Eleições: há vida além do digital. Por Carlos Veiner*

Mobilização nas redes é importante, mas não basta. Ruas demonstram força, não furam a bolha. Experiências de campanhas como as de Mamdani ou Die Linke demonstram que a velha conversa porta a porta não só ganha votos como também engaja mais à ação

Em Outras Palavras

Em primeiro lugar, é bom lembrar que “redes sociais” existem desde que existe sociedade; na verdade, a sociedade é um emaranhado de “redes sociais”. Clãs, tribos, famílias, vizinhanças, feiras e mercados, igrejas, comunidades aldeãs, coletivos de trabalho, escolas, clubes, tudo isso foram e são redes sociais. E, desde sempre, as redes sociais, fundamento mesmo da socialidade, são canais de circulação de mensagens, crenças, representações do mundo e valores que constituem o que Gramsci chamou de “senso comum”.

O que é novo, portanto, não é a existência de “redes sociais”, mas a existência de “redes digitais”, isto é, redes sociais cujos laços e comunicações operam através de plataformas digitais. São uma nova forma de relação e de comunicação, que tem entre suas características principais a rapidez na difusão de mensagens e o número expressivo de pessoas (destinatários) alcançadas quase imediatamente. Isso evidentemente multiplica o impacto e a repercussão de qualquer mensagem ou informação, mas não altera seu conteúdo ou sentido. Tampouco altera seu conteúdo ou sentido o fato de estarem em operação mecanismos (algoritmos) que pemitem selecionar destinatários e as mensagens que lhe serão endereçadas.

Na Ideologia Alemã, Marx e Engels escreveram: “As ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes, ou seja, a classe que é o poder material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, o seu poder espiritual dominante”. Ou ainda: “A classe que tem à sua disposição os meios para a produção material dispõe assim, ao mesmo tempo, dos meios para a produção espiritual”. (Marx & Engels, 1932, capítulo I-III.1). Gramsci avançou com a ideia de hegemonia, que remeteria às formas de subjetivação, pelos dominados, de um senso comum que representa/concebe/percebe a realidade vigente como natural, inevitável, legítima. E se poderia, aqui, lembrar também Bourdieu, que falou do “realismo das classes dominadas”, como mecanismo de adaptação ao mundo real, fundado no (re)conhecimento, com inegável fundamento racional, de que para os dominados é praticamente fechado o universo de possibilidades e expectativas. Este realismo prático é, ao mesmo tempo, expressão da dominação e mecanismo de sua reprodução social.

Se mensagens de ódio ou informações falsas são acolhidas, geram adesões e se tornam verdades para os que as recebem, a explicação não está nas “redes digitais”, mas nas disposições subjetivas destes receptores, nos valores e crenças que constituem o núcleo do senso comum socialmente difuso.

Em 2010, Lula concluía seu segundo mandato com a aprovação recorde de 83%; hoje há um indiscutível e pervasivo anti-lulismo e/ou anti-petismo na sociedade, inclusive no seio das classes trabalhadoras, entre os mais pobres, entre aquelas e aqueles que mais sofrem com a opressão e a discriminação. Constata-se, pois, que em prazo muito curto, houve uma ampla e profunda alteração no senso comum, e é isso que precisa ser investigado e compreendido.

Isto posto, é inegável que as “redes digitais” constituem poderoso meio de comunicação e devem ser consideradas um dos principais canais e espaços da luta eleitoral. Mas isto não pode levar a desprezar outros modos e meios de levar a eleitores indecisos ou abstencionistas a mensagem de que devem votar em Lula.

As lindas e inspiradoras manifestações de rua que se multiplicam pelo Brasil afora também são importantes, sobretudo para elevar o moral e mobilizar segmentos da sociedade. Mas, convenhamos, essas centenas de milhares de pessoas, inclusive o grande número de jovens, já são, em sua imensa maioria, eleitores de Lula. Por isto mesmo, é no mínimo duvidoso que elas sejam capazes de conquistar novos votos. A conquista de novos votos depende, na maioria das vezes, de um trabalho de explicações e convencimento em que o corpo a corpo, a conversa, a comunicação face a face, olho no olho, pode provavelmente levar a resultados bem mais promissores.

Parece que muitos dos militantes, inclusive dentre os mais jovens, foram formados em círculos estreitos, nos quais todos compartilham mais ou menos as mesmas ideias e valores. Isto talvez explique o que que sejam descrito como pessoas que só sabem “falar para a bolha”; em outras palavras, só sabem falar para quem é mais ou menos igual, pensa mais ou menos igual e utiliza mais ou menos a mesma linguagem. Esses militantes teriam perdido a capacidade de se comunicar com o outro, aquele que é de outra classe social, de outra crença religiosa ou que alimenta outros valores e expectativas. O problema é que é justamente com estes outros que se faz necessário conversar, sãos estes outros que precisam ser convencidos de que devem votar e que devem votar em Lula.

Talvez valha a pena olhar experiências recentes de outros movimentos de esquerda engajados em lutas políticas e eleitorais. Como tem sido divulgado pela imprensa, uma das grandes novidades na vida política estadunidense é o crescimento de uma esquerda do Partido Democrata (Democratic Socialists of America) e as importantes vitórias de seus candidatos nas eleições primárias que escolhem os candidatos que concorrerão nas eleições de meio mandato, em novembro. As estratégias eleitorais têm-se inspirado na campanha e inesperada vitória de Alejandra Ocasio-Cortez, no Bronx e em Queens, em 2018, inicialmente nas primárias democratas contra um velho cacique e, em seguida, na conquista de 78% dos votos contra o candidato republicano. Assim, as campanhas dos candidatos de esquerda apoiam-se cada vez mais fortemente na conversação face a face, no que é chamado de “door to door politics” (política porta a porta) ou “canvas house to house” (campanha casa a casa). Na verdade, combinam a ação nas “redes digitais” com maciça mobilização dos militantes para visitarem e conversarem com vizinhos em seus bairros… e também na campanha por telefone.

Segundo o Brookings Institute, na escolha do candidato do Partido Democrata à prefeitura de Nova Iorque, em 2025, a campanha de Zohran Mamdani mobilizou 30 mil voluntários que realizaram 1,6 milhão de visitas porta-a-porta, resultando em aproximadamente 247 mil conversas presenciais. Nas primárias de 2026, os Democratas Socialistas da América teriam realizado 800.000 visitas na grande Nova Iorque.

Seguindo mais ou menos o mesmo estilo, o partido alemão Esquerda (Die Linke), que elegeu o prefeito de Berlim em 2026, afirma que 5.000 pessoas visitaram mais de 270 mil casas durante a campanha.

Nos EUA como em Berlim, as redes digitais desempenharam papel relevante, mas o diferencial das campanhas, e, para alguns, uma das razões de suas vitórias, esteve na ação de militante de voluntários no esforço de convencimento porta a porta e por telefone. O Brookings Institute avalia que não apenas este tipo de campanha ganha votos, como convence abstencionistas a votar e engaja mais gente à ação, fazendo com que novas pessoas passem a fazer visitas e a convencer seus amigos, familiares e vizinhos.

Será que podemos aprender alguma coisa com estas experiências? Ou será que estamos condenados, como aconteceu com a maioria das candidaturas proporcionais de candidatos do PT, PcdoB, PSOL, PSB e PDT, a utilizar os recursos partidários para contratar panfletadores que, muitas vezes, nem sabem que candidato(a) estão “apoiando”, igualando nossas campanhas às dos partidos de direita?

Temos duas semanas. Imaginemos que os milhares de estudantes que têm ido às ruas para entoarem palavras-de-ordem estivessem também visitando seus vizinhos, falando com seus colegas de estudo e trabalho, indo às feiras e mercados, às filas de ônibus, aos trens para… conversar com as pessoas, ao invés de repetir slogans. Esse ato banal, simples da conversa, do bate-papo… um “chat”, com a originalidade de ser presencial, como virou moda falar. Seriam muitas centenas de milhares de conversas.

Uma conversação não é feita apenas de um único falante e de uma única fala. Uma conversação é, deve ser, um diálogo. E o diálogo é feito também de escuta: trata-se de escutar o outro, ouvir e buscar entender suas razões, por mais irracionais ou infundadas que nos possam parecer. Um diálogo é falar e questionar, respeitosamente, essas razões, e contrapor outras ideias, razões e exemplos palpáveis e concretos que possam desmontar os conceitos e preconceitos com que nos defrontaremos. Temos o hábito de exaltar Paulo Freire, mas parece que somos incapazes de praticar Paulo Freire, de exercitar a capacidade e sensibilidade essenciais da pedagogia, da epistemologia e da ética freireanas: escutar o outro. Nada contra o “exército” de Janones mas tenho sérias dúvidas que será suficiente para conquistar os votos de que Lula tanto necessita se não dialogarmos com aqueles que detêm os votos de que dependemos para sairmos vitoriosos.

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*Professor Emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro/Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional.

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