Às vésperas da eleição, a religião volta ao centro das conversas. E a intolerância ainda é uma ferida aberta. Por Rozangela Silva

O que acontece quando a religião deixa de ser apenas uma questão de fé e passa a ocupar as rodas de conversa, as redes sociais e o debate político? Às vésperas das eleições, o tema volta a ganhar espaço e episódios recentes envolvendo símbolos religiosos recolocam uma pergunta incômoda no centro do debate: o Brasil está conseguindo conviver, de fato, com a diversidade de crenças que existe dentro de seu próprio território?

O assunto ganhou ainda mais força nos últimos dias depois que uma imagem de Santa Dulce dos Pobres, primeira brasileira canonizada pela Igreja Católica, foi destruída dentro da Igreja Matriz da Paróquia Jesus Cristo Ressuscitado, em Plataforma, no Subúrbio Ferroviário de Salvador. Segundo a paróquia, uma pessoa entrou no templo no dia 22 de setembro, retirou a imagem de um altar lateral e a levou para outro espaço da igreja, onde a peça foi quebrada. A identidade e a motivação da pessoa ainda não foram divulgadas.

O episódio, por si só, já provoca uma série de questionamentos. Quando um símbolo religioso é atacado, o que está sendo atingido: um objeto, uma comunidade ou a própria liberdade de professar uma fé? E até que ponto a intolerância religiosa, em suas diferentes manifestações, revela uma dificuldade brasileira de respeitar aquilo em que o outro acredita?

É justamente nesse ponto que a trajetória do professor, ativista e babalawô Ivanir dos Santos ganha relevância no debate. Há décadas, ele atua na defesa da liberdade religiosa e na discussão sobre o respeito às diferentes tradições de fé, especialmente diante dos episódios de intolerância que atingem religiões de matriz africana.

Para Ivanir, a questão não deveria ser restrita à defesa de uma religião específica. Se uma imagem católica pode ser destruída, um terreiro pode ser atacado ou uma tradição religiosa pode ser alvo de preconceito, que tipo de Estado e de sociedade está sendo construído?

Sem falar que a intolerância religiosa não se resume necessariamente a ataques físicos. Ela pode aparecer no discurso, na tentativa de desqualificar a crença alheia, na perseguição a comunidades religiosas ou na transformação da fé em instrumento de disputa e hostilidade.

E, em um país constitucionalmente laico, outra pergunta se impõe: o que significa, na prática, respeitar o Estado laico? Ou significa retirar a religião da vida pública?

Às vésperas de uma eleição, quando discursos e convicções tendem a ganhar ainda mais intensidade, a discussão parece inevitável. Até onde vai a liberdade de expressão quando ela atinge a liberdade religiosa de outra pessoa? Qual é o limite entre manifestação de opinião e intolerância? E qual deve ser o papel do poder público diante desses episódios?

No olhar de Ivanir dos Santos – sacerdote, prof, babalawô, ativista dos direitos humanos e há anos no combate à intolerância religiosa – a discussão é maior do que a defesa de um determinado credo: é sobre o direito de cada brasileiro acreditar, cultuar e expressar sua fé sem que isso transforme o outro em inimigo. A pergunta que fica, portanto, é simples — e talvez justamente por isso tão difícil de responder: em um país de tantas crenças, ainda precisamos aprender a respeitar a fé do outro?

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