Eleições 2026: a ascensão da extrema-direita ameaça a Constituição. Entrevista especial com Robson Sávio

“O desafio central deste 2º turno é discutir se o Brasil aprofundará o projeto constitucional de 1988 ou se caminhará para uma redefinição desse pacto em direção a um Estado mínimo”, alerta o pesquisador

IHU

Por pouco menos de 3%, o bolsonarismo não triunfou neste 1º turno. Flávio Bolsonaro está há um passo à frente de Lula, que precisa insurgir, voltando a inspirar quem está indeciso para uma possível reeleição, manutenção da democracia (em construção) e da própria Constituição de 1988. Mais do que prometer o mesmo, o petista precisa urgentemente projetar novos futuros em diálogo com a prosperidade que o povo deseja.

Se o extremismo voltar a reinar na presidência, tendo apoio mútuo de parlamentares na recente composição da Congresso, do Senado Federal e dos EUA, tudo o que foi conquistado como governo até então não apenas está ameaçado, mas também corre risco de haver um desmantelamento de leis, com a anulação de projetos sociais em vigor e sob votação. Na última terça-feira (6), Flávio Bolsonaro foi a público e deu seu recado de que se vencer, tendo a maioria no Congresso, ele irá “mudar a Constituição”. A ameaça inconstitucional é real e atinge, inicialmente, o Supremo Tribunal Federal (STF).

Em entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU concedida por e-mail, o pesquisador Robson Sávio alerta que a ascensão da extrema-direita “pode produzir uma mudança substantiva no funcionamento das democracias sem que suas instituições sejam formalmente abolidas: alteram-se gradualmente os limites do debate público, a percepção sobre direitos e minorias, a relação com as instituições, a concepção de autoridade e segurança e a própria compreensão sobre os limites do poder político”. O professor também afirma que a “nova composição do Congresso Nacional, sobretudo do Senado Federal, coloca no centro do debate político brasileiro uma questão que vai muito além da correlação de forças entre partidos: o futuro do pacto constitucional estabelecido em 1988”.

Ao analisar a ofensiva da extrema-direita contra o STF, Sávio explica que “transformar ministros do Supremo em inimigos políticos permanentes pode funcionar como uma estratégia de deslegitimação institucional: primeiro se ataca a instituição, apresenta-se sua atuação como ilegítima e, posteriormente, cria-se o ambiente político para submetê-la ao governo de plantão”.

O entrevistado comenta que “o grande desafio democrático do 2º turno será, portanto, transformar uma eleição marcada pela radicalização política em um debate sobre projetos de país – especialmente para alcançar os milhões de eleitores que não se sentem representados pelas identidades políticas já consolidadas”.

Robson Sávio Reis Souza é doutor em Ciências Sociais e mestre em Administração Pública. Leciona na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) e na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). Integra a Comissão Brasileira de Justiça e Paz, o Observatório da Comunicação Religiosa, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Centro Nacional de Fé e Política Dom Helder Câmara e a Associação Brasileira de Pesquisa Eleitoral.

Confira a entrevista.
IHU – O que explica o resultado das eleições? Qual sua análise sobre Flávio Bolsonaro ter sido mais votado neste 1º turno?

Robson Sávio – O resultado eleitoral deve ser explicado por múltiplas causas, e não por uma variável isolada. Há, primeiro, um cansaço de parcelas do eleitorado com democracias que não entregam, segundo suas expectativas, segurança, prosperidade, serviços públicos e melhoria das condições de vida. Esse fenômeno se articula a uma onda global de crescimento da extrema-direita, perceptível em diferentes experiências latino-americanas, como Argentina, Chile, Peru e Colômbia, e a claros sinais de disputa e interferência geopolítica dos Estados Unidos nos processos políticos do continente. Soma-se a isso uma disputa religiosa: desde 2018, o bolsonarismo consolidou forte presença entre parcelas expressivas do eleitorado evangélico e estabeleceu vínculos importantes com setores conservadores do catolicismo. Existe ainda um caldo cultural mais profundo, marcado pela normalização da violência, da exclusão social e do autoritarismo, combinado à meritocracia, à teologia da prosperidade e ao hiperindividualismo contemporâneo. Esse conjunto produz um voto silencioso, de difícil mensuração pelas pesquisas convencionais, mas que encontra no discurso da extrema-direita uma tradução política para valores, ressentimentos e expectativas já presentes na sociedade.

Outro fator importante para compreender o resultado é a combinação entre o antipetismo (construído homeopaticamente pela mídia e setores com grande poder de vocalização na sociedade ao longo de décadas e com mais intensidade durante a operação “Lava Jato”) e a corrupção. Essa associação está colada ao PT e Lula, mesmo sem comprovação no último período de governo, e não emplaca na família Bolsonaro, mesmo com fortíssimas evidências contra o pai e o atual candidato a presidente.

Observamos, também, uma estratégia de homogeneização do campo da direita, da extrema-direita e da centro-direita. Desde o 1º turno, candidaturas como as de Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Augusto Cury, embora formalmente concorrentes, acabaram funcionando, em diferentes graus, como uma espécie de linha auxiliar da candidatura de Flávio Bolsonaro, ao disputarem um eleitorado majoritariamente situado no campo antipetista, conservador e reacionário. Na reta final, essa diferenciação entre as candidaturas tende a perder força, favorecendo a convergência de parcelas desse eleitorado em torno de uma candidatura identificada como capaz de representar, de maneira mais abrangente, esse campo político. À medida que a campanha se aproximou da votação, a percepção de que a disputa efetiva se concentrava entre Lula e Flávio favoreceu a lógica do voto útil: parte dos eleitores que inicialmente pretendia votar em candidatos de menor expressão migrou para Flávio para evitar que Lula terminasse o 1º turno na frente ou para aumentar as chances de seu campo político nas eleições.

Dados das pesquisas e da votação final indicam esse movimento: Cury, Caiado, Zema e Renan Santos somavam cerca de 11% nas pesquisas às vésperas da eleição, mas terminaram (juntos) com 7,58% dos votos válidos, enquanto Flávio obteve uma votação superior àquela projetada pelos últimos levantamentos. Assim, mais do que representar apenas a dimensão do eleitorado propriamente bolsonarista, a votação em Flávio expressou a capacidade da extrema-direita de aglutinar, na reta final, diferentes segmentos da direita em torno do antagonismo ao PT.

No caso específico do aumento da votação em Flávio Bolsonaro se compararmos com as votações de Jair, é preciso acrescentar outras variáveis. Há uma dificuldade do governo Lula em apresentar um projeto mobilizador de futuro; sua campanha permanece excessivamente ancorada na comparação com aquilo que foi realizado em seus governos anteriores, enquanto parte do eleitorado busca respostas imediatas para problemas novos.

As redes digitais também desempenham papel decisivo: são ambientes fortemente explorados pela extrema-direita, embora ainda seja difícil dimensionar com precisão a influência das big techs, dos algoritmos e das estratégias de segmentação sobre as escolhas eleitorais. Experiências internacionais, contudo, indicam que a arquitetura dessas plataformas pode favorecer determinados campos políticos conservadores e amplificar conteúdos polarizadores.

É importante registrar outro fato: chama a atenção a normalização midiática da vida pregressa de Flávio Bolsonaro: ele consegue apresentar-se como candidato antissistema apesar de estar visceralmente ligado a um sistema político marcado por práticas patrimonialistas, corrupção, grupos armados, relações com elites e uma tradição autoritária. Quando esse histórico deixa de ser efetivamente confrontado no debate público, o candidato pode ocupar o lugar simbólico de “renovação”, justamente enquanto representa a continuidade de estruturas políticas que afirma combater.

Por fim, alguns cientistas políticos têm identificado nas democracias ocidentais uma espécie de “contrarrevolução silenciosa” da extrema-direita, isto é, uma transformação gradual da política que não depende necessariamente de golpes ou rupturas institucionais, mas da conquista progressiva de espaços de poder por meio das próprias regras eleitorais. A extrema-direita passa a ocupar parlamentos, governos e espaços de influência social e cultural, ao mesmo tempo que pressiona partidos tradicionais a incorporar parte de suas pautas, discursos e práticas. O fenômeno pode produzir uma mudança substantiva no funcionamento das democracias sem que suas instituições sejam formalmente abolidas: alteram-se gradualmente os limites do debate público, a percepção sobre direitos e minorias, a relação com as instituições, a concepção de autoridade e segurança e a própria compreensão sobre os limites do poder político. Observamos esse cenário, por exemplo, na Hungria durante o longo governo de Viktor Orbán.

No Brasil, a ampliação da presença de setores da direita radical no Congresso deve ser analisada também sob essa perspectiva: mais do que uma mudança na correlação de forças parlamentares, ela pode expressar uma transformação mais profunda do campo político, na qual posições anteriormente situadas nas margens do sistema passam a ocupar o centro da disputa institucional, alterando os parâmetros do que deve ser considerado aceitável dentro da democracia.

IHU – De que forma a atual conjuntura do Congresso Nacional, onde a maioria dos parlamentares são de extrema-direita, pode afetar o cenário político do país?

Robson Sávio – A nova composição do Congresso Nacional, sobretudo do Senado Federal, coloca no centro do debate político brasileiro uma questão que vai muito além da correlação de forças entre partidos: o futuro do pacto constitucional estabelecido em 1988. Com uma grande bancada do PL e a possibilidade de articulação com outras forças de direita e extrema-direita, tanto na Câmara quanto no Senado, poderá se formar uma maioria parlamentar capaz de pressionar por mudanças profundas no modelo de Estado construído pela Constituição de 1988.

A chamada Constituição Cidadã estabeleceu um pacto de natureza social-democrata, combinando democracia representativa, direitos civis e políticos, direitos sociais, proteção trabalhista, universalização de políticas públicas e deveres do Estado na promoção da redução das desigualdades. A extrema-direita, em grande medida, propõe uma ruptura com esse pacto, seja pela quase eliminação da responsabilidade estatal na proteção social, seja pelo enfraquecimento de direitos e na recusa aos mecanismos de inclusão. Este deveria ser um dos grandes debates do 2º turno: não apenas quem ocupará a Presidência, mas qual projeto de Estado e de sociedade estará em disputa.

Um elemento importante para compreender a nova composição do Congresso é aquilo que podemos chamar de “máquina de ressonância”: a capacidade de diferentes valores, experiências, afetos e interesses se conectarem e se reforçarem politicamente, mesmo sem constituírem um bloco ideologicamente homogêneo. Nessa dinâmica, individualismo, valorização do mercado, desconfiança em relação ao Estado e às instituições, demanda por autoridade e segurança, conservadorismo religioso, ressentimentos sociais e políticos e antipetismo passaram a encontrar pontos de convergência em narrativas de forte apelo emocional. As redes sociais e os ecossistemas digitais de comunicação ampliam essa ressonância ao criar ambientes nos quais determinadas interpretações dos acontecimentos são reiteradas, enquanto fontes e argumentos considerados adversários são deslegitimados. Estudos recentes sobre o contexto brasileiro identificam justamente a formação de circuitos de comunicação política capazes de reforçar polarização e fechamento ideológico.

O resultado eleitoral de 2026 pode ser interpretado, portanto, não simplesmente como a soma de votos em candidatos conservadores, mas como a convergência de diferentes disposições sociais em torno de uma agenda política comum, que ampliou a presença de parlamentares da direita radical e, em alguns casos, de atores que contestaram instituições democráticas e foram associados às mobilizações golpistas de 2022. Essa convergência representa um desafio adicional porque transforma sentimentos e valores dispersos na sociedade em poder institucional, com capacidade de influenciar a agenda legislativa, as relações entre os Poderes e os próprios limites do regime democrático.

Nesse sentido, uma eventual eleição de Flávio Bolsonaro para a Presidência da República, diante de um Congresso fortemente hegemonizado pela extrema-direita, poderia produzir uma concentração inédita de poder político. Um Executivo alinhado ideologicamente a uma maioria parlamentar de direita radical teria condições de impulsionar mudanças institucionais e constitucionais de grande alcance e, sobretudo, de influenciar a futura composição do Supremo Tribunal Federal (STF), à medida que surgissem vagas durante seu mandato, sem contar a possibilidade real e impeachment de ministros atuais da Suprema Corte. O risco, portanto, não estaria apenas em determinadas políticas de governo, mas na possibilidade de alteração progressiva dos próprios mecanismos de controle e equilíbrio do regime democrático, abrindo espaço para uma deriva autocrática ou autoritária.

A separação e o equilíbrio entre Executivo, Legislativo e Judiciário não são obstáculos à democracia: são pressupostos do Estado Democrático de Direito. Uma eventual vitória de Lula, nesse cenário, representaria a manutenção de um contraponto no Executivo diante de um Congresso mais à extrema-direita, além de preservar a atual lógica de composição do STF e, consequentemente, uma estrutura mais equilibrada de freios e contrapesos. O 2º turno, portanto, deveria ser compreendido também como uma escolha entre diferentes projetos de Estado e diferentes concepções sobre os limites do poder político.

IHU – Tivemos também o surgimento de novas representações da base da esquerda, com a eleição de deputados e deputadas como Guilherme Cortez e Ana Elisa. O que essa nova conjuntura pode representar para a esquerda e quais possibilidades ela abre para a construção de uma nova relação com as bases?

Robson Sávio – Pode-se aventar uma renovação geracional no campo da esquerda, mesmo que ainda discreta, com a eleição de lideranças como Guilherme Cortez e Ana Elisa, que chegam ao Parlamento com uma relação muito mais orgânica com a cultura digital. Ana Elisa, aos 21 anos, foi eleita deputada federal por Minas Gerais e construiu grande parte de sua campanha como influenciadora, enquanto Cortez explicitamente identifica a necessidade de a esquerda disputar a comunicação com a geração Z. Isso abre uma possibilidade importante de reconstrução da relação da esquerda com suas bases, especialmente jovens, trabalhadores e setores populares que não se reconhecem mais nas formas tradicionais de organização política.

Mas é preciso reconhecer que esse fenômeno não é exclusivo da esquerda. Lucas Pavanato e Eduarda Campopiano, dois jovens, são exemplos particularmente expressivos de uma nova extrema-direita que compreendeu a lógica das redes e conseguiu transformar a presença digital em capital político e eleitoral. Um monitoramento realizado pelo Instituto Democracia em Xeque e pelo Núcleo de Psicologia Política e Movimentos Sociais (NUPMOS/PUC-SP) mostra que Pavanato liderou, entre as candidaturas jovens monitoradas, o volume de interações digitais, enquanto Campopiano alcançou enorme repercussão com relativamente poucas publicações.

O que está em disputa, portanto, não é simplesmente quem possui mais seguidores, mas quem consegue transformar as redes digitais em comunidades políticas, espaços de pertencimento e mecanismos permanentes de mobilização. A política está se deslocando rapidamente do mundo presencial para o mundo digital, e as redes passaram a funcionar simultaneamente como praça pública, fórum de debate, espaço de identidade e máquina de produção de sentido e de lideranças. Nesse terreno, a extrema-direita tem demonstrado grande capacidade de utilizar linguagem emocional, confronto, simplificação, personalização e conteúdos de forte apelo identitário – inclusive recorrendo, em alguns casos, a estratégias moralmente condenáveis, à desinformação e à exploração de preconceitos.

O desafio do campo progressista não deveria ser simplesmente reproduzir essas práticas, mas aprender a disputar atenção, linguagem e pertencimento sem abandonar seus valores democráticos. A emergência de Cortez e Ana Elisa pode representar justamente a possibilidade de uma esquerda mais conectada às novas gerações, capaz de combinar presença territorial e presença digital. O dado mais relevante talvez seja este: não basta à esquerda ter propostas; ela precisa reconstruir comunidades políticas capazes de ouvir, dialogar e disputar imaginários no ambiente em que uma parcela crescente da formação da opinião pública efetivamente acontece.

IHU – O que podemos esperar neste 2º turno das eleições?

Robson Sávio – O 2º turno deve ser compreendido como uma disputa muito maior do que a escolha de quem ocupará a Presidência da República. Estão em jogo projetos distintos de Estado, de sociedade e de inserção internacional, além da relação entre Executivo, Congresso e demais instituições. As alianças formais serão importantes, mas talvez seja ainda mais decisiva a capacidade de cada candidatura de comunicar claramente o que está em disputa e alcançar o eleitorado que não se encontra fidelizado nem ao bolsonarismo nem ao petismo. Isso ganha especial relevância diante da abstenção recorde do 1º turno: 33,4 milhões de eleitores, ou 21,08% do eleitorado, não compareceram às urnas. A busca desse eleitor ausente será estratégica, assim como as estratégias de comunicação nas mídias tradicionais e, sobretudo, nas redes digitais. É razoável esperar também uma intensificação da atuação de grupos econômicos, políticos e sociais interessados no resultado.

O ponto central é que o 2º turno deveria permitir que o eleitor compreendesse quais projetos estão efetivamente em confronto. De um lado, uma perspectiva que pode ser associada à maior aproximação com o capital financeiro, o agronegócio, uma agenda de redução da intervenção estatal na proteção social e alinhamento automático e subserviente aos Estados Unidos; de outro, a defesa da continuidade de um modelo de Estado social construído a partir da Constituição de 1988, com maior responsabilidade pública na garantia de direitos e redução das desigualdades. Se essa dimensão estrutural da escolha não ocupar o centro do debate, existe o risco de a campanha ser capturada pelo diversionismo: acusações, escândalos, conteúdos fabricados, guerras culturais e disputas de curtíssimo prazo.

O grande desafio democrático do 2º turno será, portanto, transformar uma eleição marcada pela radicalização política em um debate sobre projetos de país – especialmente para alcançar os milhões de eleitores que não se sentem representados pelas identidades políticas já consolidadas.

IHU – Qual é a perspectiva para o futuro do Brasil considerando o atual cenário eleitoral?

Robson Sávio – É bastante desafiadora, sobretudo pela combinação entre a nova composição do Congresso, a força da direita nos governos estaduais e o perfil de parte expressiva das assembleias legislativas. O PL tornou-se a maior bancada da Câmara, com 121 deputados, e terá 28 senadores a partir de 2027, a maior bancada partidária do Senado desde 1988. Esse novo quadro favorece a presença de agendas ultraliberais – redução do papel social do Estado, flexibilização de direitos e concepções de segurança pública mais punitivas e autoritárias.

Ao mesmo tempo, é necessário tratar com rigor as relações entre política, corrupção e crime organizado: há parlamentares eleitos que aparecem em investigações ou reportagens relacionadas a diferentes esquemas criminosos: rachadinhas, milícias, sonegação de impostos e de divisas etc. O caso do Banco Master é particularmente revelador, sendo que muitos dos denunciados ou investigados foram eleitos, incluindo o candidato Flávio Bolsonaro. O caso Master, desdenhado pelo eleitor e pela mídia, é o maior caso de corrupção no Brasil e mostra a infiltração do crime organizado na máquina estatal. A questão que isso coloca é extremamente grave: quando instituições do Estado passam a estabelecer relações de captura, dependência ou conivência com estruturas econômicas ilícitas e organizações criminosas, o problema deixa de ser apenas de corrupção individual ou partidária e passa a envolver a própria integridade do Estado democrático. As ligações de Flávio Bolsonaro com esses esquemas apontam para a possibilidade de consolidação de um Estado poroso ao crime organizado. Mutatis mutandis, basta olharmos para o Rio de Janeiro para imaginar o que poderia significar um Brasil sob a liderança de Flávio e sua provável coalizão governista.

Por isso, o 2º turno deveria discutir também qual Estado e qual democracia o Brasil pretende construir nas próximas décadas. Estão em jogo a preservação ou a desconstrução do pacto social estabelecido pela Constituição de 1988; o papel do Estado na redução das desigualdades; os limites da atuação econômica e financeira; uma política de segurança compatível com direitos fundamentais; a nossa relação com o meio ambiente e nossas riquezas naturais, como as terras raras, e a autonomia das instituições diante de interesses privados, econômicos ou criminosos.

Soma-se a isso a dimensão geopolítica: uma eventual aproximação subordinada aos interesses estratégicos dos Estados Unidos e à retomada de uma lógica de influência hemisférica associada à Doutrina Monroe destruirá a autonomia da política externa brasileira. Nesse contexto, a eleição presidencial não pode ser dissociada da composição já definida do Congresso e dos governos estaduais.

O desafio central deste 2º turno é, pois, discutir se o Brasil aprofundará o projeto constitucional de 1988 – com democracia, direitos sociais, separação de poderes e soberania – ou se caminhará para uma redefinição desse pacto em direção a um Estado mínimo, portanto ainda mais desigual e excludente; mais punitivo e seletivo na segurança pública e mais dependente de alianças econômicas e geopolíticas externas, se aproximando a um tipo de estado autocrático ou até mesmo teocrático, a depender do nível de participação de segmentos fundamentalistas no governo.

IHU – A direita se elegeu com um forte discurso de denúncia aos ministros do Supremo Tribunal Federal. O que se pode esperar para o STF a partir da nova composição do Senado?

Robson Sávio – A ofensiva contra o STF deve ser compreendida como parte de uma estratégia mais ampla de disputa pelo controle das instituições. O STF, apesar de suas contradições, decisões controversas e problemas que precisam ser debatidos publicamente, tem exercido desde 1988 a função constitucional de guarda da Constituição, conforme estabelece o artigo 102, e integra um sistema em que os Poderes devem ser independentes e harmônicos. Nesse contexto, transformar ministros do Supremo em inimigos políticos permanentes pode funcionar como uma estratégia de deslegitimação institucional: primeiro se ataca a instituição, apresenta-se sua atuação como ilegítima e, posteriormente, cria-se o ambiente político para submetê-la ao governo de plantão. O fato de 54 das 81 cadeiras do Senado terem sido renovadas em 2026 torna essa questão particularmente relevante, porque cabe ao Senado aprovar, por maioria absoluta, as indicações presidenciais para o STF e o impeachment de ministros da Suprema Corte.

Há também uma dimensão propriamente eleitoral nessa estratégia. A transformação do STF em inimigo absoluto produz uma guerra de afetos, mobilizando indignação, medo e ressentimento e oferecendo um alvo concreto para uma insatisfação política muito mais ampla. Com isso, questões estruturais – desigualdade, emprego, direitos sociais, segurança pública, desenvolvimento, papel do Estado e soberania nacional – podem ser deslocadas para uma disputa concentrada em pessoas, ministros e decisões judiciais. Isso não significa, evidentemente, que o STF esteja acima de críticas ou que o Judiciário não precise de reformas. Ao contrário: uma reforma democrática do sistema de Justiça é necessária, com maior transparência, mecanismos efetivos de responsabilização, redução de seletividades, enfrentamento de conflitos de interesse e maior controle sobre relações entre agentes públicos, poder econômico e grupos de pressão.

A questão fundamental é distinguir duas coisas: reformar e aperfeiçoar as instituições para torná-las mais democráticas é muito diferente de deslegitimá-las para posteriormente submetê-las a um projeto político autocrático. O futuro do STF, portanto, deveria ser discutido neste marco: como fortalecer sua independência e, simultaneamente, ampliar sua transparência, legitimidade e responsabilidade pública.

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