Em solenidade histórica no Palácio do Itamaraty, 60 novos terceiros-secretários tomam posse; pela primeira vez em 184 anos de formação diplomática, a carreira acolhe dois diplomatas indígenas e uma diplomata quilombola
No MPI
O Palácio do Itamaraty foi palco de uma cerimônia que redefiniu os contornos da representação internacional do Estado brasileiro, na quarta-feira (4). Em uma solenidade realizada na presença de ministros de Estado, embaixadores, lideranças históricas e familiares, 60 novos diplomando(a)s da Turma 2026-2028 tomaram posse como terceiro-secretário do quadro permanente do Ministério das Relações Exteriores (MRE). Contudo, mais do que a habitual renovação de quadros da diplomacia brasileira, o evento marcou uma ruptura estrutural, uma vez que quase metade da turma aprovada integra grupos historicamente sub-representados, com destaque inédito para a posse dos dois primeiros diplomatas indígenas e da primeira diplomata quilombola da história do país.
A virada institucional é balizada por indicadores numéricos expressivos que transformam a diplomacia nacional. Dos 60 empossados, 27 diplomatas pertencem a perfis afirmativos. A turma registrou o índice recorde de 45% de mulheres (27 aprovadas), superando significativamente a média histórica de 23%; 30% de pessoas negras (18 aprovados); 12% de pessoas com deficiência (7 aprovados); 3,3% de indígenas (2 aprovados) e 1,6% de quilombola (1 aprovada). O resultado é fruto da aplicação integral da nova Lei nº 15.142/2025, que ampliou as cotas no serviço público federal para 30% ao incluir indígenas e quilombolas, combinada às diretrizes do Plano de Ação de Ações Afirmativas do MRE de 2024 e aos mecanismos de paridade de gênero implementados pelo Instituto Rio Branco.
“A turma que toma posse hoje é, sem sombra de dúvidas, a turma mais plural da história do Itamaraty. Em tempos de ameaças à democracia e aos direitos duramente reconhecidos na Constituição de 1988, celebrar a entrada dos primeiros diplomatas indígenas e quilombolas brasileiros nesta instituição bicentenária é um ato de resistência. Ao fazê-lo, o Itamaraty reafirma com convicção o papel que esses grupos sociais têm e devem ter na definição da posição do Brasil no mundo”, afirmou a embaixadora Maria Laura da Rocha, ministra substituta das Relações Exteriores.
Fim da tutela histórica
Para o ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, a posse dos diplomatas indígenas traduz a materialização do conceito político de “Aldear o Estado” com a inserção plena de lideranças indígenas na formulação de diretrizes nacionais e internacionais que historicamente lhes foram negadas. Relembrando o percurso normativo do Brasil, Eloy Terena ressaltou a superação de séculos de violência colonial e tutela estatal jurídica. Ele citou a Bula Papal de 1537, que precisou reconhecer a existência de alma nos povos nativos para se tornarem pessoas, passando pelos períodos do Serviço de Proteção aos Índios (SPI) e da antiga FUNAI, até a conquista da autonomia constitucional em 1988 com a atuação de nomes como Cacique Raoni, Davi Kopenawa e Ailton Krenak.
“Inicialmente, nós, indígenas, não éramos considerados nem seres humanos. Atravessamos séculos de tutela onde não podíamos falar por nós mesmos. A posse dos nossos primeiros diplomatas não caiu do céu, é fruto da sensibilidade do presidente Lula ao ter a coragem política e institucional de entregar a caneta da decisão na mão dos povos indígenas. É um momento altamente simbólico. Não é apenas um ganho individual ou coletivo, é um ganho de toda a nação e do Estado brasileiro”, disse o ministro dos Povos Indígenas.
O ministro vinculou o avanço na diplomacia à reestruturação promovida pelo MPI em seus quatro anos de atuação. Terena pontuou dados do balanço governamental, citando o avanço de 12,7 milhões de hectares demarcados e a proteção de 27,5 milhões de hectares garantidos por ações de desintrusão em territórios afetados pelo garimpo e invasões, tais como as Terras Indígenas Yanomami, Munduruku e Kayapó.
Além disso, relembrou as inovações no plano de carreira da Fundação Nacional dos Povos Indígenas, cujos novos concursos reservam 30% das vagas para candidatos indígenas, e a implementação do Programa Kuntari Katu: Líderes Indígenas na Política Global, desenhado entre o MPI, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e o Instituto Rio Branco para capacitar lideranças indígenas a atuarem nas negociações climáticas globais, com destaque para o protagonismo exercido na COP 30 em Belém.
O Estado que se parece com seu povo
O caráter transformador da nova turma do Instituto Rio Branco conecta-se diretamente a compromissos internacionais e reformas normativas construídas ao longo das últimas décadas. Durante o ato, a ministra da Igualdade Racial, Rachel Barros, enfatizou que o avanço atual resulta de um longo processo de reparação histórica que remonta à III Conferência Mundial contra o Racismo, realizada em Durban no ano de 2001, da qual o Brasil foi signatário e precursor de políticas afirmativas pioneiras na diplomacia. A ministra combateu abertamente a narrativa da meritocracia descontextualizada como justificativa para o histórico de exclusão de minorias nos altos cargos da administração pública.
“Durante muito tempo, repetiu-se que bastava se esforçar para chegar a lugares como este, e que quem não chegava era porque não tinha se esforçado o suficiente. Nós sabemos que isso nunca foi verdade. Gerações de pessoas negras, indígenas e quilombolas estudaram e trabalharam com enorme dedicação e ainda assim encontraram portas fechadas, o que lhes faltava era oportunidade. O Estado que se parece com o seu povo compreende melhor suas necessidades e formula políticas mais eficazes. O Brasil que vocês vão apresentar ao mundo é negro, é indígena, é quilombola, é diverso em suas origens e em suas formas de viver”, descreveu.
A fala da ministra ganha respaldo na transição legislativa do país. Se a Lei nº 12.990/2014 estabeleceu a reserva de 20% de vagas para pretos e pardos, a recente Lei nº 15.142/2025 institucionalizou a obrigatoriedade da presença indígena e quilombola. Na Turma 2026-2028, 12 dos 18 diplomatas negros ingressaram pelo Programa de Bolsa-Prêmio de Vocação para a Diplomacia, enquanto 11 mulheres foram beneficiadas por ações de paridade de gênero e os dois aprovados indígenas contaram com a edição inaugural da bolsa específica promovida pelo Instituto Rio Branco.
Sabedoria ancestral
Presente à mesa de honra trajado com a farda da Academia Brasileira de Letras (ABL), o escritor e imortal Ailton Krenak trouxe uma reflexão sobre o significado de ver jovens indígenas e negros se graduando em uma cerimônia no Itamaraty. Evocando a memória do diplomata e escritor João Guimarães Rosa e o conto “Meu tio o Iauaretê”, Krenak destacou que a presença das famílias e das crianças indígenas na solenidade rompe com a frieza institucional e reintroduz o afeto e o pertencimento na alta política.
“Nós estamos superando uma dificuldade histórica do nosso país de reconhecer aos povos originários um lugar de fato na construção de uma sociedade plural. Para quem acompanha a história do Brasil, isso representa um passo gigante. Na formação do país, os indígenas nunca foram admitidos como parte dessa construção, nunca. Mas ver essa diversidade de jovens me enche de esperança. Que mesmo diante das quase impossibilidades, eles sejam capazes de exercitar o verbo esperançar e produzir mundos ricos de sentido.”
Primeiros diplomatas indígenas
A entrada dos primeiros indígenas no serviço exterior brasileiro é protagonizada por dois jovens com destacada trajetória acadêmica e profissional, cujos perfis traduzem a união entre o conhecimento científico avançado e o vínculo originário com suas comunidades:
Marcelo Kariri Meneses, do povo Kariri, é natural de Campina Grande-PB. Graduado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), possui MBA em Digital Business pela USP/Esalq. Atuou entre 2021 e 2025 como Engenheiro de Suporte a Produtos é autor do livro de ficção histórico-fantástica infanto-juvenil “O meu pé esquerdo favorito”, publicado em 2026.
“Havia uma tradição permeando onde minha família morava de que pessoas como nós enlouqueceriam se estudassem e deveriam ficar apenas nos trabalhos braçais. Minha mãe viu na educação uma porta para a vida. É um hábito do meu povo: quando você consegue alguma coisa, você quer que os outros também consigam. Cheguei, então tenho que trazer mais pessoas comigo”, refletiu Marcelo Kariri Meneses, Terceiro-Secretário.
Idjahure Achkar de Mendonça Pinto Kadiwel, do Povo Terena, é doutorando em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP) e Mestre em Antropologia Social pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É bacharel e licenciado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Participante do ciclo formativo do Programa Guatá, Idjahure carrega uma herança artística relevante, pois é filho do artista Macsuara Kadiwéu, reconhecido por ter sido o primeiro ator indígena do cinema brasileiro.
“Os povos indígenas nunca atingirão uma cidadania plena se não ocuparem plenamente os espaços de poder e decisão do país. Estrar no Itamaraty é ter consciência de toda essa história pretérita de exclusão e tutela, batalhando por um futuro ancestral e por um novo presente onde a nossa diversidade étnica finalmente integre o Estado”, avaliou Idjahure Terena Kadiwel, Terceiro-Secretário.
Ao dirigirem-se a eles, as autoridades lembraram que os dois diplomatas passam a atuar em nome de uma população que, segundo dados demográficos oficiais, soma mais de 1,6 milhão de parentes indígenas, distribuídos em 391 povos e falantes de 295 línguas distintas, além de 114 grupos isolados ou de recente contato mapeados na Amazônia Legal.
Representantes da geopolítica do multilateralismo
A solenidade no Itamaraty sinaliza uma reconfiguração na maneira como o Brasil projeta sua imagem e defende seus interesses no plano global. Em um momento internacional conturbado, marcado pelo questionamento das instâncias multilaterais, pelo recrudescimento da crise climática e pela ascensão de discursos de intolerância, o ingresso de um corpo diplomático genuinamente representativo confere autoridade moral renovada à atuação externa do país.
Como ressaltaram as autoridades presentes, a missão que se abre aos novos terceiros-secretários ultrapassa as atribuições burocráticas tradicionais. Trata-se de levar a pluralidade étnica, territorial e cultural do Brasil para a mesa de negociações sobre governança digital, transição energética, direitos humanos e preservação ambiental. Ao quebrar um ciclo bicentenário de exclusão, a posse da Turma 2026-2028 reafirma a máxima que ecoa dos territórios tradicionais para as chancelarias do mundo todo: nunca mais um Brasil sem os povos indígenas, quilombolas e a pluralidade de seu povo.




