A superação da alienação imposta pela exploração econômica e pela desinformação midiática exige o resgate do compromisso cívico clássico e a defesa intransigente da democracia contra os avanços do autoritarismo
“Há muitas armadilhas no mundo e é preciso quebrá-las” (Ferreira Gullar).
1.
“Alienação” é um vocábulo polissêmico. Em latim, alienare significa “estranhar-se ou tornar-se de outro”. Na religião cristã, implica “apartar-se ou ser apartado de Deus”. Jean-Jacques Rousseau emprega a palavra aliénation para assinalar uma separação do indivíduo de sua origem natural: chega à vida “bom” e “livre” para logo ser “corrompido” pelas convenções sociais e desigualdades burguesas. “O homem nasce livre, mas está acorrentado em toda parte”, provoca o filósofo.
Em Machado de Assis, a alienação se refere aos afetos que interferem na moral e nos costumes. Tal enfoque atravessa as páginas de O alienista. Simão Bacamarte, o personagem, é um cientista especializado em doenças mentais. A novela narra a aventura do médico que, após estudar em Coimbra e Pádua, volta para clinicar em Itaguaí, no Rio de Janeiro, e obcecado pelo tema da loucura funda um manicômio.
O uso arbitrário da ciência pelo doutor para explicar as práticas corriqueiras faz, de traços incomuns, razão para internações forçadas. “O homem que empresta o dinheiro da herança e não recupera o valor”, entra na lista. A cidade se muda para o hospício. Até que o higienista questiona o conceito de normalidade aplicado aos alienados e conclui que o louco é ele mesmo. Então se interna voluntariamente. O “mago do Cosme Velho” ironiza o positivismo no pensamento científico, da época.
A objeção ao cientificismo é incorporada pelo negacionismo sanitário durante a pandemia de Covid-19, em contraposição à Organização Mundial da Saúde (OMS). Assim, a ironia se transforma na tragédia anunciada. Apesar de representar 3% da população global, o Brasil conta 700 mil mortes oficiais dada a incúria do governo; 10% do enlutamento da humanidade. O cruel genocida, que satirizava a falta de oxigênio das vítimas, segue impune. O escândalo foi engavetado pela burocracia.
2.
A alienação é induzida: (a) pela sensação de impotência para humanizar os rumos da sociedade; (b) pela percepção de que para ascender socialmente há que sujar as mãos com ilícitos; (c) pela dificuldade de encontrar o labor satisfatório. A soma de variáveis contribui para crises em contextos de vulnerabilidade e de violência.
A produção industrial em massa intensifica a alienação, e reduz-se em atividades artesanais. Embora a classificação não esgote as análises críticas, ela auxilia a entender a engrenagem que afasta as pessoas do controle de suas ações sociais. Os mecanismos da opressão e a exploração com ataques à legislação trabalhista e sindicatos, o viés patronal do Judiciário, as terceirizações e também a escala 6×1 são grilhões fixados no trabalho para extrair a mais-valia, que produz as riquezas.
A cobertura de ocorrências, com desinformações e vazamentos, gera a opacidade para a suposta transparência do lawfare contra lideranças populares. Tudo é feito sob a dissimulação com ares de “terrivelmente honesta”. Puro cinismo. Não à toa, em francês, o termo mystère / mistério está associado a métier / ofício, profissão; a atuação de jornalistas no Jornal Nacional é elucidativa do parentesco linguístico.
Monopólios de comunicação calam sobre abusos da tirania miliciana, inventam equivalências em prol da tese da falsa polarização e disfarçam golpes, tolerando o regime de exceção com assassinatos de encomenda na planilha. A vida secreta na coxia das notícias é um enigma a desvendar, no que vem a público e amiúde cola.
3.
A “isonomia”, igualdade perante a lei, e a “isegoria”, igual direito de falar, são vetores essenciais ao combate da alienação. Requerem um Estado com deveres para o povo e, por outro lado, habitantes com deveres para o Estado. Vide o caso clássico da Grécia, no século V a.C. Para obter um registro de participação nas decisões da pólis, ao atingir a maioridade, o jovem faz o juramento na presença dos chamados “Quinhentos”, os conselheiros da famosa democracia referendada nas Ágoras.
Ao receber uma armadura, os efebos declaram: “Não desonrarei estas armas sagradas; não abandonarei meu companheiro no campo de batalha; combaterei por meus deuses e pelo meu lar, só ou com os outros. Não deixarei minha pátria diminuída, mas maior e mais forte do que a recebi”. A solenidade expressa uma centralidade da responsabilidade pessoal com a esfera pública. Um verdadeiro patriota endossa esse compromisso cívico; jamais conspira contra a pátria-mãe.
A golpistas não é permitido integrar-se à dinâmica democrática; são condenados ao ostracismo. Mas a liberdade dos atenienses não é absoluta; está subordinada à lei. As deliberações da coletividade exigem respeito à Constituição e estimulam a formação de cidadãos (Paideia) comprometidos com o pleno exercício de direitos.
A Academia Militar de Agulhas Negras deveria mirar-se nos homens de Atenas e reprovar os alunos com déficit cognitivo sobre princípios básicos da democracia. O problema ganha enorme proporção com a militarização do aparelho estatal e o projeto de proliferação das escolas cívico-militares com uma ênfase na disciplina manda-obedece abraçada por governantes que surfam na onda do autoritarismo.
4.
Para Peter Burke, em Ignorância: uma história global, o desafio está em descobrir quem fabrica “segredos e mentiras”. Para interferir no pleito brasileiro, em curso, os Estados Unidos têm motivos – petróleo, terras raras, bases militares na região, pix. Usam pulhas que ocultam a traição na cruzada ideológica contra a esquerda. Indo de ministros de ocasião no Supremo Tribunal Federal (STF) aos impostores na religião que monetizam a fé, passando pelos cães de guarda do neoliberalismo.
As eleições podem consolidar o processo civilizatório e barrar a necropolítica: o desmonte do Sistema Único de Saúde (SUS) e da educação pública para atender planos privados; a cessão da segurança à milícia para aparelhar o poder paralelo; a reprimarização da economia para tornar o país um fazendão; o estancamento do salário-mínimo e aposentadorias para drenar receitas às finanças. Se com o pai a classe trabalhadora conhece o diabo, com o filho do “capetão” desce ao inferno.
Com sensibilidade musical, o iconoclasta Tom Zé alerta para uma arrogância dos poderosos e formula uma questão que interessa à população hoje: “Quem é que agora está / Fazendo tanto medo na cabeça do século? / Quem é, quem é, quem é? / Me diga você que sabe datilografia, / Quem é, quem é, quem é / Me diga você que estuda filosofia”. A resposta aponta para o império unipolar em crise (Donald Trump / Estados Unidos) e, ainda, para o BBB (Bolsonarismo, Bets e Big Techs).
Não passarão. O presidente Lula da Silva avisa na Assembleia das Nações Unidas: “O Brasil não cabe no quintal de nenhum país!”. Os eleitores têm a chance ímpar de robustecer nas urnas nossa democracia e nossa soberania nacional; a justiça social e ambiental; a reindustrialização sustentável e um desenvolvimento para todas e todos. Por isso, o voto em Lula / Alckmin é um “sim” ao próprio futuro.
*Luiz Marques é professor de ciência política na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ex-Secretário de Estado da Cultura (Governo Olívio Dutra).




