Conseguiremos derrotar o império das big techs? Por Sylvia Debossan Moretzsohn

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“Só a fraude nos tira essa vitória!”, bradou Leonel Brizola, diante da gritante discrepância na divulgação da contabilidade dos votos para o governo do Rio de Janeiro em 1982, nas primeiras eleições diretas desde o golpe de 1964. As Organizações Globo seguiam a contagem oficial, enquanto os números informados pelo Jornal do Brasil e sua rádio, além de outros veículos, baseavam-se nos resultados que os próprios repórteres coletavam nas mesas de apuração, como era usual na cobertura jornalística daquele tempo de votação em cédulas de papel e apuração lenta.

Esse murro na mesa marcou o estancamento da tentativa de fraude que ficou conhecida como “caso Proconsult”, nome da empresa responsável pela totalização dos votos para governador do Rio de Janeiro. O plano era transformar os votos brancos e nulos para o candidato do regime, Moreira Franco, enquanto as empresas da Globo traziam a público apenas os números oficiais, que normalmente vinham do interior do estado, onde Moreira venceria. Seria uma forma de preparar a opinião pública para um resultado inesperado, diante do favoritismo de Brizola na reta final da eleição.

(A Globo jamais reconhecerá que fez esse papel, mas fez).

Estávamos ainda em plena ditadura e Brizola era o candidato intragável para os militares. O general Euclydes Figueiredo, irmão do presidente, sintetizou esse sentimento de ódio: “Brizola é um sapo que a gente engole, digere e expele na hora certa”.

Quem sabe venha daí a ideia de Brizola chamar Lula de “sapo barbudo”, ao apoiá-lo no segundo turno das primeiras eleições diretas para presidente desde o golpe, em 1989.

Pois bem: o caso Proconsult, que tanto escândalo causou à época, é fichinha diante do que está acontecendo agora, com a interferência direta da Meta no nosso processo eleitoral.

A troca de mensagens em que funcionários da empresa reconhecem o prejuízo causado a Lula por uma série de restrições às contas do candidato no Instagram e por recomendações algorítmicas a Flávio Bolsonaro, noticiada por Patrícia Campos Mello na Folha de S.Paulo (aqui e aqui), e que Hugo Souza resumiu num artigo no qual ironiza “a tranquilidade dos engenheiros do caos”, é apenas o mais recente episódio de sucessivos “problemas técnicos” que, segundo denúncia da campanha de Lula, começaram em dezembro do ano passado. Votava-se então a dosimetria das penas dos acusados pela tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 e ocorreu um inexplicável apagão nos mecanismos de busca do Instagram para quem procurasse aceder às páginas do presidente Lula e de várias outra lideranças de esquerda.

Da mesma forma, como relatou a jornalista Thaís Bilenky e vários usuários denunciaram, a IA da Meta disponível no Whatsapp recusava os pedidos para geração de uma bandeira com a inscrição “Lula 13”, mas aceitava os que referiam “Flávio 22”. E aqui não se trata, como lamentavelmente algumas figuras públicas criticaram, de submissão à IA para produção de material de campanha, mas sim, como deveria ser óbvio, da denúncia de favorecimento de uma candidatura por esse mecanismo tecnológico.

A empresa, como sempre, jura que não interfere no processo eleitoral, ainda que os “problemas técnicos” insistam em afetar apenas uma candidatura. Só faltou pedir “sinceras escusas”, à moda daquele ex-juiz de voz de taquara rachada, hoje eleito no primeiro turno para o governo do Paraná, decisivo na operação que tirou Lula do páreo em 2018 e escancarou o caminho para Bolsonaro.

À parte isso, há a rotina à qual não se costuma dar a devida atenção: a ressurreição de posts antigos que voltam a circular, e que, em contextos como o atual, ajudam a tumultuar ainda mais o ambiente. Um exemplo singelo, entre vários: após a entrevista de Lula à Globo, em 15 de outubro, apareceu no Facebook um reel em que o ex-candidato Renan Santos chamava o presidente de mentiroso e o atacava de várias maneiras. Fosse uma gravação recente, poderia significar a explicitação da posição de Renan contra Lula, influenciando seus apoiadores neste segundo turno. Assistindo-se ao vídeo até o final, vê-se que se trata de uma gravação anterior ao primeiro turno, que convoca ao debate afinal cancelado pela Globo. Num momento em que as posições se alteram com uma espantosa velocidade, isso faz toda a diferença.

“Jogar merda no ventilador” era a orientação de Steve Bannon, responsável pela estratégia de comunicação da primeira campanha de Trump. Embaralhar as referências temporais é uma das formas mais eficazes de confundir e desorientar. O algoritmo sabe o que faz.

A quem desdenha de teorias conspiratórias, é sempre bom lembrar que conspirações existem.

Em A Máquina do caos, Max Fisher demonstrou como atuam as big techs na desestabilização de governos.

Para completar, na eleição passada contávamos com um juiz no comando do TSE que enfrentou, entre outras manobras, a tentativa da Polícia Federal de barrar a participação de eleitores nas cidades em que Lula prevalecia. Hoje, temos um juiz que, além de divertir-se com mocinhas em festinhas na casa do banqueiro que deveria julgar, favorece escancaradamente a candidatura da extrema-direita, mas continua no cargo apesar disso.

Contra tudo isso, temos uma energia que ressurgiu vigorosamente depois da inesperada derrota proporcional no primeiro turno, o empenho cotidiano em conquistar voto do jeito que cada um consegue inventar e uma rearticulação da campanha que procura furar as bolhas nas redes.

É uma luta profundamente desigual. Seria muito diferente se fosse possível impedir a interferência estrangeira nas nossas eleições.

Só a fraude nos tira essa vitória?

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