Extrema direita tenta censurar Flipei novamente – mas vamos resistir e o evento vai acontecer

Desde 2019 evento é atacado por bolsonaristas por causa da programação. Desta vez, prefeitura de São Paulo rompe contrato ilegalmente de última hora, derruba emendas aprovadas, apaga postagens e usa alegações hipócritas como justificativa

Por Marujos da Flipei, em Jacobina

Na noite desta sexta-feira (1º de agosto), às 20h, a Fundação Theatro Municipal (FTM) de São Paulo enviou um ofício comunicando o cancelamento da Festa Literária Pirata das Editoras Independentes (FLIPEI) 2025 na Praça das Artes (assim como apagaram publicações nas redes sociais e deletaram a programação do site oficial – mas nós temos os prints).

A decisão, tomada cinco dias antes do início do evento e à revelia da Direção da Sustenidos (entidade gestora do espaço), rompe um contrato assinado há 5 meses, que previa, no caso de rescisão, a necessidade de um aviso de 15 dias anteriores à data de início do evento em um acordo entre as partes feito de forma escrita. O comunicado do diretor da FTM, Abrão Mafra, foi feito de maneira a prejudicar e impedir uma tomada de providências em tempo hábil: a montagem do evento está prevista para segunda e terça-feira (4 e 5 de agosto) e a abertura, na quarta-feira (6). Vale destacar que a mesma FTM e sua direção brigaram, inclusive judicialmente, para premiar a ex-primeira dama Michelle Bolsonaro no Theatro.

Este ataque não é um episódio isolado. Desde 2019, setores da extrema direita tentam cancelar a FLIPEI, com episódios de repressão e cerceamento. Em 2023, parte da programação em Paraty foi impedida pela polícia – os argumentos eram diversos e iam de incômodo com a bandeira do MST a debates sobre segurança pública, polícia e etc. Agora, em 2025, vemos uma escalada de censura política e ideológica explícita novamente.

O ofício da FTM, enviado às vésperas do evento, deixa claro o incômodo com os temas abordados pela festa; nas palavras de Abrão Mafra, o “evento possui conteúdo e finalidade de cunho político-ideológico”. O atual lobby sionista acionado por diversas instituições contra a questão palestina também se estende aqui. Destacamos a mesa da FLIPEI que discute a questão palestina com a presença do historiador judeu Ilan Pappé, um dos mais renomados intelectuais do mundo sobre o tema e que vem sendo perseguido desde que chegou ao Brasil, e o militante Thiago Avilla, que estava na flotilha humanitária interceptada por Israel.

A repressão também vem acompanhada de manobras institucionais: a Prefeitura de São Paulo, por decisão do Prefeito e do Chefe da Casa Civil, derrubou três emendas parlamentares dos mandatos de Luana Alves, Nabil Bonduki e Silvia Ferraro, da Bancada Feminista, que garantiriam apoio estrutural à FLIPEI (geradores, palco, sonorização, iluminação, banheiros, segurança etc.). Uma delas, a do Nabil, já estava aprovada e liberada pela Secretaria de Turismo e pela Secretaria da Fazenda, e foi inexplicavelmente derrubada na última quinta-feira (30), sem qualquer explicação plausível – pegando de surpresa os secretários do governo municipal.

A FLIPEI nasceu em 2018 como um ato de resistência cultural e, em oito anos, se consolidou como um dos mais importantes encontros culturais e literários independentes do país, construído em diálogo com editoras, autores, movimentos sociais e trabalhadores da cultura. Contra o modelo elitizado dos grandes festivais, a FLIPEI aposta na democratização radical do livro: por isso, em 2025, pela primeira vez, a feira é 100% gratuita para o público e para as editoras participantes – um gesto raro e simbólico que vai na maré contrária aos grandes eventos literários. Além disso, a edição deste ano vem para garantir programação para as infâncias e juventudes e implementar diversas estratégias de acessibilidade para pessoas com deficiência, desde equipes de apoio para atendimento do público a audiodescrição e libras.

A edição 2025 seria a maior já realizada: 220 editoras inscritas e mais de 180 participantes, mais de 40 debates nacionais e internacionais, shows, bailes, atividades para crianças, programação centrada nas culturas indígena e afro-brasileira, lançamentos de livros e convidados de peso do Brasil e do mundo, entre eles Silvia Cusicanqui, Louisa Yousfi, Cynthia McLeod, Judith Sánchez Ruíz e Ilan Pappé.

O impacto econômico e social da FLIPEI 2025 é imenso: já contamos com mais de 100 trabalhadores e trabalhadoras da cultura contratados pela organização, somando cerca de R$ 300 mil em compromissos firmados; 180 editoras confirmadas, com R$ 100 mil investidos pela própria FLIPEI para estruturar a feira do livro; além de contratos com fornecedores que totalizam aproximadamente R$ 300 mil. Ao reunir artistas, técnicos, editoras, prestadores de serviço e fornecedores, a FLIPEI impacta diretamente mais de 500 trabalhadores – tornando evidente que este ataque não atinge apenas um evento, mas a vida e o sustento de centenas de pessoas que vivem da cultura e literatura.

A decisão arbitrária da Fundação ameaça não apenas a realização do evento, mas o sustento de centenas de profissionais e o direito de milhares de pessoas de acessar gratuitamente uma programação cultural de alto nível.

Vale lembrar que a escolha de realizar a FLIPEI na Praça das Artes foi simbólica: um espaço público, no coração de São Paulo, selecionado justamente para devolver à sociedade os recursos do ProAC-SP (governo estadual) e da Lei Aldir Blanc (governo federal), com uma programação aberta, democrática, gratuita e acessível.

A FLIPEI é uma festa pirata – não porque seja clandestina, mas porque recusa o naufrágio cultural imposto pelo conservadorismo neoliberal e pela elitização do mercado, e insiste em construir um espaço de diversidade, crítica e imaginação de outros futuros possíveis. Estamos movendo medidas judiciais e políticas para responsabilizar a FTM, sua direção, a Secretaria de Cultura e a Prefeitura de São Paulo por esse ato autoritário absurdo de censura. E garantimos: a FLIPEI 2025 VAI ACONTECER, nos mesmos dias, mesmos horários, em outros espaços da resistência de São Paulo (Galpão Elza Soares, Armazém do Campo e Sol y Sombra 13). Mais detalhes serão informados em breve.

Bolsonaristas atacam rojão em barco palco-livraria da Flipei em 2019 por serem contrários a programação do evento. (Reprodução Fotos Incríveis)

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