Transição energética sem planejamento é o cavalo de troia financeirista. Entrevista especial com Clarice Ferraz

Para a pesquisadora, a privatização da Eletrobras colocou o Brasil em situação de vulnerabilidade energética para favorecer acionistas e investidores, colocando a população mais empobrecida sob risco de desabastecimento

Por: Cristina Guerini, em IHU

Ninguém duvida ou questiona a importância do setor elétrico para o bem-estar humano, econômico e social. A questão ambiental continua sendo um desafio importante, daí as inúmeras discussões em favor de um processo de descarbonização da produção de energia elétrica, chamada também de transição energética. “O custo para readequar o setor elétrico à transição energética, que hoje é uma necessidade, depende diretamente do nosso nível de planejamento. A forma como vamos integrar as novas fontes, como solar e eólica, permite diversas composições. Cada um desses cenários gera custos distintos que, consequentemente, vão resultar em tarifas diferentes para o consumidor”, explica a professora e pesquisadora Clarice Ferraz, em entrevista por vídeochamada ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

A privatização da Eletrobras, em junho de 2022, durante o governo Bolsonaro, trouxe uma série de consequências negativas e riscos para o setor, mas principalmente para a população mais empobrecida. “Sem o setor elétrico não existe uma economia próspera, não tem industrialização. E dependendo do nível de tarifa que essa desestruturação vai ocasionar, haverá uma crise seríssima de custo de vida para as pessoas. Esse é o colapso. Quando colapsa o setor elétrico, o problema é imenso, porque tem duas faces. A face operacional, tem um blackout, o país inteiro para. E a outra, é que vai chegar em um nível de tarifa em que a produção será inviabilizada, vai inviabilizar que as pessoas tenham uma vida digna e que elas possam mesmo consumir eletricidade”, descreve a entrevistada.

“Em um trabalho recente, eu e o pesquisador Bruno Milanez, da Universidade de Juiz de Fora, demonstramos como a expansão sem planejamento da energia solar e eólica pode produzir um excesso no uso de termoelétricas para estabilizar o sistema. Isso produz uma duplicação de custos, pois o que ocorre [é] expansão da energia renovável de maneira imprevidente, para além da demanda, que se converte em uma espécie de cavalo de troia, o que obriga um investimento de adaptação do sistema elétrico”, critica Clarice.

Frente a tal complexidade, considerando o próximo governo a guiar os rumos do Brasil, a professora coloca como central para uma retomada da estabilidade no setor elétrico nacional a reestatização da Eletrobras. “A questão da soberania passa pela Eletrobras, que com a privatização destruiu o Centro de Pesquisas de Energia Elétrica – CEPEL, criado em 1974. Este foi o maior centro de pesquisa do setor e hoje em dia ele é uma sombra do que fora, mas se ele existe precisa, justamente, ser fortalecido. O Brasil está perdendo a sua capacidade de gerir e produzir tecnologias do setor elétrico, onde ele sempre foi liderança”, pondera.

Clarice Campelo de Melo Ferraz é professora do Departamento de Engenharia Química da Escola de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Possui graduação em Ciências Econômicas pela Universidade de Brasília (2000), mestrado em Master en Energie – Ecole Polytechnique Fédérale de Lausanne (2006), mestrado em Master en Management Public pela Universidade de Genebra (2004) e doutorado em Ciências Econômicas e Sociais pela Universidade de Genebra (2011).

Confira a entrevista.

IHU – Em artigo publicado em 2025, a senhora apontou como o encarecimento da conta de luz afeta o bolso da população e a popularidade do governo. Pensando em um projeto de país para as eleições de 2026, como o debate sobre o controle tarifário e o barateamento do custo de vida deve ser pautado pelos candidatos sem cair no populismo tarifário?

Clarice Ferraz – O setor elétrico (a tarifa de eletricidade) é um desses elementos que afeta a qualidade de vida das pessoas em função dos orçamentos que elas vão ter para as suas despesas. Isso posto, eu acho que seria importante fazer o que não apareceu até agora, que é falar justamente dos projetos de futuro dos candidatos à presidência, porque para se combater a alta da tarifa de eletricidade, estamos falando de uma estrutura muito complexa. Portanto, esse problema é estrutural, não é algo conjuntural, não é um subsídio. Ao contrário do que se quer muito colocar hoje em dia, como se fosse uma coisa simples, não é. Trata-se de uma transformação enorme.

O custo para readequar o setor elétrico à transição energética, que hoje é uma necessidade, depende diretamente do nosso nível de planejamento. A forma como vamos integrar as novas fontes, como solar e eólica, permite diversas composições. Cada um desses cenários gera custos distintos que, consequentemente, vão resultar em tarifas diferentes para o consumidor.

Para pensar nisso, é preciso colocar a tarifa como uma questão central. A acessibilidade, que é a universalização do acesso, está sendo agora comprometida pela questão da tarifa. Como é que estruturalmente vamos endereçar essa questão? Como é que vamos ou não reintroduzir planejamento? Porque assim, pelo menos, teríamos uma opção e também uma possibilidade de discutir com a população.

O que são nossos recursos energéticos? Como é que estamos explorando? Nessa estruturação é preciso mostrar para as pessoas de que forma os custos dessa transformação estão sendo repartidos.

São duas questões. Uma é a falta de planejamento que está gerando um resultado ineficiente e estruturalmente provoca um aumento de tarifa. A outra é que esse setor está uma bagunça institucional, de modo que a repartição desses custos está afetando ainda mais os vulneráveis, o que agrava a desigualdade brasileira.

São dois problemas que precisam ser levados em conta com muita seriedade. Porque não se trata somente de oportunidade, há uma série de desafios.

IHU – Existe um “colapso silencioso” do setor elétrico brasileiro? De que ordem? Como isso afeta o desenvolvimento do país?

Clarice Ferraz – Ele está começando a ficar um pouco menos silencioso, mas sim, há muitos agentes da academia, de consultorias, até de banco falando, sim, que podemos colapsar. O problema é muito grave.

E, de novo, ou por uma questão econômico-financeira de inadimplência e problemas da cadeia financeira, econômica ou operacionalmente. Isso ocorre porque a falta de planejamento também está gerando uma fragilização operativa. Temos dias críticos, alguns por ano, onde quase tem um megablackout e eles são evitados na última hora.

Sem o setor elétrico não existe uma economia próspera, não tem industrialização. E dependendo do nível de tarifa que essa desestruturação vai ocasionar, haverá uma crise seríssima de custo de vida para as pessoas. Esse é o colapso. Quando colapsa o setor elétrico, o problema é imenso, e ele tem duas faces. A face operacional, tem um blackout, o país inteiro para. E a outra, é que vai chegar em um nível de tarifa em que a produção será inviabilizada, vai inviabilizar que as pessoas tenham uma vida digna e que elas possam mesmo consumir eletricidade.

No Rio de Janeiro já vemos isso. A pessoa de classe média mais baixa consegue comprar o aparelho de ar-condicionado e ela se auto restringe porque tem medo da fatura. Vemos pessoas que estão em tarifa social e vou citar um exemplo.

Estava falando com a pessoa que faz parte de uma ONG que instalou um painel solar para um agricultor familiar. Ela chegou na casa da pessoa, que tem conexão à eletricidade, tem uma bomba de água e não estava produzindo os alimentos porque não tinha como ligar. Ela falou assim, “mas está quebrada a sua bomba? Está com problema a sua rede?” O agricultor falou não, “mas se eu ligar a bomba d’água, eu passo da tarifa social e eu não vou ter dinheiro”. Então, um agricultor sem nem conseguir ter condição mínima de produção.

A questão da tarifa

Portanto, a tarifa importa muito. Ela inviabiliza diversas atividades, desde as de subsistência até as de ponta da indústria que perde competitividade. Então, é muito séria essa desestruturação do setor elétrico. E ela está em tudo, em todas as nossas atividades. Desde o bombeamento da água, a todos os geradores, a todos os motores.

Isso mostra a essencialidade. Estou falando de infraestrutura crítica, da essencialidade para a vida mesmo. Quase 40% do setor residencial está com tarifa social e mais de 20% de inadimplência de um serviço que é essencial.

Os acessos à eletricidade estão avançando, mas a níveis de inadimplência muito altos e de dependência da tarifa social também. A forma como a tarifa social está estruturada – aquilo que falamos na primeira pergunta – a repartição desses custos, do financiamento, que é importantíssimo na tarifa social, está mal colocada. Isso acaba sobrecarregando o outro consumidor residencial que ganha um pouco mais, de modo que essa espiral vai se agravando.

IHU – Levando em conta que as privatizações de serviços essenciais continuam na agenda de diversos governadores e presidenciáveis, qual o risco estrutural de submeter o saneamento e a energia à lógica do rentismo e lucro rápido?

Clarice Ferraz – Os riscos são enormes. Há um conflito de interesses gigantesco em estruturas de monopólio. Então, estamos falando dos dois setores em que teremos transmissão, distribuição e na questão do saneamento.

Podemos ver claramente [o problema] na privatização da Eletrobras, em que os resultados previram aumento de investimentos e quando olhamos os dados – escrevi recentemente sobre isso – vemos, na verdade, demissões em massa, desestruturação da qualidade do serviço e aumentos mirabolantes na remuneração do conselho de administração e dos diretores que estão concordando com tudo isso. Vemos é que a empresa se torna o que eles gostam de chamar de cash cow (a vaca leiteira), uma empresa que ganha muito dinheiro, tornando-se quase uma operadora financeira.

Ela passa a emitir dívida, está totalmente financeiarizada na sua operação e, nessa transformação, distribui esses resultados para os seus próprios acionistas. Então, seus conselheiros são remunerados para fazer isso e os seus acionistas que estão na verdade recebendo. Observa-se, então, a distribuição de dividendos vultuosos, extraordinários, e a alocação de recursos para a remuneração de empregados, apenas para aqueles que eles querem.

Lucro maior, investimento menor

É uma série de coisas que estão acontecendo. Vê-se claramente uma desestruturação, uma degradação da qualidade do serviço e isso é muito sério, principalmente nesse momento em que estamos falando da necessidade, inclusive, de adaptação das infraestruturas críticas para que elas possam suportar justamente os impactos das variações climáticas. Então, tudo isso é mais demandado, é mais estressado e deveríamos estar realmente colocando investimento nesses setores, mas sob essa gestão privada o que interessa é a distribuição de dividendos. Essa prioridade agrava profundamente a crise do setor.

O paralelo com o saneamento é muito, muito próximo e a questão fica ainda mais grave quando vemos empresas que vão justamente deter tanto saneamento como a distribuição de eletricidade. São duas tarifas cruzadas, dois serviços essenciais e a população fica refém. Não tem como regular uma coisa desse tamanho.

IHU – Passados alguns anos da privatização da Eletrobras, quais foram os impactos concretos na tarifa e na segurança do fornecimento de energia?

Clarice Ferraz – O resultado dessa operação financeirizada é a degradação da qualidade dos serviços. O número de acidentes ligados à Axia Energia (ex-Eletrobras) cresce muito, muito mesmo. Quando falamos em “acidente” no setor elétrico, falamos de fatos gravíssimos, de mortes. O número de terceirização aumentando muito, assim como uma “juniorização”. Ouvimos do operador nacional do sistema, que deu uma palestra na empresa de pesquisa energética, que há problemas de operação com a Axia. Por quê? Porque só tem jovem que não tem experiência e tem dificuldade de operar. E veja, ela é a gestora de quase 50% do nosso armazenamento nos reservatórios. Logo, tem-se um problema de operação ali, pois se a empresa não está funcionando com responsabilidade, ela pode derrubar o setor elétrico sozinha.

Energia: moeda de especulação financeira

E, com relação à tarifa, na verdade, vemos que é ao contrário, porque a previsão era que 20% da parte de energia da nossa tarifa seria o custo mais baixo que tem. E isso foi quebrado para fazer a privatização. Quebrado unilateralmente, totalmente inconstitucional, um absurdo. Isso posto, a Eletrobras, agora a Axia, ficou como? Na própria privatização já foi colocado: a energia que era alocada sob as cotas ficará sobre o regime independente de energia. E essa figura permite fazer o que quer com a sua energia.

Da forma que está posta a privatização, a empresa vai vender no mercado livre e vai formar contratos na duração que quiser. A indústria, por exemplo, agora está com dificuldade de fazer contrato de longo prazo, porque a Eletrobras, a Axia, não quer fazer contrato de longo prazo. Portanto, ela quer especular mesmo, quer deixar o preço subir.

Segurança energética versus maximização dos lucros

Quando a União detém maior percentual de uma empresa, ela tem função pública. Assim, a Eletrobras, antes de privatizada, apesar de ter lucro, tem a função pública de contribuir e garantir a nossa segurança energética. Quando ela é privatizada, perde função pública. Portanto, o objetivo dela é, como outra empresa qualquer, a maximização dos seus lucros e maior retorno para os seus acionistas.

E, com esse mercado em transformação com muita energia variável, como eólica e solar, que são energias variáveis e, sobretudo, incontroláveis. Pois não sabemos exatamente quando teremos sol e bem mais difícil é a previsão sobre os ventos. Quem faz muito dinheiro, quem ganha muito com isso, são as hidrelétricas, que quando tem água em seus reservatórios, é só ligar, é a coisa mais rápida que tem, inclusive, apesar de ser uma tecnologia centenária, e as termelétricas, que vão ter os seus combustíveis lá estocados e, portanto, vão poder operar. É isso que está acontecendo.

Poder de barganha

Quem tem a capacidade de despacho, quem tem energias controláveis, tem um poder de mercado muito maior. Tem um poder, inclusive, de colocar o preço. E é isso que vemos com a Eletrobras.

A empresa perde a função de ajudar a controlar e a equilibrar e a garantir a segurança de abastecimento. A Eletrobras estava a serviço de combater justamente essas flutuações e incertezas. Agora, ela está, sobretudo, preocupada em tirar ganhos a partir disso. Então, ela não quer combater uma oscilação, ela quer mesmo que haja escassez, que o preço suba.

Essa foi uma questão que foi colocada e houve até uma discussão entre os que eram a favor da privatização. Porque privatizar uma empresa desse tamanho, que domina quase 50% dos reservatórios, quer dizer, que esse pessoal pode operar quando ninguém mais pode. E é muito mais barato do que uma termoelétrica. O que isso cria é um poder de mercado muito grande, é essa empresa que vai definir preço.

Havia quem defendia que a Eletrobras fosse toda fatiada antes de ser privatizada porque não haveria essa concentração de mercado. Só que isso vai contra o nosso ordenamento e à nossa própria natureza. Porque temos usinas ao longo do mesmo rio. É a nossa geografia que faz com que sejamos integrados. E ficam dizendo que introduzir uma ineficiência operativa vai ser para trazer uma eficiência econômica. É um pessoal que não entende de energia mesmo.

IHU – Há uma forte pressão para a liberação do Mercado Livre de Energia Elétrica. Pode nos explicar o que é e como funciona esse mercado?

Clarice Ferraz – O mercado livre de energia existe há muito tempo. Essa é uma construção de mercados elétricos liberalizados, naquela onda de reformas liberais dos anos 1990. Aqui no Brasil o Fernando Henrique Cardoso abre o setor elétrico, tem algumas privatizações e a partir daquele momento se fala em criar ambientes de comercialização destino. Como isso aqui é infraestrutura crítica, serviço essencial, que inclusive é responsabilidade da União prover, conforme a Constituição – pode ser privativo ou não, mas a responsabilidade é da União que todos nós tenhamos acesso à energia elétrica. Aqui já se vê colocada uma estrutura em um incentivo muito perverso. Se der um problema maior, elas não são too big to fail [grande demais para quebrar], elas são, na verdade, infraestrutura crítica essencial assegurada e garantida pela Constituição.

Nessa onda das reformas liberalizantes se criam dois ambientes. A energia elétrica sempre tem que ser fortemente regulada, por essas características que expliquei antes. E, por outro lado, teria justamente esse ambiente mais aberto para os grandes consumidores, que aí poderiam contratar diretamente com geradores ou com algum comercializador.

A novidade é que esse mercado livre agora está sendo colocado para todo mundo, para qualquer tipo de consumidor. E isso já existe há muito tempo na Europa. Aqui travou porque tivemos a crise do apagão, que inclusive ajudou a eleger o governo Lula na primeira vez. Mas em outros mercados essa coisa foi avançando de forma mais acelerada, então já tem esse mercado livre colocado para os pequenos.

O que é isso, na verdade? No mercado livre é possível escolher de quem se compra –é só isso que é falado. Só que apesar de escolher de quem se compra, quem continua te entregando eletricidade nas casas é a distribuidora, que é responsável pelo fio que vai levar a energia. A diferença agora é que, ao invés de assinar um contrato com a distribuidora, a pessoa vai assinar um contrato com o comercializador, que oferecerá o valor da tarifa.

Mercado Livre

Estamos falando em cerca de oito tipos de contratos. Tem várias nuances e é muito difícil para um consumidor entender exatamente o que ele está negociando. Para o pequeno consumidor, inclusive, há uma previsão de que não terá diferença de preço, na verdade, efetivamente falando.

O mercado livre é isso: o consumidor pode escolher de quem vai comprar a energia, vai continuar sendo entregue pela distribuidora e o que chega em nossas casas não é só a eletricidade e energia. Tem uma série de serviços, que hoje entram em nossas contas como um encargo de serviço de segurança.

Teremos um mercado de energia, um mercado de capacidade ou de reserva e um mercado de serviços oscilares. A tarifa do consumidor vai ser uma soma de todos esses elementos que são custos do consumidor ter eletricidade chegando em casa. É o preço que a pessoa contratou com a sua comercializadora, mais todos os encargos que houverem, mais bandeira tarifária e tudo o que for acontecendo dali para frente.

Está tudo muito mal estruturado. Eu duvido que essa abertura vá realmente se concretizar nos prazos que estão definidos. O consumidor que passa para o mercado livre não sabe exatamente quanto vai pagar. E a tarifa vai estar colocada de acordo com o seu nível de risco.

Assim começa toda a economia a se deformar e a se transformar para se adequar ao funcionamento do setor elétrico por conta desse reordenamento. O setor elétrico deveria estar a serviço do setor produtivo, não o inverso.

IHU – Fala-se muito em transformar o Brasil em uma potência verde por meio da transição energética. No entanto, como construir um projeto de descarbonização que impulsione verdadeiramente a reindustrialização do país sem repassar os custos das novas tecnologias para os 50% da população que já dependem de tarifa social?

Clarice Ferraz – É preciso reintroduzir planejamento, porque o Brasil tem que aproveitar que é um país que tem muitos reservatórios de hidrelétricas, e, portanto, tem uma capacidade de armazenamento que é dada por geografia, que tem limitações, como as que vemos quando os ecossistemas estão perturbados, então a não poderemos ampliar o nosso parque hidrelétrico dessa forma, mas já contamos com o parque hidrelétrico muito robusto, muito privilegiado.

Na Conferência Internacional de Economia da Energia que aconteceu em Munique, recentemente, tentou-se fazer novas regras para interconectar mercados de capacidade, ou seja, para interconectar países diferentes que tenham justamente reservatórios, armazenamentos diferentes.

O Brasil é maior que a Europa e estamos totalmente interligado, não precisa ficar negociando milhares de regras ou questões políticas, afinal somos um território unificado e interligado por linhas de transmissão que fazem com que essa água, com que esse reservatório possa contribuir para a estabilidade do setor elétrico em todo o país. Esses ativos são essenciais e cruciais, por isso disputamos tanto essa questão da Eletrobras, considerando o papel que ela poderia ter na transição energética real e efetiva, a partir do parque de transmissão e dos reservatórios que ela detém.

O que estamos vendo agora é a perspectiva do Nordeste como atrativo energético, como um bolsão verde, mas não é nada disso. O que há são desperdícios, o chamado curtailment (interrupção ou corte temporário) de energia, que pode estar sendo gerada, mas que não vai para a região. E não se trata de falta transmissão, mas falta de demanda para a geração em excesso. Entre as razões para o corte de energia está a falta de demanda, de modo que não adianta colocar uma linha de transmissão, inclusive considerando a enorme expansão solar, se a noite essa linha ficar ociosa, sobretudo porque uma linha de transmissão é caríssima e impacta o meio ambiente. Diante disso, a transição para o solar sem planejamento não é transição, pois não descarboniza.

Em um trabalho recente, eu e o pesquisador Bruno Milanez, da Universidade de Juiz de Fora, demonstramos como a expansão sem planejamento da energia solar e eólica pode produzir um excesso no uso de termoelétricas para estabilizar o sistema. Isso produz uma duplicação de custos, pois ocorre expansão da energia renovável de maneira imprevidente, para além da demanda, que se converte em uma espécie de cavalo de troia, o que obriga um investimento de adaptação do sistema elétrico.

A adição da termoelétrica, além de anular todo o balanço de emissões que teoricamente se poderia conseguir com a energia eólica e solar, anula a redução de carbono. Em 2024 o balanço foi negativo, apesar do crescimento de 40% de energia solar. Faz sentido isso? Sendo que nessa expansão solar, estamos promovendo desmatamento, deslocamento de pessoas, afetando territórios, fora toda a questão dos impactos territoriais e sobre as pessoas que ocupam esses territórios, que é, ainda, uma outra agenda de problemas.

Então assim, o Brasil continua ainda como um país muito privilegiado, tanto em termos de dotação de recursos, como de infraestrutura, que é essa rede interligada, mas a gente não está sabendo usar isso, justamente no sentido de caminhar para essa transição. Precisamos olhar para o que é nosso, porque ter uma termoelétrica a gás natural, por exemplo, faz que com que continuemos a nos expormos a um preço que está cotado internacionalmente, num momento de inflação e com tantos conflitos e tudo deflagrado geopoliticamente. Então o Brasil sempre foi um país de fronteira em termos de tecnologia de energia, tanto em termos de desenvolvimento de rede, de turbina, etc.

Agenda brasileira

É necessário ter uma agenda que retome essa projeção e é olhando para dentro que fazemos isso corretamente, não é olhando para fora. Foram os engenheiros brasileiros que souberam usar os recursos nacionais e criaram infraestrutura internacional. Tanto que a China veio para cá nos anos 1090, consultando a Eletrobras, para entender, para aprender e implementar.

Devemos usar os recursos com responsabilidade e cuidando muito da natureza, que está nesse ponto crítico. Estamos vendo, agora, em Fernando de Noronha a notícia que a Neoenergia quer desmatar uma área inteira para fazer painel solar e aí vai justificar a iniciativa com o argumento de que está tirando diesel.

Se tem uma coisa boa na energia solar é justamente a modularidade. Não precisa desmatar uma área, colocam-se os painéis de forma isolada e não deve colocar para a população que ela está consumindo só a energia solar, porque não está. Vai continuar dependendo de um gerador a diesel.

Complexidade

O debate é muito simplificado, mas na verdade omite questões essenciais. Quando eu critico alguma dessas fontes e tudo, é justamente uma crítica à falta de planejamento que faz com que na verdade tenhamos uma série de contradições capazes de sabotar, justamente, a transformação que gostaríamos de ter. E aí quando a gente faz isso bem planejado e tudo, conseguimos olhar para a tarifa.

IHU – O sistema energético brasileiro é altamente dependente da hidrologia, e o colapso climática tornou o clima (o regime de chuvas) imprevisível. O que precisamos reformar estruturalmente, não apenas para gerar energia limpa, mas para termos um sistema elétrico resiliente, capaz de não colapsar diante dos extremos climáticos que viveremos nos próximos anos?

Clarice – A nossa vulnerabilidade é nossa força. Todo mundo quer ter reservatório, mas isso não nos priva de ter grandes problemas, seja por seca, seja por inundações. Quando tem tempestades, cai galho, cai tudo e pode danificar as turbinas e outros sistemas. Daí meu apelo a gerir esses reservatórios com maior responsabilidade. Hoje tem um Comitê de Gestão de Bacias, também fruto da privatização da Eletrobras, que está à mercê das pessoas mais interessadas no lucro que no planejamento.

Estamos, no entanto, diante de uma questão de planejamento nacional mesmo, sabe? De preservação desse recurso estratégico. Lembrar do papel fundamental que a água do reservatório tem no setor elétrico, sem perder de vista que esta é, de longe, a menor função que ela tem. Precisamos da água para a vida, para a dessedentação, para irrigação, de modo que é urgente preservar os cursos d’água. Vejamos essa questão na Volta Grande do Xingu, de como esta usina operada, privilegiando uma lógica do investidor.

Gestão privada é amadora

Não devemos perder de vista que a gestão desse espaço implica a restauração e preservação do ecossistema que está ali colapsando. O Parque é uma joia para o setor elétrico e, ao mesmo tempo, ele pode ter impactos muito severos. Antigamente era possível ter anos e anos e de água retida, o que gerava estabilidade para o sistema. Hoje em dia, estamos usando a hidrelétrica para fazer balanceamentos, o que chamamos de intraday elétrico, para balancear as oscilações da energia eólica e solar. Estamos esvaziando reservatórios e ligando turbinas gigantescas como se fosse um interruptor caseiro. Um depoimento de um gestor da Eletrobras, à época da privatização, relata que ele era ordenado a ligar e desligar a usina até 18 vezes por dia, mas não é assim que funciona.

E voltamos a pensar no rio. Imagine uma cheia, uma seca, uma cheia, uma seca e assim sucessivamente. Precisamos olhar para esses reservatórios como um conjunto integrado. Por isso mesmo precisamos tomar muito cuidado com o rio que abastece o reservatório, com todos que utilizam esse recurso, com a questão da agricultura, etc.

IHU – Se a senhora fosse delinear os pilares de um “Projeto de Economia para o Brasil”, quais seriam as três medidas mais urgentes que o próximo presidente deveria tomar no dia 1º de janeiro de 2027 para garantir soberania nacional, dignidade tarifária e modernização industrial?

Clarice – A reestatização da Eletrobras, porque é necessário que tenhamos o controle dos nossos recursos. A questão da soberania passa pela Eletrobras, que com a privatização destruiu o Centro de Pesquisas de Energia Elétrica – CEPEL, criado em 1974. Este foi o maior centro de pesquisa do setor e hoje em dia ele é uma sombra do que fora, mas se ele existe precisa, justamente, ser fortalecido. O Brasil está perdendo a sua capacidade de gerir e produzir tecnologias do setor elétrico, onde ele sempre foi liderança. É necessário ter controle dos ativos estratégicos. Para ter controle dos ativos estratégicos, que são os reservatórios e as linhas de transmissão é necessário ter empresas estatais para fazer investimentos.

Não devemos ficar dependendo de consultoria internacional para fazer precificação ou qualquer outra coisa. Os softwares têm que ser nossos, a operação tem que ser brasileira, isso é soberania. É através de centros como esse, que precisam ser conhecidos, que a questão da modicidade tarifária é discutida como prioridade. Olhar para a estrutura de custos do setor elétrico e reintroduzir o planejamento permite com que a expansão e a operação sejam colocadas com esse viés de descarbonização e modicidade tarifária.

Isso contribui para a redução da crise de custo de vida das famílias, ajuda a combater a inflação etc. A falta de planejamento traz aumentos de tarifa de eletricidade acima dos índices da inflação. Então, a eletricidade, com essa abundância que temos, ao invés de estar contribuindo para a redução da inflação, está aumentando. Esse custo gera pressão inflacionária estrutural.

Essa modicidade no preço da energia elétrica é para todos. Serve para a Dona Maria, como o presidente gosta de falar, e serve para qualquer tentativa de retomada da industrialização do país. Se realmente desejamos tirar partido dessa questão da transição energética e tudo, precisamos olhar para eletrificação dessa indústria, tendo, justamente, uma energia mais descarbonizada possível. Mas isso não vai acontecer sem planejamento, o que é o contrário do que ocorre agora, com crescimento desordenado, onde o investidor decide o que dá retorno mais rápido. O investidor nunca vai optar pelo que traz soberania, tecnologia e modicidade.

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