Celebração em União dos Palmares (AL) reuniu famílias camponesas e organizações em um momento de fé, memória e esperança na conquista da terra e da moradia
Por Lara Tapety | CPT Alagoas
A chegada da Cruz Sem Males ao acampamento Che Guevara, acompanhado pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), marcou, no dia 15 de outubro, a preparação para a 37ª Romaria da Terra e das Águas em Alagoas. A celebração reuniu famílias acampadas e integrantes da organização da romaria.
A atividade foi conduzida por Helder Neto, da Pastoral de Rua, e Estela, do Centro de Estudos Bíblicos (Cebi) e das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).
Na acolhida, Débora Nunes, da direção nacional do MST, saudou os participantes e comentou sobre a romaria como uma atividade importante promovida pela Igreja Católica, mas reúne todos cristãos. A dirigente anunciou que, neste ano, mais uma vez, o município de União dos Palmares receberá a Romaria da Terra e das Águas.
Entre cantos, orações e partilhas, as famílias refletiram sobre o direito à terra e à moradia, a violência no campo e a força da organização coletiva. Os relatos rememoraram a saída das terras da antiga Usina Laginha, após 14 anos de ocupação, quando tiveram de deixar suas casas e viram suas lavouras serem destruídas.
“O feijão, a fava, a macaxeira, a hortaliça… Tudo isso a gente tinha e lá a gente perdeu, né?”, contou uma agricultora. À memória das perdas somou-se a esperança de recomeçar na área conquistada por meio das negociações das terras da massa falida da usina, com a perspectiva de transformação do acampamento em assentamento definitivo da reforma agrária.
Presente na celebração, frei Franklin, frade capuchinho e guardião do Convento Sagrado Coração de Jesus, em Maceió, destacou a espiritualidade como força para sustentar a caminhada. Ao recordar o sofrimento de Maria e que ela nunca perdeu a esperança, o religioso relacionou a fé à resistência das famílias que enfrentaram a violência no campo.
“Se a gente não tiver fé, se a gente todo dia não alimentar essa fé, nós não teremos esperança”, afirmou. E continuou: “A fé nele [em Deus] que vai dar o impulso, a esperança, e essa esperança diz assim para nós: ‘Nós vamos ser vitoriosos’.”
O coordenador nacional da CPT, Carlos Lima, também ressaltou essa relação ao apresentar a história da Cruz Sem Males: “A nossa fé movimenta a nossa luta.”
Feita artesanalmente em 2002 pelos monges do Mosteiro da Serra da Catita, a cruz acompanha desde então a Romaria da Terra e das Águas da Arquidiocese de Maceió. Antes de cada edição, percorre comunidades rurais e urbanas, unindo fé, resistência e denúncia das injustiças. Nela estão representadas romarias anteriores, como memória dos passos coletivos em direção à justiça, à libertação e à “Terra sem males”, guiados por Cristo crucificado e ressuscitado.
Após o momento de reflexão, as famílias e os demais participantes seguiram em uma breve caminhada, levando a cruz até a parte mais alta do acampamento, onde ficam as casas.
A preparação terá continuidade com encontros de formação no Che Guevara, em 23 de outubro, e no acampamento Irmã Dorothy Stang, acompanhado pela Frente Nacional de Luta Campo e Cidade (FNL), em 19 de novembro. Também está previsto o Seminário Terra e Moradia, em 31 de outubro. No dia 13 de novembro, a Cruz Sem Males será acolhida no Irmã Dorothy, em mais um momento de celebração, oração e partilha.
A caminhada culminará na 37ª Romaria da Terra e das Águas, nos dias 28 e 29 de novembro de 2026, em União dos Palmares, com o tema “Terra para plantar, casa para morar” e o lema “Ai dos que ajuntam casa a casa e campo a campo” (Isaías 5,8). O percurso ligará os acampamentos Che Guevara e Irmã Dorothy Stang, ambos vinculados às negociações das terras da massa falida da Usina Laginha, reafirmando a luta das famílias pela reforma agrária e pelo direito de viver e produzir na terra.




