Por Karla Mendes, no Mongabay
Dois funcionários da prefeitura de Tacuru, no Mato Grosso do Sul, foram afastados após ameaçarem envenenar a água consumida por indígenas Guarani-Kaiowá na aldeia Sassoró, após a confirmação da reeleição do presidente Lula. Ativistas, no entanto, afirmam que a medida é insuficiente para coibir a violência contra os indígenas.
“Falar sobre envenenar a água no Mato Grosso do Sul não é só racismo verbal, não é só uma mensagem de ódio. Ela tem base concreta de inúmeros eventos onde isso foi uma tática recorrente contra os povos indígenas do estado”, disse Matias Benno Rempel, coordenador do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) no estado.
Áudios enviados em grupos de Whatsapp logo após os resultados do segundo turno diziam: “Quem votou no PT foram só os índios” e “Já falei, tem que [colocar] veneno na água. Matar essas pragas na água”, conforme denúncias feitas pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) nas redes sociais e enviadas ao Ministério dos Povos Indígenas (MPI). O caso está sendo investigado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal (MPF).
A prefeitura de Tacuru afastou os dois servidores por 20 dias, informou o MPF à Mongabay; também foram instaurados processos administrativos disciplinares.
Para o Cimi, Apib e Aty Guasu — a Grande Assembleia do Povo Guarani e Kaiowá desde 1970 —, as medidas são insuficientes “para que a violência cesse ou, pelo menos, [para que] sejam constrangidas iniciativas de violência contra os Guarani Kaiowá, que acontecem de maneira permanente”, afirmou Rempel, ressaltando que a origem da violência precisa ser desvendada e os responsáveis devem “responder pelos crimes.”
Também foram feitas denúncias de assassinatos, atropelamentos e ataques, além do incêndio da casa de Ñandesy Roberta, liderança espiritual Guarani-Kaiowá de 90 anos, na aldeia Jaguapiré, em Tacuru.
“Os relatos são extremamente preocupantes”, disse a Funai em nota, destacando “possíveis manifestações de discriminação e incitação ao ódio contra os povos indígenas”.
Os ministérios dos Povos Indígenas, Direitos Humanos e da Cidadania e da Igualdade Racial criaram uma força-tarefa para apurar denúncias de violência após o segundo turno presidencial relacionadas aos povos indígenas, acrescentou a Funai. O MPI criou um canal de denúncias pelo telefone (11) 98202.5433. “Vamos seguir combatendo aqui todo tipo de violência contra as comunidades indígenas”, declarou o ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena.
“Muitos crimes — e todos eles graves — acontecem contra a vida dos Guarani e Kaiowá o tempo inteiro”, afirmou Rempel, dizendo que não se pode atribuir todos a conflitos políticos. No entanto, ele ressaltou que “não é para tornar menor a atenção a esse momento” e que o bolsonarismo é “uma das faces mais agressivas” da sociedade sul-mato-grossense contra os indígenas e representa uma “camada a mais” no cenário de violências e violações.




