Os heróis do bolsonarismo torturaram mulheres e crianças. Por Orlando Calheiros e Gabriella Ventura

Hoje, mais do que nunca, é importante lembrar que Jair e Flávio Bolsonaro sempre exaltaram o nome de homens que torturaram mulheres e crianças.

No Café Amargo

Em 1999, durante uma entrevista, Jair Bolsonaro declarou, sem nenhum constrangimento, que era favorável à tortura. À época deputado federal, Bolsonaro defendeu a utilização do pau de arara, um dos instrumentos empregados pela ditadura militar para torturar opositores políticos, afirmando que funcionava. E, como se a brutalidade da declaração não fosse suficiente, acrescentou que o povo brasileiro também era, como ele, favorável àquela prática.

Dezessete anos depois, em abril de 2016, Bolsonaro ocupou a tribuna da Câmara dos Deputados para votar pela abertura do processo de impeachment de Dilma Rousseff, a primeira e, até aqui, única mulher a chegar à Presidência da República no Brasil. Diante de todo o país, dedicou seu voto à memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, antigo comandou o antigo DOI-CODI de São Paulo, reconhecido pela Justiça brasileira como responsável por atos de tortura praticados durante a ditadura militar.

Dilma, a mulher cujo afastamento estava sendo decidido naquela sessão, foi presa e torturada pelo regime militar. Ao homenagear Ustra, Bolsonaro ainda fez questão de chamá-lo de “o pavor de Dilma Rousseff”.

Não havia nenhuma ambiguidade naquela homenagem. Bolsonaro escolheu exaltar publicamente um antigo comandante do aparato repressivo justamente durante a votação que decidiria o afastamento de uma mulher que carregava no próprio corpo a memória da violência praticada pela ditadura. E fez isso no mesmo pronunciamento em que declarou votar “pela família e pela inocência das crianças em sala de aula”.

A contradição entre essas duas homenagens – uma à família e à infância, outra a um torturador – não poderia ser mais eloquente.

Flávio Bolsonaro, filho de Jair e candidato à Presidência da República, herdou do pai a admiração pelo torturador e pelo regime militar. Em livro publicado em 2017, Flávio descreveu Ustra como um homem correto e íntegro, que teria cumprido seu papel de defender a pátria. Na mesma obra, atacou os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade, responsável por investigar as graves violações de direitos humanos cometidas pelo Estado brasileiro.

Quando Jair e Flávio Bolsonaro exaltam Ustra, estão homenageando um homem que comandou um dos principais órgãos de repressão da ditadura militar, no qual opositores políticos foram presos ilegalmente, torturados e mortos; uma estrutura na qual mulheres foram espancadas, submetidas a choques elétricos e violentadas sexualmente; e até crianças foram ameaçadas e usadas como instrumentos de tortura contra os pais – quando não foram elas mesmas também torturadas psicologicamente.

A história da ditadura militar já foi contada muitas vezes a partir das disputa entre homens. Generais, presidentes, dirigentes partidários, guerrilheiros, torturadores e militantes homens ocupam o centro das narrativas sobre o período. As mulheres, quando aparecem, são apresentadas como personagens secundárias, companheiras de militantes ou vítimas de uma violência descrita de forma genérica.

Mas as mulheres estavam lá. Eram jovens estudantes, professoras, trabalhadoras, jornalistas, artistas, mães, filhas, irmãs. Mulheres que tinham convicções políticas, projetos de vida, relações afetivas e perspectivas de um futuro pelo qual consideravam que valia a pena lutar. Algumas integraram organizações revolucionárias; outras participavam de movimentos estudantis, sindicatos e iniciativas de oposição à ditadura; outras, ainda, foram perseguidas simplesmente por seus vínculos familiares com pessoas consideradas inimigas do regime.

Para muitas dessas mulheres, o próprio corpo se tornou território de exercício do poder repressivo. A violência sexual, por exemplo, integrou práticas brutais de humilhação, coerção e dominação documentadas pela Comissão Nacional da Verdade. Práticas que também são observadas em contextos de guerra, nos quais a violência contra o corpo feminino é empregada como instrumento de dominação e submissão.

Mulheres foram obrigadas a permanecer nuas diante de grupos de homens, sofreram choques elétricos, violências sexuais. Gestantes foram submetidas a torturas que provocaram a perda de gestações. A maternidade, a sexualidade e a própria possibilidade de ter filhos foram utilizadas como instrumentos de coerção e humilhação.

É difícil encontrar palavras capazes de transmitir a dimensão dessas violências sem transformar a dor das vítimas em espetáculo, mas o silêncio também não pode ser a resposta. É preciso dizer o que aconteceu, identificar os responsáveis e compreender o que significou a atuação daqueles que, décadas depois, continuam sendo tratados como heróis.

Maria Amélia de Almeida Teles, a Amelinha, foi presa em dezembro de 1972, juntamente com seu marido, César Augusto Teles, e o dirigente comunista Carlos Nicolau Danielli.

No DOI-CODI de São Paulo, comandado por Ustra, Amelinha foi submetida a torturas físicas e sexuais. Seus filhos, Janaína e Edson, tinham cinco e quatro anos de idade, respectivamente, quando foram levados pelos agentes da repressão ao local onde os pais estavam presos. As crianças foram obrigadas a presenciar as condições em que a mãe se encontrava depois das torturas, como parte das estratégias de violência psicológica empregadas contra a família.

É impossível pensar nessa cena sem imaginar o desamparo dessas crianças diante de uma violência que elas sequer tinham condições de compreender, mas também é impossível não pensar na mãe e na mulher que, já submetida a agressões e humilhações, foi obrigada a enfrentar a presença dos próprios filhos naquele ambiente, enquanto seus algozes usavam as duas crianças para ampliar seu sofrimento. Não bastava violentá-la, era necessário também atingir seus filhos, transformando até os vínculos afetivos daquela família em mais um instrumento de tortura.

O homem que comandava aquela estrutura é o mesmo que Jair Bolsonaro homenageou na Câmara dos Deputados e que Flávio Bolsonaro apresentou como íntegro e defensor da pátria.

Maria Auxiliadora Lara Barcelos, a Dora, também conheceu de perto a violência praticada pelo regime militar. Estudante de medicina, Dora se envolveu na resistência à ditadura e passou a integrar organizações revolucionárias. Em novembro de 1969, aos 24 anos, foi presa e submetida a torturas físicas e sexuais. Depois de mais de um ano presa, foi banida do Brasil, em janeiro de 1971, quando passou a viver no exílio. Viveu no Chile, no México e em países europeus, até se estabelecer na Alemanha, onde buscou retomar os estudos e reconstruir a vida que a perseguição política tinha interrompido. Em junho de 1976, aos 31 anos, Dora encerrou a própria vida, em Berlim.

A Comissão Nacional da Verdade reconheceu sua morte como decorrente dos traumas relacionados à prisão e às torturas sofridas durante a ditadura.

Como mulher, é extremamente revoltante ver e ouvir homens poderosos falarem sobre torturadores com admiração, como se os testemunhos daquelas mulheres que sofreram nas mãos dos agentes repressivos fossem insignificantes. Além da violência simbólica em si existe o silenciamento, tão brutal quanto contemporâneo.

E o que dizer quando essa admiração parte de homens que se apresentam publicamente como defensores da família, da infância e dos valores morais? De que família, de que infância e de quais valores morais estamos falando? A família de Amelinha, cujos filhos foram levados a um centro de tortura, está incluída nessa defesa? E as mães que perderam seus filhos para a repressão e nunca puderam sepultar seus corpos? Que valores familiares são compatíveis com a homenagem a pessoas que participaram dessas práticas?

No mesmo voto em que Jair Bolsonaro exaltou a família e a inocência das crianças, também homenageou um homem que comandou uma estrutura na qual os filhos de Amelinha foram usados para ampliar o sofrimento da mãe. É impossível, portanto, discutir a admiração de Jair e Flávio Bolsonaro por torturadores sem confrontá-la com aquilo que esses homens fizeram às pessoas submetidas ao seu poder.

Foi por isso que decidimos produzir o episódio especial de Cálice: O Brasil e seu avesso. Nesse minidocumentário, quisemos confrontar as declarações de Jair e Flávio Bolsonaro com aquilo que suas homenagens deixam de fora da cena: as histórias das mulheres e crianças submetidas à violência justamente pelos agentes que eles exaltam.

A história dessas mulheres, marcada tanto pela dor quanto pela resistência, é parte da história brasileira. Nenhuma mulher deveria precisar contar como foi violentada para convencer uma sociedade de que o homem que a torturou não é um herói.

Amelinha Teles morreu em setembro deste ano, 2026, depois de dedicar décadas de sua vida à luta pelos direitos das mulheres, à preservação da memória dos perseguidos políticos e à busca pelo esclarecimento e pela responsabilização dos crimes da ditadura militar. Amelinha sobreviveu à tortura, enfrentou a tentativa de silenciamento e continuou lutando para que outras mulheres jamais fossem submetidas à mesma violência. Sua trajetória, como a de tantas outras, demonstra que a história da ditadura foi escrita também pelas mulheres que resistiram, denunciaram seus crimes e lutaram para preservar a memória daqueles que não sobreviveram.

Dedicamos o episódio Cálice: O Brasil e seu avesso à memória e à de todas as mulheres que enfrentaram a repressão, sobreviveram para contar suas histórias ou tiveram suas vidas interrompidas pela violência de Estado.

Memória, verdade e justiça. Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça.

Cálice: O Brasil e seu avesso

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