Pessoas negras e de baixa renda têm duas vezes mais chances de mortalidade por dengue

Victória Alvineiro, Cidacs, na AFN

Quem são as pessoas que têm mais chances de morrer pela dengue? Esta é a pergunta realizada por um estudo da Fiocruz, publicado na Plos Neglected Tropical Medicine. Embora já se saiba que as populações em contexto vulnerável convivam com riscos maiores de adoecer e morrer por dengue, este quadro pode se agravar quando a pessoa é negra e de baixa renda, conforme indica os achados inéditos da pesquisa que foca nas desigualdades sociais em saúde.

Ao se dar conta da falta de estudos com foco em como os fatores sociais, como raça e etnia, estavam ligados à morte após infecção por dengue, a pesquisadora Luciana Cardim resolveu investigar esta questão. Na visão dela, a razão do estudo foi entender a raça/etnia como algo que é parte de uma estrutura maior, que traz um impacto direto ao acesso à saúde e qualidade do cuidado em saúde, assim como à educação, emprego e moradia. “Esses são determinantes que, quando desiguais, podem atrasar o diagnóstico, dificultar o manejo adequado dos casos graves e, consequentemente, aumentar as chances de óbito após a infecção por dengue”, conta Cardim, líder do artigo e pesquisadora associada ao Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia).

Uma vez colocado o problema, foi hora de partir para a análise de mais de 3 milhões de casos de dengue mantidos na Coorte de 100 Milhões de Brasileiros do ano de 2007 até 2018. Com a atenção voltada em específica para populações de baixa renda no CadÚnico, houve o cruzamento desses dados socioeconômicos com os casos de dengue e com os registros de óbitos. Todo este levantamento permitiu também uma identificação de mortes por dengue que não foram registradas no Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), produzindo estimativas de letalidade ainda mais precisas.

Achados pesam sob a população negra

Os achados demonstram que os grupos marcados por vulnerabilidade social são os que concentram mais chances de óbito por dengue. O aumento da chance de morte foi maior entre homens, negros, residentes da região Nordeste, com baixa ou sem escolaridade, com 60 anos ou mais, aposentados ou pensionistas, além de famílias em condições de moradia desfavorável e infraestrutura precária. Em números, pessoas negras tem aproximadamente duas vezes mais chances de morrer nos primeiros 15 dias após o início dos sintomas de dengue, quando comparado a pessoas brancas.

“Na prática, os resultados indicam que a letalidade por dengue no Brasil está profundamente ligada às desigualdades sociais. Pessoas em situação de maior vulnerabilidade têm menos chance de acessar o cuidado adequado no tempo certo, o que aumenta a chance de morrer nos primeiros 15 dias após o início dos sintomas”, explica Cardim, ressaltando que muitos óbitos ocorrem por atraso na busca ou na oferta de assistência e falhas no manejo oportuno.

Desafio de mensurar o óbito por dengue

O estudo colocou em evidência a dificuldade de atestar o óbito por dengue, já que a qualidade do registro das causas de óbito pode não estar suficiente. Ao verificar os dados dos grupos em situação de vulnerabilidade, muitos contam com causas mal definidas ou tendo comorbidades como causa básica da morte na declaração de óbito.

“Embora certas condições de saúde provavelmente tenham sido agravadas pela infecção por dengue, levando à morte, não são elas a causa principal. Isso sugere que a morte por dengue pode estar sendo subestimada”, comenta Cardim. A pesquisadora faz a reflexão que há a necessidade de capacitar adequadamente os médicos para o preenchimento correto da Declaração de Óbito, garantido a qualidade do registro e o fortalecimento da vigilância epidemiológica.

Políticas de saúde em populações desiguais

As recomendações do estudo apontam a necessidade de políticas públicas para atuar tanto na prevenção da infecção pelo vírus do dengue, quanto na assistência à saúde das populações que convivem com a desigualdade. No lado da prevenção, são colocadas em pauta as ações de controle do mosquito Aedes aegypti, nas áreas mais vulneráveis. Ao falar da assistência, são defendidos esforços para ampliar e qualificar a equipe da Atenção Primária à Saúde, para reconhecer precocemente os sinais de gravidade da doença. Além de assegurar que o paciente receba, nos demais níveis de atenção à saúde, cuidado em tempo certo, já que a hidratação rápida é uma medida crucial no manejo da dengue grave.

Créditos: Genilton Vieira/Instituto Oswaldo Cruz

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