Discutir “Expectativa(s) de vida y futuro”, assim como as “temporalidades del cuidado entre generaciones”, exige começar por aquilo que o próprio título parece pressupor: que ainda haja alguma expectativa de futuro e que este possa, de algum modo, ser coletivo e abrangente. Mas essa pressuposição tornou-se historicamente problemática. Talvez nunca tenha sido tão concreta a possibilidade de sermos, de fato, a última geração. É a partir dessa perspectiva de uma política do e contra o fim dos tempos que eu gostaria de abordar, em diálogo com Verónica Gago (e Silvia Federici), aquilo que ameaça não só a expectativa de vida, mas também a própria vida de grande parcela da população mundial e que está diretamente ligado ao tema dessa conferência. Gago e Federici chamaram esse processo de “fascistização da reprodução social”.
É importante discutir a relação entre reprodução social e fascismo nesse contexto, pois ainda são poucas as teorias que analisaram o fascismo a partir das teorias da reprodução social (que só emergiram como corpus de escritos na década de 1970); assim, a relação do fascismo – para além de seu impulso evidente de restauração do patriarcado – com a reprodução social, a família e o trabalho de cuidado permanece subexplorada nas explicações desse fenômeno. Verónica Gago tem o mérito inequívoco de ter proposto a discussão nesses moldes. Além disso, esse debate é fundamental nos dias que correm, pois, na crise capitalista contemporânea, a reprodução social torna-se um dos seus pontos mais críticos. Isso quer dizer que a precarização social e do trabalho, a queda salarial, o endividamento, a crise fiscal e a destruição de serviços públicos se apresentam, no dia a dia das pessoas, como essa crise do cuidado, da moradia, da saúde, da alimentação, da velhice, da infância e do tempo livre que estamos vivenciando. A reprodução social é a esfera na qual as contradições da acumulação se mostram mais sensíveis, pois se apresentam como experiência vivida. Ademais, a reprodução social é a esfera sobre a qual incide uma parcela mais do que significativa das exigências de acumulação do capitalismo contemporâneo (seja em termos de extração de valor, seja em termos de extração de trabalho não pago ou subpago).
Conforme expõem Gago e Luci Cavallero em La casa como laboratório, se um dos ganhos da teoria da reprodução social foi, na década de 1970 (e aqui vale mencionar os trabalhos de Mariarosa Dalla Costa, Selma James, Silva Federici, Wilmette Brown, entre outras), mostrar que a sociedade industrial tinha sua contrapartida doméstica igualmente industrializada (imortalizada pelo mote da campanha por salário para o trabalho doméstico que “a casa é a nossa fábrica”, revelando essa esfera como parte essencial da produção capitalista), hoje trata-se de mostrar como não só o doméstico é exteriorizado pela plataformização da economia, mas como o fascismo acentua (até o genocídio) os critérios de seleção que vão determinar quais vidas podem e devem ser protegidas e quais terão de individualmente o custo da própria sobrevivência, bem como quais podem ser deixadas de lado e esses critérios estão diretamente ligados às desigualdades que compuseram historicamente a o processo de formação da reprodução social, como gênero, raça, sexualidade. Isso porque o fascismo nada mais é do que a intensificação de um processo já imanente ao capitalismo: é a generalização de sua política extrativista de sangue, suor e lágrimas, processo ao qual também a reprodução social, como esfera de extração de trabalho não pago, se irmana.
É certo que falar em fascistização da reprodução social é discutir como a família se torna cada vez mais um operador de pertencimento étnico, religioso e nacional, além de um substituto para a socialização do trabalho e dos custos do cuidado. Também é falar de como, hoje, a preocupação com a baixa natalidade da população considerada nacional nos países do centro do capitalismo se combina com uma hostilidade eugenista à reprodução de migrantes ou minorias. Portanto, é falar de como a reprodução social, fronteira escondida pelo processo capitalista, é estruturada segundo as fronteiras do Estado-Nacional moderno e da dinâmica desigual e combinada de dependência para determinar quem pode reunir sua família, trabalhar ou não, ter acesso aos direitos sociais, etc. É falar ainda sobre como o combate à chamada “ideologia de gênero” é uma forma de seleção social que, a cada dia, se torna uma questão de vida ou morte. E de como seus elementos internos, como o trabalho de cuidado com imigrantes ou as políticas reprodutivas como o aborto, são criminalizados. Por fim, é falar de como recai sobre as populações encarregadas da reprodução social um misto de abandono nas políticas sociais e de disciplinamento econômico, por meio do endividamento e da violência.
A expressão me parece tanto mais importante quanto mais exige ser precisada: a reprodução social, no sentido marxista, refere-se ao nexo material que sustenta a reprodução da força de trabalho e, consequentemente, a própria acumulação capitalista. Não se trata de uma esfera externa que o fascismo captura, mas, para ser mais precisa, sobre a qual incide, reorganizando-a. E o faz, de certa forma, ao reorganizar o trabalho de cuidado que é a sua base. Talvez seja, por isso, mais preciso falar em uma “fascistização do cuidado”. Se a reprodução social nomeia uma determinação estrutural relativa à reprodução da força de trabalho e às condições de continuidade da própria vida social, o cuidado remete a uma constelação mais ambivalente de práticas. Cuidado, desacompanhado da ideia de trabalho ou de reprodução social, pode ser, nesse sentido, uma forma de ideologia. Essa indeterminação relativa o torna particularmente permeável à moralização, à nacionalização e à reinscrição política pela via da extrema-direita. E é nesse “fascist turn” do cuidado que estou interessada aqui.
A hipótese que gostaria de esboçar é a de que a fascistização do cuidado precisa ser pensada em conexão com as transformações introduzidas pelo capitalismo de plataforma. Tenho trabalhado com a tese de que o capitalismo de plataforma constitui a infraestrutura da organização e da produção do fascismo hoje, especialmente por meio das redes sociais. E o antifeminismo contemporâneo oferece um terreno privilegiado para observar esse processo. Nas redes sociais, ele assume cada vez mais a forma de um movimento transnacional capaz de fazer convergir repertórios políticos, morais e estéticos heterogêneos, aproximando figuras como Michelle Bolsonaro e Giorgia Meloni de fenômenos aparentemente mais difusos, como o universo das “tradwives”. Nesse contexto, o cuidado se transmuta. À medida que o Estado e o capital se recusam a assumir socialmente os custos da reprodução da vida, tais encargos são transferidos novamente para a família, recaindo principalmente sobre as mulheres. Esse deslocamento material, contudo, é apresentado no discurso político desses movimentos antifeministas como uma recuperação de valores, tais como responsabilidade, maternidade, proteção e liberdade. Sendo assim, seria possível dizer que a extrema direita vai além da mera reação antifeminista ao buscar reconstruir uma ordem do cuidado que compatibilize a desresponsabilização estatal, o livre mercado e a obrigação privada.
Mas talvez seja preciso dar mais um passo. A relação entre capitalismo de plataforma, antifeminismo e cuidado não se limita à reorganização de práticas reprodutivas já existentes. E aí creio que o texto de Gago, “A Fascistização da reprodução social”, deixa a desejar nesse aspecto (apesar de seus enormes méritos), porque sua base de análise é o capital financeiro e a dívida, e não a plataforma (que reorganiza a reprodução social não apenas em termos laborais, mas também sociais e subjetivos). As plataformas ajudam a criar um tipo específico de subjetividade associada ao cuidado. O cuidado fascistizado não é uma nova versão do cuidado doméstico antigo, com outra direção política. Ele funciona como uma ressocialização das pessoas. Para elas, cuidar ganha um significado bem diferente daquele que vários feminismos atribuíram ao termo. Nesse contexto, cuidar quer dizer restaurar e fazer crescer ainda mais hierarquias consideradas naturais e assumir, de forma privada, os custos da reprodução capitalista.
Esse ponto merece atenção, se estamos falando também de uma crítica da ideologia a partir de uma perspectiva feminista. O fascismo não se mantém apenas pela força. Ele depende de um certo engajamento que não pode ser minimizado nas análises do fenômeno. O fascismo sobrevive historicamente devido às contradições do capitalismo, das quais emerge, e também porque é capaz de oferecer objetos com os quais as pessoas se identifiquem e criar formas de satisfação que se encaixem nas relações sociais que busca conservar, produzir e reproduzir. No terreno do cuidado, isso quer dizer fazer com que relações de dependência, subordinação e sacrifício sejam experimentadas como uma realização subjetiva. A velha divisão sexual do trabalho precisa adquirir uma nova forma de evidência; a dependência econômica precisa aparecer como escolha; a renúncia, como autenticidade; a sujeição, como liberdade. E é tudo isso que os movimentos antifeministas contemporâneos fazem nas redes sociais.
Nesse contexto, o livro de Manon Garcia, Não se nasce submissa, torna-se, com seu argumento sobre a produção da submissão, revela-se ainda mais relevante para a teoria política feminista atual. A força, portanto, nos novos movimentos antifeministas organizados pela plataforma não está só na circulação de conteúdos, embora também esteja, mas na capacidade de dar forma e sentido ao modo como a crise da reprodução social é experimentada na medida em que esta crise, que é material, é apresentada pela extrema-direita como crise moral, e o feminismo surge como uma de suas causas imaginadas, como um de seus principais bodes espiatórios. Nesse deslocamento, o cuidado vira um campo importante para a produção de subjetividades fascistizadas. As bases materiais para isso, como disse antes, estão ligadas à crise do capitalismo, mas também às plataformas, como forças produtivas que transformam as relações de produção (e as formas de subjetividade a elas correspondentes).
A relação entre cuidado e fascismo pode (e deve, na minha opinião) ser pensada, portanto, também a partir da própria transformação contemporânea da indústria cultural. E a vida cotidiana torna-se cada vez mais alvo da indústria cultural. Este aparato, e agora isso se intensifica ainda mais na era da inteligência artificial, passa a organizar os modelos de relações conjugais, maternidade, alimentação, educação dos filhos, organização doméstica e sexualidade, etc. A forma política do fascismo pode, nessas condições, deixar de lado sua apresentação imediata como doutrina. Ela se fixa nas práticas e nas imagens por meio das quais as pessoas aprendem a reconhecer uma vida boa, uma família normal e uma “ordem social” desejável.
O movimento das “tradwives” é um dos exemplos mais imediatos e evidentes dessa transformação. Esse movimento, ao contrário do que tem sido defendido por muita gente, não representa a mera sobrevivência de uma feminilidade tradicional. E o mesmo vale para a manosfera. Conforme defendeu a jornalista Carole Cadwalladr, que cunhou o termo “Broligarchy”, é um engano pensar que as redes sociais são um aparato neutro que apenas ecoa o machismo já existente na sociedade. Teorias feministas que tratam desses movimentos como uma espécie de restauração do patriarcado ignoram que, sob o neofascismo de plataforma, tanto a feminilidade quanto a masculinidade estão não só sendo reproduzidas segundo normas antigas, por assim dizer, mas, na verdade, produzidas de forma intensificada e, em alguma medida, nova. Isto é, a mudança quantitativa, em termos de intensificação das relações capitalistas patriarcais, produz uma mudança qualitativa na organização social. O trabalho doméstico, a maternidade, a conjugalidade, a relação com o corpo e com a casa tornam-se materiais para uma forma específica de produção cultural. A domesticidade defendida pelo movimento das tradwives, por exemplo, não está ligada, nesse contexto, à invisibilidade social do trabalho reprodutivo, mas se apresenta sob a forma do espetáculo. Essa contradição é interessante para repensarmos, sob uma perspectiva feminista e materialista, como se dá essa pseudorrestauração.
A mulher que reivindica a retirada para o espaço privado só pode conferir valor exemplar a essa retirada mediante sua exposição permanente. Ou seja, a defesa de uma saída do mercado de trabalho consiste, na verdade, na produção de uma mercadoria a ser consumida na plataforma. A recusa da modernidade assume a forma de conteúdo produzido pelas tecnologias mais avançadas de circulação e de mensuração. O ideal de vida doméstica torna-se uma forma de trabalho digital. A nostalgia é produzida industrialmente (e pela inteligência artificial). É justamente por isso que não estamos diante de um retorno. Trata-se da produção de uma nova forma de feminilidade fascista, plenamente adequada às condições do capitalismo de plataforma. A saída do mundo do trabalho pago, por assim dizer, é uma pseudo-saída, pois ocorre por meio da inserção dessas influencers no mercado digital. Por isso, vale ressaltar, falar em retorno, restauração etc. de uma antiga ordem não faz sentido. Nossas avós ou bisavós que tiveram o privilégio da servidão reprodutiva não eram tradwives que se filmavam o dia inteiro, mas simplesmente mulheres confinadas ao trabalho doméstico pelo processo de acumulação primitiva do capitalismo.
Para terminar, vale um breve comentário final sobre a fascistização da reprodução social. Gago argumenta, corretamente, a meu ver, que a financeirização da pobreza, o endividamento, a hiperinflação e as políticas neoliberais de empreendedorismo e culpabilização individual prepararam o terreno para a fascistização da reprodução social. Meu objetivo nessa fala foi tentar acrescentar algo a esse debate, chamando a atenção para como o capitalismo de plataforma está dissociando cuidado e trabalho, dois elementos que o feminismo buscou reunir nas últimas décadas, e produzindo subjetividades fascistas tanto pela via da manosfera quanto pela via dos movimentos antifeministas, como os das tradwives e outros mais pseudo-empoderadores, como o movimento de mulheres armadas que vimos em 2022 na campanha de Jair Bolsonaro. E, para terminar, me parece que não há expectativa de futuro possível se, no centro de nossas análises do fascismo, não incluirmos não só o capitalismo de plataforma, mas também os sujeitos e as relações que ele produz.
Texto apresentado no colóquio internacional “Expectativa(s) de vida y futuro: temporalidades del cuidado entre generaciones”, organizado pelo Käte Hamburger Centre for Apocalyptic and Post-Apocalyptic Studies (CAPAS), da Universidade de Heidelberg, e pela Cátedra UNESCO da Universidad Autónoma Metropolitana (UAM), Unidade Cuajimalpa, realizado em 28 de setembro de 2026, na Casa Galván, Cidade do México.
*** Bruna Della Torre é pesquisadora de pós-doutorado no Centro Käte Hamburger de Estudos Apocalípticos e Pós-apocalípticos da Universidade de Heidelberg e integra a equipe editorial das revistas Apocalyptica e Crítica Marxista. Em 2023, foi Horkheimer Fellow no Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt. Realizou pós-doutorados no Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP (supervisor: Jorge de Almeida) e no Departamento de Sociologia da Unicamp (supervisor: Marcelo Ridenti). É doutora em Sociologia, mestre em Antropologia Social e bacharel em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo. Atuou como pesquisadora visitante nos departamentos de Filosofia da Humboldt-Universität zu Berlin (anfitriã: Rahel Jaeggi), de Sociologia da Goethe-Universität Frankfurt (anfitrião: Thomas Lemke) e de Literatura da Duke University (anfitrião: Fredric Jameson). Desenvolveu pesquisas no Arquivo Walter Benjamin/Theodor W. Adorno da Akademie der Künste, em Berlim (2014 e 2019), e no acervo de Oswald de Andrade do CEDAE/Unicamp (2011). Em 2024, integrou o projeto da International Herbert Marcuse Society para a organização dos arquivos de Douglas Kellner, sediado na Universidade de Columbia. Foi professora visitante na Universidade de Brasília entre 2017 e 2018 e novamente em 2021. É autora do livro Vanguarda do atraso ou atraso da vanguarda? Oswald de Andrade e os teimosos destinos do Brasil. Tem experiência docente nas áreas de teoria literária, literatura comparada, sociologia e filosofia. É membra da coletiva Marxismo Feminista e colunista mensal do Blog da Boitempo, onde escreve sobre literatura, cinema, política e teoria crítica.




