A fascistização do Brasil. Por Diana Pichinine*

No A Terra é Redonda

Muito da nossa dificuldade em compreender os circuitos afetivos que dão subsídio à experiência atual do fascismo social está relacionada à ficção de que a práxis política está ancorada em determinantes puramente racionais

O possível retorno do bolsonarismo político

O fenômeno político da atual ascensão dos novos fascismos, e, mais que isso, o caso do retorno dessa ultradireita numa segunda eleição democrática (caso de Donald Trump nos EUA) por escolha popular, apesar dos malogros desses primeiros governos, nos obriga a refletir sobre o que se passa na expectativa das parcelas da população que estão recolocando essas lideranças no poder.

Que as elites da Faria Lima estejam apostando nessa reeleição é perfeitamente compreensível, pois elas estão votando pelos seus próprios interesses. Que as classes médias altas também estejam trabalhando pela vitória da ultradireita e pela derrota do trabalhismo petista também é compreensível, pois elas constituem a parcela da população (a base social do antipetismo) que projeta fazer parte dessas elites.

A circunstância mais desafiadora à análise política atual é a adesão significativa dos pobres e do lumpem-proletariado a um projeto de poder que já se revelou completamente refratário aos interesses populares. Pois, nesse caso, observamos que a adesão ao fascismo social e político não lhes trará absolutamente a uma trajetória de ascensão social. Então, resta a pergunta: o que na proposta fascista de poder que os levou a votar contra seus próprios interesses?

É lugar comum na ciência política, mas também entre muitos analistas políticos progressistas, pelo menos desde a experiência nazifascista na Europa, tentar explicar esse fenômeno “ilógico” de duas maneiras: ou argumentando a respeito do ressentimento político das classes médias (mas, lembremos que a votação no candidato de ultradireita foi bastante expressiva na classe trabalhadora); ou argumentando que foi por “burrice” que o eleitor de baixa renda deu um tiro no próprio pé.

O argumento acerca do ressentimento político nutrido pelas antigas oligarquias do período pré-bismarckiano nascido da perda de prestígio, privilégios e queda do poder aquisitivos sofridos com a unificação da Alemanha, foi usado, por exemplo, por Norbert Elias[i] para tentar explicar a ascensão do Nacional-socialismo e o clima de “Ovo da Serpente” que este imprimiu à República de Weimar.

O outro argumento também bastante mobilizado para explicar a adesão das massas ao fascismo seria a ignorância política embalada por uma reação emocional e irracional. Esses argumentos podem valer para a experiência do fascismo histórico, substantivo, mas auxiliam pouco a compreensão de como esse fenômeno vem se dando nas chamadas democracias liberais, sobretudo as frágeis democracias do Sul Global. Afirmamos isso porque as circunstâncias históricas dessas experiências autoritárias no século XX em nada se parecem com aquelas em ação na atual fase do capitalismo.

As experiências fascistas argentina e brasileira, por exemplo, precisam ser compreendidas a partir tanto do processo histórico da formação desses países como Estados nacionais, quanto pela conjuntura geopolítica criada pelas transformações estruturais (econômicas, políticas, sociais e culturais) trazidas pelo assim chamado “capitalismo de plataforma”.[ii] Nesse sentido, concordamos com a tese de Vladimir Safatle em seu último livro.[iii]

Vladimir Safatle nos chama a atenção para o fato de que é necessário compreender a íntima relação existente entre o “fascismo restrito” das democracias liberais e o fascismo institucionalizado. A seu ver, a verdade é que, mutatis mutandis, a sociabilidade fascista dos dias atuais encontra-se em total continuidade com a sociabilidade experimentada nos períodos de fascismo restrito encapsulado nas ditas democracias liberais. A esse argumento de Vladimir Safatle, acrescentamos que é necessário olhar com bastante atenção para as especificidades dos processos históricos de cada país.

A luta política como campo de batalha

Essa interpretação de Vladimir Safatle não encontrou eco imediato entre os analistas políticos, sobretudo porque, historicamente, o movimento fascista sempre esteve associado a um posicionamento político baseado em afetos irracionais: a violência endógena, a ficcionalização de um inimigo interno, a guerra como léxico político etc.

Aqui precisamos observar que o próprio Vladimir Safatle entende a construção dos diferentes tipos de sociabilidade como baseadas num “circuito de afetos”, nascido e alimentado em consonância com os regimes políticos vigentes. Em “Como construir esteticamente um povo: Sobre certo modernismo sombrio e sua atualidade”[iv] ele afirma:

“Creio que perderemos dimensões fundamentais do fenômeno fascista se não o compreendermos como uma batalha pela formação da sensibilidade social, pelo cultivo dos afetos e pela produção do horizonte sensível da política. A ordem sensível é o fundamento da imaginação social, de seus limites e formas, e o controle da imaginação e da sensibilidade é o fundamento de todo e qualquer poder. Por ter consciência disso, o fascismo é um projeto estético, uma reconstrução da sensibilidade que define os limites do visível e do perceptível no interior da ordem social”.

Assim, segundo ele, perderemos dimensões fundamentais do fenômeno político da ascensão dos novos fascismos se não os compreendermos como travando ativamente uma batalha pela formação da sensibilidade social, o que não significa em absoluto afirmar que a escolha pelo fascismo é sempre e necessariamente irracional. Muito pelo contrário. Observando a história de construção do nosso país, perceberemos que, pelo menos desde o período integralista, o fascismo nunca desapareceu do cenário nacional. Mais até que o campo progressista, os autoritarismos políticos levam a sério a necessidade de disputar a formação da sensibilidade social, e essa é uma escolha política racional.

Portanto, precisamos distinguir entre esses dois movimentos: uma coisa é compreender que, ontologicamente, toda força política fará essa disputa pelo domínio da afetividade social; outra coisa é afirmar que toda escolha fascista é irracional. A ultradireita entendeu bem essa lição e está ganhando de lavada essa batalha, ao ponto de podermos afirmar que a sociedade brasileira está sendo atravessada em seus mais diversos estratos sociais pelo fascismo social. O campo progressista vem capitulando diante dessa disputa pela comunicação com a sociedade brasileira, e, nesse cenário, o fascismo cresce em proporções numéricas e simbólicas.

Muito da nossa dificuldade em compreender os circuitos afetivos que dão subsídio à experiência atual do fascismo social está relacionada à ficção de que a práxis política está ancorada em determinantes puramente racionais. Vladimir Safatle acerta precisamente quando nos apresenta a atual experiência do fascismo social como uma reação racional e pragmática ao afunilamento político, econômico e social posto em nosso horizonte pelo sistema capitalista neoliberal. A história da formação de nossa nacionalidade é marcada desde sempre pela violência e desigualdade.

É preciso compreender que todas as características do fascismo social atual (moralização da política, interdição do debate público pelo “lugar de Fala”, autoritarismo, preservação das hierarquias de classe, violência de Estado etc.) mantêm-se em fluxo contínuo em relação ao período colonial.

Colonização, escravidão, expropriação do trabalho produtivo, objetificação da natureza, violência generalizada (mas capitaneada pelas políticas de segurança do Estado, e pela extraordinária letalidade do aparato policial brasileiro), divisão de classes, hegemonia da cultura moral da competição, do individualismo e da guerra permanente. Esse é o subsolo patético da nossa política, inclusive nos períodos de fascismo restrito e de afirmação dos valores republicanos.

A sociabilidade brasileira é violenta e autoritária desde sempre, mas esse seu traço não se confunde com a conservação de um possível resquício de arcaísmo da economia patriarcal e do personalismo próprio à cultura da sociedade patriarcal latifundiária. Como afirma Florestan Fernandes,[v] o autoritarismo brasileiro não é um resquício arcaico do período colonial, mas, antes, a consequência das escolhas feitas pelas nossas elites dominantes em nosso processo de modernização (periférica). O autoritarismo do período colonial se atualizou no projeto de modernização capitalista tal como implementado pelo Estado brasileiro.

Ou seja, o fascismo social brasileiro é, antes, o outro lado da cabeça de Janus do capitalismo e da democracia liberal. Essa modernização, que se consolidou a partir de 1930, acelerando o surto urbanizador e comercial, na medida em que se deu nos quadros do modo de produção capitalista, teve como prioridade o projeto de incluir os setores médios como um dos maiores beneficiários desse novo modelo de desenvolvimento, ao mesmo tempo em que pretende excluir propositalmente os negros, mestiços, racializados e pobres.

A política de “embranquecimento”, levada a cabo pelo Estado brasileiro em fins do século XIX, traduziu explicitamente o anseio das classes dominantes e das classes médias brasileiras por evitar que nosso país se tornasse uma nação racializada. Capitalismo, autoritarismo e racismo formam a tríade padroeira da história brasileira.

Violência e autoritarismo

Esse processo de desenvolvimento das forças produtivas internas, acelerou o surto urbanizador e comercial nas grandes capitais. Se de um lado, esse processo virá a assimilar os setores médios urbanos (rapidamente os europeus, que já dominavam o comércio e a moedagem pela experiência obtida em seus países de origem, tornaram-se as figuras de proa da economia urbana, baseada sobretudo no comércio); de outro lado, esse mesmo Estado e seus tentáculos (as instituições republicanas recém-nascidas durante a passagem ao regime de democracia liberal) trabalharão incansavelmente para excluir os dejetos sociais (negros, mestiços e pobres) da convivência cidadã.

Daí podermos inferir que tal modernização à brasileira foi pensada estrategicamente para que, como afirma Jessé Souza, restasse aos negros, aos brancos pobres e à classe trabalhadora em geral, “o pior ponto de partida para a integração à (nova) ordem competitiva”:

“Para Florestan Fernandes, o abandono de toda essa população à própria sorte foi o principal fator responsável pela situação de penúria e desorganização econômica e moral desses estratos, que tiveram lançados sobre os ombros a responsabilidade de criar os dispositivos necessários à sua integração na nova ordem. Assim, não é difícil vislumbrar o futuro de marginalização social e pobreza econômica aos quais essa população estava condenada”.[vi]

Diante das vicissitudes resultantes de um processo autoritário de modernização, dominado pelos interesses do grande capital nacional (submetido ao grande capital internacional do Norte Global), vivemos no Brasil um nível de violência social absurdo. Mas, o manto que as classes dominantes lançam para disfarçar essa sociabilidade violenta quer nos fazer acreditar que capitalismo e fascismo representam dois modos antagônicos de gestão da vida social.

No entanto, a verdade observável pelo nosso processo histórico de constituição enquanto país e sociedade é que o sistema capitalista se sustenta e se reproduz no revezamento histórico entre períodos democráticos e períodos autoritários.

Agora, voltemos ao questionamento feito no início desse texto: que razões explicam que a classe trabalhadora e o lumpem-proletariado tenham sido seduzidos pelo projeto político fascista nas últimas eleições? Por que corremos o risco de devolver o governo do país ao projeto fascista bolsonarista? É preciso levar a sério essa pergunta.

Afirmar que a adesão ao fascismo é pragmática e racional não significa dizer que se trata de uma reação legítima. Em determinadas condições sociais, o indivíduo pode fazer um cálculo semelhante a: se a sociedade já não consegue garantir proteção e recursos para todos, alguém será excluído; portanto, é racional tentar permanecer entre aqueles que serão protegidos.

Vladimir Safatle associa essa lógica à intensificação neoliberal da competição e à destruição dos mecanismos de solidariedade e de pertencimento de classe.

Nesse sentido, “racional” não significa justo, verdadeiro ou universalmente razoável. Significa racionalidade estratégica ou instrumental: dados certos fins – sobreviver, manter posição social, preservar privilégios –, a exclusão de outros pode aparecer ao agente como um meio coerente para alcançá-los.

O afunilamento social provocado pelas necessidades estruturais de reprodução do modo-de-produção capitalista, tais como o sucateamento das políticas públicas de proteção social, a violência social endógena, o alto índice de desemprego, a miséria, o empobrecimento crescente das classes mais vulneráveis, a uberização da força de trabalho etc. são condições vividas hoje no regime de democracia liberal.

Também salta aos olhos a perda do horizonte de vida digna através do trabalho pela classe que vive do trabalho, além da ilusão que a mesma vive de que o auto empreendedorismo e o esforço pessoal a conduzirá a um mundo de liberdade, sucesso e bem-estar. Nessas circunstâncias, o cálculo racional feito pelos setores da população que estão apoiando o bolsonarismo é o de que, independente do regime político e ideológico, o melhor governo (o mais promissor) é aquele que permitirá que seu destino social não naufrague como o Titanic.

As elites e parte das classes médias que aderiram ao fascismo sabem que o retorno de um governo autoritário desfavorecerá os subalternos sociais e todos aqueles que forem identificados como inimigos, mas esses setores sociais apaziguam sua consciência pensando: sim, a violência aumentará, mas como seria possível fazer uma omelete sem quebrar os ovos?

*Diana Pichinine é professora de filosofia e ciências humanas no Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), campus Realengo.

Notas

[i] ELIAS, Norbert. Os Alemães: A luta pelo poder e a evolução do habitus nos séculos XIX e XX. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.

[ii] GAGO, Veronica. The fascistisation of social reproduction. Radical Philosophy 218, Spring 2025, pp. 23–34.

[iii] SAFATLE, Vladimir. A ameaça interna: psicanálise dos novos fascismos globais. São Paulo: UBU, 2026.

[iv] SAFATLE, Vladimir. Como construir esteticamente um povo: Articulações entre arte e política. AISTHESIS Nº 76 (2024): 240-251 • ISSN: 0718-7181 © Instituto de Estética – Pontificia Universidad Católica de Chile, 2025. Ver: https://revistaaisthesis.uc.cl/index.php/RAIT/article/download/85164/65858/258018

[v] Florestan Fernandes em seu prefácio à edição brasileira de O Genocídio do Negro Brasileiro elogia o uso sem restrições do conceito de genocídio aplicado ao negro brasileiro por parte de Abdias do Nascimento. “Trata-se de uma palavra terrível e chocante para a hipocrisia conservadora. Contudo o que se fez e continua a fazer com o negro e seus descendentes merece outro qualificativo? Da escravidão, no início do período colonial, até os dias que correm, as populações negras e mulatas têm sofrido um genocídio institucionalizado, sistemático, embora silencioso”.

[vi] SOUZA, Jessé. “A Família desorganizada e a reprodução da ‘ralé estrutural’ no Brasil”, in: A ralé brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, p. 326.

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