O capitalismo não vai colapsar porque já aprendeu a administrar o colapso. Por Gabriel Teles*

No blog da Boitempo

Há uma expressão popular segundo a qual, cedo ou tarde, a casa cai. O capitalismo contemporâneo parece ter encontrado uma solução mais perversa: transformar a própria queda em modo de habitar.

As paredes continuam de pé, as luzes permanecem acesas, os mercados abrem, as mercadorias circulam, as plataformas operam e os governos administram. Ao mesmo tempo, as fundações cedem lentamente: o trabalho se precariza, o futuro é hipotecado, a natureza é exaurida e as condições coletivas de reprodução da vida se tornam cada vez mais frágeis. A casa não desaba de uma só vez. Ela permanece ocupada enquanto se desfaz.

É essa forma histórica, na qual funcionamento e decomposição deixam de aparecer como processos claramente separáveis, que proponho compreender por meio da categoria de colapso social. O termo não designa aqui um evento terminal, um instante de ruptura absoluta ou a imagem espetacular de uma sociedade subitamente transformada em ruínas. Interessa compreender como uma ordem pode continuar funcionando ao mesmo tempo que deteriora parte das condições das quais depende para continuar existindo.

Talvez por isso a palavra “colapso” tenha passado a circular com tanta frequência no vocabulário contemporâneo. Fala-se em colapso climático, colapso da democracia, colapso ambiental, colapso demográfico, colapso dos sistemas de saúde, colapso da atenção, colapso tecnológico e até colapso da própria civilização. A palavra deixou de pertencer apenas aos catastrofistas, sobrevivencialistas e profetas do fim e passou a aparecer em relatórios científicos, planos governamentais, análises econômicas, produtos culturais e estratégias empresariais.

O colapso tornou-se uma espécie de língua franca do presente. Cientistas calculam pontos de não retorno, empresas incorporam riscos climáticos aos seus modelos, cidades elaboram planos de adaptação, seguradoras redesenham mapas de risco e governos discutem segurança energética e continuidade de infraestruturas críticas. Em outra escala, multiplicam-se propriedades vendidas como refúgios, sistemas privados de energia e água, cursos de preparação para emergências e comunidades dedicadas a discutir como atravessar uma deterioração prolongada das condições de vida.

A indústria cultural registra o mesmo deslocamento. Há muito tempo sabemos imaginar cidades destruídas, epidemias, guerras nucleares e sociedades depois do desastre. As distopias recentes, porém, precisam inventar cada vez menos. Black Mirror construiu parte de sua força prolongando tendências já perfeitamente reconhecíveis no presente: avaliação permanente, vigilância, mercantilização da intimidade, trabalho mediado por plataformas, dependência tecnológica e algoritmos organizando parcelas crescentes da existência. Em Não Olhe para Cima, a catástrofe pode ser conhecida, calculada, televisionada e transformada em conteúdo sem que isso impeça empresas, governos e mercados de continuarem funcionando de maneira inteiramente familiar.

Esse deslocamento contém uma dificuldade teórica. Quanto mais culturalmente evidente se torna o colapso, menos evidente fica aquilo que queremos dizer quando usamos a palavra. Reconhecemos suas imagens com facilidade crescente, embora continuemos presos a uma concepção segundo a qual colapso significaria essencialmente o momento em que uma estrutura deixa de funcionar.

É aqui que a metáfora da casa precisa ser levada a sério. Um edifício colapsa quando sua estrutura já não suporta as tensões às quais está submetida. A sociedade, porém, não possui uma única estrutura cuja ruptura interromperia simultaneamente todas as suas funções. Empresas podem desaparecer enquanto outras crescem, Estados podem perder determinadas capacidades enquanto ampliam outras, populações podem sofrer deterioração profunda das condições de vida enquanto mercados continuam operando, e novas tecnologias podem expandir-se em meio à devastação ecológica. A dificuldade começa justamente quando a casa continua habitável o bastante para permanecer ocupada, embora suas condições de sustentação estejam progressivamente comprometidas.

É possível, portanto, que estejamos procurando o colapso no lugar errado. Em vez de perguntar apenas quando a casa finalmente cairá, talvez seja necessário compreender como ela continua sendo habitada enquanto suas fundações cedem e quem suporta os custos necessários para manter suas estruturas em funcionamento.

Quando a crise deixa de ser passagem

A tradição marxista sempre levou as crises a sério porque Marx retirou delas qualquer aparência de acidente exterior ao capitalismo. A crise emerge das próprias relações que organizam a acumulação: produção e realização do valor, concorrência entre capitais, crédito, exploração do trabalho, desenvolvimento das forças produtivas e necessidade permanente de expansão. Ela expõe contradições que durante certo período puderam permanecer mediadas pela ampliação dos mercados, pelo aumento da produtividade, pelo crédito ou por outros mecanismos de compensação.

Por isso, Marx nunca precisou imaginar um capitalismo harmonioso que ocasionalmente sofresse acidentes. A crise pertence à própria dinâmica da acumulação, embora historicamente tenha assumido uma função paradoxal. Ela destruiu capitais e condições de vida, ao mesmo tempo que pôde abrir espaço para reorganizações posteriores da acumulação. Aquilo que representava desemprego e empobrecimento para milhões de pessoas podia funcionar, na lógica do capital, como desvalorização necessária, reestruturação empresarial, reorganização tecnológica e preparação de um novo ciclo.

Foi possível, em determinados momentos da história do capitalismo, distinguir analiticamente a crise da configuração que surgia depois dela. A Grande Depressão dos anos 1930 oferece o exemplo mais conhecido, porque a devastação econômica foi seguida, sobretudo depois da Segunda Guerra Mundial e em parte dos países centrais, pela consolidação de uma configuração relativamente duradoura que articulava produção fordista, crescimento dos salários, consumo de massas, políticas sociais e intervenção estatal.

Essa estabilização esteve longe de possuir alcance universal. Como mostrou Ruy Mauro Marini, a integração relativa de parcelas das classes trabalhadoras nos centros capitalistas coexistia com relações internacionais de dependência e com a superexploração da força de trabalho nas formações periféricas. A estabilidade possuía uma geografia, e os pactos sociais consolidados em determinados países não podem ser separados das relações desiguais que estruturavam o mercado mundial.

Ainda assim, havia capacidade de recomposição. A crise dos anos 1970 inaugura outra configuração, porque a resposta ao esgotamento do fordismo-keynesianismo envolveu financeirização, privatizações, flexibilização das relações de trabalho, desregulamentação, reorganização geográfica da produção e expansão das cadeias globais de valor. David Harvey descreveu esse movimento a partir da passagem à acumulação flexível e de sua articulação com uma nova compressão do espaço e do tempo. Aquilo que emergiu dessa reorganização restaurou importantes capacidades de acumulação, porém não produziu uma estabilidade social como em outros momentos históricos de recomposição1. A precarização deixou progressivamente de aparecer como consequência passageira de uma crise do emprego, enquanto o endividamento passou a integrar de maneira ordinária a reprodução social. Em outro plano, mecanismos originalmente associados à administração de situações excepcionais passaram a integrar formas correntes de governo, processo examinado por Paulo Arantes a partir da generalização da emergência como temporalidade do presente. Serviços públicos podem operar permanentemente no limite, famílias absorvem por meio de trabalho não pago aquilo que deixa de ser fornecido coletivamente, trabalhadores compensam deficiências organizacionais pela intensificação de seu próprio esforço e Estados adiam investimentos enquanto preservam necessidades imediatas à custa de capacidades futuras.

Quando essa temporalidade se generaliza, a própria categoria de crise começa a apresentar limites. Reinhart Koselleck mostrou que o termo conserva historicamente a referência a um momento crítico no qual uma situação exige decisão ou desfecho. Se aquilo que deveria designar interrupção passa a organizar a normalidade, torna-se necessário perguntar se continuamos diante de uma sequência de crises ou se ocorreu uma mudança na forma histórica da reprodução social.

István Mészáros avançou nessa direção ao formular a ideia de uma crise estrutural do capital, procurando mostrar que o impasse contemporâneo atravessa diferentes dimensões do metabolismo social e encontra dificuldades crescentes para ser simplesmente deslocado. Robert Kurz, partindo de outro percurso teórico, interpretou a derrocada do socialismo de Estado como manifestação de uma crise mais ampla da sociedade fundada no valor. Wolfgang Streeck descreveu um capitalismo capaz de prolongar sua existência por sucessivas compras de tempo, enquanto Paulo Arantes analisou formas sociais nas quais a emergência deixa de ser interrupção temporária e passa a integrar a administração ordinária do presente.

Esses diagnósticos não são equivalentes e não precisam ser reunidos artificialmente numa teoria única. Eles convergem, porém, em torno de uma dificuldade histórica importante: os mecanismos que prolongam a reprodução capitalista parecem produzir cada vez menos uma nova configuração expansiva e relativamente estabilizada. É nesse terreno que a categoria de colapso pode adquirir alguma utilidade, desde que não seja utilizada como sinônimo genérico de catástrofe ou como anúncio profético de um fim próximo.

Erisícton ainda está comendo

Anselm Jappe inicia A sociedade autofágica recuperando um personagem das Metamorfoses de Ovídio. Erisícton viola um bosque sagrado dedicado a Deméter e recebe uma punição peculiar: a deusa não o mata imediatamente, nem destrói sua casa ou retira sua capacidade de agir. Ela o condena a uma fome impossível de satisfazer, de modo que a atividade mais elementar destinada a conservar seu corpo, alimentar-se, passa progressivamente a consumir as próprias condições de sua conservação.

Erisícton come, volta a sentir fome e precisa comer novamente. Quanto mais recursos mobiliza para resolver o problema imediato, mais rapidamente esses recursos desaparecem, até que sua riqueza deixa de funcionar como patrimônio e se transforma em reserva destinada a prolongar uma satisfação impossível. O desfecho é conhecido, porque, quando não resta mais nada exterior a ser consumido, ele passa a devorar o próprio corpo.

A imagem é poderosa desde que não seja convertida numa parábola moral sobre ganância. O movimento do capital não depende simplesmente de empresários individualmente incapazes de reconhecer limites, pois Marx demonstrou que a acumulação funciona como coerção objetiva. Capitais particulares precisam acumular, inovar, elevar a produtividade e reduzir custos para sobreviver à concorrência, independentemente das intenções subjetivas de seus proprietários.

A parte mais interessante do mito talvez esteja antes de seu desfecho, quando Erisícton ainda possui alguma coisa para comer. Enquanto existem reservas, cada nova refeição funciona no sentido estrito de resolver temporariamente a urgência imediata. O problema aparece quando observamos a sequência: a solução presente reduz aquilo que estará disponível para resolver a necessidade seguinte, de modo que funcionamento e autodestruição deixam de aparecer como processos exteriores um ao outro.

Essa imagem ajuda a compreender a crise financeira de 2008 sem transformá-la em simples confirmação de uma teoria do colapso automático. A quebra de circuitos financeiros decisivos não levou ao desaparecimento das finanças, e os Estados demonstraram capacidades extraordinárias de intervenção. Bancos foram resgatados, liquidez foi produzida em escalas imensas e mercados centrais foram recompostos, frustrando novamente a expectativa de que uma grande crise econômica produziria por si mesma a queda do capitalismo.

O que ocorreu depois é teoricamente mais interessante. Em diversas sociedades, estabilização financeira conviveu com austeridade, aumento do endividamento público, redução de investimentos e deterioração prolongada de proteções sociais. Uma contradição podia ser administrada numa esfera por meio da transferência de seus custos para outra, e a solução de uma crise podia reduzir capacidades necessárias ao enfrentamento das crises seguintes.

Por isso, colapso não deve ser identificado com incapacidade absoluta de encontrar soluções. Uma ordem em colapso pode conservar elevada capacidade técnica e institucional de resposta. O problema começa quando suas soluções passam a consumir sistematicamente parte das condições sociais, naturais e institucionais necessárias às soluções posteriores.

Quando continuar funcionando se torna parte do problema

Uma via importante para formular esse problema aparece na discussão sobre as condições de reprodução do capital. James O’Connor, ao desenvolver no final dos anos 1980 a ideia de uma “segunda contradição do capitalismo”, chamou atenção para uma tendência que não se reduz às dificuldades internas da valorização: ao perseguir a acumulação, o capital pode deteriorar as próprias condições das quais a produção depende, atingindo a natureza, a infraestrutura, a reprodução da força de trabalho e outras capacidades coletivas que não são produzidas automaticamente pelo movimento do valor.

A questão ecológica permite enxergar essa dependência com particular nitidez. A retomada, por John Bellamy Foster, da noção marxiana de metabolismo mostrou que a natureza não constitui um cenário exterior sobre o qual uma economia previamente constituída produziria impactos. O processo de reprodução social depende de intercâmbios materiais entre sociedade e natureza, e a organização capitalista desse metabolismo pode produzir rupturas duradouras justamente nas condições biofísicas que sustentam a acumulação. O problema indicado por O’Connor adquire, assim, uma determinação material mais precisa: aquilo de que o capital depende pode ser degradado pelo próprio processo de acumulação, inclusive até o ponto de comprometer sua disponibilidade futura.

Essa relação, contudo, ultrapassa a natureza. Nancy Fraser permite ampliar a análise ao mostrar que a economia capitalista pressupõe um conjunto de condições de fundo que ela utiliza continuamente sem produzi-las integralmente segundo sua própria lógica. A reprodução social, as capacidades públicas, a natureza e os processos de expropriação participam da sustentação da acumulação ao mesmo tempo que permanecem parcialmente distintos do circuito imediato da exploração do trabalho assalariado. A questão decisiva passa então a ser histórica: o que acontece quando essas condições deixam de funcionar como reservas aparentemente disponíveis e sua deterioração começa a retornar sobre a própria reprodução da ordem social? É nesse ponto que a discussão sobre as condições de reprodução se aproxima diretamente do problema do colapso.

A resposta exige precisão histórica, porque capitalismo e destruição nunca foram realidades estranhas uma à outra. Colonialismo, escravidão, expropriação, guerras, devastação ambiental e destruição de formas sociais acompanharam a constituição e a expansão do mercado mundial. Se qualquer destruição produzida pelo capitalismo fosse chamada de colapso, a categoria perderia imediatamente sua capacidade explicativa.

Walter Benjamin já advertia, nas teses Sobre o conceito de história, contra uma concepção de progresso incapaz de enxergar os escombros acumulados por seu próprio movimento. Do ponto de vista do anjo da história, aquilo que aparece como sucessão de conquistas pode revelar-se como uma acumulação contínua de ruínas, o que obriga a procurar a destruição também naquilo que a ordem chama de êxito.

Rosa Luxemburgo chegou a problema semelhante por outro caminho ao formular a alternativa “socialismo ou barbárie” durante a Primeira Guerra Mundial. As mesmas sociedades que haviam desenvolvido capacidades industriais, administrativas e científicas extraordinárias demonstravam ser capazes de mobilizá-las para organizar a destruição em escala inédita. Adorno e Horkheimer radicalizariam posteriormente essa percepção ao mostrar que a racionalização moderna não continha em si nenhuma garantia de emancipação, pois a barbárie podia ser tecnicamente organizada pelas próprias instituições da civilização.

No Brasil, Marildo Menegat aproximou essa tradição das transformações contemporâneas ao trabalhar com a ideia de uma “economia política da barbárie”. Seu problema consiste em compreender por que práticas de rapina, destruição de capacidades sociais e administração da violência passam a ocupar posição crescente em sociedades nas quais as formas fundamentais da sociabilidade capitalista já se encontram plenamente constituídas.

A categoria de colapso só acrescenta alguma coisa a esse conjunto conceitual se conseguir formular uma determinação mais específica. Minha hipótese é que essa especificidade aparece quando as soluções encontradas para preservar a reprodução presente passam a deteriorar cumulativamente as condições necessárias à reprodução futura, de modo que as respostas às contradições de uma rodada se transformam em parte das condições das contradições seguintes. O que emerge dessa dinâmica pode ser chamado de reprodução por decomposição.

O colapso funciona

Uma dificuldade dessa formulação está em que continuamos procurando provas do colapso justamente onde ele não precisa aparecer. O PIB pode crescer durante processos de deterioração social, empresas podem aumentar seus lucros, novos mercados podem surgir, a inovação tecnológica pode avançar e Estados podem conservar capacidades administrativas consideráveis. Nenhuma dessas observações é irrelevante, porém nenhuma delas permite concluir automaticamente que processos de colapso estejam ausentes.

A emergência climática oferece um exemplo particularmente claro. Uma sociedade pode investir bilhões em refrigeração, sistemas de proteção contra enchentes, reconstrução depois de eventos extremos, seguros, monitoramento de riscos e infraestrutura de adaptação. Todas essas atividades aparecem positivamente nas contas econômicas, geram emprego, mobilizam capital e podem ser socialmente indispensáveis diante das condições existentes.

Existe, contudo, uma diferença decisiva entre aumentar a atividade econômica destinada a administrar danos e eliminar os mecanismos que continuam produzindo esses danos. O crescimento da adaptação e da reparação é compatível com a deterioração continuada das condições materiais que tornam essas atividades necessárias. O próprio desastre pode adquirir uma economia.

A mesma estrutura pode ser observada no trabalho. A produtividade aumenta enquanto jornadas permanecem extensas ou se intensificam, e tecnologias capazes de reduzir o trabalho necessário podem ser empregadas para elevar metas, acelerar ritmos e ampliar o controle sobre trabalhadores. A capacidade técnica cresce sem que seu desenvolvimento produza necessariamente uma ampliação equivalente do tempo disponível ou das condições de autonomia de quem trabalha.

A logística contemporânea condensa de forma especialmente clara essa contradição. Para quem compra uma mercadoria, o resultado aparece como redução do intervalo entre desejo e entrega; por trás dessa conveniência encontra-se uma infraestrutura extensa de armazéns, sistemas computacionais, transportadoras, trabalhadores, redes rodoviárias e dispositivos de controle destinados a sincronizar fluxos em escalas temporais cada vez menores.

Esse sistema funciona e, em diversos aspectos, funciona com enorme eficiência. A questão crítica começa quando examinamos o que precisa ser mobilizado para que continue funcionando dessa maneira, quais custos são produzidos pelo imperativo de velocidade e quais grupos sociais absorvem a instabilidade necessária à manutenção desse padrão de circulação.

É precisamente por isso que identificar colapso com paralisação produz um erro analítico. O capitalismo contemporâneo responde a parte de suas contradições acelerando processos, ampliando capacidades técnicas, transferindo custos e abrindo mercados voltados à administração da própria deterioração.

As reservas do colapso

Essa formulação permite responder a uma pergunta inevitável: se estamos diante de algo que pode ser chamado de colapso, por que tanta coisa continua de pé? Uma resposta possível está na existência de reservas materiais, sociais, institucionais, territoriais e ecológicas que permitem absorver custos, compensar perdas e prolongar a reprodução da ordem social mesmo quando determinadas condições começam a se deteriorar.

Infraestruturas construídas anteriormente podem continuar operando durante anos mesmo quando sua manutenção diminui. Famílias podem compensar a retração de serviços públicos aumentando o volume de trabalho doméstico, trabalhadores podem absorver deficiências organizacionais por meio da intensificação, crédito pode antecipar renda futura, Estados podem adiar investimentos e territórios podem receber atividades ambientalmente destrutivas deslocadas de outros lugares.

Essas reservas permitem que a deterioração se prolongue sem produzir uma interrupção geral. Elas explicam também parte da extraordinária capacidade de sobrevivência da sociedade capitalista, porque consequências podem ser adiadas, contradições podem ser deslocadas e determinadas áreas da reprodução podem permanecer protegidas enquanto outras suportam níveis crescentes de deterioração.

A própria desigualdade desempenha uma função estrutural nesse processo. O colapso não ocorre simultaneamente nem com a mesma intensidade para todos, porque determinadas classes e territórios conseguem preservar estabilidade transferindo custos para outros. Aquilo que aparece como ameaça futura para alguns grupos já constitui experiência cotidiana para outros, enquanto aquilo que determinada população chama de emergência pode corresponder à normalidade histórica de outra.

Uma família de alta renda pode responder à deterioração de serviços coletivos adquirindo educação, segurança, saúde, transporte e energia privadamente. Se a rede elétrica se torna instável, pode instalar geração própria; se determinado território passa a apresentar riscos ambientais crescentes, pode mudar-se ou adquirir outra propriedade. Para quem não dispõe desses recursos, a mesma deterioração aparece como exposição direta e redução efetiva das condições de reprodução da vida.

A proteção contra o colapso transforma-se, assim, em mercadoria. A desigualdade deixa de aparecer apenas como resultado distributivo de uma sociedade deteriorada e passa a participar dos próprios mecanismos que prolongam essa deterioração, porque a capacidade de alguns grupos comprarem proteção permite conservar formas localizadas de normalidade enquanto outros absorvem os custos da continuidade geral.

Esse problema ganha importância particular quando observado a partir da periferia capitalista. Aquilo que recentemente aparece em determinados países centrais como perda de segurança, retração de direitos e diminuição das expectativas de futuro possui uma história muito mais longa em sociedades como a brasileira. Isso não transforma a periferia numa antecipação simples do futuro do centro, porque sua posição resulta de relações específicas na divisão internacional do trabalho e de mecanismos históricos de transferência de valor e deslocamento de custos.

O colapso possui, portanto, uma geografia. A normalidade preservada em determinado território pode depender precisamente das condições experimentadas em outro como precariedade permanente, e a continuidade de determinados circuitos pode pressupor que trabalhadores, populações e ecossistemas localizados em posições subordinadas absorvam parcelas maiores da deterioração necessária à reprodução do conjunto.

Quatro determinações de um mesmo processo

É possível tornar essa hipótese mais precisa por meio de quatro determinações que não devem ser tratadas como uma lista de indicadores independentes. Elas procuram identificar relações constitutivas de um mesmo movimento histórico e, por isso, interessam sobretudo pela maneira como se articulam.

Esses processos não possuem necessariamente a mesma origem ou temporalidade, nem devem ser reduzidos a manifestações imediatas de uma única contradição; o que interessa é compreender como deteriorações distintas passam a ingressar em circuitos comuns de reprodução.

A primeira é o esgotamento das compensações. Contradições continuam sendo adiadas, deslocadas ou compensadas, porém os mecanismos utilizados produzem recomposições progressivamente menos duradouras ou precisam ser reiterados em escala crescente para produzir efeitos semelhantes. A existência de uma compensação, portanto, não significa que a contradição tenha sido eliminada.

A segunda é a recomposição destrutiva. Ela aparece quando a preservação de um circuito deteriora condições requeridas por outro. A estabilização financeira, por exemplo, pode transferir custos ao orçamento público. Ganhos de competitividade empresarial podem depender da compressão das condições de reprodução da força de trabalho. Em outros casos, a expansão presente consome recursos ambientais ou infraestruturais cuja perda restringirá possibilidades posteriores.

A terceira é o deslocamento cumulativo dos custos. Toda ordem social possui mecanismos para transferir suas contradições para exteriores relativos, como famílias, territórios periféricos, trabalho reprodutivo, natureza, serviços públicos e gerações futuras. O problema surge quando esses receptores começam a perder capacidade de absorção. O custo deslocado não desaparece: retorna à reprodução social impondo novas restrições e exigindo recursos adicionais para sua administração.

A quarta é a normalização da deterioração. Aquilo que deveria indicar uma situação excepcional passa a organizar a continuidade ordinária, de modo que o emprego precário deixa de ser intervalo entre formas estáveis de trabalho, o endividamento integra a reprodução cotidiana, a emergência climática entra no planejamento permanente e políticas extraordinárias de estabilização tornam-se ferramentas habituais das instituições.

Essas determinações interessam sobretudo por sua articulação. Quando deixam de constituir respostas episódicas e passam a organizar reiteradamente a reprodução social, o colapso aparece como uma modificação qualitativa da própria reprodução, e não como seu simples estado terminal.

O capitalismo pode sobreviver através do colapso

Durante muito tempo, parte da imaginação anticapitalista depositou nas contradições econômicas a expectativa de resolução de um problema político. O capitalismo desenvolveria suas próprias contradições até tornar-se inviável e, em determinado momento, a impossibilidade objetiva de continuar reproduzindo a velha ordem abriria passagem para outra forma social.

A história oferece poucas razões para essa confiança. Rosa Luxemburgo já havia percebido isso ao formular “socialismo ou barbárie”, porque as contradições capitalistas não contêm em si qualquer garantia de emancipação. A deterioração pode produzir respostas regressivas, formas autoritárias de poder e novas maneiras de administrar populações consideradas excedentes ou descartáveis.

Há uma possibilidade ainda mais desconfortável: o capitalismo pode sobreviver durante muito tempo em sociedades progressivamente piores. A continuidade da acumulação é compatível com uma deterioração profunda das condições sociais. Ilhas de elevada racionalidade técnica coexistem com territórios degradados. Inteligência artificial, automação avançada e logística em tempo real já operam em sociedades nas quais parcelas da força de trabalho enfrentam dificuldades elementares de reprodução. A adaptação climática oferece outra expressão dessa desigualdade: capacidades técnicas sofisticadas podem proteger determinados circuitos e territórios enquanto outras populações permanecem diretamente expostas ao agravamento dos eventos extremos.

A deterioração profunda das condições de vida não implica, por si mesma, interrupção da acumulação. Uma sociedade pode deteriorar profundamente as condições de existência de milhões de pessoas e, simultaneamente, abrir novas oportunidades de acumulação relacionadas a segurança, saúde, reconstrução, energia, adaptação climática, mobilidade e infraestrutura.

É justamente aí que a expectativa de um colapso automático do capitalismo perde força explicativa. O capital não precisa simplesmente sobreviver apesar da deterioração social, porque pode incorporar parcelas dessa deterioração aos próprios circuitos de valorização e transformar necessidades produzidas pela crise em novos mercados.

Por outro colapso

Chegamos, então, ao problema político. Se colapso designasse simplesmente o momento em que o capitalismo finalmente cai sob o peso de suas próprias contradições, bastaria esperar que essas contradições amadurecessem, e a piora das condições sociais poderia ser interpretada como sinal contraditoriamente positivo da aproximação de uma ruptura.

Essa conclusão é incompatível com o próprio diagnóstico. A deterioração das condições sociais e ecológicas pode reduzir, em vez de ampliar, as possibilidades de transformação, porque sociedades devastadas não se tornam automaticamente sociedades revolucionárias. Trabalhadores exaustos não se convertem espontaneamente em sujeitos coletivos, a destruição de capacidades institucionais pode fortalecer formas autoritárias de governo e catástrofes podem ampliar desigualdades e abrir novos mercados de controle.

Walter Benjamin oferece aqui uma imagem mais adequada do que qualquer confiança automática no progresso das contradições. Se o movimento da sociedade conduz ao aprofundamento da catástrofe, a revolução pode ser pensada como acionamento do freio de emergência. A interrupção adquire, nesse caso, conteúdo emancipatório precisamente porque recusa a ideia de que a continuidade da trajetória existente seja o único horizonte historicamente realista.

A interrupção, contudo, não resolve sozinha o problema. Depois de frear é necessário decidir quais capacidades devem continuar existindo, para que servirão e quem poderá decidir sobre sua organização. Uma transformação emancipatória não pode significar destruição indiferenciada de sistemas de abastecimento, conhecimentos científicos, redes energéticas, capacidades produtivas e formas complexas de cooperação acumuladas historicamente.

A questão da ruptura recoloca imediatamente o problema de quem decide sobre aquilo que continuará existindo depois dela. É nesse ponto que a crítica de Maurício Tragtenberg à separação entre dirigentes e dirigidos ganha atualidade: enquanto alguns controlarem as finalidades da organização social e outros permanecerem reduzidos à execução, a complexidade técnica continuará podendo funcionar como justificativa para concentrar poder nas mãos de especialistas, proprietários e administradores. A autogestão, nesse sentido, não exige abolir conhecimento especializado ou coordenação, e sim alterar a relação social que transforma capacidade técnica em autoridade política.

É também por esse caminho que a autonomia, tal como formulada por Cornelius Castoriadis, pode ser articulada ao problema do colapso. Se as instituições são historicamente produzidas, elas não precisam aparecer diante da sociedade como forças exteriores e intocáveis. Submetê-las novamente à deliberação coletiva significa reconhecer que formas de propriedade, organização do trabalho, planejamento, tecnologia e infraestrutura podem ser reorganizadas segundo finalidades distintas das que hoje as subordinam à valorização.

Essa possibilidade impede que a crítica do presente desemboque numa política puramente negativa. O que existe hoje não é composto apenas por relações que precisam ser superadas, porque o próprio capitalismo acumulou conhecimentos, capacidades técnicas, formas de cooperação e infraestruturas que não carregam de maneira necessária a finalidade social sob a qual foram produzidas. É nesse ponto que Ernst Bloch ajuda a deslocar a análise da simples interrupção para o problema das possibilidades ainda não realizadas, permitindo pensar como capacidades existentes podem ser apropriadas e reorganizadas segundo outras finalidades sociais.

Podemos chamar essas capacidades de reservas utópicas. Ao longo do colapso, determinadas reservas são consumidas para prolongar uma ordem que se deteriora, como infraestruturas acumuladas, trabalho familiar, intensificação do trabalho, recursos ecológicos, territórios periféricos e futuro antecipado. Outras capacidades, como conhecimentos compartilhados, experiências de organização, tradições de luta, vínculos comunitários, tecnologias apropriáveis e infraestruturas coletivas, permanecem contraditoriamente disponíveis para finalidades distintas.

É nesse sentido que se pode falar em outro tipo de colapso. A expressão não designa aceleração da catástrofe, culto às ruínas ou esperança de que uma deterioração extrema produza milagrosamente uma sociedade melhor. Quanto mais profundamente são destruídas as capacidades sociais e ecológicas, mais estreito pode tornar-se o campo de possibilidades disponível para qualquer transformação posterior.

Aquilo que precisa perder sua capacidade histórica de organizar a vida são as relações sociais que convertem aumento de produtividade em intensificação do trabalho, necessidades humanas em oportunidades de valorização, recursos indispensáveis à existência em propriedade privada protegida da decisão coletiva e o futuro em depósito dos custos que o presente já não consegue absorver. A decomposição não realizará sozinha esse trabalho, porque nenhuma contradição econômica possui a capacidade automática de produzir emancipação.

A questão colocada pelo colapso diz respeito, portanto, à forma pela qual uma sociedade consegue continuar funcionando enquanto consome progressivamente parte das condições necessárias à própria continuidade. O problema político começa quando percebemos que preservar indefinidamente essa continuidade não pode constituir por si só um horizonte emancipatório, especialmente quando aquilo que continua funcionando depende de uma distribuição profundamente desigual dos custos da deterioração.

Talvez este seja um dos motivos pelos quais o colapso se tornou uma palavra tão presente no nosso vocabulário. Não porque estejamos simplesmente mais próximos de algum instante final em que tudo cairá, e sim porque experiências anteriormente apresentadas como anomalias começam a adquirir duração suficiente para modificar nossa percepção da normalidade. +

É desse problema que parte a discussão de colapso, elaborada no Centro de Estudos Sobre o Colapso Social (CECS). A pergunta que o organiza não é quando o capitalismo finalmente deixará de funcionar, e sim como uma ordem social consegue prolongar sua existência deteriorando, deslocando e consumindo condições das quais sua própria reprodução depende. O colapso deixa então de designar uma profecia sobre o futuro e passa a funcionar como hipótese crítica sobre o presente.

Se essa hipótese estiver correta, a tarefa política tampouco poderá consistir em esperar passivamente pelo momento da queda. Será necessário distinguir aquilo que precisa ser preservado daquilo que precisa efetivamente perder sua capacidade de organizar o mundo, porque o verdadeiro problema histórico não é saber se alguma coisa está colapsando. É determinar quais relações sociais estão sendo preservadas, quais condições estão sendo consumidas para preservá-las e quem continua pagando para que essa deterioração ainda possa aparecer sob a forma de normalidade.


Notas

  1. Essa diferença não deve ser entendida como sucessão entre duas épocas puras, uma marcada pela expansão e outra pela destruição. É útil distinguir analiticamente entre destruição expansiva, na qual a acumulação destrói relações, territórios e capacidades ao mesmo tempo que amplia os espaços de valorização, incorpora novas reservas e constitui novas condições de expansão, e reprodução por deterioração, na qual uma parcela crescente da continuidade depende do consumo de capacidades previamente constituídas sem reposição correspondente. As duas formas podem coexistir numa mesma conjuntura e no interior de uma mesma formação social. O problema histórico consiste em determinar qual relação entre expansão, destruição e recomposição passa a organizar predominantemente a reprodução.

*** Gabriel Teles é doutor em Sociologia pela USP e professor e pós-doutorando na UnB.

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