“Desata nas veias a primavera!
Coração, bate e combate!
O peito — bronze de guerra”.
(“Nossa marcha”, de Maiakovski)
No Come Ananás
“Eu tô com raiva! Adoraria fazer um programa sentando o cacete!”, esbraveja Duda Mendonça ao lado de Lula da Silva, sentados lado a lado em uma mesa onde havia apenas um cinzeiro para a cigarrilha de tabaco escuro. Atrás, uma enorme bandeira do Brasil. Logo em seguida seria gravada uma peça de propaganda eleitoral.
Lula ignora a tensão do marqueteiro e começa a batucar no tampo de madeira, e a cantarolar, e de repente para de cantarolar e diz: “Ô Duda, você sabe que eu tenho uma frustração que eu nunca aprendi a batucar, e tinha um filho da puta de um cara chamado Batista que ele chegava no balcão do almoxarifado pra pegar ferramenta, e ele com o joelho, com o braço, com isso aqui… ele fazia uma escola de samba!”.
Corta. Silêncio. Chega Dona Marisa. Duda corta o silêncio fazendo um batuque à altura do batuque do Batista. Lula olha para ele, algo surpreso. Tenta acompanhar, mas, bem, nunca aprendeu a batucar. Duda diz: “em negócio de marketing político eu sou uma merda, mas de briga de galo e batuque eu sou bom”.
Corta. Lula está sozinho na mesa. A gravação está prestes a começar. Lula começa a cantar o Hino da Independência:
“Já podeis, da Pátria filhos/Ver contente a mãe gentil/Já raiou a liberdade/No horizonte do Brasil/Já raiou a liberdade/Já raiou a liberdade/No horizonte do Brasil/Brava gente brasileira…”
Lula interrompe a cantoria para levar um copo d’água à boca, mas devolve o copo à mesa sem chegar a dar um gole, e começa a falar, e lá vamos nós:
“Nas greves de 80, inventaram a ideia de que se a gente cantasse o Hino Nacional, o Hino da Independência, a polícia não batia na gente. Eu comprei um livro que tinha todas as músicas. Tinha o Hino ao Soldado Brasileiro. Como é que era, meu Deus do céu…”
As cenas são de Entreatos, documentário de João Moreira Salles sobre a campanha de 2002. Outra época, mesmo país, outro país.
Lula olha para cima, morde o lábio, mas não consegue lembrar a letra do Hino do Soldado, e segue:
“Mas era bonito [risos no estúdio]. E aí nós fomos pro estádio da Vila Kennedy e eu falava: ‘quando a polícia vier, vocês cantam o Hino do Soldado’. Bicho, quanto mais cantava, mais porrada a gente tomava [risos]. Alguns companheiros se enrolaram na bandeira do Brasil, achando que os policiais não iam bater na bandeira do Brasil. Batiam do mesmo jeito [risos]. Aí falaram pra gente: ‘olha, se eles vierem, vocês entram na sacristia, que na sacristia eles não vão entrar, que aí já é demais’. Puta… entraram do mesmo jeito [risos]”.
Risos.
Nunca foi de bandeja. Sempre foi debaixo de todo tipo de porrada, mas foi.
Corta. Domingo, 4 de outubro de 2026. Já passa das oito da manhã. Lembro de Nossa Marcha, poema de Maiakóvski: “Desata nas veias a primavera! Coração, bate e combate! O peito — bronze de guerra”.
E lá vamos nós. Vamos fazer uma escola de samba, igual ao filho da puta do Batista. E vamos vencer!




