O texto de Daniel nos convida a discernir duas realidades: o poder econômico, político, cultural ou religioso que exige submissão, concentra privilégios e transforma pessoas em descartáveis, e o Reino de Deus, que fortalece comunidades, desperta o protagonismo do povo, promove a corresponsabilidade e faz da fé um compromisso com a vida
Por Pe. Edinho Thomassim*, em CPT
Daniel e o discernimento das comunidades:
“As feras recebiam poder… Mas veio alguém semelhante a um Filho do Homem” (Daniel 7,6.13).
“Sabeis que os chefes das nações as dominam… Entre vós não deverá ser assim” (Mateus 20,25-26).
O livro do profeta Daniel, proposto para o mês da Bíblia deste ano, nasceu em um dos momentos mais difíceis da história do povo de Deus. Lembrando a violência dos impérios, a perseguição religiosa e a perda de direitos, a comunidade perguntava: quem governa a história? A resposta de Daniel não anuncia o fim do mundo, mas revela que nenhum império possui a última palavra. As “feras” simbolizam todo poder que se absolutiza e desumaniza (Dn 7,6-14); Jesus de Nazaré manifesta o projeto de Deus, que devolve dignidade ao seu povo e inaugura um reino de justiça e paz (Mt 20,25-28).
Essa Palavra ilumina também o nosso tempo. Em muitos ambientes eclesiais cresce a valorização de formas conservadoras da fé, de uma liturgia com identidade tradicionalista católica, que se distancia da vida concreta dos pobres e enfraquece a dimensão social do Evangelho, obscurece uma das maiores riquezas da Igreja latino-americana: a recepção do Concílio Vaticano II e o caminho aberto por Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida além de toda cultura pastoral da Igreja do Brasil.
Foi dessa dimensão pastoral que nasceu a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e tantas outras pastorais sociais. Elas não representam um projeto paralelo ao da Igreja, como tentam dizer por aí, mas uma expressão concreta de sua missão evangelizadora, levando a Boa-Nova aos crucificados da história e defendendo a terra, os povos, os direitos humanos e o cuidado da Casa Comum.
Ao mesmo tempo, observa-se que algumas correntes religiosas estabelecem proximidade com projetos políticos marcados pela concentração do poder, pelo autoritarismo e pela exclusão social, fazendo com que iniciativas comunitárias, movimentos populares e pastorais comprometidas com os pobres passem a ser vistas com suspeita, como se o compromisso com a justiça fosse estranho ao Evangelho. No entanto, a própria Doutrina Social da Igreja recorda que a dignidade humana, o destino universal dos bens, a solidariedade, a participação e o bem comum pertencem ao coração da fé cristã.
O texto de Daniel nos convida a discernir essas realidades. As “feras” continuam presentes sempre que o poder econômico, político, cultural ou religioso exige submissão, concentra privilégios e transforma pessoas em descartáveis. O Reino de Deus, ao contrário, fortalece comunidades, desperta o protagonismo do povo, promove a corresponsabilidade e faz da fé um compromisso com a vida.
Jesus de Nazaré confirmou esse caminho ao afirmar: “Entre vós não deverá ser assim”. Seu Reino não se constrói pela dominação, mas pelo serviço (Jo 13, 1-15); não pela imposição, mas pela fraternidade. Por isso, diante destas “feras”, as comunidades são chamadas a permanecer fiéis ao Evangelho, alimentando a esperança, defendendo os pobres e testemunhando o projeto de Deus que é capaz de humanizar a história, para além das narrativas conservadoras que afastam a experiência religiosa do chão da vida e das inúmeras realidades sofridas.
*Assessor da Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Sociotransformadora (Cepast/CNBB).
Edição: Carlos Henrique Silva | Comunicação CPT Nacional




