A pedagogia da servidão. Por João dos Reis Silva Júnior 

No A Terra é Redonda

A votação da extrema-direita em 2026 não nasce na campanha, mas de uma pedagogia da servidão que há séculos ensina direitos como favores e obediência como virtude cívica

1.

Há derrotas eleitorais que cabem nas urnas. Outras apenas aparecem nelas. O resultado do primeiro turno de 2026 pertence à segunda espécie. A votação de Flávio Bolsonaro não pode ser tratada como acidente, erro estatístico ou simples desinformação. Luis Felipe Miguel tem razão ao recusar os eufemismos: não se trata de imaginar um eleitor inteiramente enganado, incapaz de saber quem escolheu, nem de supor que uma revelação de última hora dissolverá vínculos políticos consolidados.

Seu texto acerta também ao deslocar o olhar para os milhões que não votaram ou votaram em branco e nulo. Mas há um ponto em que convém avançar. Quando “burrice” e “perversidade” passam de indignação moral a categorias explicativas, corremos o risco de encerrar o problema justamente onde ele começa. O voto é individual; sua formação é histórica. A escolha tem responsabilidade, mas a responsabilidade não elimina as condições sociais que produziram o campo no qual determinadas escolhas se tornaram plausíveis, desejáveis e até virtuosas para milhões de pessoas.

O que apareceu nas urnas não nasceu na campanha. Vem de muito antes, de uma formação social na qual direitos foram longamente ensinados como favores, a igualdade foi administrada como ameaça e a obediência foi convertida em virtude cívica. O Brasil republicano carregou para dentro de suas instituições muito do léxico político da casa-grande: manda quem pode, pede quem precisa, agradece quem recebe.

A cidadania formal avançou, sobretudo com a Constituição de 1988, mas não destruiu a pedagogia do favor. Em muitos espaços, o direito continuou chegando com rosto, nome, padrinho, pastor, chefe, deputado, prefeito ou autoridade local. Quando o acesso ao que deveria ser universal aparece como concessão, aprende-se menos a reivindicar do que a agradecer. E quem agradece tende a reconhecer hierarquias como se fossem naturais. É aí que a pedagogia do favor se transforma em pedagogia da servidão: não apenas aceitar a desigualdade, mas perder a legitimidade subjetiva para discutir quem decide, em nome de quê e com quais consequências.

Francisco de Oliveira ensinou que o atraso brasileiro nunca foi simples sobrevivência do passado. O chamado arcaico não permaneceu intacto diante do moderno; foi reorganizado por ele. A razão dualista erra precisamente quando imagina dois Brasis, um avançado e outro atrasado, aguardando que o primeiro absorva o segundo.

2.

O que temos é uma unidade contraditória: o moderno se alimenta do precário, a formalidade convive com a informalidade, a tecnologia de ponta pode coexistir com relações políticas fundadas no favor, e a concentração da riqueza pode prosperar sob instituições democráticas. O bolsonarismo não é, portanto, um fóssil que sobreviveu por descuido.

Ele é uma forma contemporânea de organizar ressentimentos, medos, expectativas e hierarquias em uma sociedade modernizada sem democratização substantiva equivalente. Sua linguagem é digital, sua circulação é algorítmica, sua economia política é financeirizada, mas seus afetos mobilizadores são antigos: autoridade, punição, família hierárquica, medo do diferente, desprezo pelos de baixo e fascínio pelos que mandam.

É por isso que não basta dizer que parte do eleitorado vota contra os próprios interesses materiais. A questão é saber como esses interesses são percebidos e por que, em certas conjunturas, deixam de organizar o voto.

Trabalhadores que dependem do SUS podem escolher candidatos que defendem políticas de austeridade; famílias pressionadas pelo custo de vida podem apoiar programas econômicos que ampliam a insegurança; jovens sem horizonte podem aderir a discursos que celebram a ordem de um mundo que lhes oferece pouco. A contradição é real, mas não se resolve chamando-a de irracionalidade.

Há uma disputa pela definição do que seja interesse. Segurança pode se impor sobre renda; identidade religiosa, sobre proteção social; ressentimento, sobre expectativa de futuro; desejo de pertencimento, sobre cálculo econômico. A extrema direita compreendeu que a política não se move apenas pela carteira. Ela produz narrativas nas quais perda material pode ser convertida em superioridade moral, e frustração social pode ser redirecionada contra mulheres, negros, pobres, migrantes, homossexuais, professores, artistas, cientistas e servidores públicos.

Esse deslocamento não acontece no vazio. Desde 2008, o capitalismo mundial entrou numa configuração em que o futuro passou a ser administrado cada vez mais pelo presente financeiro. Não se trata apenas de uma nova crise cíclica, semelhante às de 1873, 1929 ou 1973. A expansão do capital fictício aprofundou uma mutação na forma social do tempo: famílias, governos, universidades, empresas e indivíduos passaram a viver sob antecipações permanentes, dívidas, metas, avaliações, vencimentos e urgências que comprimem a duração.

O futuro deixa de funcionar como horizonte coletivo e se torna obrigação antecipada. A política também muda. Em vez de projetos históricos, oferecem-se reações imediatas. Em vez de transformação, proteção contra ameaças. Em vez de duração, choque. A extrema direita prospera nesse tempo curto porque fala a uma sociedade exausta, sitiada pelo presente e cada vez menos capaz de imaginar coletivamente o que ainda não existe. O medo é instantâneo; a construção democrática é lenta. O primeiro mobiliza com facilidade aquilo que a segunda precisa organizar pacientemente.

3.

Paulo Arantes chamou atenção para a experiência de um tempo histórico fechado, no qual a catástrofe deixa de ser exceção futura e passa a compor a normalidade do presente. A lucidez, nessa circunstância, não consiste em anunciar serenamente que tudo terminará bem. Consiste em perceber o fechamento sem se render a ele. Esse ponto é decisivo depois do primeiro turno. O desânimo é compreensível; a desistência, não. Quando a extrema direita transforma a ausência de horizonte em método de governo, resistir significa reconstruir duração.

Vinte dias de campanha podem parecer pouco, mas política não é cronômetro vazio. Um dia pode conter milhares de conversas, visitas, argumentos, reencontros e decisões. A disputa pelos que se abstiveram ou votaram em branco e nulo é central não porque sejam uma reserva eleitoral homogênea, mas porque ali existe uma relação menos cristalizada com o bolsonarismo. É preciso falar com essas pessoas sem tratá-las como massa ignorante a ser corrigida e sem romantizá-las como portadoras espontâneas de consciência popular.

Há também uma razão institucional para que essa disputa seja urgente. Uma vitória da extrema direita não se limita à troca de ocupante do Palácio do Planalto. Ela pode redefinir o ambiente no qual funcionam a universidade pública, a pesquisa científica, o serviço público, as políticas sociais e as liberdades acadêmicas. Não é necessário prever mecanicamente cada medida para perceber a direção do conflito.

Onde a ciência é apresentada como suspeita, a universidade tende a ser tratada como inimiga; onde o servidor é descrito como privilégio, o arrocho salarial ganha aparência de justiça; onde a cultura crítica é convertida em ameaça, a censura pode reaparecer sob formas administrativas, orçamentárias ou disciplinares; onde o fundo público é submetido à lógica da austeridade permanente, bolsas, laboratórios, equipes, hospitais universitários e políticas de permanência tornam-se vulneráveis. O ataque raramente começa anunciando que destruirá a universidade. Começa dizendo que vai “corrigir excessos”, “combater ideologia”, “premiar eficiência” e “fazer mais com menos”.

A universidade brasileira conhece essa linguagem. Sua história não é linear e tampouco pode ser reduzida à submissão. Durante a ditadura, disciplinas como Educação Moral e Cívica e Estudos de Problemas Brasileiros procuraram produzir conformidade política, enquanto intervenções, cassações e vigilância atingiram docentes e estudantes. Ao mesmo tempo, dentro das próprias instituições cresceram pesquisa crítica, organização científica, associações docentes, movimentos estudantis e formas de contestação que participariam da redemocratização.

4.

A universidade é contraditória porque a sociedade é contraditória. Ela pode reproduzir hierarquias, mas pode também produzir os instrumentos de sua crítica. Pode formar para o mercado, mas pode formar para a cidadania. Pode naturalizar o presente, mas pode ensinar a historicizá-lo. Por isso incomoda tanto qualquer projeto autoritário. Não porque seja naturalmente progressista, e sim porque preserva, quando existe autonomia material e intelectual, uma instituição na qual decisões podem ser questionadas e finalidades coletivas podem ser discutidas publicamente, sem autorização prévia do poder.

A Constituição de 1988 transformou educação em direito e reconheceu princípios como liberdade de ensinar e aprender, pluralismo de ideias e autonomia universitária. Essas palavras não são ornamentos jurídicos. Elas estabelecem uma direção normativa cuja realização depende de condições concretas: financiamento estável, infraestrutura, pessoal, carreira, pesquisa, extensão e liberdade para divergir. A autonomia sem meios materiais torna-se formalidade.

A liberdade acadêmica sem proteção institucional pode virar coragem individual de alto custo. A pesquisa sem continuidade financeira perde duração e passa a viver de editais, emergências e interrupções. É nesse ponto que a dependência contemporânea revela sua dimensão temporal. Controlar a universidade não exige apenas censurar conteúdos. Pode significar controlar o seu tempo: encurtar projetos, descontinuar equipes, impor avaliações incessantes, tornar incerto o financiamento, deslocar prioridades e obrigar pesquisadores a responder continuamente ao imediato. Quem controla a duração controla, em grande medida, aquilo que pode ser pensado e aquilo que jamais chega a amadurecer.

O resultado eleitoral, portanto, deve ser lido também como sintoma de uma disputa pelo tempo histórico. A extrema direita promete restaurar uma ordem que nunca existiu tal como é narrada, mas sua força está justamente em oferecer uma imagem simples para um presente caótico. A esquerda, ao contrário, muitas vezes responde com programas corretos e linguagem administrativa, como se a racionalidade das políticas bastasse para produzir vínculo político.

Não basta. É preciso reconstruir um vocabulário de futuro que seja materialmente verificável. Falar do SUS não como sigla, mas como consulta, remédio, vacina e cirurgia. Falar da universidade não como abstração corporativa, mas como hospital, professor, laboratório, inovação, formação de profissionais, pesquisa agrícola, tecnologia, cultura e mobilidade social.

Falar de jornada de trabalho não como índice macroeconômico, mas como tempo recuperado para viver. Falar de salário não apenas como renda, mas como capacidade de planejar. A política democrática precisa voltar a conectar direito, experiência cotidiana e horizonte.

5.

É aqui que discordo respeitosamente da ideia de que a principal verdade revelada pelas urnas seja a perversidade de metade do eleitorado. Há perversidade social, sem dúvida, e há escolhas que precisam ser moral e politicamente responsabilizadas. Racismo, misoginia, homofobia, apologia da violência e desprezo pelos pobres não podem ser relativizados em nome de qualquer sociologia indulgente. Mas transformar milhões de pessoas em um bloco moralmente degradado é analiticamente frágil e politicamente desastroso.

Se estão perdidas de antemão, resta apenas contê-las. E se a política democrática se reduz à administração de inimigos irrecuperáveis, começamos a imitar a gramática que pretendemos combater. A história mostra que consciências mudam, lealdades se deslocam, identidades políticas se recompõem. Isso não ocorre por iluminação súbita nem por sermão. Ocorre quando experiências, contradições, organizações e linguagens alteram a maneira como indivíduos compreendem a própria vida. A tarefa é longa, mas começa agora, não depois da eleição.

O problema brasileiro é que a pedagogia da servidão atravessa séculos e reaparece com novas roupas. Ela ensina que autoridade vale mais que argumento, que ordem vale mais que justiça, que pobre deve agradecer, que servidor deve pedir desculpas por existir, que professor deve ensinar sem incomodar, que universidade deve pesquisar sem questionar os fins, que política é assunto de profissionais e que o cidadão participa apenas quando convocado a votar.

O bolsonarismo radicaliza essa pedagogia ao convertê-la em espetáculo de agressão. Seu mérito político, se a palavra mérito puder ser usada aqui, foi compreender que humilhação também produz comunidade: quem se sente pequeno pode experimentar grandeza simbólica ao participar da humilhação de alguém apresentado como inferior, perigoso ou privilegiado. A saída democrática exige romper esse circuito. Não oferecendo outra humilhação, agora contra o eleitor adversário, mas restituindo às pessoas a experiência de que podem compreender, decidir, contestar e transformar.

Isso vale especialmente para as classes populares, mas também para as classes médias, onde o ressentimento político encontrou terreno fértil. A deterioração das expectativas de mobilidade, o endividamento, a precarização do trabalho qualificado e o medo de perda de posição social criam uma combinação explosiva. Quando o futuro prometido pela escolarização e pelo esforço individual se fecha, alguém precisa ser responsabilizado.

6.

A extrema direita oferece uma lista pronta: Estado, impostos, universidade, políticas afirmativas, feminismo, sindicatos, direitos humanos, cultura, imprensa, intelectuais. O capital financeiro desaparece da cena; a estrutura da desigualdade também. O conflito vertical entre os que concentram riqueza e os que vivem do trabalho é substituído por conflitos horizontais entre grupos sociais próximos.

Francisco de Oliveira percebeu esse mecanismo ao mostrar como a modernização brasileira produz integração desigual. Hoje, sob financeirização, ele ganha nova potência: a insegurança se espalha, mas sua causa é deslocada para alvos politicamente convenientes, enquanto o comando econômico permanece quase invisível.

Por isso a batalha do segundo turno não pode ser apenas uma operação de marketing. Ela precisa ser também uma intervenção pedagógica no sentido mais forte da palavra. Não uma pedagogia professoral, em que uma vanguarda esclarecida ensina o povo a votar corretamente, mas uma prática de reconstrução de vínculos entre escolha e consequência. O eleitor que teme perder acesso à saúde precisa ver a relação entre orçamento e SUS.

Quem depende da escola pública precisa perceber que sua qualidade não depende do acaso: depende de decisões sobre orçamento, financiamento e responsabilidade do Estado. Quem deseja que os filhos cheguem à universidade precisa compreender que bolsas, laboratórios, bibliotecas e permanência estudantil existem porque há investimento público continuado – e que cortes prolongados atingem diretamente essas condições.

Quem trabalha seis dias para descansar apenas um precisa entender que a duração da jornada também resulta de escolhas políticas e de relações de força, não de uma ordem natural das coisas. E quem vive com medo da violência precisa encontrar respostas públicas sérias, capazes de garantir segurança sem transformar a violência estatal em solução automática. A política popular começa justamente aí: quando aquilo que parecia destino passa a ser reconhecido como resultado de decisões coletivas e, portanto, como algo que também pode ser transformado.

A esquerda também precisa examinar seus próprios erros. É preciso presença. Presença em bairros, igrejas, sindicatos, escolas, universidades, associações, locais de trabalho e espaços culturais. Presença que escute antes de classificar. A extrema direita construiu capilaridade durante anos e aprendeu a transformar redes religiosas, familiares e digitais em circuitos de interpretação do cotidiano. Não se desmonta isso com um vídeo viral. Tampouco com desprezo.

A disputa política exige tempo longo justamente quando o regime social do presente destrói o tempo longo. Essa é uma das contradições centrais do nosso momento: precisamos reconstruir duração em uma sociedade organizada para impedir que ela exista e para nos manter permanentemente ocupados com a urgência.

7.

Nos próximos vinte dias, porém, a história não nos concede o conforto da longa duração. Há uma eleição a disputar e uma diferença que pode ser revertida. Luis Felipe Miguel está certo neste ponto: difícil não significa impossível. Mas a virada exige mais que aritmética. Exige transformar abatimento em trabalho político e indignação em linguagem capaz de chegar a quem ainda pode ser alcançado.

Os milhões que não compareceram às urnas não são um território vazio esperando ocupação. São trabalhadores cansados, jovens descrentes, pessoas desorganizadas, eleitores que não encontraram representação, cidadãos para quem a política parece distante ou inútil. Aproximar-se deles requer humildade e clareza. Não se trata de pedir um voto em nome de uma abstração chamada democracia, mas de mostrar que democracia é também salário, hospital, escola, pesquisa, aposentadoria, liberdade, comida, tempo e direito de não viver sob ameaça permanente. É preciso devolver concretude a uma palavra que o uso ritual esvaziou.

A batalha decisiva é, portanto, contra o fechamento do futuro. O bolsonarismo oferece disciplina, punição e inimigos; a democracia precisa oferecer direitos, pertencimento e possibilidade histórica. Não há garantia de vitória. A lucidez começa exatamente quando abandonamos a garantia. Mas lucidez não é cinismo. É saber a gravidade do momento e agir mesmo assim.

Quem passou a vida pública defendendo igualdade, universidade, ciência, salário, saúde, educação e dignidade não pode descobrir, diante de uma derrota parcial, que desistir era uma opção escondida no vocabulário. Não era. O importante agora não é fantasiar que a sociedade brasileira seja melhor do que revelou ser, nem concluir que está condenada a ser aquilo que mostrou nas urnas. Entre essas duas ilusões existe política. E política é justamente o trabalho humano de impedir que o presente tenha a última palavra. É o lugar em que a necessidade encontra a ação organizada e deixa de parecer destino.

O primeiro turno nos mostrou um país ferido por décadas de desigualdade, financeirização, individualização e pedagogia da servidão. Mostrou também a força de uma extrema direita que aprendeu a transformar ressentimento em identidade e medo em voto. Nada disso deve ser minimizado. Mas a própria existência de uma disputa aberta demonstra que o tempo histórico não está completamente fechado.

Enquanto houver conflito, há indeterminação; enquanto houver indeterminação, há responsabilidade. A tarefa imediata é virar a eleição. A tarefa histórica é maior: reconstruir uma sociedade na qual direitos deixem de ser favores, obediência deixe de ser virtude, universidade deixe de ser tratada como luxo, ciência deixe de ser suspeita e futuro deixe de ser propriedade dos que podem comprá-lo.

O segundo turno será uma batalha. Não a última. Talvez nem a mais difícil. Mas é a batalha que temos diante de nós, e é nela que se decide, agora, se ainda somos capazes de disputar o direito de ter futuro.

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*João dos Reis Silva Júnior é professor titular do Departamento de Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Autor, entre outros livros, de Educação, sociedade de classes e reformas universitárias (Autores Associados) [https://amzn.to/4fLXTKP].

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