“Este país nunca mais será o mesmo.” Abriu-se uma janela histórica e, assim como na eleição, o povo deve ser protagonista do próximo ciclo de lutas por reformas estruturais que revolucionem o Brasil. Eis três bandeiras para transformar o SUS
“A partir dessa eleição, a gente vai ter que discutir um novo jeito de governar esse país. A participação do povo nessa campanha, a saída na rua dos estudantes, das mulheres, dos trabalhadores, vai nos obrigar a fazer um novo jeito de governar. Este país nunca mais será o mesmo.” A três dias do final das eleições, essa foi a fala do presidente Lula em uma live de campanha com o deputado André Janones. Após sua extraordinária vitória no domingo (25), voltou a falar: “Quero dizer para vocês que nós vamos fazer o povo participar mais das nossas decisões”.
Lula parece compreender que, sem a saída às ruas dos estudantes logo após o primeiro turno, que antecederam manifestações estrondosas por todo o Brasil, e sem a mobilização de milhões de pessoas para virar votos e participar ativamente da campanha, não teria sido possível derrotar Flávio Bolsonaro. Essas suas falas podem significar que as massas em movimento serão as protagonistas do enfrentamento da conjuntura desafiadora dos próximos anos, em que devemos virar uma correlação de forças difícil. Isso será essencial a partir de 2027, e cabe a nós não deixar o presidente esquecer sua promessa.
Neste ano, retomamos um exemplo histórico em que a mobilização popular arrancou grandes vitórias e pode ensinar sobre como aproveitar a força das ruas para fazer transformações reais no Brasil. Desde o início de 2026, Outra Saúde busca recuperar a memória da 8ª Conferência Nacional de Saúde, que completou 40 anos, e foi o evento que canalizou as principais ideias que constituíram o Sistema Único de Saúde. Esse foi um grande marco da chamada Reforma Sanitária Brasileira, um processo que começou no final dos anos 1970, em plena ditadura militar, e mudou a forma como o país vê a saúde. Esse movimento foi capaz de criar um sistema universal que hoje pode ser considerado o maior do mundo.
O SUS não foi uma invenção de técnicos, gestores, acadêmicos e políticos. Ele foi uma criação coletiva, que teve protagonismo de intelectuais – que passaram a considerar, em seus estudos, que as condições sociais afetavam enormemente a saúde de uma população – e de movimentos sociais – que mostravam, na prática, que um povo que vive mal está fadado ao adoecimento. Sergio Arouca, um sanitarista que teve papel chave nesse movimento, militante comunista e presidente da Fiocruz em 1986, foi o responsável por permitir que a 8ª Conferência tivesse participação massiva das pessoas comuns. E criou um terreno fértil para a criação coletiva de um sistema de saúde que, mesmo limitado pelo subfinanciamento, atende 215 milhões de brasileiros.
A Reforma Sanitária beneficiou-se de um período de intensa mobilização social que se deu ao longo dos anos 1980, quando o Brasil passava por seu processo de derrubada da ditadura militar. O fim do regime abria espaço para que a população pensasse no que modelo de sociedade queria. Desembocou na Constituição de 1988, em seu notável capítulo Da Ordem Social, e no SUS. Trilhemos esta senda para enfrentar os desafios de nosso tempo.
Em editorial na segunda-feira após o primeiro turno, contra o espírito de desespero que tomava segmentos da opinião pública, Outra Saúde alertou que “havia o que fazer”. Avaliamos que duas mudanças de rota poderiam incendiar a campanha de Lula e reverter a desvantagem numérica: reforçar o ritmo e a intensidade da mobilização social; e apresentar um programa de mudanças reais que envolvam a população.
Não obstante o peso político da vitória do domingo, a conjuntura não é simples e há significativos obstáculos para a implementação de um programa de reformas estruturais do país. A extrema-direita terá uma presença de dimensão inédita no Congresso e, apesar de batida na eleição, segue tendo capilaridade social a nível nacional.
No entanto, é exatamente por essa razão que imprimir um ritmo acelerado de mudanças é indispensável: estamos seguros de que o susto do 1º turno se deve também às insuficiências do governo Lula 3, que geriu o país “a frio” – promoveu uma “união que impedia a reconstrução”, nas palavras da sanitarista e cientista política Sonia Fleury – e tardou a implementar medidas que transformam qualitativamente a vida do povo (a exemplo, mais recentemente, do fim da escala 6×1 e, secundariamente, do aumento do Bolsa Família, da proibição das bets e da Tarifa Zero aos finais de semana).
Para assegurar o compromisso com esse programa, a continuidade da mobilização será indispensável. Será preciso conquistar nas ruas as transformações estruturais que o Brasil e o SUS precisam.
Hoje, as demandas não são as mesmas dos anos 1980. Mas há muitas, visto que as políticas de saúde ainda exigem grande aperfeiçoamento. Propomos que três sejam prioritárias. O país precisa (1) ampliar o investimento público em Saúde para que ele chegue a 6% do PIB até 2030, revertendo o subfinanciamento e enfrentando a ideologia fiscalista que hoje aprisiona as finanças federais. É necessário também (2) implementar a Carreira Única Interfederativa no SUS, valorizando os trabalhadores e desprecarizando vínculos. E, em tempos de crise sistêmica e agressividade do imperialismo decadente, é urgente (3) fortalecer o Complexo Econômico-Industrial da Saúde, articulando soberania sanitária, geração de milhões de empregos dignos e novos saltos em Ciência, Tecnologia e Inovação.
Medidas que não são específicas do setor saúde, como o fim da escala 6×1, também terão importante impacto no direito à saúde da população. Outras bandeiras podem ser encontradas em documentos formulados pelo movimento popular de saúde ao longo de 2026, como a Carta de São Paulo, a Carta de Salvador e o documento final da Conferência da Frente pela Vida.
Acreditamos que um jornalismo crítico, independente e comprometido com o programa da Saúde Coletiva seguirá indispensável – inclusive para cobrar o governo pelo cumprimento das reivindicações que sua base social levanta. Não o fazemos enfurnados em nossa redação. Nosso trabalho se expressa em cada passeata ou paralisação de trabalhadores da saúde, em cada evento nas universidades, em cada plenária de articulação dos movimentos sociais de que participamos, acompanhamos ou cobrimos. Estamos juntos de todos esses atores do tecido social e político do país, buscando a “revolução no modo de vida” de que a pátria precisa.
Nossa avaliação é que está se abrindo uma janela única para uma transformação qualitativa da vida dos brasileiros. A oportunidade não pode ser desperdiçada. O Brasil não pode seguir sendo, por mais uma geração, uma nação tão desigual, injusta e estruturalmente antidemocrática. “A luta cotidiana pelas reformas sociais, pela melhoria da situação dos trabalhadores no âmbito da ordem social dominante e por instituições democráticas é o único meio de promover a luta da classe proletária e de avançar rumo ao seu objetivo final”, como formula Rosa Luxemburgo em seu Reforma ou Revolução?. “Entre a reforma social e a revolução há um vínculo indissolúvel: a luta pelas reformas sociais é o meio; a revolução social, o fim”, completa a teórica polonesa.
Trabalhemos agora para garantir a posse de Lula contra eventuais intentos golpistas. Mas, mais importante, lutemos nos próximos quatro anos por uma quadra histórica de reformas sociais que mudem irreversivelmente a face do país – e de seu sistema de saúde – para melhor.




