Rede Soma dos Quintais das Mulheres da Amazônia se reúne para cuidar de quem cuida

Mais de 40 mulheres, representando 24 organizações de defesa dos direitos das mulheres da Amazônia, se reúnem e criam um espaço de vida, memória, saberes, afetos, plantas, histórias, práticas de cuidado e resistência

Por Lígia Apel, do Cimi Regional Norte I

“Estar com vocês hoje é lembrar que eu estou viva ainda, independentemente de ter depressão, de ter violência, de sofrer ameaça, eu estou viva, eu tenho minha vida. E eu estou aqui compartilhando com vocês sem medo. Sem medo de ser mulher, de ser eu indígena, de contar a história da cultura do meu povo, do que eu estou aprendendo com o meu povo”. Assim se manifestou Larissa Karitiana, integrante da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Rondônia, sobre como se sentiu ao participar do Seminário da Rede Soma dos Quintas, Bioma Amazônia, realizado de 25 a 27 de setembro, na Chácara Dom Luciano, em Manaus.

O evento foi uma realização do Serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental (Sares) e da Rede Jesuíta de Justiça Socioambiental (Risa). Teve como objetivo criar espaços de encontro, autocuidado e cuidado coletivo, troca de saberes e organização através da articulação e fortalecimento das mulheres, tanto individualmente como em seus coletivos, grupos, associações e movimentos.

Um quintal é um espaço externo de uma casa, normalmente utilizado para o cultivo de plantas ou para convívio familiar ao ar livre. Um ambiente que contribui com a saúde dos moradores e que, geralmente, é organizado e mantido pelas mulheres. Com essa perspectiva do cuidado, o “Soma dos Quintais traz a ideia de que cada mulher carrega um quintal – um espaço de vida, memória, saberes, afetos, plantas, histórias, práticas de cuidado e resistência. Quando esses diferentes quintais se encontram, eles se somam e formam uma força coletiva”, define o Sares.

“Nós sempre estamos interligadas”

Larissa se encontrou nesse espaço, sentindo-se acolhida e fortalecida ao “esquecer” seu problema de saúde decorrente de ameaças que vem sofrendo na sua luta na CPT. Com as companheiras, pôde trocar conhecimentos, afetos, cuidados e sabedorias do seu povo. “Nós, mulheres Karitiana, fazemos de tudo para carregar o conhecimento. Trazer e levar para a nossa comunidade os conhecimentos que vamos juntando com o compartilhamento de outras sabedorias de outras mulheres. Onde a gente vai, não vai sozinha, a gente leva alguém. Eu estou aqui e já estou passando para minhas lideranças. Depois, já vai vir outra jovem que vai para um outro encontro lá. Então, nós sempre estamos interligadas”, explicou.

Assim como Larissa, mais de 40 mulheres de diferentes territórios e realidades amazônicas trocaram suas sabedorias durante os três dias do Seminário, que teve como lema “Bioma Amazônia: Mulheres tecendo relações de autocuidado em defesa dos territórios e da vida”. Houve também muito diálogo sobre a participação da mulher nos espaços de decisão política, momentos de espiritualidade e místicas, construção coletiva de estratégias e articulação das mulheres e seus territórios.

Ancestralidade como raiz e juventude como sementes

Atividades que fortalecem

As primeiras atividades trouxeram memória dos encontros dos anos anteriores, e abraços das “veteranas” para as que somavam seus quintais pela primeira vez. Trouxeram também massagens e banhos de ervas que distensionaram as impressões e timidez iniciais.

Nos momentos em que cada uma trouxe sua história, suas realidades, enfrentamentos, desafios e conquistas, era possível conhecer os quintais das participantes. Os temas Floresta e Água orientaram as exposições e construíram o “Mapa Vivo dos Territórios – Cartografando os Quintais da Vida”, registrando localidades e ações das mulheres em seus territórios. Fluindo como as águas dos rios da Amazônia que seguem interligando-se até integrarem-se ao oceano, o tema “Dos Quintais aos espaços de decisão” orientou as mulheres para a reflexão sobre a força da sua ação local fluindo para a participação política através de estratégias de incidências em espaços de decisão.

Consolidando a soma dos quintais presentes, foi construída uma agenda com as atividades de cada organização e/ou território presente, previstas para os últimos meses de 2026 e para 2027. Reunidas, as datas mostram um panorama de intensas atividades, estratégias e articulações que movimentam suas lutas.

Para enfrentar tantas ações e movimentos, as mulheres se dedicaram ao cuidado mútuo. Numa perspectiva de “cuidar de quem cuida”, participaram de oficinas de reflexão sobre Memória Ancestral, Danças Circulares e Populares, e, também de produção de Sabonete Medicinal. Mente e corpo foram fortalecidos para enfrentar os desafios da caminhada.

Tendo a ancestralidade como raiz e a juventude como sementes, foi realizado no último dia um encontro virtual das mulheres com o Fórum das Juventudes Amazônicas, em uma soma de conhecimentos e cuidados entre diferentes gerações, que permitiu a identificação de lutas comuns, desafios e conquistas compartilhadas, além de possibilidades de ação conjunta, coletiva e colaborativa.

“Sem medo de sofrer racismo ou ameaças, porque aqui somos livres”

Mulheres Indígenas

As mulheres indígenas são as principais guardiãs da ancestralidade e saberes tradicionais. Assim, trouxeram seus quintais para somar na luta em defesa da vida, direitos e territórios de todas as mulheres.

Larissa Karitiana trouxe a cosmovisão de seu povo e contou, na Roda da Ancestralidade, que é nela que encontra coragem para continuar, apesar dos ataques que seu povo sofre. “O povo Karitiana é um povo que acredita no Deus Botyj̃, na nossa língua Arikém, que é Criador de tudo. E eu aprendi isso com os meus mais velhos e trouxe para cá. Sem medo de sofrer racismo ou ameaças, porque aqui somos livres”, disse, destacando a divindade Karitiana da água, Ora, que protege e também precisa ser protegido pelo povo.

“Na nossa cosmovisão, o rio tem sentido se o povo sobrevive nele. Ora é nossa divindade da água. Quando a gente cuida do rio, a gente está cuidando de Ora. Por isso, as gerações que estão chegando estão sendo convidadas a continuar preservando a ancestralidade que vem dos povos que estiveram há anos nessas águas, construindo resistência em defesa da nossa vida na Amazônia. Nós, juventude, temos que não só renovar, mas continuar um legado, uma missão que foi nos entregue”.

“Quando maltratam o nosso rio, como lá no meu estado [Rondônia], um rio que já é barrado pelas usinas hidrelétricas do Madeira, e que querem privatizar, nós sofremos apagamento, somos desvinculados da nossa história. A juventude precisa buscar o caminho para reencontrar sua história, que está com as pessoas que conheceram o rio antes, que viram toda a destruição acontecendo”, destacou, e indicou a mais importante forma de proteção: “Não é só proteger no papel, é proteger na oralidade, é proteger nos contos, nas histórias, na divindade que tem nessa água, em toda a história, toda a memória, toda a força sagrada que tem nesse rio. E somos nós também, porque nós não estamos desvinculados dessas águas, mas somos extensão dessas águas. Então, como as águas, nós queremos seguir livremente”.

Larissa fez, também, uma analogia sobre as barragens que cortam os rios e o machismo que corta vidas. “O machismo é a mesma coisa do que uma barragem que impede que outras vidas apareçam, retira pessoas dos seus territórios, histórias, desloca essa memória. O machismo faz a mesma coisa. Ele tira de nós as nossas redes de apoio, onde nós podemos acionar os nossos mecanismos de proteção, memória e vida. Resistimos às barragens, aos grandes projetos, também temos que resistir ao machismo e ao patriarcado”.

“Senti que não estamos sozinhas”

Vinda de um quintal urbano, Hellen Greicy Kokama, líder da Associação Wainakana Ayukawarana (Mulheres Guerreiras), trouxe a identidade da mulher indígena que vive na cidade. A Associação fica no bairro Nova Cidade, zona Norte de Manaus, e atua no fortalecimento da identidade indígena urbana, economia solidária, feiras culturais e na luta por moradia e direitos indígenas.

“Eu trago o preconceito que vivemos todo dia, seja dos cidadãos, seja dos órgãos públicos que não nos atendem nos nossos direitos. Ninguém apoia indígena em contexto urbano. Não tem órgão nenhum [que vai lá]. Eles olham para a gente e dizem ‘você não é indígena’. Nós estamos ali para fazer a diferença, para não deixar morrer a nossa fala materna, a nossa cultura, que muitos falam que não existe”.

Milena Mura, Coordenadora Presidente da Organização das Mulheres Indígenas Mura (OMIM), vive na aldeia Moyray, Terra Indígena Guapenú. São muitos os desafios e ameaças que sua aldeia enfrenta: invasões de búfalos dos fazendeiros, desmatamento, queimadas, e ainda, “enfrentamos a empresa Potássio do Brasil, um dos maiores obstáculos da nossa luta. É uma empresa que envolve muitos órgãos, muitas pessoas poderosas. Está se instalando no nosso território e não nos respeita”, denunciou, afirmando que para enfrentar as situações precisam se fortalecer e que o Soma dos Quintais contribuiu com isso.

“Aceitei o convite primeiro porque era um meio de me sentir fortalecida. Mas, também, porque achei um nome muito forte e apropriado. Quintais são lugares onde mulheres se encontram consigo e com plantas, com a natureza. Juntar os quintais é falar de suas vidas. Isso fortalece a gente”, disse, contando sobre as diferenças de outros encontros.

“Em todos os encontros, a gente sempre vai com a perspectiva de ir lá, discutir propostas para ter um bom resultado. Esse foi diferente. Foi acolhedor, de autocuidado, de fato. De a pessoa se sentir mais leve, como se fosse um momento de lazer, um momento de nós, mulheres, nos amarmos e nos cuidarmos”.

Força e acolhimento também foram sentidos por Ana Paula Mura, da Terra Indígena Lago do Soares, em Autazes, local onde a empresa Potássio do Brasil se instalou sem pedir licença para extrair silvinita do subsolo para produção de potássio. Devido à resistência do povo Mura ao projeto, ameaças são constantes às lideranças e suas famílias. Ana Paula é companheira do tuxaua Filipe Gabriel Mura e contou que “quando Gabriel sai, eu não posso ficar em casa com as crianças, vou para a casa da minha mãe”. Por conta desse risco, participar do Soma dos Quintais e ouvir os desafios das outras mulheres foi, para Ana, muito importante.

“Participar e compartilhar a nossa a luta com mulheres fortes que têm suas próprias lutas foi de muito fortalecimento. Senti que não estamos sozinhas. Várias mulheres com diferentes lutas e somar com elas, montando calendário conjunto, se autocuidando, derrubando preconceitos, participação de mulheres na política ou dentro de casa, vendo o quanto de espaços ainda temos que ocupar para que a voz de cada uma seja ouvida por todas as pessoas que queremos alcançar, enfim, tudo foi muito importante”, constatou.

“A união entre mulheres urbanas e rurais, das florestas e das águas, demonstra a potência da Rede Soma dos Quintais”

Somando outros movimentos

“Ações em conjunto significam um trabalho mais fortalecido, em rede, em articulação, no individual para o coletivo, e dos coletivos para uma rede ampliada e consolidada”, é uma das certezas das mulheres. Diferentes movimentos em diferentes temáticas somando-se na caminhada, considera Socorro Papoula, militante feminista da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB).

“Eu acho que é um momento que precisamos todos os anos para nos fortalecer. E esse momento foi muito bom para alertar sobre situações que estão acontecendo no nosso planeta. A questão climática, por exemplo. O que tem muito a ver com as mulheres, porque quem mais sofre com isso são as mulheres. São elas que cuidam, que lidam com a água, principalmente na Amazônia. Esse momento é de a gente refletir, trabalhar ações que podemos construir em conjunto para combater violências e defender direitos”, apoiou.

Para a Analista social do Sares, Mary Nelys, o evento mostrou sua potência. “Superou as expectativas, especialmente pela participação das mulheres e pela presença de novas instituições e organizações parceiras, ampliando os espaços de diálogo e articulação. O objetivo foi alcançado, sobretudo pelos momentos de acolhimento, autocuidado, partilha de saberes e fortalecimento dos vínculos”, disse, comentando que “a união entre mulheres urbanas e rurais, das florestas e das águas, demonstra a potência da Rede Soma dos Quintais ao aproximar diferentes realidades, experiências e saberes e fortalecer uma construção coletiva em defesa da vida, dos territórios e da Casa Comum”.

Mary disse, ainda, que o Soma dos Quintais “reafirma o compromisso do Sares com a justiça socioambiental, reconhecendo o protagonismo das mulheres na construção de relações mais justas, solidárias e sustentáveis e na defesa dos territórios e da vida na Amazônia”.

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