ES: Observatório capixaba questiona uso de água de data center previsto para Baixo Guandu

Coordenador da organização cobra análise dos impactos acumulados na região

Por Mariah Friedrich, Século Diário

A empresa capixaba Line Solution anunciou a instalação de um data center com investimento previsto de R$ 7,4 bilhões em Baixo Guandu, no noroeste do Estado. O prefeito Lastênio Cardoso (MDB), que reassume o cargo nesta terça-feira (27) após afastamento determinado pela Justiça Eleitoral, afirmou que a água necessária ao empreendimento viria de uma represa no Rio Doce. Ele disse ter articulado a apresentação do projeto ao governo estadual, mas não soube informar se foram apresentados estudos de impacto ambiental.

A expectativa de transformar o município com a instalação de um data center contrasta com as preocupações sobre a pressão adicional nos recursos hídricos da região. Enquanto o prefeito Lastênio Cardoso fala em geração de empregos e no aumento da arrecadação municipal, Merci Fardin, coordenador do Observatório Capixaba da Água e do Meio Ambiente, aponta a necessidade de avaliar os impactos do empreendimento em conjunto com os de outros projetos previstos para a região.

O Projeto Rubi, apresentado ao Executivo pela Line Solution, prevê a implantação de um data center voltado ao processamento de dados e à inteligência artificial, além de condomínios logístico e industrial. O complexo ocupará uma área de aproximadamente 566 hectares, e a previsão divulgada pela empresa é iniciar as operações em 2031. O projeto ainda está nas fases de desenvolvimento, licenciamento e captação de recursos.

O prefeito Lastênio Cardoso afirmou que o município reúne condições estratégicas para receber a estrutura, especialmente pela disponibilidade de água e energia. “O data center precisa de muita água e a água que nós temos aqui é a represa, no Rio Doce. Precisa de energia e já tem a energia ali do lado”, disse, em referência à Usina Hidrelétrica de Mascarenhas, localizada no Rio Doce, em Baixo Guandu. A usina foi vendida pela portuguesa EDP à VH GSEO UK Holdings Limited, subsidiária da gestora britânica de investimentos Victory Hill, em uma operação concluída em dezembro de 2022.

O prefeito relatou que participou da articulação política para apresentar o projeto ao governo estadual, incluindo reuniões com secretários, o ex-governador Renato Casagrande e o vice e atual governador Ricardo Ferraço (MDB). Segundo ele, essa etapa já foi cumprida, e o avanço agora depende do empreendedor e do grupo responsável pela implantação. “Eu apenas fiz a minha parte pra ajudar politicamente”, afirmou. Questionado sobre a apresentação de estudos de impacto ambiental, Lastênio direcionou a pergunta ao empresário Mário Rodrigues, fundador e CEO da Line Solution, alegando que ele poderia fornecer informações mais precisas sobre essa etapa.

Apesar de não detalhar o estágio dos estudos ambientais, o prefeito demonstrou confiança nos efeitos econômicos do empreendimento. “Eu acho que isso acontecendo transforma o nosso município, entendeu? É outro patamar, em termos de porte, em termos de emprego”, afirmou, comparando a expectativa em torno do data center à transformação que atribui à construção e à inauguração da Usina Hidrelétrica de Mascarenhas, em 1974. “Esse data center, pra nós, vai ser 100 vezes mais do que aquilo”, afirmou.

A empresa estima a criação de até 550 vagas de trabalho, sendo 500 durante as obras e 50 na operação. Também projeta uma arrecadação anual de R$ 50 milhões a R$ 60 milhões em Imposto Sobre Serviços (ISS), considerando uma alíquota de 5% sobre a receita bruta. Os valores são projeções apresentadas pela própria companhia, e não receitas ou empregos já concretizados.

Para Merci Fardin, a discussão que trata da instalação do complexo não pode se limitar à disponibilidade de recursos naturais nas proximidades do terreno. É necessário considerar a pressão acrescentada por diferentes empreendimentos e seus efeitos conjuntos sobre a água e as atividades econômicas existentes. O coordenador da organização chamou atenção para o risco de novos projetos serem avaliados isoladamente, sem que se considere o conjunto das intervenções previstas para a região. “Se você coloca mais um projeto, tem uma tendência de aumento do uso dos recursos hídricos, contando com os outros projetos que estão anunciados ali”, observou.

Ele ressalta que o planejamento precisa levar em conta os efeitos acumulados sobre os recursos naturais provocados na expansão de diferentes atividades econômicas no Norte do Estado e defendeu que a análise do data center considere os demais empreendimentos que poderão disputar recursos e demandar infraestrutura.

A preocupação é relevante diante das características do Projeto Rubi. De acordo com as informações divulgadas pela Line Solution, o data center terá capacidade computacional inicial de 100 megawatts (MW). A estrutura vai ser voltada ao processamento de grandes volumes de dados, atividade que exige fornecimento contínuo de energia e sistemas de controle térmico para manter os equipamentos em funcionamento.

Apesar de empresa afirmar que utilizará um sistema fechado de resfriamento, com reutilização contínua da água e reposição mensal estimada em volume equivalente ao consumo de três casas populares, essa projeção precisa ser analisada à luz dos dados técnicos do projeto, incluindo a fonte de abastecimento, a demanda efetiva e as condições de disponibilidade hídrica do território.

Ainda não há, nas informações divulgadas sobre o empreendimento, detalhamento suficiente para confirmar qual manancial vai ser utilizado para abastecer o complexo, qual volume será solicitado ou se já foi protocolado pedido de outorga para captação de água. A identificação da fonte é essencial para determinar quais órgãos são responsáveis pela autorização de uso. O Rio Doce é um curso d’água de domínio federal, enquanto a competência sobre outros mananciais depende do enquadramento de cada corpo hídrico.

Merci também questionou a lógica de implantação de grandes empreendimentos em regiões que já enfrentam problemas relacionados à água. “Parece ser uma estratégia das empresas virem para locais onde já existe um problema hídrico”, afirmou, ao discutir a necessidade de examinar as condições ambientais dos territórios escolhidos para receber novos investimentos.

O coordenador defendeu que o planejamento considere a economia popular e a agricultura familiar, além das atividades diretamente relacionadas aos grandes projetos. A preocupação é que o aumento da demanda por recursos naturais e infraestrutura não seja avaliado apenas pela perspectiva dos investimentos e da produção, mas também pelas consequências para os grupos que já dependem desses recursos.

O Projeto Rubi não se limita ao data center. A proposta inclui um condomínio logístico intermodal, com conexão rodoviária pela BR-259 e ferroviária pela Estrada de Ferro Vitória a Minas, além de um condomínio industrial voltado à atração de indústrias pesadas e de atividades ligadas ao agronegócio e ao comércio exterior.

A implantação simultânea dessas estruturas torna necessário avaliar não apenas o consumo de água do data center, mas também as demandas e os impactos associados ao complexo como um todo, reforça o coordenador do observatório capixaba. A análise deve considerar a disponibilidade hídrica, os usos já existentes, a infraestrutura necessária e os possíveis efeitos sobre o abastecimento público e a produção rural.

Para Merci, os mecanismos de transparência e participação social precisam integrar a discussão. Embora existam instrumentos institucionais para acompanhar processos de licenciamento, o coordenador destacou a importância de compreender como o empreendimento vai ser enquadrado e quais procedimentos serão aplicáveis ao caso. Com a previsão de início das operações em 2031, o projeto ainda precisa avançar nas etapas de licenciamento, desenvolvimento técnico e captação de recursos.

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