E se ele virar presidente? Um exercício de futurismo distópico. Por Luiz Felipe Miguel

Em Amanhã não exite ainda

Caso ele vire presidente, não duvidemos: será muito pior do que já foi.

Vamos começar pelo que é do seu metiê: se ele virar presidente, teremos no governo uma orgia de corrupção como nunca se viu no país. O moço evoluiu, saiu da rachadinha de poucos milhares para os muitos milhões de Vorcaro.

E propina de milhões sai de negócios de bilhões. Se ele virar presidente, as privatizações vão ser feitas em ritmo acelerado. Uma negociata depois da outra, de um jeito que vai fazer a privataria dos tempos de Fernando Henrique parecer um chá da tarde no convento de freiras. Adeus Petrobrás, Banco do Brasil, Caixa.

Setores cada vez mais amplos da economia brasileira serão controlados do exterior. A desnacionalização será brutal. Nossas terras raras, assim como nosso petróleo, serão graciosamente entregues aos Estados Unidos, em gratidão pelo apoio decisivo de Trump para a vitória eleitoral.

Aproveitando o embalo, nossa política externa toda será definida em uma curta frase: obedecer aos Estados Unidos. A diplomacia profissional será desmantelada (o irmão já anunciou isso) e quem resistir, perseguido.

No plano interno, teremos o ataque final aos direitos trabalhistas. As dezenas de milhões de eleitores que preferiram votar nele a alcançar o fim da escala 6 por 1 serão brindados com a “livre negociação” entre a raposa e as galinhas, isto é, entre patrão e empregados, sem nenhum tipo de proteção estatal.

O “mercado” já está eufórico com a possibilidade.

Completando a receita, os serviços socializados, como o SUS, e os programas sociais serão esvaziados. Viveremos uma explosão de miséria, saudada como um passo decisivo na libertação do país das políticas paternalistas. Mas o brasileiro poderá tentar a sorte nas bets, novamente legalizadas, para ganhar um dinheirinho. Ou, mais provavelmente, perder. Afinal, o novo governo será alinhado à filosofia Paulo Guedes: “cada um que se foda da maneira que quiser”.

Mas algumas consequências são coletivas. Quando o planeta ferver, pelo incentivo que será dado à derrubada de toda e qualquer floresta, vamos ferver todos, mesmo os que não queríamos.

Os golpistas do 8 de janeiro, soltos, receberão medalhas pelos serviços prestados à pátria. Jair será considerado oficialmente um mártir, em pé de igualdade com Tiradentes. A Globo vai produzir especiais louvando sua trajetória.

Quem não gostar, que vá embora. Quem quiser protestar, vai preso. As liberdades civis serão cerceadas, em nome da família, da Pátria e de Deus. Os comunistas, isto é, todos os insatisfeitos, sofrerão represálias. Serão demitidos do que restar do serviço público. Serão censurados. Serão presos. Serão exilados.

Quem sabe haverá uma lista negra para impedir que os indesejáveis adquiram armas. Já o cidadão poderá comprar até dez metralhadoras, duzentos fuzis, cinquenta granadas, oito bazucas, três tanques.

A resistência será varrida. O Congresso estará dominado por extremistas autênticos ou de ocasião. Veremos a submissão completa do Poder Judiciário ao Executivo, com os quatro novos ministros indicados por ele dando maioria absoluta à extrema-direita.

Nem precisará esperar até lá. Assim que o primeiro Ministro do STF for impedido (Alexandre de Moraes), a maioria extremista no Senado vai perder o pudor, vai se sentir livre para passar o rodo. Flavio Dino e Cristiano Zanin serão os próximos. Dias Toffoli, invertebrado como sempre, já terá aderido. Carmen Lúcia preferirá se aposentar a enfrentar o regime. Fachin ficará dividido entre a dignidade e a covardia. Mas a covardia ganhará – de novo.

No Congresso, a extrema-direita turbinada contará com o apoio do Centrão para desfigurar a Constituição de 1988, tal como o candidato já prometeu. Sabem aquele Centrão, que com Lula cobrava alto a fatura para cada apoio, mesmo em questões básicas, e depois nem entregava o que tinha sido vendido? Pois certamente entregará seu apoio mais fácil para os retrocessos.

Sem nenhum anteparo institucional com um mínimo de força, a fusão entre milícia e poder político poderá acontecer quase à luz do dia.

Com sorte, mergulharemos em um regime autoritário velado, ao estilo da Turquia de Erdoğan. Se dermos azar, será uma ditadura aberta. Depois de 20 anos de pesadelo, começaremos uma transição “lenta e gradual” para a democracia.

Cabe a todos nós evitar tudo isso. Evitar que, daqui a dois ou três anos, a gente releia esse texto e ria do meu otimismo – porque pode ser muito pior, de maneiras que a gente nem imagina.

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