Entre a ruína do bem-estar social e a serenidade resiliente de Lula, a esquerda enfrenta o desafio de decifrar o Brasil do século XXI antes que o país seja tragado pelo abismo do neocolonialismo miliciano
A primeira derrota
Houve duas derrotas nesta eleição. Elas não são simétricas.
A primeira é enorme e bivalente. Por um lado, foi a derrota da paciência com o amálgama da corrupção com a desordem institucional do país, da qual Lula, por três vezes presidente, foi tomado como responsável e como símbolo. Por outro lado, é mais profunda: a maioria dos brasileiros cansou dos esforços de criação de um estado de bem-estar social no Brasil, essa extraordinária e inédita vitória sobre o desafio de fazer isso em um país de renda média.
Os vencedores da hora cansaram, como se diz, de mi-mi, de ficar desperdiçando dinheiro em políticas sociais destinadas a pobres, velhos, minorias de todo tipo, que não terminam nunca de terminar e que refletem uma cegueira e falta de confiança nos indivíduos cuja situação em última análise é entendida como dependente só deles mesmos, de seu esforço ou de sua preguiça, de sua saúde ou de sua doença, de sua inteligência ou de sua burrice, de sua ignorância ou de sua educação, de verdadeiras famílias, ou desses ajuntamentos precários, sempre pela metade e sem continuidade.
Cansados dos altos impostos que a seus olhos retiram renda de quem empreende e de quem trata de resolver seus problemas por conta própria. Cansados do desperdício de recursos que vai para pagar uma elite de funcionários públicos tidos como marajás que não servem para nada. Cansados, assim, da inversão de prioridades, de investimentos no que interessa: polícia e presídios e também cansados dessas veleidades de independência do Brasil, desejosos de voltar ao amanho de um bom estatuto colonial que é, afinal, o que a história e o destino nos reservaram e reservam.
Esse desejo de dependência é profundo e duradouro no Brasil. Formalmente, os trezentos anos de colônia formal passaram, mas, nos estratos mais profundos da consciência brasileira, ficaram, estão sempre ali, às vezes, como agora, ostensivamente, em outras, latentemente, como uma desconfiança de que a autonomia soberana que volta e meia almejamos, não é bem para nós.
A segunda derrota
Esta é a de Lula. É menor, ele perdeu por 1,89 %, fez 53 milhões e 837 mil votos. Muito menor do que a da esmagadora derrota dos partidos de esquerda e centristas.
A fala de Lula, ao reconhecer imediatamente o resultado infeliz, pôs à luz essa diferença. De maneira certamente desconcertante para o ânimo em que se encontravam seus apoiadores próximos e remotos, Lula estava absolutamente senhor de si, calmo, quase alegre, seguro de seu passado de vitórias e derrotas, com a sabedoria de quem apreendeu a lição da vida: que nela se ganha e se perde e que no fim a morte sempre nos derrota. Mas com a convicção de que não se morre de véspera, de que antes da hora derradeira não cabe hesitar o passo. Que a luta continua, como costumam dizer os esquerdistas e todos aqueles de quem a esperança não desertou.
Mas Lula fez isso em nome do quê? De onde saiu essa fortaleza de si?
Em primeiro lugar, em nome de si mesmo, em nome de sua biografia. De quem vem de família rompida, de quem conheceu o pai aos cinco anos e que concluiu o primeiro ano primário aos dez, coincidentemente quando se sentiu livre com a ausência definitiva do ignorante, bêbado e violento progenitor. Ainda em fidelidade a si próprio, da solidez e da segurança de quem veio do Nordeste em um pau de arara e que por três vezes foi eleito Presidente do Brasil.
De quem, a despeito da crônica rouquidão, tem voz para falar e ser ouvido com naturalidade, de igual para igual com os mais poderosos do mundo: com Xi Jingping, com Donald Trump, com Emmanuel Macron, com Ursula von der Leyen e com qualquer outro líder e presidente do mundo que não seja, à diferença de Donald Trump, só um palhaço como Javier Milei.
Em segundo lugar, porém, em nome do brasil, pois não foi só em nome próprio que Lula, altaneiro, olhou a derrota nos olhos e embora, como no verso de Arthur Rimbaud, a tenha encontrado amarga, viu nela a beleza do desafio. O que há de bom e lindo em fazer o bom combate, de lutar por nosso país. Pelo Brasil, o Brasil esse de nossas melhores esperanças, aquele dos que não querem mais disputar o campeonato mundial das desigualdades, do acesso à educação e à saúde só com base no dinheiro, que não querem entregar a velhice de nossos cinquenta milhões de pobres à indigência, à incerta ajuda dos próximos ou à indigência.
Do Brasil que preza “ a terra mais garrida”, que ama e não quer perder esses nossos “risonhos, lindos campos” nem esses nossos “bosques” que têm mais vida, como diz o nosso hino. Mas em nome também do Brasil que não desiste da inteligência, que acredita nas Universidades, na possibilidade de fazer delas a base científica de nosso desenvolvimento tecnológico.
Do Brasil que não se conforma com ter 2% de aumento do PIB como um limite estrutural, alegremente reconhecido como a verdade inamovível de nossa economia e que combate com todas as forças a ameaça do pleno emprego. Do Brasil que não se conforma com a desindustrialização do país e que, com erros e acertos, luta para reverter o que tem sido o funesto destino dessa parte crucial da economia de nosso país.
Talvez as razões pessoais e de defesa do Brasil que Lula expressa e encarna não sejam tudo, é possível e mesmo provável que elas minimizem a gravidade da atual desordem institucional, do impacto sobre o ânimo dos brasileiros de que até mesmo o órgão mais importante de nosso sistema de justiça esteja desavergonhadamente entregue à venalidade.
Possível também que lhe falte atenção para a evidência de que as mudanças nas formas de desenvolvimento econômico e seus desdobramentos sociais, como a originação de um universo de novas ocupações e a passagem dos serviços à condição de elemento cada vez mais central da nova economia, trouxeram consigo uma mudança subjetiva, um ânimo novo em grandes contingentes da população trabalhadora, tomada por aspirações de novo tipo, a cuja satisfação as políticas sociais existentes parecem inúteis.
Conhecimento mais fino do que é o desenvolvimento tecnológico de nossos dias é igualmente algo que a ele e a seus próximos tem escapado. Falha há ainda na resistência em admitir a urgência de encontrar forma de recuperar a condição de investimento do setor público e que essa recuperação da autonomia e capacidade fiscal tem que se expressar em investimentos em infraestrutura cuja necessidade é evidente .Neste caso, é possível que a vista curta tenha sido voluntária, em vista do que parece ser uma escolha de Sofia: ou infraestrutura ou desenvolvimento social. Ou talvez Lula não veja mesmo isso, mas desta vez mais inocentemente, porque parece que ninguém vê o que deve ser um estado de bem-estar social no e do século XXI
É bem possível que Lula ignore ainda muitas outras coisas. Mas nenhuma delas, nem o conjunto desses enganos, é motivo para que renunciemos ao ideal e ao esforço para construir uma sociedade menos desigual, um desenvolvimento não só mais dinâmico, mas também setorial e regionalmente mais equilibrado, uma cultura tão viva e diversa como sempre temos tido e que não venhamos a ser um país que desiste de si mesmo, que renuncie a lutar para pôr-se à altura de nossas evidentes potencialidades, não obstante as dificuldades que até agora nos têm afastado dessa realização, desse anelo que a nós todos intimamente pega e que, sofridamente, nos tem repetidamente escapado.
Entregar o Brasil a uma família de milicianos ativamente militantes pela subordinação do Brasil aos interesses dos Estados Unidos, despreocupada com a preservação ambiental, indiferentes às mazelas sociais que nos desfiguram, que recusam a opinião da ciência em assuntos de saúde, cujo apreço à democracia vai somente até o ponto em que essa lhes permite exercer o poder, é uma das opções a que o Brasil tem diante de si.
Opormo-nos a tão funesto destino é o que se espera dos brasileiros, lúcidos, patriotas e que sabem, que, contra o individualismo reinante, contra a relativização do valor da democracia, contra a antipatriótica disposição de enquadramento de nosso país na política neocolonial dos Estados Unidos é o que nos cumpre agora fazer.
Por certo, até o segundo turno das presentes eleições e depois, vitoriosos ou não, em permanência, cientes de que na política, como na vida econômica social ninguém faz nada sozinho e que encontrar forma de organizar politicamente as forças progressistas de nosso país é a mais urgente das tarefas que temos pela frente.
*João Carlos Brum Torres é professor aposentado de filosofia na UFRGS. Autor, entre outros livros, de Transcendentalismo e dialética (L&PM). [https://amzn.to/47RXe61]




