usado no período eleitoral. O que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pede é a transparência das big techs com relação ao conteúdo desinformativo, ao portal em que elas divulgarão a transparência, ao tipo de conteúdo impulsionado, em que dia e para que público foi feito. O que se exige é esse público sociodemográfico, não esse público microssegmentado que as big techs acessam.

Temos um problema entre o que a lei exige de transparência e um conjunto de outras coisas que ficam na obscuridade, porque não sabemos como essas informações são usadas, nem por que determinados vídeos têm muito mais alcance do que outros, por que determinados conteúdos viralizam e outros não e por que determinados conteúdos provocam alguns sentimentos para além da estratégia de campanha, para além da produção do conteúdo em si.

Esse é um grande desafio, pois há uma grande camada que não conseguimos enxergar pelo fato de não haver transparência. Quando as big techs são pressionadas a dar transparência, elas dizem que não podem dar, porque isso faz parte do modelo de negócios delas. Então, acho que esse é um grande desafio.

Outro aspecto, olhando para a realidade brasileira, é que as big techs estão muito mais próximas de candidaturas à direita. Certamente, candidaturas como a do Renan Santos, a do Flávio Bolsonaro e a do Augusto Cury tiveram algum tipo de assessoria de big techs. O crescimento exponencial do Augusto Cury nas redes sociais e nas pesquisas, em um curto período, não é espontâneo, não é um engajamento orgânico. Isso mostra que algumas campanhas estão mais preparadas ou estão mais próximas das big techs.

Sabemos que várias big techs estiveram em seminários com o PL, explicando como usar as redes sociais. Acho que um grande desafio é exatamente essa falta de transparência em relação ao que acontece. Já temos muitos indícios de que as big techs podem estimular ou dar condições para a viralização e para um alcance muito maior de alguns candidatos do que de outros.

O TSE tem feito um esforço em relação à regulação disso para evitar uma desigualdade, reduzindo as diferenças entre os candidatos. Mas o que vejo é que os instrumentos legais que temos ainda são muito limitados diante de todas as informações que as big techs possuem sobre os usuários.

IHU – As últimas denúncias e repercussões sobre o caso Master ligadas ao financiamento de Dark Horse (filme biografia de Jair Bolsonaro) podem impactar a campanha de Flávio Bolsonaro?

Joscimar Silva – Um pouco antes da divulgação das últimas pesquisas eleitorais, eu havia dito que esses escândalos de corrupção iam impactar muito menos porque a corrupção já não é o principal tema dessa eleição como foi, por exemplo, nas eleições presidenciais de 2018. O principal tema é a segurança pública. Primeiro, segurança pública. Segundo corrupção. Mas, corrupção com uma porcentagem muito menor do que segurança pública.

Isso faz com que escândalos de corrupção já não produzam o mesmo efeito na opinião pública. Tanto é que a oscilação de perda de intenção de voto após o escândalo do Flávio Bolsonaro foi muito pequena, não teve nenhuma perda significativa. Algo que demonstra que escândalos de corrupção não produzem mais tanto efeito nesse momento.

Vemos um eleitorado que, de certa forma, está saturado disso, que acha que todos os políticos são corruptos, nisso, escolhe o que acha menos corrupto ou algo do tipo. Já não temos uma expectativa, nem sobre os próprios ministros do Supremo Tribunal Federal, de que eles sejam homens honestos. A expectativa é que, na verdade, eles sejam corruptos. Há uma leitura social sobre isso que cria um problema de legitimidade sobre as próprias instituições dessa democracia.

O efeito de corrupção é muito pequeno no desempenho da campanha e na avaliação dos governantes pela opinião política. Porém, tem uma outra coisa que pode significar esse efeito: qual narrativa vai sair vitoriosa? Se é a narrativa de que o Flávio Bolsonaro e a campanha dele, de alguma forma, estão envolvidas no esquema de corrupção, ou se é uma corrupção generalizada como as que apareciam em campanhas anteriores que faziam ligação com o PT.

Independentemente dos fatos, a narrativa que ganha é aquela que chega à opinião pública. Para isso, quem tem mais mecanismos para fazer com que essa narrativa chegue às massas é quem ganha a disputa pela narrativa. Da mesma forma, existe a questão econômica. Não importam os indicadores macroeconômicos dizendo que o Brasil vai bem, que a inflação está entre as menores dos últimos vinte anos. O que importa é como as pessoas percebem essa realidade.

Não importa exatamente qual mensagem chega às pessoas. Pode ser, por exemplo, um perfil criado por IA dizendo que as coisas estão caras e que estão fazendo falta. E aí, quando fazemos pesquisa de opinião pública, de intenção de voto ou de avaliação de governo, o que aparece não é necessariamente o reflexo de um dado macroeconômico ou da realidade de um vínculo de corrupção estabelecido por um candidato. O que aparece é essa percepção.

Por isso, digo que uma campanha mais profissionalizada faz com que determinada narrativa chegue a públicos específicos e crie uma percepção minimamente homogênea, ou faça com que uma maioria do eleitorado perceba determinada narrativa muito mais do que outra. Isso tem um efeito.

Ainda temos algumas semanas antes das eleições e a narrativa que ganhar é, provavelmente, aquela que pode impactar os votos em uma eleição que está acirrada. Antes, tínhamos uma diferença grande entre os candidatos em termos de intenção de voto. Essa diferença chegou a 7%. Agora, ela começa a se afunilar, a reduzir. Ou seja, essa narrativa pode fazer efeito. Talvez não um efeito muito grande, mas um efeito que pode ser significativo nos resultados eleitorais.

IHU – Em que medida as redes sociais alteraram a forma como os eleitores acessam e interpretam informações econômicas durante as eleições? Como desinformação, simplificação de dados e discursos políticos podem alterar a interpretação de indicadores econômicos pelos eleitores?

Joscimar Silva – Já falei um pouco disso, mas é interessante porque os dados macroeconômicos, por exemplo, taxa de desemprego baixa e inflação baixa, não gera automaticamente uma avaliação de que as coisas estão economicamente bem. O que impacta muito essa avaliação é como a pessoa se sente. E aí, se a pessoa vem se mantendo estável, digamos, com um salário estável, com pequenos aumentos, pequenos ajustes, mas mantendo o mesmo poder de compra ao longo dos anos, as redes sociais vêm e entregam um conteúdo dizendo que está piorando ou que há um risco muito grande de piorar. Isso causa um sentimento de medo e leva as pessoas a acharem que está tudo muito ruim.

Por quê? Porque o que eu tenho está estável. Não é uma questão de que consegui acumular e tenho uma reserva para esse risco. E, portanto, se não tenho uma reserva para esse risco, estou extremamente vulnerável. Então, isso gera uma sensação de medo, de ansiedade, uma certa angústia, que faz as pessoas, quando perguntadas, tenderem a avaliar a situação como ruim.

Independentemente de a situação estar estável, o cidadão vai olhar para aquele cenário como um cenário ruim, porque existe uma mensagem de medo, de risco, ou alguém dizendo que está tudo muito ruim. E esse “ruim” que o outro está percebendo lá vai chegar aqui, ainda que seja um vídeo gerado por IA, por um perfil ou por uma pessoa que não existe.

O mais interessante das redes digitais é que elas conseguem provocar, com alguma facilidade, esse sentimento de insegurança, medo e risco. São sentimentos muito mobilizados nas campanhas eleitorais desde sempre, ou nas campanhas políticas de uma maneira geral.

Talvez, um grande exemplo histórico sejam os períodos autoritários na Europa, nos regimes fascista e nazista, no início do século XX. Eles exploraram muito isso. Esse sentimento vem acompanhado de algo que não é apenas uma notícia ou um panfleto espalhado, pois alguns perfis começamos a seguir e passamos a receber conteúdos de maneira muito recorrente. Esses perfis, mesmo que gerados por IA, começam a dar uma sensação de proximidade em relação às pessoas. Essa confiança que as pessoas têm nesse perfil se transmite para outra pessoa. Isso sem nem falar dos grupos de WhatsApp. Porque, quando isso sai de uma plataforma como TikTok ou Kwai e entra em um grupo de WhatsApp, quando esse vídeo curto chega ao grupo, a mensagem já não é mais apenas de quem gerou o conteúdo, da pessoa que aparece nele ou da imagem de IA que o produziu. O conteúdo passa a ser também da pessoa que está encaminhando aquilo. Com isso, se essa pessoa é alguém em quem confio, a confiança que acompanha essa mensagem não vem apenas do conteúdo em si, mas também da pessoa que a encaminhou. Isso gera uma onda de legitimação de conteúdos que são, muitas vezes, falsos ou distorcidos, mas que acabam parecendo legítimos pela confiança depositada em quem está compartilhando.

Temos, nesta eleição, algo que já estava presente nas eleições de 2024 e, em alguma medida, em 2022, mas que ganha muita força agora: os influenciadores digitais. Nesse meio, há a influenciadora que era maquiadora, ou um influenciador que era vendedor de carros e falava sobre carros. O que acontece com eles? Não produziam conteúdo político, e as pessoas gostavam deles pelo conteúdo que produziam. Havia algum nível de confiança nas informações passadas por eles. Nisso, chega o período eleitoral, estes perfis são contratados pelo meio político. Eles recebem dinheiro para produzir ou difundir conteúdo de campanha.

A legitimidade que essa pessoa tinha para falar sobre carros, ou a legitimidade que tinha para falar sobre maquiagem, passa a ser transferida para o discurso político. É uma influência diferente da celebridade do passado que aparecia no horário gratuito de propaganda eleitoral. Porque a celebridade, a atriz, o ator ou o cantor que aparecia no horário gratuito de propaganda eleitoral dava uma sensação de distância. Era alguém que tinha uma referência, que era percebido como legítimo, mas que estava distante.

O influenciador, por outro lado, é alguém próximo, que fala de coisas do dia a dia, que faz parecer que é como você, que está próximo de você e por isso gera muito mais confiança do que essa celebridade distante.

Temos um momento muito específico desses intermediários na relação com os eleitores. As campanhas mais profissionalizadas estão utilizando muitos influenciadores. Um dos grandes exemplos foi a campanha de Augusto Cury, que tem uma rede gigantesca de influenciadores que falavam sobre vida fitness, moda e várias outras coisas e que agora estão fazendo campanha para ele.

IHU – Por que muitos jovens tendem a seguir discursos de políticos de direita e como essa manipulação funciona nas redes sociais? O que falta no discurso progressista para alcançar esses jovens?

Joscimar Silva – O discurso de direita, antes de virar um discurso político, é um discurso que gera vínculo e identidade. Por exemplo, se olharmos para as grandes pautas que circulam entre jovens homens no ambiente digital hoje, notaremos a relação com um problema que os homens sempre tiveram, que é a insegurança em relação à sua sexualidade, à sua virilidade. Há pautas que afirmam o tempo todo isso, inclusive chegando a ideias muito radicalizadas – como ficar sem tomar banho – para desenvolver uma certa masculinidade. Esse tipo de discurso pega uma população mais jovem, reforçando determinadas ideias, reduzindo determinadas inseguranças, fortalecendo e radicalizando o discurso em determinadas redes e, depois, convertendo esse discurso para discurso político. Esse discurso não é iniciado como discurso político.

E aí, vamos olhar para alguns casos. Por exemplo, o deputado federal André Fernandes, que primeiro foi eleito, em 2018, como deputado estadual e, depois, em 2022, como deputado federal. Ele era um influenciador nas redes sociais que falava sobre coisas de adolescente, coisas que, às vezes, eram até esdrúxulas, mas que tinham certo alcance. Ele tinha um pertencimento também como filho de um pastor de uma grande igreja na região metropolitana de Fortaleza.

A campanha de Bolsonaro, em 2018, percebeu que ele poderia ser um possível candidato durante a pré-campanha. Nisso, Bolsonaro falou para ele: “Olha, começa a falar sobre alguns temas. Coloca o tema da segurança pública na pauta”. Era um problema para o estado do Ceará, que estava enfrentando um crescimento das facções. Então, André Fernandes, que nunca tinha falado sobre segurança pública, começa a defender as polícias, começa a falar contra os bandidos, a falar sobre o problema da corrupção e da falta de segurança pública, atribuindo isso a governos de esquerda. Esse cara se torna o deputado estadual mais bem votado do Ceará.

O político simplesmente converteu um conjunto de seguidores que já o acompanhava porque ele produzia conteúdos de humor e conteúdos com os quais esses jovens se identificavam, em uma pauta de direita. Ele simplesmente conseguiu fazer essa conversão e vários outros candidatos conseguiram fazer a mesma coisa.

Alguns candidatos já começam, de alguma forma, com conteúdos políticos, mas muito mais morais do que propriamente políticos. O próprio PL começa com conteúdos morais ou, às vezes, conteúdos relacionados a direitos, migrando para conteúdos sobre corrupção, para depois se tornar conteúdo político-eleitoral. Posteriormente, isso se transforma em uma pauta liberal econômica, que vai ser a grande narrativa moral contra a corrupção.

Portanto, você tem essas lideranças que estão começando no ambiente digital primeiro. Normalmente são jovens que sabem operar muito melhor com o digital, os próprios candidatos que se tornam influenciadores e convertem esse capital de influência em liderança política digital.

Aqui no Brasil e em vários outros países, as lideranças de direita têm conseguido fazer isso muito mais do que as de esquerda. Mas, por exemplo, o Podemos espanhol fez essa mesma estratégia, embora seja um partido de esquerda. Várias candidaturas independentes no México do Movimento Regeneração Nacional (Morena), que é um partido de esquerda, também conseguiram fazer isso. Ou seja, não é um caminho possível apenas para a direita. É um caminho possível também para a esquerda ou para qualquer outro projeto político.

Por outro lado, a direita tem sabido utilizar mais esses caminhos. Até porque os discursos de direita são muito mais simplificados. As soluções apresentadas pela direita são muito mais simples do que as soluções apresentadas pela esquerda, que entende que os problemas são muito mais complexos e que não existem saídas simples para problemas complexos.

Por outro lado, vemos também, crescendo na esquerda, um conjunto de lideranças que têm conseguido mobilizar essas pautas, produzindo enquadramentos sobre elas. Se olhamos a visibilidade do Jones Manoel, da Aava Santiago, que começa no PSDB e depois vai para o PSB e consegue fazer uma campanha com pautas mais progressistas, disputando um eleitorado evangélico, temos um monte de lideranças que estão conseguindo disputar esses espaços. Ou seja, ele acaba não sendo um espaço exclusivo da direita.

Se analisarmos o caso do Zohran Mamdani, em Nova York, ou o caso do James Talarico, no Texas, são lideranças de esquerda, ou mais próximas da esquerda, que estão conseguindo disputar esses espaços. Por isso, acho que a profissionalização desse ambiente digital pode ter alternativas para todos os campos políticos, embora entendendo que as big techs, sim, têm uma preferência por determinadas pautas políticas. Isso não dá para negar. E elas têm influência no processo. Mas dizer isso não inviabiliza o desenvolvimento de estratégias e uma disputa muito mais competitiva.

IHU – A comunicação eleitoral está se encaminhando para uma reformulação eficiente no Congresso Nacional? Há um avanço maior na base da esquerda ou da direita? Que propostas podem se sobressair no âmbito popular?

Joscimar Silva – Essa primeira onda de uso mais estratégico da comunicação eleitoral, especialmente a partir de 2018, gerou uma renovação muito perversa no Congresso Nacional. Entrou muita gente que não tinha experiência política profissional, mas, pior que isso, entrou muita gente com o discurso antipolítico e antissistema.

Como muitos desses movimentos não queriam se vincular a um partido, eles atacaram muitos partidos políticos, atacaram o próprio Congresso, minaram a confiança no Congresso Nacional. Só que, diferente de outras pessoas que entravam na política criticando os políticos, criticando a política, normalmente essas pessoas começam a se conformar ao sistema. Começam a entender as regras, a participar e a seguir as regras. O que acontece é que esses eleitos, em 2018 e 2022, continuaram o antissistema dentro da política. E não é um processo só do Brasil, isso aconteceu também em vários outros países.

Diagnostiquei isso no caso peruano e no caso mexicano. O que acontece é que esses líderes antissistema continuaram sendo antissistema. São políticos que continuam falando mal da política, mesmo sendo deputados. Eles seguem falando mal dos partidos estando em um partido político. Continuam falando mal do Congresso como se o sistema político fosse todo corroído e todo corrompido, fazendo parte desse mesmo sistema político.

Acho que esse é um grande desafio. Por quê? Porque as redes sociais só dão mais visibilidade política para quem consegue produzir uma narrativa de escândalo muito mais forte. Ou seja, ganha não necessariamente quem tem as melhores propostas, os melhores argumentos ou uma ideia mais sólida. Ganha quem consegue escandalizar mais, a partir dessas affordances, desses incentivos das big techs. Isso faz com que candidatos à esquerda e à direita queiram entrar no sistema, produzindo ideias muito simplificadas e mais radicalizadas. Esse é o caminho para a eleição.

Essa pessoa conseguiu um conjunto de seguidores que viraram eleitores e vai continuar fazendo isso dentro da Câmara dos Deputados e dentro do Senado. Ou seja, o debate não importa mais, importa o corte que se faz para colocar nas redes sociais. Isso gera um caos. Algumas sessões da Câmara foram extremamente tumultuadas pela própria incapacidade de se produzir consenso.

A comunicação institucional foi deixada de lado em troca dessa comunicação digital. Várias propostas no Congresso Nacional foram apresentadas com o objetivo de reduzir os recursos públicos destinados à comunicação institucional e, ao mesmo tempo, ampliar os recursos públicos para essa comunicação altamente personalizada dos próprios deputados. Isso gera um problema que não é apenas da legislatura atual.

É um problema relacionado à própria forma como a representação política é construída. Antes, os políticos tinham alguns mecanismos de prestação de contas, seja pela imprensa tradicional, que os enquadrava e os colocava contra a parede em entrevistas, seja pela cobertura jornalística de suas ações. Agora, eles não querem mais necessariamente esse tipo de enquadramento. Preferem construir uma narrativa que lhes seja favorável dentro de suas próprias mídias.

Isso cria uma situação ambígua. Para o eleitor, pode parecer que o político está mais próximo, mais acessível e mais diretamente conectado a ele. Na prática, porém, esse político pode estar muito mais distante, protegido por diversas camadas que dificultam a cobrança e a prestação de contas. Porque, nas redes sociais, esse político não necessariamente presta contas. Alguém pode me dizer: “Mas agora eu posso comentar e criticar diretamente”. As pessoas não vão conseguir fazer isso necessariamente, porque o conteúdo é editado e os comentários podem ser apagados. Mesmo quando uma crítica é respondida, o político tem muito mais controle sobre as condições desse debate.

O cidadão pode não ter acesso a todas as informações sobre determinado caso, escândalo, problema de corrupção ou qualquer outra questão, porque está consumindo diretamente o conteúdo produzido pelo próprio político. O debate, portanto, pode ser limitado ou interrompido de acordo com os interesses e os vieses daquele candidato. Na prática, você cria uma bolha de apoio muito mais confortável para políticos e candidatos do que aquela que existia quando a mediação era feita predominantemente pelas mídias tradicionais.

Há também uma questão relacionada às pautas e à própria capacidade de produção legislativa. O que temos observado é que candidatos que chegam ao Congresso por meio das mídias digitais, a partir desse processo de transformação em lideranças políticas digitais ou de formação de partidos digitais, produzem, em muitos casos, menos proposições e projetos de lei com menos substância e capacidade de elaboração do que políticos tradicionais.

Acho que temos, portanto, um problema importante: essa entrada de novas lideranças digitais pode estar piorando a capacidade de representação, principalmente em momentos de grandes ondas de renovação do Congresso.

IHU – Como enxerga a ausência da exploração de temas sociais nas plataformas eleitorais e o que isso significa no cenário eleitoral?

Joscimar Silva – Como disse anteriormente, temos candidatos e candidatas a deputados que não estão postando nada nem para mostrar qual é o problema que existe no seu Estado. Eles estão apenas fazendo essa campanha nacional e uma campanha negativa para atacar o grupo político oponente. Esse é um grande desafio, porque as redes sociais, as mídias digitais e as próprias plataformas estimulam essa escandalização e essa campanha agressiva. Nesse contexto, apresentar uma proposta não gera tanto ganho, a não ser que você faça primeiro uma grande denúncia e, depois, apresente uma proposta.

Apresentar saídas e soluções para problemas complexos que temos, como a violência e a exploração do trabalho, exige produção de conteúdo e planejamento. Saídas simples e radicalizadas não. Mensagens automatizadas não.

Hoje, temos candidatos que não querem mais gravar conteúdos. As equipes de campanha e de marketing estão sofrendo porque os candidatos não querem gravar. Eles querem que sejam produzidos conteúdos com inteligência artificial para suas próprias campanhas. E o que temos visto são muitos vídeos artificiais produzidos por IA, nos quais, às vezes, nem é o próprio candidato que aparece. Portanto, o que temos hoje é uma redução do espaço do debate e das propostas para pautar determinadas questões.

Há uma presença muito forte de temas que vêm de fora e entram na política. Pode ser um escândalo pessoal que passa a ocupar a pauta da campanha ou um comentário sobre uma questão do momento que entra na campanha sem ser necessariamente uma questão política. Vamos ver muito disso nas campanhas eleitorais e, cada vez menos, esse espaço de debate, de apresentação de propostas e de tentativa de enfrentar os problemas sociais reais.

Isso acontece também porque as próprias plataformas digitais estimulam que esse tipo de conteúdo não seja priorizado. Quando um candidato publica um conteúdo com uma proposta, ele tende a receber muito menos curtidas, compartilhamentos e comentários do que quando publica uma denúncia de corrupção, um escândalo, algum outro conteúdo polêmico ou uma campanha negativa contra um adversário. As próprias plataformas e mídias digitais acabam entregando muito mais conteúdos radicalizados, saídas simples, denúncias e campanhas negativas contra adversários do que propostas. Uma proposta gera muito menos curtidas, comentários e compartilhamentos.

Precisamos pensar sobre o que as plataformas digitais decidem entregar aos usuários. Temos um problema que interfere nessa relação com as plataformas digitais. Sempre que essa questão foi levantada, principalmente pelo TSE, mas também por outros órgãos do Estado brasileiro, as plataformas responderam em essência: “Esse é o nosso modelo de negócios; não podemos abrir o nosso modelo de negócios”.

Esse é um problema central, porque estamos falando de empresas privadas que, por meio de seus sistemas de recomendação e distribuição de conteúdo, acabam interferindo diretamente naquilo que os cidadãos veem e, consequentemente, no próprio ambiente em que ocorre o debate político.

IHU – Segundo um levantamento do ClimaInfo, quase todos os presidenciáveis ignoram a questão da crise climática e ambiental. Como avalia essa falta de propostas para o enfrentamento da crise climática e ambiental no país, dado o agravamento dos eventos climáticos extremos?

Joscimar Silva – Na questão ambiental, ainda mais com a chegada do El Niño, temos um grande problema pela frente a depender do resultado das eleições. Isso porque a maioria dos candidatos tem negado a questão ambiental ou não tem enfrentado a questão como pauta.

Ao mesmo tempo, vemos desafios cada vez mais graves em relação às mudanças climáticas. A questão é que não se trata apenas de uma ausência de resposta governamental, que faz com que o Estado aja somente no momento de uma crise, como aconteceu no Rio Grande do Sul, como ocorre em algumas áreas do Nordeste, com períodos de seca cada vez mais longos, e também em algumas regiões do Norte. Ou como aconteceu em Maceió, com o desastre provocado pela atividade de uma mineradora e o afundamento de bairros. Nesses momentos, o Estado precisa reagir.

Mas o grande problema é que o Estado não pode apenas reagir. Ele precisa se preparar para esses eventos climáticos extremos, preparar a população e tentar reduzir ao máximo os riscos de que eles aconteçam. Reagir somente quando o problema já ocorreu é muito mais custoso e pode gerar mais mortes, além de problemas de saúde pública, fome, falta de moradia e uma série de outras consequências.

O grande desafio da questão climática e de uma política preventiva relacionada ao clima é que ela leva tempo para ser construída. Por exemplo, todas as políticas implementadas a partir dos anos 2000 relacionadas à redução do desmatamento, à proteção da biodiversidade e ao enfrentamento das mudanças climáticas podem ser rapidamente desestruturadas por uma mudança de governo. Quatro anos de um governo que negava a gravidade dessas questões foram suficientes para desmontar parte significativa dessas políticas. Agora, elas voltam a ser reconstruídas, inclusive em órgãos responsáveis pela política climática que não têm corpo de funcionários suficiente, capacidade adequada de fiscalização ou estrutura para desenvolver projetos de longo prazo.

Isso gera um problema que não é apenas responder ou não responder a uma crise. É a destruição da política pública por dentro, o esvaziamento das estruturas responsáveis por essas políticas. Isso é muito grave e esse aspecto ainda não vem sendo colocado adequadamente no debate público. O que aparece no debate são questões mais simples como: “Se acontecer um desastre ambiental agora, esse candidato em quem você vota vai conseguir proteger você?” Mas a questão é muito mais grave. A destruição da estrutura das políticas de prevenção de desastres, de transição energética e de enfrentamento dos eventos extremos pode gerar impactos muito maiores do que a ação corretiva tomada depois que o fato já aconteceu.

Pensemos no caso do Rio Grande do Sul. Se as comportas e os muros de contenção tivessem sido melhorados e ampliados, como estava previsto em determinadas políticas, se não houvesse ocorrido uma destruição da política por dentro, com o mal uso ou pela retirada de recursos dessa política de prevenção, grande parte dos alagamentos não teria acontecido em Porto Alegre.

Isso é muito mais importante, mas também leva muito mais tempo do que simplesmente adotar uma política para remediar o que já aconteceu. O problema é que uma proposta de política de prevenção de longo prazo também não gera o mesmo engajamento nas redes sociais. Embora exista uma parcela significativa da população que defenda o meio ambiente e tenha valores ambientais, também não vemos necessariamente o mesmo nível de engajamento quando um candidato afirma que não reconhece a existência ou a gravidade das mudanças climáticas.

Isso acontece porque esses candidatos nem sempre dizem claramente que essas questões não existem. Muitas vezes, apresentam soluções simplistas para problemas complexos ou simplesmente mudam de assunto quando são questionados sobre o tema. Ou seja, isso gera uma sensação de que existe um debate, mas, se a pessoa acompanha apenas alguns candidatos nas redes sociais e recebe o conteúdo de apenas um deles, ela não consegue necessariamente comparar diferentes posições.

Aquilo que a televisão proporcionava antes, a possibilidade de acompanhar diferentes candidatos e comparar suas propostas, as redes sociais não oferecem da mesma maneira. Elas dizem que esse conteúdo está disponível, mas isso não significa que ele necessariamente chegará a todos os usuários.

E aí surge um problema que é, principalmente, de produção de políticas de longo prazo, mas também da possibilidade de que lideranças e candidatos à Presidência que não tenham um discurso firme e propostas claras em relação às mudanças climáticas possam, uma vez no poder, desestruturar as políticas que já existem. E aí temos um risco ainda maior porque, para reconstruir essas políticas, são necessários muito mais tempo e muito mais recursos públicos. Uma política pública de longo prazo não se reconstrói em apenas um mandato.

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