Para o professor e pesquisador uma das principais dificuldades da esquerda é ser capaz de dialogar com os desejos e aspirações de um futuro melhor para uma parcela importante da população
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A imprensa, sobretudo a tradicional, como mediadora da realidade, há alguns anos normalizou o absurdo, na medida em que produz falsas simetrias quando se trata de analisar candidatos de diferentes espectros políticos. Com isso, falseia os fatos, na medida em que não dá a ver as nuances, funcionando mais à lógica algorítmica, que como uma espécie de “quarto poder”. “Estamos diante da brutal normalização de uma candidatura da extrema-direita. Na ciência política internacional, diferencia-se uma candidatura de extrema-direita de uma candidatura de direita que concorre no interior da democracia. A candidatura de extrema-direita, como é a de Flávio Bolsonaro, se organiza contra a própria continuidade da democracia”, recorda o professor e pesquisador Juarez Rocha Guimarães, em entrevista por WhatsApp ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
O pragmatismo político da extrema-direita está assentado no neoliberalismo. Este conceito, demonstra “como uma tradição que busca alterar o próprio regime liberal de Estado em torno de um novo regime político, uma nova regulação de todas as instâncias do Estado, que modifica profundamente a própria concepção de direitos e deveres. Também a própria forma como a democracia se organiza e as maneiras de regulação econômica e da cultura política”, descreve. “A vantagem deste conceito que propomos é exatamente propiciar uma visão integral desse fenômeno, uma visão de totalidade e também a possibilidade de historicizá-lo, diferenciar o seu desenvolvimento nos países capitalistas centrais, tendo como epicentro os Estados Unidos, dos países da semiperiferia e periferia, e nos dar uma possibilidade regular o uso desse conceito como interpretação da crise de civilização em que estamos envolvidos”, complementa.
Romper com o neoliberalismo está na ordem do dia de qualquer governo que pretenda manter as bases civilizatórias conquistadas pelos diferentes grupos sociais nas últimas décadas. “Onde a esquerda foi incapaz de furar o cerco neoliberal, ela acabou perdendo eleições. Isso ocorreu na Europa, no processo de perda de identidade e desorganização da base social do trabalhismo, do eurocomunismo e da socialdemocracia. E ocorre em alguns países da América Latina que tiveram dificuldades de enfrentar essa agenda neoliberal”, adverte Guimarães. “E isso pode ocorrer também no Brasil. A indeterminação dos resultados dessas eleições de 2026 resultam disso: das dificuldades do atual governo Lula superar as limitações a ele impostas pelo regime neoliberal de Estado. Isso pode ser fatal”, assevera.
Juarez Rocha Guimarães é professor Titular do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, onde graduou-se em Ciências Econômicas (1976). É mestre em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (1990), doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (1997) e possui pós-doutorado em Filosofia pela Universidade de São Paulo (2013). Pesquisa principalmente nas áreas de teoria política, com ênfase nas tradições republicanas; marxistas, feministas e antirracistas, na área de pensamento político e social brasileiro, além de políticas públicas relacionadas aos Estados do Bem-Estar Social. É autor, entre outros, de Em nome da liberdade: Uma crítica socialista democrática ao regime neoliberal de Estado (Editora Autêntica: 2026).
Confira a entrevista.
IHU – O que, afinal, está estruturalmente em jogo nas eleições presidenciais de 2026 no que diz respeito à sobrevivência e ao futuro do pacto democrático brasileiro?
Juarez Rocha Guimarães – A pergunta é muito importante, porque nós estamos diante da brutal normalização de uma candidatura da extrema-direita. Na ciência política internacional, diferencia-se uma candidatura de extrema-direita de uma candidatura de direita que concorre no interior da democracia. A candidatura de extrema-direita, como é a de Flávio Bolsonaro, se organiza contra a própria continuidade da democracia.
E essa diferença fundamental não está sendo presentificada no debate político que se faz principalmente nos grandes órgãos da mídia empresarial brasileira. Eu penso, então, que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro nestas eleições significa uma ruptura do pacto democrático brasileiro e a completa subordinação do Estado brasileiro ao Estado norte-americano, hoje governado por Donald Trump. A própria característica fundamental da candidatura de Flávio Bolsonaro, desde o início, se articula com as forças norte-americanas de forma explícita.
Então, haverá uma ruptura do pacto democrático e da própria ideia da soberania do Estado brasileiro.
IHU – Em seu mais recente livro, Em nome da liberdade: Uma crítica socialista democrática ao regime neoliberal de Estado (Editora Autêntica, 2026), o senhor propõe um novo conceito sobre o neoliberalismo. Poderia explicar do que se trata essa ideia? Como se deu o seu percurso teórico e com quais tradições de pensamento o senhor dialogou para formular essa nova interpretação?
Juarez Rocha Guimarães – De fato, o livro Em Nome da Liberdade propõe um novo conceito de neoliberalismo como uma práxis internacionalmente organizada, que visa fundar um regime neoliberal de Estado que se diferenciaria de um regime liberal de Estado como ocorreu no pós-guerra até o fim dos anos 1970. Este conceito de neoliberalismo permite uma historicização de seu nascimento, origem, expansão, domínio, até sua crise, tendo como epicentro a transformação do Estado norte-americano em seu período de máximo poder geopolítico após o fim da União Soviética. Esta transformação, esta verdadeira mutação do regime liberal do Estado norte-americano, foi continuada em grande medida também nos governos Clinton, formando então um novo regime neoliberal de Estado.
Nós havíamos identificado e até chegamos a escrever, eu e um colega, que havia um déficit do trabalho do conceito de neoliberalismo. É um termo muito usado, mas não se alcançou ainda pelo menos uma referência conceitual que nos permita utilizá-lo de forma regulada na interpretação da realidade histórica em que vivemos. A ideia então foi construir este conceito em diálogo crítico com a literatura internacional existente sobre neoliberalismo. Isto é, nós dialogamos com a tradição presente na crítica da economia política neoliberal, nas tradições foucaultianas que identificam o neoliberalismo como uma nova forma de racionalidade do mundo, uma nova forma de governamentalidade.
Fizemos também um diálogo com os grandes historiadores do neoliberalismo e também com as suas diversas tradições, procurando identificar um ponto de unidade dessas diferentes tradições neoliberais que foram se formando ao longo de sua história. A ideia fundamental, que é que o que une essas várias tradições neoliberais, é exatamente uma mutação do conceito de liberdade, que passa a ser separado do conceito de soberania popular ou de autogoverno, distancia-se e opõe-se à própria ideia da igualdade social, racial ou de gênero, desvincula-se da própria ideia de autonomia do sujeito, do cidadão. E após esse processo de destruição do conceito de liberdade, que foi formado na modernidade, ele concebe a liberdade como ontologicamente vinculada ao próprio mercado.
Essa definição do neoliberalismo demonstra como uma tradição que busca alterar o próprio regime liberal de Estado em torno de um novo regime político, uma nova regulação de todas as instâncias do Estado, que modifica profundamente a própria concepção de direitos e deveres. Também a própria forma como a democracia se organiza e as maneiras de regulação econômica e da cultura política. A vantagem deste conceito que propomos é exatamente propiciar uma visão integral desse fenômeno, uma visão de totalidade e também a possibilidade de historicizá-lo, diferenciar o seu desenvolvimento nos países capitalistas centrais, tendo como epicentro os Estados Unidos, dos países da semiperiferia e periferia, e nos dar uma possibilidade regular o uso desse conceito como interpretação da crise de civilização em que estamos envolvidos.
As tradições de pensamento com as quais nós alimentamos essa construção conceitual são as tradições do pensamento do socialismo democrático. Nós temos várias décadas de participação na luta política e dos movimentos sociais contra o neoliberalismo e nós identificamos a necessidade de fazer um diálogo com a obra de Antônio Gramsci, principalmente os seus escritos nos Cadernos do Cárcere, e a obra do Marx na sua maturidade, tal como foi formulada no livro O Capital.
Em dois capítulos teóricos, um em diálogo crítico com a cultura gramsciana e outro em diálogo crítico com a cultura de interpretação do livro O Capital, nós procuramos entender as lacunas e impasses de interpretação dessas tradições de leituras gramscianas e marxistas a partir do conceito de Estado integral. A noção de Estado integral é exatamente aquela que recusa conceber o Estado a partir de uma visão analítica que separa o Estado da sociedade civil e da cultura política, mas que exatamente pretende compreender o Estado de forma integrativa nessas várias dimensões e em sua relação com o sistema internacional de Estados. Então, o livro busca, através do diálogo com essas tradições, organizar esse conceito de Estado integral e aplicá-lo para entender a própria formação do neoliberalismo como um fenômeno político que modifica tanto as formas do Estado na democracia liberal, sobretudo quanto às formas de regulação da economia, quanto a sua cultura política.
IHU – Como esse “regime de Estado neoliberal” atua concretamente no Brasil de hoje e de que forma ele aprisiona ou limita o horizonte político das eleições de 2026?
Juarez Rocha Guimarães – Essa terceira pergunta é interessante porque nós acabamos de orientar duas teses de doutoramento sobre a formação do neoliberalismo no Brasil. Identificando as suas formas históricas já na programatização da ditadura militar nos seus inícios e a presença de programas e atores neoliberais nas contradições vividas pelo regime militar brasileiro e depois a sua programatização política mais estabilizada no PSDB. E também identificamos Eugênio Gudin como sendo o principal autor dessa formação no Brasil em suas relações com os grandes autores neoliberais que estavam organizando essa tradição no plano internacional.
Nós, então, entendemos que desde a Constituição de 1988 e a partir dos anos 1990 já entramos com uma disputa sobre a própria Constituição. Ela sofreu muitas reformas políticas e desfiguraram de forma importante a própria estrutura de direitos prevista originalmente na Carta de 1988. E deu lugar também a um processo de desorganização do sistema político brasileiro que se aprofundou nos últimos anos, principalmente a partir de 2014 e 2015.
Portanto, nós temos hoje um sistema de representação completamente desvirtuado no Congresso Nacional, em Assembleias Legislativas e até em Câmaras de Vereadores. Um sistema de partidos também bastante desorganizado e a relação entre os poderes públicos também marcada por fortes desequilíbrios e tensões.
Some-se a este contexto um sistema de comunicação profundamente corroído pela presença das comunicações digitais organizadas a partir de tecnologias de fora do país e que exercem uma forte presença na formação da opinião política dos brasileiros. As eleições de 2026 já se realizam em um ambiente de uma democracia liberal profundamente degradada. E nós chegamos a este contexto em que um dos candidatos que disputa a presidência numa situação normal não poderia sequer ser candidato, porque ele responde a várias acusações fundamentais de corrupção e de vínculos com o crime organizado no país.
Democracia minada
Nós temos um Supremo Tribunal Federal – STF profundamente marcado por escândalos. Um presidente do Tribunal Superior Eleitoral [Kássio Nunes Marques] que, como se noticiou recentemente, também está profundamente vinculado às grandes fraudes e corrupções do Banco Master. Assim, nós temos um contexto em que a disputa eleitoral democrática já se faz em um ambiente profundamente minado da democracia.
E eu penso que isso se reflete exatamente nesta situação de polarização que nem é uma polarização entre esquerda e direita, mas uma polarização entre quem quer destruir a democracia e uma frente democrática ampla que quer evitar essa destruição e continuar com todas as contradições a construir a democracia dos brasileiros.
IHU – Quais são os maiores impasses da esquerda institucional frente ao pleito de 2026?
Juarez Rocha Guimarães – Nós temos chamado bastante a atenção sobre as limitações da esquerda institucional frente a essa disputa eleitoral, porque na medida em que ela se organiza com um peso, uma gravidade maior no interior desse sistema democrático profundamente corroído pelo neoliberalismo, na medida em que ela se submete aos limites dessa democracia profundamente corroída, ela se torna incapaz de realizar o seu programa. Então nós vemos isso na experiência do atual governo Lula, que foi capaz, sim, de responder aos carecimentos básicos da sociedade brasileira, que haviam sido dramaticamente expandidos durante os governos Temer e Bolsonaro. Mas, foi incapaz de romper com as regulações macroeconômicas formadas que implicam uma incorporação em um sentido importante da austeridade orçamentária, de submissão à mal chamada autonomia do Banco Central que promove uma financeirização escandalosa do país, como todos sabemos, e também um governo que teve que se submeter às maiorias conservadoras na Câmara e no Senado.
Então, quanto mais a esquerda se vincula a essa forma política de um regime neoliberal de Estado, mais ela fica incapaz de realizar o seu programa. E o contrário também é verdade. Para realizar o programa é preciso apontar uma reforma política importante no Brasil, porque o povo brasileiro conseguiu, com a condenação das tentativas de golpe, uma vitória política fundamental através da punição de Bolsonaro e militares de altas patentes envolvidos na tentativa de golpe. Mas essa defesa da democracia não deve ser confundida com a defesa do status quo do sistema político. É importante diferenciar essas duas dimensões, porque esse sistema político funciona contra os fundamentos da democracia de forma sistêmica.
Então, a plataforma de uma grande reforma partidária, eleitoral, introduzindo o voto em lista, com paridade para as mulheres e representação das minorias étnicas, a reforma profunda do judiciário, que se tornou incontornável diante dos fatos recentes, a própria reorganização de um sistema público de comunicação que faça frente à indústria das campanhas de ódio e das fake news. Tudo isso seria importante para a esquerda brasileira sair desses limites e fundar um novo ciclo de desenvolvimento do país com distribuição de renda e expansão da democracia.
IHU – A extrema-direita sequestrou o conceito de “liberdade”, muitas vezes transformando-o em licença para a desregulamentação e a barbárie. Como o socialismo democrático pode disputar e ressignificar esse conceito no debate público das próximas eleições?
Juarez Rocha Guimarães – É por meio dos seus direitos e da garantia deles que a população brasileira, em sua maioria, entende a democracia. Se a democracia falha em relação à efetivação desses direitos, se ela, pelo contrário, mina esses direitos democráticos, promove a desigualdade social, cria-se um descrédito na própria democracia. Então, nós pensamos que é fundamental a esquerda, o socialismo democrático, disputar publicamente o conceito de liberdade na sua forma clássica, vinculado ao princípio da soberania popular, à ideia da igualdade social, de gênero e racial, à democracia participativa e a uma própria cultura cidadã de fraternidade entre as pessoas que compõem essa democracia.
Se abandonamos essa ideia de liberdade, quem se apropria dela são exatamente os neoliberais, que a instrumentalizam para defender o seu conceito de liberdade, que, como vimos, é contrário aos fundamentos da democracia. Então, nós vimos neoliberais defendendo, em nome da liberdade, posições anticientíficas contra as vacinas, negacionistas da ciência, da crise ambiental, propondo a violência contra os mais pobres, recusando qualquer compromisso com os direitos humanos, em nome da liberdade, como fala o Trump, como fala a família Bolsonaro, como fala Milei, como fala a extrema-direita na Europa. Portanto, é preciso, fundamentados no princípio da liberdade pública, defender os fundamentos da democracia desse uso instrumental e anticivilizatório, tal como comparece nos discursos públicos da extrema-direita internacional no Brasil.
IHU – Estamos assistindo a uma das maiores crises da história no Supremo Tribunal Federal. Qual deve ser o impacto institucional e político, em especial para as eleições, deste cenário?
Juarez Rocha Guimarães – Na verdade, essa crise de legitimidade do Superior Tribunal Federal já vinha ocorrendo há algum tempo, mas você tem razão no sentido de que essa crise se aprofundou diante do caso das relações de vários ministros do STF com o dono do Banco Master.
Esta crise, então, veio à luz de forma instrumental contra um dos ministros STF, no sentido de haver uma apropriação discursiva da acusação que se faz ao ministro Alexandre de Moraes pela campanha bolsonarista, que vê em sua completa deslegitimação um reforço à sua narrativa de que a condenação de Jair Bolsonaro foi algo espúrio e sem legitimidade.
Essas relações de ministros do Supremo Tribunal Federal com o Banco Master devem ser qualificadas. O Banco Master nasceu e cresceu durante o governo Bolsonaro, e há ministros, como [André] Mendonça e Nunes Marques, que, de fato, nós poderíamos dizer que são orgânicos ao bolsonarismo e ao nascimento e desenvolvimento do Banco Master. Ao que tudo indica, na medida em que esse banco sofreu a investigação e depois a interdição pelo Banco Central, e na medida em que começaram a ser investigados os crimes cometidos contra a economia popular pelos donos desse banco, o Banco Central passou a investir em garantir proteção em altas figuras do poder judiciário, criando uma esfera de proteção judicial à investigação de seus crimes. Logo, isto deve receber uma resposta democrática.
A resposta democrática é exatamente a reforma do judiciário, que já vinha sendo discutida, inclusive, pelas esquerdas, mas deve ganhar uma centralidade importante nesse segundo turno, porque trata-se de legitimar a corte que é responsável pelo controle constitucional das leis e das decisões.
E na concepção democrática vigente, que é a concepção liberal norte-americana, que tem esta origem, a ideia do exercício de uma Corte com essa função, a democracia brasileira não pode prescindir de um judiciário legitimado democraticamente pela população. Trata-se de negar a narrativa bolsonarista e, ao mesmo tempo, assumir em uma plataforma democrática a reforma do judiciário.
IHU – Como o bolsonarismo, mesmo tendo se constituído no núcleo do sistema, conseguiu capturar a insatisfação popular e se vender como “antissistema”?
Juarez Rocha Guimarães – De fato, o bolsonarismo, no seu nascimento, não tinha uma representação forte nas instituições da democracia brasileira. Bolsonaro, enquanto deputado federal, tinha realmente uma participação muito apagada, ele era considerado baixo clero do Congresso Brasileiro.
Mas esta ideia de que a democracia e as suas instituições se voltaram contra os direitos do povo expressa uma meia-verdade, dado que a eleição de Bolsonaro foi após a desestabilização da democracia brasileira, quando ocorre o impeachment – sem comprovação de crime de responsabilidade – do governo Dilma, seguida pelo governo Temer. Nesse processo de radicalização desestabilizadora da democracia, promovido pelo PSDB, principalmente, a partir de 2014, o bolsonarismo disputou com o PSDB, naquelas eleições de 2018, a posição de ser a expressão daquela força política que seria capaz de não ser capturada por esse sistema de corrupção que era muito visível no governo Michel Temer. Vamos nos lembrar que o próprio Temer, presidente, foi identificado como recebendo malas de dinheiro na garagem do Palácio do Planalto, fato televisionado nacionalmente. A ideia de que o bolsonarismo representava um antissistema se construiu nesse contexto. E isso faz parte da tradição neoliberal: ela vem acusar o Estado de ser um corruptor e reivindicar a sua completa funcionalização às forças de mercado.
Nesse contexto, o bolsonarismo pôde construir o que nós chamamos de seus três mitos universais: ser antissistema, ser a representação da pátria e ser a representação da vontade de Deus. Essa tripla mistificação foi construída pelo bolsonarismo nesse cenário e ela se encontra hoje claramente em crise. O patriotismo do bolsonarismo já está amplamente desmascarado, o seu envolvimento profundo com a corrupção sistêmica também já está evidente e o fato de várias igrejas evangélicas estarem ligadas sistemicamente a esse mundo de corrupção. O próprio Daniel Vorcaro saiu da igreja da Lagoinha, em Belo Horizonte. Tudo isso cria uma crise desses mitos de legitimação do bolsonarismo.
IHU – O senhor sustenta que a democracia não se defende apenas contra o golpe de Estado clássico, mas contra um “estado de golpe permanente” nos direitos dos trabalhadores, na soberania e na esperança. Como essa erosão diária de direitos afeta a capacidade de mobilização popular para enfrentar a extrema-direita?
Juarez Rocha Guimarães – O neoliberalismo propõe uma guerra permanente aos direitos do trabalho e explora, inclusive, as situações de crise como momentos de radicalização de seu discurso. Alguns estudiosos interpretaram que a partir da crise financeira internacional de 2008, o neoliberalismo teria chegado ao fim – ledo engano. O neoliberalismo seguiu controlando o aparelho de Estado, principalmente do Estado norte-americano e também o sistema político da comunidade europeia. Com isso, o que se viu, foi um aprofundamento do ataque aos direitos do trabalho. Esse ataque aos direitos do trabalho é que está na base daquilo que se chama usualmente de crise do trabalho, que não deveria ser interpretada como derivada automaticamente da mutação das forças produtivas em processo, como estamos vendo nas últimas décadas e agora com o surgimento da inteligência artificial.
A crise do trabalho representa ou expressa um ataque aos direitos legislados dos trabalhadores, às suas capacidades de mobilização sindicais, à criação de ataques aos chamados direitos públicos do trabalho, que são as políticas sociais do Estado de bem-estar social. Isso tudo produz, então, aquilo que nós chamamos de processo de precarização e fragmentação das classes trabalhadoras. É claro que tudo isso, em um ambiente de alto desemprego, retira capacidade, principalmente unitária, de lutas populares. Não é que não existam resistências a esse processo. Existem e elas se manifestam diariamente, embora não sejam noticiadas em geral pela grande mídia empresarial.
O grande desafio é exatamente construir uma unidade política desses movimentos de resistência que reorganize uma agenda dos trabalhadores para o século XXI. Eu penso que o exemplo da defesa de uma jornada 5X2, com direito a dois dias de descanso semanal sem redução do salário, expressa bem essa energia ao questionar o processo de precarização e de intensificação da exploração dos trabalhadores via extensão da jornada. É uma pauta não economicista que reivindica melhores condições de trabalho e de vida para as pessoas que trabalham, muitas vezes mais do que 44 horas semanais, e demonstra o potencial e atualidade de reivindicações do mundo do trabalho que conseguem unificar a maioria democrática da população brasileira.
Há aí um veio importante de construção programática. A construção plena do SUS, a conquista da universalização do direito à creche e das escolas em tempo integral, a continuidade do investimento nas universidades públicas, tudo isso faz parte dessa construção de uma plataforma unitária das classes trabalhadoras. Nós devemos sempre citar como fundamental a luta contra a predação da natureza que se tornou extremada nesses tempos neoliberais. Essa é outra reivindicação fundamental que une os trabalhadores e a maioria democrática do povo brasileiro. Uma política de desmatamento zero e de enfrentamento da crise climática a partir de uma plataforma ecológica.
IHU – O que o Brasil de 2026 tem a ensinar ou a aprender com o cenário internacional no enfrentamento à extrema-direita?
Juarez Rocha Guimarães – O Brasil tem muito a ensinar porque, de certa forma, nosso país se tornou uma das principais, se não a principal experiência internacional de resistência ao neoliberalismo nos países da periferia e da semiperiferia capitalista. Há, na experiência brasileira muitos ensinamentos importantes.
Aqui nós temos os principais movimentos sociais que lutam pela reforma agrária no mundo hoje. Nós temos ainda um movimento sindical que, apesar de toda essa guerra aos direitos do trabalho, mantém uma capacidade importante de unidade e de mobilização. Há uma das maiores representações ou entidades de representação estudantil, como é a UNE. Os movimentos de mulheres e os movimentos de bairro. Há muitas comunidades populares da igreja e um movimento antirracista em crescimento. Há uma capacidade de resistência das mulheres, que se manifesta, inclusive, no voto majoritário contra o bolsonarismo. Há muita riqueza formada nessas décadas de lutas populares no Brasil. Com o PT, com certas lideranças do PSOL, com as experiências de participação popular, do orçamento participativo.
O próprio SUS é uma grande conquista: o maior sistema público de saúde do mundo. Enfim, nós temos muito o que ensinar.
E temos algo a aprender, sim.
O que é exatamente isso? Onde a esquerda foi incapaz de furar o cerco neoliberal, ela acabou perdendo eleições. Isso ocorreu na Europa, no processo de perda de identidade e desorganização da base social do trabalhismo, do eurocomunismo e da socialdemocracia. E ocorre em alguns países da América Latina que tiveram dificuldades de enfrentar essa agenda neoliberal.
E isso pode ocorrer também no Brasil. A indeterminação dos resultados dessas eleições de 2026 resultam disso: das dificuldades do atual governo Lula superar as limitações a ele impostas pelo regime neoliberal de Estado. Isso pode ser fatal.
IHU – No passado, o senhor afirmou que a grande lição das lutas populares é “não largar mais a mão da esperança”. Diante de um cenário tão complexo, com as travas do neoliberalismo, a crise ética no espaço público e a ameaça bolsonarista persistente, onde reside a verdadeira força de mobilização e transformação social para o Brasil?
Juarez Rocha Guimarães – Nos estudos sobre neoliberalismo se colocou para nós uma disjuntiva: será o neoliberalismo uma força política hegemônica ou apenas dominante, mas não hegemônica? A diferenciação é muito importante na tradição gramsciana, porque aquela força hegemônica é a que consegue incorporar o adversário e fazer com que o adversário perca a sua identidade e se integre na própria base política e social do poder. E o neoliberalismo não é hegemônico, algo que está no trabalho que fizemos de elaboração do livro, concordando com uma observação histórica do sociólogo Francisco de Oliveira e também com a perspectiva internacional do Giovanni Arrighi no longo século XX. Ele é dominante, mas não é hegemônico.
Isto é, ele não consegue integrar as massas trabalhadoras no consumo, como fazia, por exemplo, no período do Fordismo e do Keynesianismo. Ele não consegue criar formas através das quais os conflitos fundamentais entre capital e trabalho serão regulados pelo próprio sistema político. Pelo contrário, ele dissolve essas zonas de instrumentalização e cria, a partir da formação de verdadeiros apartheids sociais, um regime permanente de instabilidade do próprio neoliberalismo. Isso se manifesta na crise de hegemonia norte-americana sobre o mundo e a instabilidade crescente na arena internacional e, também, na dificuldade de regimes neoliberais de sustentarem uma base política e social mais estável.
Se pensarmos na consciência atual do povo brasileiro, ela é majoritariamente antineoliberal. Não acredito, como diz uma manchete editada do jornal Folha de São Paulo, na pesquisa sobre a consciência dos brasileiros, que sustenta que a maioria dos brasileiros é conservadora. Acho que não é e os próprios dados da pesquisa revelam isso. Por exemplo, será conservador um povo em que 70% aceitam relações de casais do mesmo gênero, do mesmo sexo? Penso que não, isso não é conservador. A própria ideia de família no Brasil hoje já não é mais aquela antiga família patriarcal. Metade das famílias são dirigidas por mulheres.
Quando olhamos o regime de votações, a extrema-direita perde, em grande medida entre as mulheres brasileiras. Mais ainda entre os não-brancos.
Existe um processo de opinião pública que é potencialmente adversário dos programas fundamentais do neoliberalismo, dos seus fundamentos principais. A dificuldade que vem sendo enfrentada pela esquerda brasileira é exatamente responder a essas consciências, às suas aspirações de um futuro melhor para o país. É aí que reside o impasse.
Nesse sentido, a esperança está situada exatamente no processo de formação da consciência democrática dos brasileiros. Entendido de um modo mais amplo, como esquerda social mesmo, que se manifesta através dessas pesquisas, das votações. Vamos nos lembrar que o neoliberalismo foi derrotado cinco vezes em eleições no Brasil nas últimas décadas, apesar de todos os limites da democracia brasileira. Então, a esperança se baseia na instabilidade do regime neoliberal de Estado, da sua incapacidade de formar maiorias e estabilizá-las, e de uma consciência popular, antineoliberal, que pode ser mobilizada e se expressar em conjunturas críticas como aquela em que estamos vivendo.
IHU – Olhando em perspectiva com as eleições, mas sem se reduzir a ela, como é possível pensar um Brasil para além das fronteiras de uma política partidária e sim como projeto de nação?
Juarez Rocha Guimarães – Trabalhamos com essa ideia de que a derrota da extrema-direita no Brasil tem uma importância nacional e internacional. Internacional, porque o Brasil é o país de maior peso na América Latina, e se ela se combinar com uma derrota importante do trumpismo nas eleições para o Congresso norte-americano, elas podem significar uma derrota, um momento novo de vitória sobre a extrema-direita no plano internacional. No plano nacional, uma derrota sobre o bolsonarismo não criará imediatamente um espaço interditado para se fazer transformações. Mas ela permitirá, sim, uma reorganização das forças políticas para reformas estruturais no país, abrindo a cena para um futuro novo.
Em síntese, essas eleições podem significar, historicamente, a abertura, se conseguirmos derrotar essas forças anti-civilizatórias do bolsonarismo vinculadas à extrema-direita norte-americana, nós podemos inaugurar um novo período de transformações no país. Abrir o horizonte ao novo período de transformações. Creio que isso é possível e é o próprio sentido da esperança, da esperança que se constrói a partir não de ilusões, mas de uma visão realista do contexto em que ela se organiza, luta e sonha.
IHU – Como avalia o discurso de Lula na Assembleia Geral da ONU em 2026, realizado em 22 de setembro de 2026 durante a 81ª sessão em Nova York?
Juarez Rocha Guimarães – Foi, sem dúvida nenhuma, um belo contraponto ao discurso de Donald Trump. “A força não cria o direito, mas é o direito que cria a força”. Essa frase que está na obra de um clássico, o contrato social de Jean-Jacques Rousseau, serve bem para expressar o discurso de Lula, reclamando os direitos no plano internacional de um mundo que deve ser multilateral e construído sobre o objetivo da paz e também o princípio da autodeterminação dos povos. Isto é, o direito dos brasileiros a elegerem livremente o seu governo sem a interferência de uma potência externa.
O discurso foi muito oportuno na véspera das eleições brasileiras, ameaçadas há algum tempo e cada vez mais por uma intervenção dos Estados Unidos, seja através do bolsonarismo, seja através do não reconhecimento de um resultado das eleições desfavorável a esta força bolsonarista organizada pelo próprio movimento de extrema-direita de Trump.




