Marisqueira e militante, Eliete Paraguassu levanta bandeira contra racismo ambiental na Bahia: “A gente tem que se revoltar todos os dias”

Após uma tentativa de assassinato e passagem pelo governo Lula, a primeira vereadora quilombola de Salvador mira agora uma cadeira na Câmara dos Deputados

Por Pedro Gabriel, em Notícia Preta

“Eu sou uma mulher que sou forjada na luta contra o racismo ambiental”. É assim que Eliete Paraguassu, candidata à deputada federal pelo PSOL, se descreve. Primeira mulher quilombola e marisqueira a ser eleita como vereadora em Salvador, na Bahia, a parlamentar, no entanto, traça uma luta intensa contra o racismo ambiental, o que a levou a bater de frente com o alto escalão da Petrobras, driblar uma tentativa de assassinato e passado meses escondida no litoral baiano. “Eu tive que sair da minha casa para fora do Brasil. Depois eu passei um tempo, um mês, fora do Brasil para conseguir respirar e denunciar”, afirma Eliete em entrevista ao Notícia Preta.

A vereadora da capital baiana é da comunidade quilombola de Porto dos Cavalos, na Ilha de Maré, sendo considerado um dos bairros mais negros de Salvador. E é neste local que o racismo ambiental atravessa a vida de Eliete: a região é perfurada por 21 poços de petróleo da Petrobras. A candidata descreve sua infância como a convivência diária entre a ausência do poder público e a estrutura de uma estatal que dividia o território pesqueiro e quilombola com a exploração do petróleo: “[Eu sou] filha de um pescador, de uma marisqueira. Eu cresci vendo a estrutura da Petrobras, da comunidade, a ausência de um lado, e a estrutura do outro, sendo 21 poços de petróleo. A gente tendo que dividir o espaço de trabalho com os poços, porque são sete poços no território pesqueiro e 14 no território quilombola. Então, há uma violação de direitos muito grande no território. Mas a gente não sabia que a gente estava em um território violado pelo progresso e também pelo governo brasileiro.”

A vida política da vereadora começou no final dos anos 1990, quando a Pastoral da Pesca chegou à Ilha de Maré para promover formação política. Ela conta que, até então, já não via sentido em nenhuma das estruturas que conhecia: “Eu fui curiosa para entender que reunião era aquela que minha mãe participava, porque eu já não acreditava mais em nada naquele território. E lá, nesse dia, eu ouvi os agentes dizerem que a Pastoral fazia formação e que, naquele momento, a formação era fazer do protagonista, fazer o protagonismo da sua história. Ali eu me interessei. Porque a gente viveu a vida toda a gente falando por nós. E a Pastoral trazia um outro formato de fazer formação. Você precisa falar de sua história. Você precisa protagonizar a sua história.”

O enfrentamento direto com a Petrobras veio pouco depois, quando uma pesquisa da Faculdade de Nutrição identificou contaminação por mercúrio em 99% de 119 crianças testadas no território. Dentre as contaminadas estava a própria filha de Eliete. “Aí, levanta a leoa. E aí, eu me levanto para denunciar”, resume ela sobre o momento em que decidiu denunciar a contaminação, primeiro dentro da Bahia, depois em âmbito nacional e internacional. Essa mobilização a colocou definitivamente no radar da política partidária: “Eu fui vendo que era na política partidária também que se decidia se a gente vinha morrer ou viver.”

Mesmo com a proximidade política, Eliete foi se filiar ao PSOL em 2019. Segundo ela, a morte de Marielle Franco a impulsionou a disputar um cargo público quando um coletivo de mulheres negras de Salvador passou a articular a ocupação de espaços de poder. “Eu sou uma das sementes da Marielle. Conheci a família de Marielle, fui na comunidade de Marielle, na igreja. Conheci os pais e os pais diziam para mim: você parece minha filha. Até o jeito de falar, a mesma idade, do mesmo ano”, afirma. 

Eliete disputou sua primeira eleição como vereadora em 2020, recebendo 2.291 votos. Na época, ela ficou na suplência do cargo. Em 2022, tentou uma vaga na Assembleia Legislativa da Bahia e obteve cerca de nove mil votos, tornando-se a candidata mais votada do PSOL no estado, mas não conseguiu se eleger. Entretanto, foi neste momento que ela consegue inserir no debate público a luta contra o racismo ambiental: “E aí, foi um boom na cidade porque era um tema que ninguém conhecia, não falava sobre isso. E as pessoas diziam: o que é isso? Que maluquice é essa? O que é racismo ambiental? Eu nunca vi falar nesses termos.”

Ela continua: “Eu estou trazendo uma pauta da Economia das Águas, uma pauta que nunca foi falada. Salvador vem comer moqueca, marisco, peixe e não tem uma pauta específica, não tem o censo da pesca, não tem o diagnóstico. Eu trago esse debate e o debate do racismo ambiental e as empresas que contaminam a Baía de Todos-os-Santos, contaminando os corpos humanos, contaminando os pescados, contaminando o ambiente. E eu venho também discutindo na cidade de Salvador a reparação histórica para esse povo que construiu aquela cidade que ainda permanece morando nos Parões e que a escravidão ainda é muito presente nesse município.”

Perseguição política e tentativa de assassinato

Entre essas duas disputas, Eliete viveu o momento mais duro de sua trajetória. Ao desafiar interesses econômicos ligados à especulação imobiliária nas ilhas de Salvador, passou a ser perseguida politicamente: “Eu comecei a ser perseguida pelo segundo homem mais rico do estado da Bahia, porque eu trazia um tema que desafiava os interesses econômicos dele, que é a especulação imobiliária das ilhas de Salvador”. Eliete conta que viveu momentos terríveis, com uma tentativa de assassinato e no mague. Ela saiu do Brasil para se esconder. Depois ficou refugiada no litoral da Bahia: “Eles cooptaram alguma liderança perigosa na minha comunidade, pintou o caiuto, tentou me matar no mangue.”

Foram seis meses de fuga e esconderijos antes de retomar a militância e assumir, no governo Lula, a coordenação geral de assistência técnica e extensão pesqueira no Ministério da Pesca e Aquicultura. Chegar à pasta, no entanto, foi antes de tudo uma questão de sobrevivência. “O governo federal foi uma porta aberta em um momento de muita violência política, que nem eu tive que sair pra não ser assassinada”, relembra Eliete. “Eu sou a mulher do projeto dentro do movimento. E eu sou a mulher que tem articulações, mas também eu consigo transitar em meios muito decisivos na política nacional.” Mas nem o cargo, nem a capital federal, a protegeram do que já enfrentava em seu território: “Eu sou uma mulher negra que, independente do lugar de poder em que eu esteja, eu não posso abdicar de que eu sou uma mulher negra, porque eu vou enfrentar o racismo e a violência política de gênero. E não foi diferente no Ministério da Pesca.”

O racismo, segundo ela, se manifestou de forma concreta na diferença de tratamento dentro da própria coordenação. “Eu sofri racismo no Ministério da Pesca, que tinha uma outra coordenadora, que era loira, e que o tratamento para ela era totalmente diferente do tratamento que era para mim”, denuncia. “Em determinados momentos, a gente teve que fazer debate na coordenação e eu dizia: gente, não tem como eu passar despercebida que eu tenho cabelo black. Não é possível que a outra coordenadora ocupe o mesmo espaço que eu ocupo, ela recebe os mesmos valores que eu recebo e o tratamento para ela é diferente.” Apesar do desgaste e de questões como, segundo ela, uma traição interna que resultou em um golpe dentro da própria coordenação, Eliete define a passagem pelo Ministério como um aprendizado que a preparou para o mandato que viria: conseguiu levar o combate ao racismo ambiental para dentro da pasta e transformar em política pública um projeto próprio, nascido em Ilha de Maré, de beneficiamento familiar para mulheres pescadoras. “Foi um aprendizado, sabe?”, resume.

Em 2024, finalmente eleita vereadora de Salvador com 8.479 votos, sob o mandato batizado de “mandato popular das águas”, Eliete tornou-se a primeira mulher quilombola a ocupar uma cadeira na Câmara Municipal da capital baiana. Vale ressaltar que se trata de uma cidade de maioria negra que, até então, nunca havia elegido uma representante quilombola.

“O ativismo não sai do mandato”

Questionada sobre o que muda quando o ativismo vira mandato institucional, Eliete recusa a ideia de perda de radicalidade. “O ativismo não sai do mandato. É um gabinete do movimento social, é um gabinete que vai para as ruas com as comunidades se mobilizando e a gente dá apoio. É um gabinete ainda de uma mulher negra, marisqueira, quilombola, que sabe que mesmo sendo autoridade dessa cidade, o racismo ainda opera. Tem dia que eu sofro vários racismos dentro da Câmara Municipal, várias violências”, diz. 

Entretanto, a vereadora reconhece o preço da institucionalização: já foram três tentativas de cassação, sendo uma de maneira formal e duas intimidações; além de novos episódios de ameaças de morte contra a parlamentar e a equipe ligados à disputa em torno do território de São Tomé de Paripe: “Eles me ameaçaram agora na disputa sobre o território de São Tomé de Paripe, que é um território que está em uma exposição química, a maior exposição química do Brasil nos últimos anos, com ameaça de morte aos meus assessores e a mim também. A campanha partidária é um lugar muito cruel, difícil, mas que é possível nós, mulheres e homens pretos, ocupar esse espaço e trazer as pautas que são gritantes nesse Estado.”

Apesar disso, faz questão de separar o desgaste pessoal da perda de terreno político: “Eu adquiri mais inimigos, mas isso não me coloca em um lugar de perder território. Eu acabei perdendo a vontade de fazer revolução — e eu tenho que ter limites nessa estrutura, tenho que saber o que eu falo e como eu me comporto. Mas eu não me aparto das necessidades do nome do meu povo.”

Eliete afirma, no entanto, que se mantém firme para levar as pautas que a elegeram vereadora para a Câmara dos Deputados: “Não tem um deputado federal quilombola lá na Bahia, e nem estadual. Não tem um deputado quilombola ou pescador que traga a pauta daquela comunidade que está ali sendo desapropriada pelo modelo perverso do capital, das grandes empresas, das multinacionais. A Eliete Paraguaçu vai nessa perspectiva de denunciar as injustiças na Bahia e a reparação histórica.”

Ela finaliza comentando sobre como é apaixonada pela “revolta”: “Uma revolta do nosso povo para o que está estabelecido, e o que está estabelecido não nos contempla. O nosso povo precisa questionar mais, precisa se revoltar mais e dizer que está errado. Eu acho que a gente não pode perder a esperança do outro mundo possível. E o outro mundo possível, para mim, é o bem viver”. Um horizonte que, segundo ela, só se sustenta com “dignidade garantida, emprego garantido, saneamento básico para o povo preto que construiu esse país e ainda continua na pobreza”. “A gente tem que se revoltar todos os dias”, conclui. “A gente tem que manter a chama acesa da esperança em nossa mente e nossos corações.”

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