A coragem acusatória do camarada André Lara Resende. Por Milly Lacombe

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O renomado economista André Lara Resende, um dos pais do Plano Real, fez o inimaginável e, em sua conta do Substack, escreveu um texto que está chacoalhando as bases da economia liberal e de seus adeptos. Resende, como fez o escritor francês Émile Zola há quase 130 anos a respeito do caso Dreyfus, estruturou seu artigo usando as palavras “eu acuso”. Zola acusava o governo francês de ter condenado um inocente por traição (o caso ficou mundialmente conhecido e dividiu a França na época); Resende acusa todos aqueles que compactuam com o teatro da dívida brasileira.

Zola escreveu em 1898: “Meu dever é de falar, não quero ser cúmplice. Minhas noites seriam atormentadas pelo espectro do inocente que paga, na mais horrível das torturas, por um crime que ele não cometeu”. André Lara Resende talvez tenha sio movido pelo mesmo sentimento.

No dia 25 de setembro, Resende deixou sair tudo o que pensa a respeito da taxa Selic praticada, do déficit fiscal, das metas de inflação e do pagamento do juros da dívida pública. A crítica expõe e destrói a narrativa imposta pelo mercado financeiro de que o problema do Brasil é o “equilíbrio fiscal”. Resende estende a crítica à grande mídia que repete o mantra do equilíbrio fiscal sem fazer ponderações ou reflexões.

“Acuso o Banco Central de sustentar, em nome de uma teoria anacrônica, a taxa de juros que é a principal causa do desequilíbrio fiscal que diz combater. Acuso a grande imprensa de repetir, sem exame, que o problema está no gasto primário, quando está nos juros. Acuso os analistas do mercado financeiro de confundir o interesse dos rentistas com a racionalidade econômica. E acuso todos os que, sabendo que juros absurdos inviabilizam o país, preferem o conforto do consenso ao incômodo da verdade”, escreveu.

Não é qualquer um que consegue reunir forças para enfrentar consensos fabricados. Mas homens com as patentes de Resende talvez possam, como fez Zola, acusar e deixar tudo registrado sem ter muito a perder. Ainda assim, ele está sendo massacrado por economistas que ou não entenderam ou não podem entender o que ele escreveu.

O que Resende fez foi escancarar que vivemos sob uma guerra econômica há décadas. E que guerra é essa?

Uma guerra que orienta nosso sistema financeiro para atuar como elemento desmobilizador do desenvolvimento; o sistema financeiro brasileiro não está mobilizado para o desenvolvimento e Resende explica por que.

“O cerne do problema fiscal está no serviço da dívida. Todo o resto é secundário”, escreve o economista.

Não quero tratar aqui do que Resende propõe como solução porque seria entrar em um campo muito minado e já tem gente mais gabaritada fazendo essa análise. O que quero dizer é que o diagnostico do problema feito por Resende está certo e que, até agora, esse diagnóstico não foi combatido, desmentido ou ridicularizado.

Resende argumenta que temos apenas um pequeno déficit fiscal primário e que não temos um problemão de dívida como dizem por aí. Em seguida, o economista alerta que gastamos pesadamente é com o juros da dívida pública e lembra que a dívida está em moeda nacional e não em dólar. O artigo diz que o Brasil tem um dos menores déficits primários do mundo.

Não temos um problema de dívida mas de custo da dívida? Pois é. E quem diz isso é um liberal.

Se é assim, por que o terrorismo, por que escutamos economistas de dentro do governo berrarem por responsabilidade fiscal, ajuste fiscal, cortes no orçamento? Por que o terrorismo sem fim de governos de direita e de esquerda?

A pergunta fica no ar. Mas ela precisa seguir sendo feita.

O Brasil não tem um problema com o déficit primário (a diferencia entre que o governo gasta e o que arrecada considerando apenas gastos com serviços básicos: infraestutura, SUS, Bolsa Familia, meio ambiente, funcionalismo publico, universidades etc). Somos um dos países mais equilibrados do mundo quando o assunto é déficit primário. O Brasil tem um problema quando o assunto é o déficit nominal, que é a diferença entre o que se gasta e arrecada somando o déficit primário com o déficit financeiro. Ou seja: o agente do caos é o déficit financeiro.

E o que é o déficit financeiro? São os juros e serviços da dívida pública.Continua após a publicidade

O déficit nominal é alto exclusivamente por causa da colossal taxa de juros que aumenta a dívida pública. Aumenta-se a taxa de juros, aumenta-se o custo a dívida. O valor do custo com os juros da dívida? Mais de um trilhão de reais por ano.

Para Resende, o Banco Central mantém a taxa de juros elevada em nome de uma teria anacrônica que acredita que taxas altas controlam a inflação. Ele alega que subir juros não derruba a inflação e, para dizer isso, se apoia na teoria de um economista liberal conservador, John Cochrane.

Escreve Resende:

“O problema, afirmam os que dizem não haver alternativa, é que, se o BC reduzir a taxa básica, inviabilizará o cumprimento da meta e perderá o controle da inflação. A relação inversa entre o juro básico e a inflação está estabelecida na teoria macroeconômica e profundamente enraizada no imaginário dos agentes financeiros. Já teve razão de ser. A Curva de Phillips, uma relação empírica inversa entre a inflação e o desemprego, dava sustentação à tese de uma relação inversa entre o juro e a inflação. O caminho, ou o mecanismo de transmissão no vocabulário da teoria econômica, é da alta do juro para a redução do crescimento, da redução do crescimento para o aumento do desemprego, e do aumento do desemprego para a moderação da inflação”.

“Desde os anos 1990, a Curva de Phillips tornou-se praticamente horizontal: o trade-off entre inflação e desemprego desapareceu em quase toda parte, provavelmente por causa da perda de importância do emprego formal e da redução do poder dos sindicatos. Desapareceu assim a sustentação empírica da relação inversa entre crescimento e inflação, mas o modelo novo-keynesiano, baseado na Curva de Phillips, com uma relação inversa entre o hiato de produto e a inflação, ainda é prevalente entre a grande maioria dos analistas.

“Sem a Curva de Phillips e dada a inexistência de canais de transmissão bem especificados, as expectativas se tornaram protagonistas nos modelos dos bancos centrais. Na prática, a inflação passou a ser entendida como determinada primordialmente pelas expectativas e as expectativas supostamente formadas pelo que reza o próprio modelo. Um raciocínio circular tautológico: o modelo diz que as expectativas determinam a inflação; que a inflação responde, por mecanismos não especificados, inversamente à taxa de juros; e que as expectativas são formadas pelo que diz o modelo; logo a inflação responde inversamente à taxa de juros. CQD”.Continua após a publicidade

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“A alta dos juros não reduz a inflação; ao contrário, se não houver uma contração fiscal simultânea, irá elevar a inflação. Como já tive oportunidade de expor e comentar, trata-se de conclusão lógica inescapável do modelo macro convencional, DSGE, usado pelos próprios BCs, com expectativas racionais. Em seu livro The Fiscal Theory of the Price Level, de 2023, [o economista John] Cochrane expõe, deforma rigorosa e acessível, a inseparável ação das políticas monetária e fiscal. Nos seus dois últimos posts no Substack, Cochrane vai além e defende a redução da taxa de juros com a concomitante redução do prazo de maturidade da dívida. Quanto mais curto o prazo médio da dívida, a “duration”, mais a redução do juro irá reduzir a inflação no curto prazo”.

O artigo começa com Resende dizendo concordar que o estado gaste mal e cita a farra do orçamento secreto como exemplo. Importante reconhecer essa aberração. Mas a questão aqui não é essa já que não temos um problema de déficit primário nas contas. O problema é outro e, se o problema é o gasto financeiro (o pagamento dos juros da dívida), por que implica-se apenas com o gasto primário, que está equilibrado?

Ao cutucar a ferida, Resende provocou a fúria do mercado financeiro, que lucra exorbitantemente com esse consenso fabricado de que temos um problema de dívida e, por isso, precisamos cortar da saúde, educação, infra-estrutura etc e manter a Selic alta. Ajuste fiscal ontem, hoje e sempre!

O artigo deixa com a gente o entendimento de que podemos ajustar os gastos primários como quisermos que não vamos resolver o problema central: o aumento exponencial dos gastos com a dívida pública.

Todo debate sobre ajuste fiscal é, portanto, um teatro macabro? Façam as contas e a resposta é clara.

A questão central aqui é: para onde vai o gasto público e quem lucra com isso? Vai para o setor privado e quem lucra com ele são os já muito ricos.

André Lara Resende, um economista liberal, se colocou à esquerda de economistas que hoje estão dentro de um governo que acha que é de esquerda. O camarada Resende prestou um grande serviço à população brasileira. Um gesto de extrema honestidade e coragem.

O artigo termina evocando Zola:

Acuso o Banco Central de sustentar, em nome de uma teoria anacrônica, a taxa de juros que é a principal causa do desequilíbrio fiscal que diz combater.

Acuso a grande imprensa de repetir, sem exame, que o problema está no gasto primário, quando está nos juros.

Acuso os analistas do mercado financeiro de confundir o interesse dos rentistas com a racionalidade econômica.Continua após a publicidade

E acuso todos os que, sabendo que juros absurdos inviabilizam o país, preferem o conforto do consenso ao incômodo da verdade.

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