Por uma pedagogia da coragem

Direita busca extinguir a autonomia pedagógica e o encontro com a diferença. Submete o trabalho docente à insegurança constante, e a escola à hipervigilância. Nestas eleições, educar é também sustentar, com esforço coletivo, a possibilidade de que o mundo possa ser diferente

Por Roberto Rafael Dias da Silva, em Outras Palavras

Na reta final das eleições nacionais, gostaria de conversar com os professores e com as professoras sobre uma tarefa que considero urgente: recuperar a coragem como dimensão pedagógica e política. Em uma sociedade atravessada por tantos medos, precisamos voltar a imaginar uma escola em que o medo não seja o afeto predominante. Uma escola em que ensinar não signifique apenas responder a exigências, administrar riscos ou proteger-se de ameaças. Afinal, que possibilidades educativas podemos construir quando o medo passa a organizar nossas relações com o mundo?

O medo não é uma novidade em nossa experiência histórica. O historiador Jean Delumeau, em sua conhecida História do medo no Ocidente, demonstrou como diferentes sociedades construíram mecanismos de proteção diante de ameaças reais ou imaginadas. As cidades fortificadas, os dispositivos de vigilância e a desconfiança diante dos estrangeiros expressavam modos particulares de convivência com a insegurança. Ao longo da história, indivíduos e coletividades estabeleceram relações distintas com o medo, ora reconhecendo sua dimensão vital, ora convertendo-o em instrumento de controle moral e político.

Entretanto, algo parece ter se transformado em nosso tempo. Em Medo líquido, Zygmunt Bauman nos ajuda a compreender uma sociedade na qual os medos se tornaram difusos, dispersos e permanentes. Já não estão necessariamente associados a ameaças identificáveis. Circulam por diferentes espaços da vida social, alimentando uma sensação contínua de vulnerabilidade. Experimentamos aquilo que o sociólogo denominou de “ubiquidade dos medos”. Quanto mais somos convocados a responder individualmente por nossos destinos, mais nos sentimos desprotegidos diante de perigos que sequer conseguimos reconhecer.

Essa condição não é independente das transformações políticas e econômicas das últimas décadas. Como nos ajuda a compreender Vladimir Safatle, o neoliberalismo estabeleceu uma relação profunda entre liberdade individual e produção social do medo. A promessa de autonomia vem acompanhada de uma responsabilização crescente dos indivíduos por suas escolhas, trajetórias e fracassos. Os dispositivos coletivos de proteção social passam a ser questionados, enquanto a gestão permanente dos riscos se converte em uma exigência cotidiana. A liberdade prometida transforma-se, muitas vezes, em insegurança permanente.

Na educação, essa racionalidade adquiriu contornos bastante particulares. Nas últimas décadas, o trabalho docente foi submetido a pressões crescentes. A centralidade das avaliações em larga escala, as ofensivas neoconservadoras e os imperativos de inovação e produtividade produziram novas formas de responsabilização individual. O professor deve ser empreendedor de si, gestor permanente de riscos e responsável solitário pelo sucesso ou fracasso das mudanças educacionais. Como um operador do mercado financeiro, precisa calcular resultados, antecipar perdas e demonstrar eficiência. Sua autonomia, paradoxalmente, passa a ser medida pela capacidade de cumprir metas previamente estabelecidas.

Ao mesmo tempo, movimentos como o Escola sem Partido, as ofensivas contra a chamada “ideologia de gênero” e as propostas de escolarização domiciliar expressam outras manifestações dessa política dos medos. Em nome da proteção das crianças e das famílias, procura-se restringir o encontro com a diferença, limitar a autonomia pedagógica e submeter a escola a mecanismos crescentes de vigilância. O outro, suas ideias, seus valores e suas experiências passam a representar ameaças potenciais.

Recorrendo a uma expressão presente nos trabalhos de Christian Dunker, poderíamos dizer que se pretende organizar a sala de aula segundo uma lógica condominial. Nela, a segurança depende da delimitação de fronteiras, do controle das diferenças e da administração permanente dos comportamentos. A escola deixa de ser compreendida como espaço público de convivência entre diferentes para aproximar-se de um ambiente protegido contra aquilo que pode desestabilizar nossas certezas. Não surpreende, portanto, que ganhem força discursos nostálgicos sobre um passado idealizado, no qual professores ensinavam, estudantes copiavam e a disciplina parecia assegurar a ordem.

Mas o que acontece com o trabalho educativo quando o medo se converte em afeto pedagógico? Que possibilidades restam para a experimentação, para o pensamento crítico e para a construção de experiências democráticas? Uma escola organizada pela desconfiança dificilmente conseguirá reconhecer a pluralidade como uma riqueza. Quando o professor precisa calcular permanentemente os riscos de suas palavras, escolhas e iniciativas, algo fundamental se perde na experiência de ensinar.

Talvez possamos avançar nessa reflexão recorrendo a Sigmund Freud. Em seu clássico Luto e melancolia, o psicanalista descreve a melancolia como uma experiência marcada pelo desânimo doloroso, pela perda de interesse no mundo e pela inibição da atividade. Não seria possível reconhecer, em nosso tempo, uma espécie de melancolização da política ou uma política permanente de melancolização? Uma condição na qual o medo, a insegurança e a sensação permanente de impotência enfraquecem nossa capacidade de agir coletivamente?

Na educação, essa melancolização pode assumir diferentes expressões. Professores que deixam de acreditar na potência de seu trabalho, escolas que renunciam à experimentação e comunidades que passam a desconfiar umas das outras revelam algo maior do que dificuldades individuais. Expressam o enfraquecimento das condições coletivas de construção da vida democrática. Quando a escola perde sua capacidade de imaginar outros futuros, o presente passa a ser administrado como se não houvesse alternativas.

Há, entretanto, uma questão que precisamos enfrentar. A coragem que reivindicamos não pode ser mais uma exigência individual dirigida aos professores. Seria contraditório denunciar a responsabilização neoliberal e, ao mesmo tempo, exigir que cada docente encontre sozinho as forças necessárias para superar suas dificuldades. A coragem pedagógica não é uma competência individual a ser desenvolvida em programas de formação ou uma atitude heroica diante das adversidades. Ela precisa ser compreendida como uma disposição política, construída nas relações de solidariedade, no reconhecimento profissional e na possibilidade de agir coletivamente.

Precisamos, portanto, recuperar a coragem de ensinar, de experimentar, de discordar e de construir outras possibilidades educativas em tempos de crescente complexidade. Isso implica defender a autonomia pedagógica, fortalecer os espaços coletivos de decisão, reivindicar políticas de proteção social e reconhecer o trabalho docente como uma atividade intelectual e pública. Implica também compreender que a educação política não se reduz ao ensino de conteúdos sobre instituições ou processos eleitorais. Ela se realiza cotidianamente quando a escola possibilita o diálogo, a participação, o confronto democrático de ideias e o reconhecimento das diferenças.

Neste momento decisivo da vida nacional, gostaria de convidar os meus colegas, professores e professoras da educação básica e da universidade, a recusar a pedagogia do medo. Não porque os perigos sejam inexistentes ou porque devamos ignorar nossas vulnerabilidades, mas porque nenhuma sociedade democrática pode construir seu futuro exclusivamente pela administração das ameaças. Precisamos devolver à alegria sua condição de afeto político e pedagógico, à pluralidade seu lugar na vida escolar e à coragem sua dimensão coletiva.

Educar é também sustentar a possibilidade de que o mundo possa ser diferente. Em uma sociedade marcada pela ubiquidade dos medos, talvez nossa tarefa política mais importante seja reconstruir as condições para que professores e estudantes voltem a experimentar a escola como espaço de confiança, criação e vida democrática. Afinal, uma escola democrática não se constrói pela submissão ou pelos gestos de melancolização da política, mas pela coragem coletiva de imaginar e realizar outros futuros. Que a coragem, e não o medo, seja a nossa escolha neste domingo!

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