Saúde Mental nas Comunidades Pesqueiras: desafios do cuidar dentro e fora

No Setembro Amarelo, a psicóloga Renata Barbosa que atua junto às comunidades pesqueiras acompanhadas pelo CPP em Minas Gerais reflete sobre os desafios do cuidado em saúde mental nos territórios

Por Renata Barbosa, na CPP

Com o avanço da velocidade de acesso e troca de informações, vimos que o tabu sobre “falar de sentimentos” vem sendo cada vez mais quebrado. Hoje, sabemos que é importante e, principalmente, que não é motivo de vergonha falar sobre sofrimento mental.

Mas, quando gastamos energia, tempo e, muitas vezes, sangue em uma luta cotidiana, defendendo o território e a própria sobrevivência, como sobra tempo para falar do que acontece aqui dentro, se o que está lá fora é tão grande?

Sabemos que viver em comunidade é um conjunto. Um conjunto feito de vários indivíduos, com histórias, vivências e necessidades diferentes, cada um com suas próprias dores, sofrimentos e lutas particulares.

Os jovens, por exemplo, enfrentam as dúvidas sobre seu futuro, a vontade de permanecer no território e a necessidade de sair para construir o saber e, através dele, contribuir para o desenvolvimento do próprio território.

A liderança, por sua vez, sabe da sua importância para a resistência e a orientação, mas muitas vezes deixa sua vida pessoal de lado para isso.

Além disso, quando o básico, como segurança social, alimentação, moradia e renda, não é garantido, o choro, a tristeza e a melancolia ficam para depois. Mas ficam, e cada vez mais pesados.

É importante ressaltar que saber dessa necessidade de cuidado não a garante automaticamente. O acesso a profissionais de saúde mental, como psicólogos e psiquiatras, ainda é elitizado, caro ou concorrido.

Mas, mesmo com todos esses desafios, cuidar do que nos aflige é reunir forças para continuar lutando. Percebemos uma organização das próprias comunidades para garantir espaços seguros de troca e fortalecimento entre companheiros, por meio da preservação das tradições e práticas coletivas, do reconhecimento da importância de cada indivíduo e do compartilhamento, fortalecendo vínculos e o apoio mútuo.

Isso nos leva a acreditar que uma luta não precisa se sobrepor à outra e que o cuidado com a saúde mental pode ser uma importante ferramenta na defesa dos territórios tradicionais.

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