A fuga de Flávio Bolsonaro e a covardia do bolsonarismo

Depois de pedir ao país coragem para enfrentar inimigos, o candidato derrotado deixa o Brasil sob suspeita de fuga. Sua partida expõe uma concepção de poder em que as regras parecem valer para todos, menos para os que se julgam escolhidos para governar

Fernanda Macedo, Le Monde Diplomatique

O patriotismo de Flávio Bolsonaro atravessou uma fronteira. Depois de uma campanha em que apresentou a si e a seu campo político como defensores do Brasil, o senador derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva deixou o país, segundo relatos de aliados, com destino aos Estados Unidos.

A notícia chegou em meio a uma investigação e à determinação judicial para que Flávio entregasse seus passaportes. O senador havia declarado que cumpriria a ordem e se defenderia.

Entre a promessa de enfrentar os questionamentos e os relatos de que deixou o país, abriu-se um abismo político. Não é necessário aguardar a conclusão de um processo para examinar a postura de uma liderança pública. A responsabilidade criminal depende de prova, defesa e julgamento. A responsabilidade política começa no instante em que um homem pede a confiança de milhões e depois precisa explicar suas próprias escolhas.

Flávio Bolsonaro tem direito ao devido processo legal, à presunção de inocência e a uma defesa ampla. Mas também não tornam sua conduta imune ao escrutínio. Garantias processuais não são salvo-conduto político.

O que sua saída sugere, sobretudo diante das circunstâncias noticiadas, é uma tentativa de escapar do alcance imediato das instituições brasileiras. Essa é uma leitura política do episódio; as autoridades ainda precisam esclarecer o que ocorreu e quais são suas consequências jurídicas. Mesmo com essas informações pendentes, a cena desorganiza a narrativa de coragem que o bolsonarismo cultivou durante anos.

Porque a coragem que se exigiu dos outros sempre pareceu maior do que aquela que se cobrava dos próprios líderes.

Aos apoiadores, ofereceu-se uma causa permanente, uma pátria em perigo, a urgência de resistir. A eles se pediu que confiassem mesmo quando a desconfiança em relação às instituições contaminava famílias, amizades e espaços de convivência. Pediu-se que enfrentassem o mundo em nome de um projeto político. Quando chegou a hora de o candidato derrotado enfrentar as perguntas dirigidas a ele, aliados passaram a dizer que havia partido.

Essa é a pedagogia cruel da liderança que se imagina acima de seus seguidores: o povo deve permanecer fiel; o líder pode procurar uma saída.

Não há heroísmo em conclamar uma nação à vigilância permanente e, ao ser alcançado pelo escrutínio público, buscar distância. Não há bravura em transformar instituições em inimigas sempre que elas deixam de funcionar como instrumentos de proteção pessoal. Tampouco há compromisso com a pátria na ideia de que o país só merece respeito enquanto oferece poder, vitória ou abrigo.

O bolsonarismo ensinou seus seguidores a suspeitar de tudo: da imprensa, das universidades, do processo eleitoral, do sistema de justiça. A suspeita, porém, raramente deveria alcançar o próprio líder. Para ele, reservava-se outra regra: cada investigação seria uma perseguição; cada decisão contrária, uma prova de arbítrio; cada exigência de explicação, uma afronta.

Essa lógica não é defesa da liberdade. É a reivindicação de uma imunidade política que dispensa o líder de prestar contas.

A impunidade começa muito antes de uma sentença que não vem. Ela começa como cultura: na convicção de que certas pessoas não deveriam sequer ser chamadas a responder. Manifesta-se quando uma pergunta legítima é tratada como ataque, quando uma medida judicial se torna automaticamente perseguição e quando a lealdade a um nome vale mais do que o compromisso com regras comuns.

Ao apresentar qualquer investigação como prova de perseguição, o líder pede a seus seguidores algo mais profundo do que confiança. Pede que desistam de examinar os fatos. Que aceitem sua palavra como suficiente. Que substituam a pergunta “o que aconteceu?” pela declaração antecipada “ele é inocente porque está conosco”.

Essa inversão é útil para quem deseja poder sem controle. E é devastadora para uma sociedade que precisa de instituições capazes de investigar com independência, respeitar direitos e prestar contas de seus próprios atos.

Flávio Bolsonaro não deve ser tratado como culpado por ser adversário de Lula. Mas também não deve receber uma blindagem política por ter sido candidato à Presidência. A igualdade perante a lei é testada justamente quando alguém poderoso precisa responder às mesmas perguntas que alcançam os demais cidadãos.

Na democracia que o bolsonarismo diz defender, um líder pode contestar uma decisão judicial. Pode recorrer. Pode apresentar sua versão. Pode demonstrar que houve abuso. Tudo isso deve ser assegurado. O que não pode exigir é que o país confunda seu direito de defesa com um direito de estar fora do alcance de qualquer responsabilização.

A postura de Flávio, tal como relatada até aqui, também revela o caráter seletivo de uma política acostumada a falar em ordem. A ordem costuma ser cobrada com dureza dos corpos pobres, negros e periféricos. Para eles, a suspeita frequentemente chega antes da prova; a violência, antes da escuta. Já quando o investigado ocupa uma posição de poder, surgem discursos sobre garantias, excessos e perseguição.

As garantias estão corretas. O que escandaliza é sua distribuição desigual na imaginação política de quem as reclama.

Um país comprometido com o Estado de Direito precisa assegurar a Flávio Bolsonaro todas as garantias que a Constituição prevê. E precisa se perguntar por que tantas pessoas, sem sobrenome influente e sem recursos para buscar proteção além das fronteiras, não encontram a mesma disposição pública para defender seus direitos.

O problema brasileiro não é que um político poderoso tenha defesa. É que a defesa de muitos se torna invisível justamente quando eles mais precisam dela.

A saída atribuída a Flávio tampouco pode ser lida apenas como um drama individual. Ela integra uma maneira de exercer poder em que a política se organiza em torno da proteção de uma família, de sua influência e de seus aliados. Nessa estrutura, o povo é convocado a acreditar que participa de uma causa nacional, enquanto os interesses particulares das lideranças se confundem com o destino da própria nação.

Quando a família é questionada, diz-se que a pátria está sob ataque. Quando um de seus integrantes perde, diz-se que o povo foi derrotado. Quando as instituições investigam, apresenta-se o procedimento como perseguição a milhões de eleitores.

Essa operação transforma seguidores em escudo. Pede-se que eles defendam como interesse coletivo aquilo que pode ser, antes de tudo, a preservação de interesses privados.

Os eleitores de Flávio Bolsonaro não são responsáveis pelas decisões pessoais do candidato. Tampouco formam um grupo homogêneo. Há entre eles trabalhadores, famílias e pessoas com preocupações legítimas sobre segurança, economia e futuro. Não merecem ser ridicularizados por terem votado de outra forma. Merecem, isso sim, respostas honestas de quem pediu sua confiança.

Onde está a coragem prometida quando ela passa a exigir prestação de contas? Onde está o compromisso com o Brasil quando a liderança escolhe se afastar no momento em que o país precisa de explicações? E que espécie de patriotismo exige sacrifício dos seguidores, mas reserva aos dirigentes a possibilidade de escapar do confronto com as consequências de seus atos?

A derrota eleitoral já havia imposto ao bolsonarismo uma prova democrática: reconhecer que o povo pode escolher outro caminho. A saída de Flávio acrescentou uma prova moral e política: demonstrar se a retórica da coragem sobreviveria ao momento em que seu principal personagem precisasse praticá-la.

Até aqui, a resposta que emerge dos relatos de sua partida é desoladora.

Enquanto o candidato busca distância, o país permanece. Permanecem seus eleitores, inclusive os que agora precisam decidir se a fidelidade a um líder deve prevalecer sobre o direito de questioná-lo. Permanecem os cidadãos que rejeitaram seu projeto e esperam que a justiça atue sem privilégios nem exceções. Permanecem as instituições, com a obrigação de esclarecer os fatos sem ceder à perseguição ou à condescendência.

A democracia não exige vingança contra Flávio Bolsonaro. Exige algo mais difícil e mais necessário: que ele responda com as garantias devidas e sem privilégios, diante das mesmas regras que valem para os demais.

O patriotismo que só resiste enquanto o poder está garantido é uma fidelidade interessada. A coragem que desaparece quando chegam as perguntas é apenas encenação. E a liberdade reivindicada exclusivamente para escapar de consequências tem outro nome: privilégio.

O patriota pegou o avião. Ao Brasil, deixou a tarefa de provar que nenhuma liderança é maior do que o direito do povo de saber, questionar e exigir responsabilidade.

Fernanda Macedo é advogada na Gestão Kairós, pós-graduada em Ciências Criminais e Segurança Pública pela Uerj, professora universitária e autora de Letramento Racial nas Forças de Segurança.

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