América Latina: ultradireita degola a saúde

Na Argentina, cortes de Milei aumentam índices de HIV. No Equador, ajuste de Noboa leva a crise no acesso a remédios. Em El Salvador, Bukele demite milhares de trabalhadores da saúde. Casos são alerta para o Brasil: derrotar o fascismo é defender o SUS

Por Guilherme Arruda, em Outra Saúde

A passagem de Flávio Bolsonaro (PL) ao segundo turno da eleição presidencial gera crescentes temores de uma grande onda de cortes no orçamento público da Saúde, caso o candidato de extrema-direita seja eleito. Já circula publicamente uma proposta em que a equipe do candidato avalia acabar com o piso de investimento na Saúde e retirar dos gastos sociais (Saúde, Educação, Previdência) o equivalente a 2% do PIB, ou R$250 bilhões.

O receio de defensores do Sistema Único de Saúde (SUS) e movimentos sociais é justificado. Em diversos países da América Latina onde a extrema-direita ascendeu ao governo nacional nos últimos anos, a população sofreu com demissões em massa de trabalhadores da saúde, cortes orçamentários no setor e desestruturação dos serviços públicos. O “tesouraço” ameaçado pelo candidato bolsonarista ecoa a “motosserra” argentina e outros ajustes fiscais violentos que assolam o continente.

Nesta reportagem, Outra Saúde reúne informações preocupantes sobre três casos exemplares. Um deles, a Argentina desde a ascensão do ultraliberal Javier Milei em 2023. Outro, o Equador após a vitória do oligarca bananeiro Daniel Noboa, no mesmo ano. Por fim, a situação de El Salvador, governada de maneira cada vez mais ditatorial por Nayib Bukele a partir do ano de 2019. Relatos de profissionais de saúde – um psicólogo argentino, um médico equatoriano e uma agente comunitária de saúde salvadorenha – reforçam o quadro tétrico dos países.

“O que eu diria à população brasileira é simples e direto. A saúde pública não sobrevive aos governos que desprezam o que é público. O que a extrema direita faz não é só cortar, ela muda a lógica, transforma direitos em privilégios. Quando a saúde se torna um bem de mercado, os que têm menos recursos ficam de fora”, resume José María di Bello, psicólogo e diretor da Fundación GEP (FGEP).

Argentina: Milei passa a motosserra na Saúde

O caso da Argentina é bastante notório. Ex-comentarista de programas de TV, o economista Javier Milei venceu as eleições de 2023 prometendo acabar com a pasta da Saúde no país, reduzindo-o a uma secretaria de um superministério. A ameaça não se concretizou. Mesmo assim, o setor perdeu uma enorme quantia de recursos. O veículo especializado El Auditor estima que houve uma redução real de 30% no orçamento da Saúde em três anos (as estatísticas oficiais podem ser consultadas aqui), um verdadeiro caso de tesouraço. 

Nesse processo, Milei busca forçar uma mudança na lógica do sistema rumo ao “salve-se quem puder”, explica José María di Bello. A queda de recursos é tão grande que “a saúde se tornou majoritariamente uma responsabilidade das províncias”, que correm para adquirir medicamentos antes comprados pelo governo federal. As desigualdades aumentam, já que nem todas possuem o mesmo dinamismo econômico. “Não estamos apenas frente a um ajuste, mas a um esvaziamento do papel do Estado”, ele alerta.

O programa de ajuste levou à demissão de 1,4 mil funcionários do Ministério da Saúde. As medidas também levaram a cortes nos programas para pessoas com deficiência, alegando “desperdício”. Entre vários outros, o maior escândalo de corrupção do governo até agora envolveu o desvio de verbas da ANDIS, agência de apoio a pessoas com deficiência. O caso envolve Karina Milei, irmã e secretária-geral do presidente.

As quedas drásticas nas verbas e na força de trabalho se expressam no sucateamento das políticas públicas, relata José María. Os departamentos de saúde sexual e prevenção de doenças infecciosas, respectivamente, perderam 72% e 83% de seu orçamento. Na prática, isso significou uma redução de 58% no número de preservativos distribuídos pelo poder público, de 80 milhões em 2023 para 33 milhões em 2026. Nesses mesmos três anos, a prevalência do HIV subiu para 13 casos a cada 100 mil pessoas, quando há 3 anos era de 10 casos por 100 mil habitantes.

“A situação é realmente desastrosa. Não se entregam mais preservativos nem testes rápidos. A última campanha [de conscientização] ocorreu em 2022. Tudo isso tem a ver com o aumento de 5,3 mil para 6,9 mil novos casos de HIV por ano, a taxa de mortalidade alta e os 40% de diagnósticos tardios. O mesmo ocorre com as hepatites, a tuberculose, o câncer”, lamenta José María. 

Outro segmento fortemente atingido é o acesso a medicamentos. Uma reportagem da AP revela que grupos clandestinos de pacientes de câncer e familiares se reúnem para adquirir medicamentos ilegalmente, após o fim da entrega gratuita de medicamentos oncológicos. “Tudo que eu preciso para que meu corpo funcione é esta medicação e Milei diz que não há dinheiro”, lamentou Ariel Wagener, pizzaiolo argentino de 47 anos que padece de leucemia, ao repórter. Seus remédios, que custam 21 mil dólares por mês, foram cortados. Ele sobrevive recebendo doações de outros pacientes do mesmo tipo de câncer.

O gráfico a seguir, formulado pela Fundación Soberania Sanitaria, mostra que o número de Botiquines RemediAR (política pública que entrega bolsas de medicamentos gratuitos) e unidades de medicamentos oncológicos distribuídos pela Argentina estão no seu menor nível desde 2017:

As contrarreformas atingem os princípios do sistema. Ao iniciar a cobrança para estrangeiros não residentes no último mês de agosto, Milei acabou com a gratuidade universal dos serviços públicos de saúde. Em movimentação subserviente aos Estados Unidos, a Argentina também foi o único país do mundo a sair da Organização Mundial da Saúde (OMS) junto dos Estados Unidos, minando a cooperação entre os povos.

Os ataques contra a saúde não contam com a aprovação da população. Em agosto de 2025, uma pesquisa demonstrou que 68% dos argentinos se opõem aos planos de Milei para reduzir o orçamento sanitário. Além disso, multiplicam-se no país as manifestações e greves de trabalhadores da saúde contra os cortes. Mesmo registrando sua menor popularidade desde o início do governo, o mandatário leva adiante o ajuste fiscal.

Uma análise realizada pela Fundación Soberania Sanitária resume o cenário desastroso. O governo de Milei possui “uma orientação consistente rumo à retração do Estado nacional, que se expressa na queda real do financiamento, a subexecução orçamentária, a desarticulação de programas estratégicos e a desregulamentação da medicina privada. Este conjunto de decisões configura uma mudança estrutural no papel do Estado como coordenador do sistema sanitário”, explica o think tank. 

“Esse processo se expressa de maneira particularmente crítica em áreas estratégicas, como o acesso a medicamentos essenciais e a formação da força de trabalho em saúde. As decisões adotadas impactam diretamente sobre a continuidade de tratamentos e a disponibilidade futura de pessoal sanitário”, completa a fundação.

Em meio aos cortes, “o sistema de saúde [da Argentina] começa a se tensionar perigosamente”, aponta uma análise recente. O “aumento na demanda em meio a um cenário social complexo”, combinado com o corte de verbas, pode levá-lo ao colapso e a uma grave crise sanitária no futuro próximo.

Equador: crise e desabastecimento de remédios

Em 2023, a derrubada do presidente do Equador e banqueiro Guillermo Lasso, acusado de corrupção, levou a eleições extraordinárias em que Daniel Noboa, herdeiro de uma fortuna bilionária de exportação de bananas, se elegeu em uma onda antipolítica. Reeleito dois anos depois, Noboa vem implementando um programa de cortes orçamentários, inclusive na Saúde, e militarização do país.

Uma checagem da agência equatoriana Lupa identificou uma queda de recursos entre 2023 e 2024. Depois, uma análise do professor Stalin Vargas Mesa identificou um novo corte entre 2024 e 2025, estimando o total de perdas em US$421 milhões de dólares, o equivalente à perda de 2,1 bilhões de reais em três anos.

Presidente do Colégio Médico Provincial de Guayas, entidade representativa da categoria na região mais populosa do Equador, o médico Luigi Cedeño defende que há uma falta de políticas preventivas no sistema do país. “O problema não passa só pelo desabastecimento, pela falta de infraestrutura ou pela não aquisição de medicamentos. O sistema vai continuar colapsando porque há cada vez mais pessoas doentes no país”, explica.

A conta chega para os usuários do sistema de saúde. Neste exato momento, em consequência das políticas equivocadas, o Equador vive uma grave crise de desabastecimento de medicamentos, classificada por Luigi Cedeño como “terrível”. Uma reportagem da CNN revela que os trabalhadores dos hospitais pedem que os parentes de pacientes doem luvas cirúrgicas. Sem dinheiro para adquirir refeições para os internados, os serviços públicos de saúde recebem doações de bancos de alimentos.

Dados oficiais citados pela CNN indicam que o país só consegue oferecer 34% dos remédios utilizados pelos serviços públicos de saúde. Em meio à crise, o gasto das famílias com medicamentos explodiu. “Cada semana gasto 200 a 300 dólares com receitas”, afirmou Guido Muñoz, aposentado equatoriano que realiza tratamento quimioterápico para leucemia, à rede de notícias estadunidense.

Em meio a crise, no último mês de julho, o governo de Noboa chegou ao oitavo ministro da saúde em 3 anos, com a nomeação de Juan Carlos Aveiga. Trata-se de um verdadeiro caos institucional.

“O governo não acerta porque nomeia pessoas improvisadas na Saúde. Todos fracassaram, inclusive o atual ministro. Seguirão fracassando enquanto não aplicarem políticas preventivas”, defende Luigi Cedeño. 

El Salvador: IA e teleconsulta substituem trabalhadores

O cenário não é diferente em El Salvador. O país é governado com mão de ferro pelo ultradireitista Nayib Bukele desde 2019. A tendência de seu governo tem sido o corte de verbas, a demissão de trabalhadores da saúde e a adoção acrítica de ferramentas digitais no Sistema Nacional de Saúde (SNS).

A agente comunitária de saúde e membro do Fórum Nacional de Saúde de El Salvador, Morena Murillo, explica que as ações de Bukele na saúde começaram com uma mentira: “Em sua campanha, ele dizia que ia aprofundar a reforma da saúde [iniciada pelos governo de esquerda da FMLN em 2009, eliminando cobranças do sistema de saúde e fortalecendo atenção primária]. Mas a primeira coisa que fez foi acabar com a transparência e a participação social”. Depois, ela conta, o “desmantelamento do sistema de saúde” passou por medidas como o desfinanciamento da atenção primária, o fechamento das equipes comunitárias de saúde da família e unidades de atenção básica e suspensão de programas de saúde da mulher.

Cinco anos depois, os cortes se intensificaram. No país, o orçamento da saúde de 2025 foi de 90 milhões de dólares a menos que no ano anterior: as verbas caíram de US$1,26 bilhão para US$1,17 bilhão, um corte de 7%. Entidades médicas denunciam a ausência de um Plano Nacional de Saúde. Segundo o site Infobae, o ajuste significou o “fechamento de 50 clínicas da família”. Morena Murillo estima que 7,7 mil profissionais de saúde foram demitidos.

Como nos demais países, as consequências do ultraliberalismo se revelam em uma alta de doenças infecciosas. El Salvador registrou um aumento de 14,3% nos casos de HIV no primeiro semestre de 2026, apontam dados oficiais.

Em um típico caso de instrumentalização mercantilista das novas tecnologias digitais, os profissionais de saúde despedidos estão sendo substituídos por Inteligência Artificial. O aplicativo promovido pelo governo para a realização de teleconsultas foi desenvolvido pelo Google e os dados de saúde dos salvadorenhos são armazenados no Google Cloud, sem garantias de privacidade de informações sensíveis, explica o La Diaria.

“A plataforma DoctorSV, financiada com empréstimos milionários, implementa uma modalidade de telemedicina que é insustentável, porque debilita o Sistema Nacional de Saúde e exclui os mais pobres, que não têm acesso à internet. Ainda por cima, o Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF), que financiou o projeto piloto, recomenda que seja introduzida a coparticipação. Ou seja, há risco de começarmos a pagar pelos serviços de saúde”, alerta Murillo.

Risco da ultradireita no Brasil

O cenário de desfinanciamento, demissões e caos nos serviços de saúde que atinge estes três países governados pela ultradireita na América Latina mostra um cenário possível caso Flávio Bolsonaro vença as eleições no Brasil, opinam os três profissionais de saúde consultados pela reportagem.

“Aqui na Argentina não aprendemos com a experiência brasileira com Michel Temer e Jair Bolsonaro. Agora, vivemos o desfinanciamento de programas essenciais, ataques à ciência, retrocessos enormes nos direitos sexuais e reprodutivos, afetando principalmente as mulheres e a população LGBT, e desigualdades territoriais. Os direitos estão virando mercadoria”, lamenta o psicólogo argentino José María di Bello. 

O médico equatoriano Luigi Cedeño complementa: “Um dos problemas mais importantes que o povo brasileiro precisa entender é que a direita não vê a saúde como um investimento, mas como um gasto. A direita, tanto a de Noboa quanto a de Bolsonaro, acredita que cada um precisa pagar por sua própria saúde. Os beneficiados da privatização da saúde vão ser as grandes elites”.

“Meu chamado para a população brasileira é que tudo o que foi conquistado desaparece se não votamos em pessoas que não garantem os direitos da população. Não podemos permitir retrocessos, é preciso avançar mais e organizar-se mais para que a saúde seja um direito de todas e todos”, completa a agente comunitária salvadorenha Morena Murillo.

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