O silêncio da USP sobre a Legião Negra e Indígena. Por Paulo Fernandes Silveira*

O apagamento da Legião Negra e Indígena na Revolução de 1932 revela como a narrativa da aristocracia paulista silenciou o protagonismo de minorias arregimentadas para a guerra

No A Terra é Redonda

História narrada pela aristocracia paulistana

Uma parte da história da USP está representada nos nomes do campus Capital-Butantã da Cidade Universitária, das ruas e estradas do seu entorno. A história daqueles que foram vencidos na Revolução Constitucionalista de 1932: a aristocracia paulista. Todavia, na maior parte das narrativas sobre esta guerra civil, a aristocracia paulista apresenta-se como autora e protagonista da história dos vencedores.

A Cidade Universitária chama-se Armando Salles de Oliveira, uma homenagem ao empresário e governador do Estado de São Paulo que, em 1934, juntou-se a outros empresários para criar a USP (Silveira, 2026b). A maior parte das vias no interior da Cidade Universitária e no seu entorno homenageiam os bandeirantes e as lideranças brancas da Revolução Constitucionalista.

Apesar de terem promovido uma série de estupros e de genocídios das comunidades negras e indígenas, os bandeirantes foram reverenciados como heróis pela aristocracia paulista que se envolveu nos conflitos de 1932 (Silveira, 2026c).

Entre as diversas lideranças brancas e aristocráticas homenageadas nas ruas do entorno da USP, destoa a homenagem ao Coronel Palimércio de Rezende, combatente negro que nomeia uma rua próxima ao portão principal da universidade.

Nenhuma rua da USP ou do seu entorno homenageia os combatentes ou as combatentes da Legião Negra e Indígena que lutaram em 1932.

Há ótimas pesquisas sobre a Legião Negra, mas elas não destacam que a Legião foi, também, Indígena (Gomes, 2005; Weinstein, 2022). Num belo livro, Oswaldo Faustino (2011) narra a história da Legião num livro com a estrutura de um romance.

Tem gente com fome

A pesquisa Unesco sobre o preconceito racial em São Paulo, coordenada nos anos 1950 por Roger Bastide e Florestan Fernandes, docentes da USP, teve a preciosa colaboração de diversas lideranças do movimento negro (Silveira, 2026a).

Os testemunhos do jornalista e militante José Correia Leite foram fundamentais para essa e para outras pesquisas sobre o movimento negro. Nas palavras de Correia Leite: “Eu comecei a me tornar uma espécie de teórico com a pesquisa da Unesco, na década de 1950, e mais tarde com outros pesquisadores que procuravam informações relativas a essas lutas sociais do negro em São Paulo” (Cuti, 2007, p. 197).

Numa entrevista para a pesquisa Unesco, Correia Leite procura entender a grande participação da comunidade negra na guerra civil de 1932: “As condições de vida dos negros, pouco satisfatórias até então, agravaram-se com a crise de 1929, que fez grassar entre eles o desemprego. Este fato criou uma situação favorável para a emergência de um movimento reivindicatório” (Moreira, 1952, p. 13).

Os efeitos da crise de 1929 e a perspectiva de uma revolução social, com o engajamento da comunidade negra, foram tratados por Mário de Andrade na ópera “Café”, finalizada em 1942: “Eu tenho fome!/ Eu tenho muita fome!/ É uma fome antiga, de milhões de anos que renasce. (…) Fome de fome/ Fome de justiça/ Fome de equiparação./ Fome de pão!/ Fome de pão!” (Andrade, 2009, p. 211).

Em maio de 1938, no Cinquentenário da Abolição, Mário de Andrade aproximou-se de Correia Leite e de outros militantes do movimento negro (Cuti, 2007).

Em 1944, o poeta e militante Solano Trindade publicou um poema que retoma um dos temas da ópera de Mário de Andrade: “Trem sujo da Leopoldina,/ Correndo, correndo,/ Parece dizer:/ Tem gente com fome,/ Tem gente com fome,/ Tem gente com fome!” (Trindade, 2011, p. 59).

Arregimentação negra

O principal arregimentador da comunidade negra foi o advogado e militante baiano, cachoeirano, Joaquim de Guaraná Sant’Anna. No início dos anos 1930, ele era uma das lideranças da Frente Negra em São Paulo (Cuti, 2007).

Assim que começou a insurreição, Guaraná Sant’Anna publicou nos jornais um texto convocando as pessoas: “Descendentes da raça negra, bravos como Henrique Dias, intemeratos como Patrocínio, sábios como os Rebouças, saberão coerentes com o passado, não desmentir os seus feitos de conquista da Vitória pela qual nos batemos: o regime da Lei – a Constituição. Vinde sem demora onde já se acham acantonados centenas e centenas dos vossos irmãos negros, formar com eles novos batalhões – a Legião Negra” (A Tribuna, 1932, p. 1).

Essa iniciativa de Guaraná Sant’Anna não teve o respaldo de todas as lideranças da Frente Negra. Isaltino Veiga dos Santos, secretário geral da instituição, afirmou num jornal ligado a Getúlio Vargas: “A Frente Negra Brasileira é e mostrou-se ser uma força de cooperação para o Governo Nacional” (O Radical, 1932, p. 3).

Além de Guaraná Sant’Anna, o militante Vicente Ferreira teve uma atuação importante na arregimentação das pessoas negras (Cuti, 2007). Os jornais enfatizam seu empenho na arregimentação que ocorreu na cidade de Santos (Correio de S. Paulo, 1932b).

A Legião Negra e Indígena instalou-se na Chácara do Carvalho, na rua Eduardo Prado, Barra Funda, numa antiga residência do conselheiro Antonio Prado (O Jornal, 1932). Atualmente, esse espaço é ocupado pelo colégio particular Boni Consilli.

Segundo Correia Leite, “eles vinham para a Chácara do Carvalho e eram preparados às pressas. Não levavam mais do que dois ou três dias para aprender a lidar com o fuzil e essas coisas, e já estavam aptos para ir para a guerra” (Cuti, 2007, p. 104).

Num certo momento, o alistamento na Legião Negra e Indígena atingiu 2000 combatentes (Folha da Manhã, 1932). Uma reportagem demonstrou estranheza com a grande quantidade de alistamentos na Chácara do Carvalho:

“Os negros são, em geral, gente pobre, que vive à margem das riquezas e dos confortos da civilização. Para eles, na sua humildade anônima, pouco se lhes devia dar que tivéssemos uma Constituição ou sofrêssemos uma ditadura. (…) Entretanto, ao apelo de São Paulo em prol da Constituição e da liberdade, eles se apresentaram em massa” (Correio de S. Paulo, 1932a, p. 1).

Arregimentação indígena

A articulação das lutas negras e indígenas foi debatida na fundação da Frente Negra (Moreira, 1952). O escritor Arlindo Veiga dos Santos, irmão de Isaltino Veiga, defendia a articulação. Correia Leite e o grupo do jornal O Clarim foram contra, pois achavam que os indígenas já estavam assistidos pelo Estado.

Mesmo sem terem recebido uma convocação especial, indígenas de diferentes etnias e regiões de São Paulo vieram se alistar na capital. Os organizadores do exército paulista os encaminharam para Chácara do Carvalho.

Os jornais são imprecisos com relação aos nomes das etnias e das lideranças indígenas. Todavia, é possível pressupor seus nomes corretos.

Do município de Avaí vieram indígenas das etnias Guarani e Terena, do Aldeamento de Araribá (Diário Nacional, 1932a; Diário da Noite, 1932). Da região do município de Glicério, atual município de Braúna, vieram indígenas das etnias Kaingang e Guarani, do Aldeamento de Icatu (Diário Nacional, 1932b; Diário Nacional, 1932c).

Os indígenas do Aldeamento de Araribá vieram com o cacique Emídio Francisco, os do Aldeamento de Icatu vieram com o cacique Klinká, batizado em São Paulo com o nome do general Bertoldo Klinger.

Os jornais noticiaram as cerimônias de batismo dos indígenas que já se encaminhavam para frente de batalha (Correio de S. Paulo, 1932c).

Num número menor em comparação aos da comunidade negra, cerca de 300 indígenas passaram pela Chácara do Carvalho (Diário Nacional, 1932b).

O Diário Nacional informa o que motivou a arregimentação indígena: “Desde há muito que os indígenas vinham sofrendo. Embora trabalhassem sem descanso, acontecia que, no final das colheitas, o produto do seu suor era levado pelo governo federal. Isso de forma alguma agradava a tribo. A situação era insustentável. E, assim, todos resolveram pleitear, pelas armas, ao lado das forças constitucionalistas, os seus direitos” (Diário Nacional, 1932a, p. 1).

Maria Soldado

Uma reportagem de A Gazeta narra a bravura da combatente Maria José Barroso, que se tornaria conhecida como Maria Soldado: “Uma mulher de cor, alistada na ‘Legião Negra’, vencendo toda a sorte de obstáculos e as durezas de uma viagem acidentada, uniu-se aos seus irmãos negros em pleno entricheiramento na frente do Sul, descrevendo a página mais profundamente comovente, mais profundamente cheia de civismo, mais profundamente brasileira, da campanha constitucionalista, ao desafiar a morte nos combates encarnieados e mortíferos para o inimigo. Maria da ‘Legião Negra’! (…) Heroína de uma raça forte, boa e consciente!” (A Gazeta, 1932b, p. 3).

No 25º ano da Revolução Constitucionalista, Maria Soldado foi eleita “Mulher Símbolo de 32”. Ex-empregada doméstica, ela terminou a vida vendendo doces e salgados numa barraca em frente ao Hospital das Clínicas (Diário da Noite, 1958).

Em 1958, um jornal noticiou seu falecimento: “Num quartinho pobre da rua da Consolação: morreu ‘Maria Soldado’ – glória da Revolução Constitucionalista. (…) Quando surgiram os primeiros apelos para o voluntariado, alistou-se na ‘Legião Negra’ como enfermeira. Seguiu para Itapetininga e acompanhou todos os passos dos combatentes negros, assistindo-os, incentivando-os à luta. Com o tempo, e quando fraquejavam as forças dos seus companheiros, também empunhou o fuzil, combatendo em Buri, Ligiana, Aracaçu e Itararé” (Diário da Noite, 1958, p. 8).

Prisão de Guaraná Sant’Anna

Em 23 de setembro de 1932, o capitão Gastão Goulart anunciou o desligamento de Guaraná Sant’Anna da Legião Negra (A Gazeta, 1932a). Tomou posse em seu lugar José Bento de Assis, que pouco depois se tornaria professor de latim no colégio da Faculdade de Direito da USP. Segundo Correia Leite, “um negro que não queria nada com os problemas nossos e sempre combateu nossa luta” (Cuti, 2007, p. 104).

Uma carta anônima enviada em 6 de agosto de 1932 ao Chefe da Polícia do Estado de São Paulo faz uma denúncia contra Guaraná Sant’Anna: “é capaz de, por dinheiro, fazer qualquer traição” (DOPS, 1946).

Num memorando do exército, produzido em 18 de dezembro de 1932, Gastão Goulart afirma que Guaraná Sant’Anna não foi desligado por roubo ou corrupção: “Exerceu as funções de ajudante até o dia em que declarei ter o Estado Maior da Legião necessidade de ir para o ‘Front’, pelo que procurou o requerente acomodar-se nas funções de Chefe de Recrutamento” (DOPS, 1946).

No parecer de Gastão Goulart, as razões do desligamento de Guaraná Sant’Anna foram: “considerar a Legião entidade política; (…) demonstração de indisciplina e derrotismo” (DOPS, 1946).

A rendição das tropas paulistas ocorreu no início de outubro de 1932, alguns dias depois da posse de Bento de Assis na Legião Negra e Indígena.

Em 9 de novembro de 1932, Isaltino Veiga enviou uma carta nominal para o DOPS denunciando Guaraná Sant’Anna: “Tem causado estranheza continuar esse indivíduo perigoso à coletividade completamente solto” (DOPS, 1946).

Guaraná Sant’Anna foi preso e torturado: “Terminada a guerra, esse ilustre líder da Raça Negra foi quem sofreu como responsável pela Legião, tendo estado preso bastante tempo no Presídio de Imigração, e lá torturado, tomando a força meio litro de óleo cru” (Moraes, 1934, p. 13).

A ingestão de óleo visa, entre outras coisas, humilhar a pessoa torturada. Num discurso, em 3 de janeiro de 1925, Benito Mussolini reconhece o emprego desse método em sua ditadura: “Se o fascismo foi apenas óleo de rícino e cassetete, e não uma paixão soberba da melhor juventude italiana, a culpa é minha!” (Emiliano José, 2026, s.p.).

Após ser solto, Guaraná Sant’Anna criou o Brasil Novo – órgão socialista, no primeiro número do jornal, um artigo anônimo sustentou:

“A Revolução Constitucionalista foi a última e mais profícua das lições que a Raça Negra recebeu. (…) Os Negros vieram atendendo ao chamamento que seu líder lhes fizera. Aprenderam rapidamente o manejo das armas, foram para as trincheiras em diversos setores, lutaram com heroísmo. (…) A luta terminou drasticamente. (…) Ficaram pelas ruas da cidade amontoados como lixo humano. Havia desaparecido, como que por encanto, os afagos da véspera e as promessas de ontem. (…) Os bons e ricos amigos da hora da luta já não os reconheciam. E os Negros sofriam, assim, a maior das decepções. Era a repetição dos velhos processos de se iludir, de tapear os Negros. Só servem para a hora da luta!” (Brasil Novo – órgão socialista, 1933, p. 2).

História dos não-vencidos

No livro A integração do negro na sociedade de classes, Florestan Fernandes (1978) destaca a importância da arregimentação política promovida por Guaraná Sant’Anna para o fortalecimento do movimento negro.

Apesar de ser uma palavra utilizada no contexto de guerra, em suas pesquisas sobre etapas posteriores do movimento negro, Florestan Fernandes continuou defendendo a necessidade da arregimentação.

A Legião Negra e Indígena inspirou outras gerações. Uma reportagem de setembro de 1932 anuncia que, por denodo demonstrado em combate, foi promovido a primeiro tenente Januário dos Santos (A Gazeta, 1932c), avô de Rafael Pinto, um dos fundadores do Movimento Negro Unificado (MNU). Oswaldo Rafael Pinto, pai de Rafael Pinto, também lutou pela Legião Negra e Indígena.

A Cidade Universitária da USP homenageia lideranças brancas que participaram da insurreição de 1932: Luciano Gualberto, Antônio de Almeida Prado e Rubião Meira. Nessa etapa da universidade, depois de desenvolver um amplo Programa de Inclusão e Pertencimento (PRIP), seria importante que outras histórias e nomes também sejam reconhecidos, tais como: Joaquim de Guaraná Sant’Anna, Aldeamento de Araribá, Aldeamento de Icatu, Maria Soldado e Legião Negra e Indígena.

*Paulo Silveira é psicanalista e professor aposentado do Departamento de Sociologia da USP. Autor, entre outros livros, de Do lado da história: uma leitura crítica da obra de Althusser (Polis). [https://amzn.to/4dm8VYT]

Jornais e documento do DOPS

A Gazeta (1932a). Legião Negra, A Gazeta, 2 de setembro de 1932, p. 2. Disponível em:

https://memoria.bn.gov.br/DocReader/docreader.aspx?bib=763900&pasta=ano%20193&pesq=&pagfis=39605

A Gazeta (1932b). Maria da ‘Legião Negra’, A Gazeta, 5 de setembro de 1932, p. 3. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/docreader.aspx?bib=763900&pasta=ano%20193&pesq=&pagfis=39510

A Gazeta (1932c). A atuação dos homens negros nos campos de Guapiara, A Gazeta, 8 de setembro de 1932, p. 4. Disponível em:  https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=763900&pasta=ano%20193&pagfis=39531

A Tribuna (1932). A Legião Negra de São Paulo, A Tribuna, 17 de julho de 1932, p. 1. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=153931_01&pasta=ano%20193&pagfis=12741

Brasil Novo – órgão socialista (1933). Coerente amiga de uma raça. Brasil Novo – órgão socialista, Ano 1, n. 1, p. 2. Disponível no acervo CEDIC, da PUC-SP: https://www.pucsp.br/cedic

Correio de S. Paulo (1932a). A Legião Negra, Correio de S. Paulo, 9 de agosto de 1932, p. 1. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=720216&hf=memoria.bn.gov.br&pagfis=269

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Correio de S. Paulo (1932c). Um grupo de índios de Glicério foi batizado ontem, na Legião Negra, Correio de S. Paulo, 29 de agosto de 1932, p. 1. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=720216&pagfis=336

DOPS, Prontuário 2029 (1946). Joaquim Guaraná Sant’Anna. Ref: DEOPSSPJ009278. São Paulo: Arquivo Público do Estado de São Paulo. Disponível em: https://web.arquivoestado.sp.gov.br/uploads/acervo/textual/deops/fichas/DEOPSSPJ009278.pdf

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Diário da Noite (1932). Disciplinados e rebeldes, Diário da Noite, 14 de outubro de 1932, p. 1. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=221961_01&pasta=ano%20193&pagfis=12837

Diário da Noite (1958). Num quartinho pobre da rua da Consolação: morreu ‘Maria Soldado’ – glória da revolução constitucionalista, Diário da Noite, 12 de fevereiro de 1958, p. 8. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=093351&pasta=ano%20195&pagfis=47267

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