Da “causa perdida” ao indigenismo encarnado: livro sobre Egydio Schwade resgata luta indígena na ditadura e alerta para violências atuais

Lançado na PUC Minas na noite de ontem (28), obra do historiador Tiago F. dos Santos reconstrói a trajetória do indigenista entre 1972 e 1980 e reuniu gerações em noite de memória, denúncia e esperança

Por Cimi

A PUC Minas, em Belo Horizonte, recebeu na noite desta quarta-feira (28) o lançamento do livro “Da causa perdida ao indigenismo encarnado: a trajetória de Egydio Schwade nos anos de chumbo (1972–1980)”, do historiador Tiago F. dos Santos, professor e pesquisador do PPGICH/UEA e do PPGH/UFAM. O encontro reuniu o próprio Egydio Schwade, um dos fundadores do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), lideranças indígenas, religiosos, pesquisadores e estudantes. Para o autor, foi “uma noite histórica”, por colocar em diálogo gerações que viveram e que hoje estudam a transformação da sociedade civil brasileira e da política indigenista. O lançamento integra a programação do II Ciclo de Diálogo TEKOÁ, que acontece na capital mineira. Veja a programação. 

Na abertura, o jesuíta Leonardo Rodrigues lembrou que a Companhia de Jesus da qual Egydio Schwade foi membro, a partir da sua 32ª Congregação Geral, confirmou a opção por uma Igreja pobre e voltada aos povos desde um outro modelo de ser junto aos povos, e que essa escolha teve um preço. Ele situou a obra lançada no contexto da ditadura, que, segundo afirmou, censurou artistas, políticos e jornalistas e obrigou quem sonhava com a democracia a cultivar suas utopias na clandestinidade. Destacou ainda a contribuição do livro ao romper com leituras colonizadoras, que partem do centro em direção às margens, e propor compreender os povos indígenas como sujeitos, a partir de suas próprias historicidades. “São novos sujeitos, mas que sempre estiveram aí”, resumiu.

A liderança Ubirajara Pataxó trouxe ao debate a história de violência vivida por seu povo. Contou que, por muito tempo, pistoleiros foram contratados para matar indígenas e que seu avô deixou a aldeia Caramuru, no sul da Bahia, por causa dos conflitos, até que a família se estabelecesse em Minas Gerais. Criticou a tendência de associar a questão indígena apenas aos povos do Norte do país, esquecendo os Pataxó, Kiriri, Pankararé e Pankararu, entre os que mais sofreram. “Éramos mais de cinco milhões e muitos foram mortos. Hoje estamos na luta para não acabar o pouco que somos. Nos consideramos um povo guerreiro, que não se deixa abater.”

Da integração à autodeterminação

Egydio Schwade relembrou o início de sua atuação, quando o indigenismo da época se limitava, em suas palavras, a ver os Rikbaktsa chegarem ao internato e, no dia seguinte, estarem vestidos com roupas brancas que os arrancava a identidade de um povo feliz e bonito. A partir dessa experiência, ele e companheiros como Thomas Aquino Lisboa, também jesuíta na época, perceberam a necessidade de mudança: que os indígenas fossem ouvidos, participassem dos espaços desde sua diversidade, e que o missionário vivesse com o povo, na aldeia, e não no internato. Inspirado pelo Concílio Vaticano II, disse que a missão passou a ser entendida como recolher as sementes de sabedoria presentes nos próprios povos. “A sabedoria está escondida no povo mais pobre, mais abandonado e mais injustiçado. É a partir dali que se pode melhorar a perspectiva da humanidade.”a luta pela terra, pela cultura e pela autodeterminação”. Foto: Guilherme Cavalli/Cimi.

O indigenista recordou que, a partir de 1966, ao lado do jesuíta Thomaz de Aquino Lisboa, deixou a Unisinos, na região central do Rio Grande do Sul, para visitar os Kaingang e os Guarani, então sob a tutela do SPI. As denúncias publicadas em uma série de artigos no jornal Correio do Povo levaram à criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito no estado e, em seguida, de uma investigação nacional, que contribuiu para o fim do SPI e a criação da Funai, órgão que, segundo ele, manteve na prática a mesma política integracionista. Para Egydio, o Evangelho é a boa nova que se contrapõe à má nova, e a má nova é o problema da terra: “A boa nova é ajudar na luta pela terra, pela cultura e pela autodeterminação”.

Schwade também relembrou a assembleia indígena realizada em 1977 em Roraima, cercada pela Polícia Federal e pela Funai, que exigiram das mais de 150 lideranças a expulsão de Dom Tomás Balduíno e dele próprio, então secretário do Cimi, sob ameaça de encerrar o encontro. Os indígenas se recusaram. Naquela mesma noite, segundo Egydio, começaram a ser organizados os primeiros passos pela demarcação contínua da Raposa Serra do Sol, conquistada mais de três décadas depois.

Apesar das décadas de violência, o indigenista falou com esperança sobre o ressurgimento dos povos ao compartilhar experiências com as lideranças indígenas que compunham a mesa. Lembrou que, quando Darcy Ribeiro publicou “Os índios e a civilização”, o diagnóstico era de desaparecimento acelerado, e que em 1978, ao percorrer Minas Gerais, encontrou apenas quatro ou cinco povos, como os Maxakali e os Krenak. Hoje, são mais de 20 no estado, e o mesmo ocorre no Ceará, onde antes se dizia não existir mais nenhum.

“Ninguém mais pode dizer que é uma causa perdida. O Brasil fica mais bonito com os povos”, afirmou, ao recordar a celebração dos 50 anos dos Rikbaktsa, para a qual foi convidado há dois anos. “Se vemos nos indígenas um modelo de vida, vamos ser mais felizes. A Constituição Cidadã foi um avanço muito esperançoso. Agora precisamos avançar com uma Constituição Aldeã, que nos ensine desde os povos e sua diversidade, cores, trajes, outro modelo de sociedade”, orientou o indigenista que atua na causa há mais de 60 anos.

Memória, justiça e reparação

O autor, Tiago F. dos Santos, destacou que o lançamento ocorre em um momento de reconstrução da memória e de busca por justiça e reparação pelas violências cometidas durante a ditadura civil-milita. Mas também conectado às violências que os povos sofrem hoje, em razão de um processo político, econômico e social que inviabiliza a existência indígena. “O país esteve recentemente na antessala de um novo golpe. O evento de 8 de janeiro não é especulação, o que evidencia a fragilidade da democracia brasileira e a necessidade de uma atuação dos movimentos”, destacou.

O historiador apontou que a bandeira do progresso segue chegando aos territórios por meio de grandes empreendimentos, como os resorts no extremo sul da Bahia, a mineração em terras do povo Mura e a BR-319, nos moldes do projeto militar de cercar a Amazônia com rodovias e vilas. Segundo ele, o governo militar só passou a se preocupar com a questão indígena quando as violações começaram a ser denunciadas na imprensa internacional, a partir de 1969, período do Relatório Figueiredo, e quando estudantes  passaram a protestar diante das embaixadas brasileiras na Europa, em conexão com as denúncias vinculadas por Egydio, Egon Heck, Thomas Aquino Lisboa e outros.

Tiago explicou que a “causa perdida” mencionada no título expressava a visão da época: a de que os indígenas seriam inevitavelmente assimilados, transformados em brasileiros com CPF e carteira de trabalho. Ao lado disso, havia a preocupação do regime com a resistência indígena, vista como ameaça à soberania sobre as fronteiras. Ele também ressaltou o papel das mulheres indigenistas, que enfrentaram famílias, a Igreja e a universidade para dedicar a vida à causa indígena. Para o autor, reconhecer essas violações e reparar os povos são tarefas ainda em aberto. “São questões de agora, não somente da década de 1970. Por verdade, justiça, reparação e não repetição.”

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