Em entrevista à Alma Preta, Benoit-Labre Mibanga NgalaMulume Wa Badidike questionou a falta de cobertura da imprensa no Brasil sobre o assunto. O diplomata também busca acordos de cooperação com o país
por Pedro Borges, em Alma Preta
A República Democrática do Congo (RD Congo) vive uma das piores crises humanitárias do mundo. Cerca 5,4 milhões de pessoas já foram mortas em mais de três décadas de conflitos. A guerra hoje se concentra na parte leste do país, com ataques do grupo armado M23.
O embaixador da RDC no Brasil, Benoit-Labre Mibanga NgalaMulume Wa Badidike, tem construído um diálogo com o Ministério das Relações Exteriores (MRE) do Brasil, para contar com o apoio do país na denúncia das violações sofridas pela nação africana.
“A RDC, por meio de sua embaixada, sensibilizou duas vezes as autoridades brasileiras através do Ministério das Relações Exteriores para explicar um pouco o conflito, a guerra que acontece no Congo, sinalizando que se trata de uma guerra de agressão”, conta.
Ele afirma que esse trabalho tem sido feito para acabar com a “guerra de agressão que nunca foi provocada pela RDC”.
A guerra teve um novo capítulo em 27 de janeiro de 2025, quando o grupo armado M23, com o apoio de Ruanda, tomou a cidade de Goma, capital do Kivu do Norte. De lá para cá, milhares de pessoas foram assassinadas.
Houve também o início de diálogos de paz, mediados pelos Estados Unidos, pelo Catar e pela União Africana. Apesar disso, os conflitos seguem na região leste do país.
Benoit-Labre Mibanga busca apoio da sociedade brasileira para o país superar a guerra. Para ele, o Estado brasileiro pode pressionar a comunidade internacional pelo fim do conflito.
“O que podemos pedir ao povo brasileiro é que ele se interesse um pouco pelo problema de guerra que temos na RDC. E que também possa intervir junto às suas autoridades, para que o país possa pelo menos apoiar, intervir junto às organizações, especialmente a ONU, para que essa guerra termine de uma vez por todas. Porque houve muitas mortes, milhões e milhões de vidas perdidas”, pede o embaixador.
Perguntado sobre a falta de cobertura da imprensa brasileira sobre o conflito, o embaixador retornou com o questionamento.
“Nós também nos perguntamos por que o Brasil não se interessa pelo problema que acontece na RDC. Também nos questionamos por que a imprensa brasileira talvez só se interesse por países como a Ucrânia, Gaza ou outros lugares. Isso nos preocupa”, lamenta Benoit-Labre.
Embaixador busca mais cooperação com o Brasil
O comércio entre o Brasil e a RD Congo totalizou US$ 259 milhões em 2024, um recorde histórico segundo o site do Ministério de Relações Exteriores. O valor representa um aumento de 28% em relação ao ano anterior.
Do lado da exportação, foram US$ 191,5 milhões em mercadorias para a RD Congo. A maior parte desse volume são alimentos, principalmente açúcares (36%), carne de aves (19%) e carne suína (8,6%). As importações da RD Congo totalizam US$ 67,6 milhões, e quase sua totalidade foi de óleos de petróleo ou óleos minerais betuminosos (99,8%).
Mas, para além do comércio e do apoio pelo fim da guerra, a embaixada congolesa em Brasília busca outras parcerias com o governo Lula. O país quer desenvolver acordos de cooperação das mais diversas áreas, como na economia e agricultura.
“Nós precisamos do Brasil na infraestrutura rodoviária, por exemplo. Na área de transporte, também precisamos da assistência técnica brasileira. Precisamos de apoio também na agricultura”, afirma Benoit-Labre Mibanga.
Crise alimentar por conta da guerra
A RD Congo depende de muitas importações de alimento para sustentar sua população. O presidente da RD Congo, Félix Tshisekedi, afirmou que o país gasta, em média, US$ 3 bilhões em importação de alimentos por ano. Ele divulgou esse valor durante discurso ao Parlamento em dezembro do ano passado.
Segundo relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) publicado em maio, estima-se que mais de 25 milhões de pessoas estarão em situação de insegurança alimentar “aguda grave” em 2025.
O embaixador do país no Brasil, no entanto, pondera que a RD Congo tem o solo muito fértil, com condições semelhantes ao do Brasil. “Podemos facilmente semear algo de manhã e amanhã ver germinar”.
Ele acredita que o Brasil tenha superado barreiras nas questões alimentares que ainda são desafios para os congoleses.
“Como explicar que no Brasil podemos comer quatro vezes por dia ou três vezes por dia e que no Congo temos dificuldades, precisamos importar tudo? Então, temos muitas necessidades do Brasil em vários setores”, lamenta Benoit-Labre Mibanga.
A FAO, em seu relatório, indica aumento do preço do milho produzido localmente por conta do conflito em curso. Os ataques do M23 no leste do país levaram ao aumento do deslocamento da população. Com isso, vários agricultores foram forçados a deixar suas terras e, consequentemente, a interromper sua produção.
Embora o conflito esteja atualmente concentrado na região leste do país, ele pode se intensificar e ter um impacto negativo também em outras áreas. “Isso pode afetar ainda mais a produção de cereais, particularmente a safra secundária de milho de 2025”, informa o relatório da FAO.
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Embaixador da RDC no Brasil, Benoit-Labre Mibanga NgalaMulume Wa Badidike. — Pedro Borges/Alma Preta
