Na Bahia, fascista não se cria

Combativa e criativa, juventude cria movimento antifascista de baixo para cima, muito além dos partidos e suas direções. Um mote cada vez repetido entre os baianos chama a atenção para a necessidade de estender a política muito além das eleições

Por Luiz Filgueiras* e Graça Druck**, em Outras Palavras

Nesse segundo turno das eleições, os enormes atos e manifestações de massa em apoio à reeleição de Lula, que vêm ocorrendo em todo o Brasil, têm uma marca comum, qual seja: os jovens brasileiros são a “ponto de lança” dessas manifestações. A sua disposição de luta, combatividade e criatividade está criando um poderoso movimento antifascista de baixo para cima, que vai muito além dos partidos de esquerda e de suas direções, e que poderá produzir novas lideranças populares nos próximos anos.

A ameaça do fascismo chegar à Presidência da República mais uma vez, tendo em vista a trágica experiência dos quatro anos do Governo Bolsonaro e a ameaça de uma nova tentativa de um golpe de Estado, acendeu o alerta para amplos segmentos do povo brasileiro, em especial parte significativa de sua juventude. Esse protagonismo tem sido decisivo para a articulação das ruas com as redes sociais, uma nova forma de fazer política, que as gerações mais velhas de militantes têm dificuldade de entender e acompanhar, mas que estão aprendendo no calor da luta.

E essa articulação não diz respeito apenas ao período eleitoral; ela vem sendo feita diariamente. A política nunca mais será como antes. As novas tecnologias de comunicação e informação (TICs) e o seu domínio e monopólio por parte da big techs, com o controle das redes sociais, vêm mudando a cultura e a forma de vivenciar e fazer política. Não há separação ou distinção entre o “mundo real” e as redes sociais; as redes sociais fazem parte do mundo real, para o bem ou para mal. As novas gerações estão demonstrando que a organização permanente do povo e sua mobilização ainda são decisivas para a educação e ação política, atuando, ao mesmo tempo, nas ruas e nas redes sociais, em uma sinergia em que ambas se alimentam reciprocamente.

As manifestações de massa, que vêm acontecendo diariamente, E QUE ESTÃO APONTANDO PARA A VIRADA ELEITORAL DE LULA, estão passando por cima de discussões teóricas sobre se o bolsonarismo é, ou não, um fenômeno de natureza neofascista. Nelas, as faixas, cartazes, cantos e palavras de ordem não deixam dúvidas: o bolsonarismo é um movimento antinacional e antidemocrático, com vínculos com as milícias e o crime organizado, reacionário moral e culturalmente, violento e obscurantista, inimigo das artes e da ciência. Um movimento que prosperou apoiado nos preconceitos e valores regressivos do senso comum presentes e arraigados na sociedade brasileira; como o fascismo histórico, o neofascismo bolsonarista mobiliza raivas, medos, inseguranças, frustrações e ressentimentos, difundidos em muitas parcelas do povo e que, embora tenham raízes históricas na formação da sociedade brasileira, hoje são resultados de quase quatro décadas de reformas e políticas neoliberais. Enquanto um movimento político de massa, o bolsonarismo é a sua expressão política.

Na Bahia, as manifestações produziram uma síntese do bolsonarismo e do momento que estamos vivendo, expressa em uma palavra de ordem repetida sistematicamente e com todo entusiasmo e convicção, qual seja: “AQUI É A BAHIA… E NA BAHIA FASCISTA NÃO SE CRIA”. Os seus participantes evidenciam, claramente, a compreensão que têm sobre a natureza do bolsonarismo, que só poderá ser derrotado nas urnas e, principalmente, na sociedade, com o povo mobilizado permanentemente, e não apenas no período eleitoral.

*Professor Titular da Faculdade de Economia da UFBA. Pesquisador na área de Economia Política, Desenvolvimento e Economia brasileira.

**Professora titular do Programa de Pós-graduação em C. Sociais da Faculdade de Filosofia e C. Humanas e do Programa de Serviço Social da Universidade Federal da Bahia, pesquisadora do Centro de Estudos e Pesquisas em Humanidades/CRH/UFBa, Bolsista Produtividade do CNPq, estudiosa do campo da sociologia do trabalho.

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