A diferença entre projetos faz do voto uma decisão de que contexto os indígenas querem para lutar por direitos. Por Roberto Liebgott

Não se trata de escolher um governo perfeito, mas de assumir a responsabilidade histórica pelas consequências de nossas escolhas

Por Roberto Liebgott, do Cimi Regional Sul – Equipe Porto Alegre

Porque não basta falar em Deus: é preciso defender a vida. Não basta vestir-se de moral: é preciso agir com ética. Não basta falar em justiça: é preciso enfrentar as desigualdades e assumir o compromisso com os pobres e com todos aqueles que têm seus direitos negados.

O bolsonarismo expressa uma profunda contradição entre o discurso religioso e a prática política. Invoca a fé, mas alimenta o ódio; fala em justiça, mas flerta com a violência e com práticas milicianas; proclama a defesa da família, mas transforma a intolerância em instrumento político. Diz defender os pobres, mas se opõe a direitos sociais e trabalhistas. Exalta a pátria, mas coloca em risco a soberania nacional e nossas riquezas, subordinando interesses coletivos aos interesses econômicos dos Estados Unidos da América.

Essa lógica também ameaça os povos indígenas, seus territórios e seus modos de vida. A terra não é mercadoria: é lugar de ser, de viver, de existência, memória, espiritualidade, cultura e ancestralidade. Defender os povos indígenas é defender as águas, as florestas, a biodiversidade e a própria continuidade da vida. Não há justiça enquanto comunidades forem ameaçadas, territórios invadidos e lideranças perseguidas por lutarem por seus direitos.

A democracia não se resume às eleições: exige respeito às diferenças, participação popular e garantia de direitos

Lula representa outra perspectiva de país, embora seu projeto não rompa com os privilégios das elites econômicas e mantenha alianças e compromissos que precisam ser questionados. Seu governo tem limites e contradições, mas reconhece as responsabilidades do Estado para com os que mais precisam. Os investimentos na educação pública, o fortalecimento do SUS, as políticas de transferência de renda e a ampliação do acesso a medicamentos por meio da Farmácia Popular fazem diferença na vida de milhões de pessoas.

Também existem diferenças fundamentais na defesa da democracia, dos direitos sociais, dos povos indígenas e quilombolas, na proteção ambiental e no enfrentamento ao racismo, ao machismo, à homofobia e a todas as formas de intolerância.

Lula não está acima das críticas. Seu governo precisa ser cobrado pela demarcação das terras indígenas, pela proteção dos territórios tradicionais e pelo enfrentamento à violência. Apoiar um projeto político não significa abrir mão da autonomia, da vigilância e da luta popular. Mas reconhecer seus limites não nos permite ignorar as diferenças entre os caminhos em disputa.

É disso que trata esta eleição. De um lado, a possibilidade de defender direitos, fortalecer políticas públicas e preservar a democracia. De outro, a ameaça de aprofundar o autoritarismo, a intolerância e a violência contra os movimentos sociais.

Não se trata de escolher um governo perfeito, mas de assumir a responsabilidade histórica pelas consequências de nossas escolhas

Pelo o que Flávio Bolsonaro tem como projeto político e econômico, há uma certa depreciação de direitos sociais e constitucionais no horizonte. Ao passo que Lula tem como eixo central a defesa dos trabalhadores, dos povos indígenas e dos quilombolas, dos territórios tradicionais, das águas e das florestas. Trata-se de um projeto em que a vida vale mais do que o lucro e que os direitos dos povos devem prevalecer sobre a ganância econômica.

Neste 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida, voltemos nosso olhar à Mãe que, na fé do povo brasileiro, acolhe os pequenos, consola os que sofrem e fortalece a esperança dos que resistem. Que sua presença nos recorde que a fé não combina com o ódio, que a oração exige compromisso e que o amor ao próximo se traduz em solidariedade, justiça e defesa da vida.

Que Nossa Senhora Aparecida abençoe nosso povo, fortaleça os que lutam por terra, território e dignidade e ilumine nossos caminhos na construção de um Brasil mais justo, fraterno e solidário.

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